terça-feira, dezembro 29, 2015

ORAÇÃO FEITA PARA UM ESPELHO






Graças te dou, a Ti, que estás desse lado
porque não sou como os outros, A minha ganância
é comedida,  A minha  justiça é de pedra
Não sou adúltero, A não ser comigo mesmo
e com a minha beleza.  Jejuo
para fazer compreender ao pobre que a fome
nos disciplina o corpo, Dou o dízimo de tudo
dos meus dez dedos, um
é teu e serve para apontar o erro alheio, Dos outros
não há ninguém que não seja publicano.

29-12-2015

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segunda-feira, dezembro 21, 2015

Santo Natal com um poema para os Amigos


PARA ENCONTRAR A CRIANÇA ENVOLTA EM PANOS

Deus pôs no céu a mão a guiar uma estrela
No meio de lugar nenhum
Que é o espaço indecifrável da noite
A luz era o único lugar visível, não se via
A mão que a guiava, foi com surpresa
Que a viram estacionar os anos-luz
Sobre um discreto estábulo de Belém.

18-12-2015

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quarta-feira, dezembro 09, 2015

PARIS AT NIGHT, LONELY WOMAN WAITING






Os anjos têm esquinas onde encostam as asas e o silêncio
da sua solidão. São anjos que esperam
 quem possa levar o seu corpo, e o seu coração
sozinho é uma sombra dentro do peito.
Anjos que não recusam as suas asas, o sonho de um dia
que virá e serão alegres como o ser feliz, quem disse
que os anjos não têm esquinas na noite
com a escuridão iluminada.

09-12-2015
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(Arte: Fotografia de Adolfo Kaminsky, 1946)

segunda-feira, dezembro 07, 2015

NOCHEBUENA







Tenho de admitir que as minhas rótulas não suportam
senão penosamente as subidas, o peso da leveza do  meu corpo
nas duas pernas já não se debruça facilmente 
para apanhar o que os dedos não enlaçam,  nem sobe
já aos bancos para colocar cristais na árvore de natal. A última
estrela que pus, perdeu-se no buraco negro dos tectos
das casas que habitei,  mais uma
Noite de Natal com os netos por Continentes divididos.

05-12-2015

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segunda-feira, novembro 23, 2015

SALMO 137 DO SÉCULO PASSADO





Sentávamo-nos junto aos muros do gueto de Varsóvia
e chorávamos com uma estrela ao peito, nas sombras
dos casacos rotos, pensando
que éramos o povo escolhido. Deus
estava em Jerusalém e lá pendurámos nossas preces.
Os que nos tinham feiro prisioneiros pediam-nos
que cantássemos com a nossa boca
cheia de pão negro, aqueles que nos haviam de destruir
queriam a nossa alegria. Mas como era possível
que entoássemos outro cântico senão um kaddish
pelos mortos? O canto do Senhor em terra estranha.
Se tu, Senhor, te esqueceres de nós, seremos harpas
partidas e as nossas cinzas voarão pelos ares
como um silêncio.

10-10-2015

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domingo, outubro 11, 2015

SALMO CENTO E VINTE E SETE






É inútil levantar cedo, desviar
O curso desta morte lúcida
Que é o sono, inútil será contar estrelas
Até que amanheça, ir ao berço dos filhos
Ver se respiram, fazer mais filhos
Para serem frechas na aljava do valente

Se o Senhor não guardar o pão do bolor
O  pão ganho com desalento
Se não guardar da casa a trave-mestra
Nem vigiar nos olhos da sentinela
Tudo será vão como a areia
Que não resiste ao vento

12-09-2015
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segunda-feira, setembro 07, 2015

À ESPERA DOS OUTROS



“Toda a gente deveria ter um lugar para onde pudesse ir”
Ernest Hemingway


Não os esperávamos, os outros
chegam hoje, subiram com a madrugada.
Os sinos das igrejas os altifalantes das mesquitas
concebem apenas o silêncio.

Não estávamos à espera, mas chegam.
Colos de mães aflitas
perderam seus filhos nas praias
a memória guardada nas malas da noite.

Destinos dissolvem-se em comboios
esperança lenta, trazem os pés feridos
de muitas fronteiras, incapazes de erguer as mãos
aos altos muros de pedra. Chegam com o sangue

do coração escrito nos olhos, chegam
contra a apatia dos senados.


06-09-2015
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domingo, agosto 16, 2015

NA CASA DE MARTA E MARIA




Estava sentada à espera da revelação
Os séculos vindouros  de Grão Vasco e de Velázquez
Iriam vê-la em retábulos de igreja, naquele dia
Ficava sentada aos pés do Mestre
Na posição de quem se guarda do tumulto
Em que pairam outras vozes
Estava rés ao chão onde o silêncio circunscreve
O que é vital ouvir, letra por letra
A sua boca sequiosa repetia 
A água límpida que vinha nas palavras.

16-08-2015
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sábado, agosto 01, 2015

PRADO




Chegamos a este lugar, as pessoas
Que aqui estão há anos nas paredes
Ouviram conversas, olham os nossos espantos
Sorriem com a certeza do passado
Às dúvidas que carregamos, os olhos
Dos retratos fixam os rios interiores
Do nosso coração, nas sombras
Rembrandt vê-nos com desdém
De jovem artista.


31-7-2015
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segunda-feira, julho 27, 2015

GROUND ZERO




Nunca se sentiu tão próximo da Vida
e próximo da Morte
lá em baixo.

Nova Iorque, 24-7-2015
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domingo, julho 05, 2015

EURÍDICE



 “De pé nas lages da entrada do Hades
Orfeu curva-se a uma rajada de vento” 
Czeslaw Milosz


 foi o amor um perigo mortal, tanto como foi belo
Orfeu estar de novo defronte do rosto de Eurídice,
depois de vencer o vento, ninguém pode
nem os deuses podem contra o amor
pensava Orfeu.

ousou assim entrar na morte e trazer a amada
amaciando o coração do Hades,
com os cristais do portal da vida quase à mão.

mas como a morte tem os seus caminhos,
foi o desejo que fez Orfeu perder-se
a olhar para trás, e assim perder para sempre
o objecto do amor.   

23-06-2015
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sábado, junho 13, 2015

POEMA DO MEDO

“E não quis que me visses nu. Então escondi-me.”
Adão



Tive medo e regressei
para trás das árvores, das folhas
entrevi Teu rosto, não quis que me visses nu.
Então escondi os meus ouvidos,
onde a Tua voz não chegasse, ou chegasse
suavizada só pelo amor à natureza,
tive medo e quis regressar ao pó.

16-03-2015

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terça-feira, junho 09, 2015

Apenas o Salmo 8 escrito por um simples poeta de província



Não se pode averiguar o peso quântico da eternidade
Na oficina celeste, todos os anjos reunidos
Não sabem a mais leve partícula do nome Deus
Não há espaço no Céu para conter Deus
Todo o Céu fica aquém, só as Suas mãos
Que fazem e desfazem astros estão para lá de tudo
O que nos adormece em segurança quando olhamos
O Espaço, quem somos nós para limitar Deus ao quarto
Onde dobramos os joelhos e citamos várias vezes a nossa vontade
E contudo
Não sendo o Seu corpo que habita nos templos
Feitos pelas mãos dos homens
Só o Seu olhar  agrega-nos a todos como um alvo
Do Seu Amor no fio do horizonte.

09-06-2015
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sexta-feira, maio 29, 2015

NOTÍCIA DO CERCO DE BIZÂNCIO




Assim foi que, estando a cidade sitiada,
Mais do que os baluartes guarnecidos,
Era urgente distinguir o sexo
Dos anjos, a forma exuberante
Das suas asas, se o seu corpo
É o da mulher jovem com um busto fresco
Ou o do mancebo com músculos rectilíneos.
Assim foi
Quando era preciso que rezassem com os joelhos
Dobrados, os monges discutiam
Com a harpa do sexo escondida nas cabeças.

20-05-2015
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quinta-feira, maio 07, 2015

FELIS CATUS LUDENS



Põe o mesmo ardor para brincar
com o rato e com a folha de prata”

György Somlyó (Hungria, 1920-2006)



Em busca da felicidade da caça, o gato
Brinca com o papel de prata, o brilho
Apela nele instintos de beleza, como
Brinca com a mosca, é um ritual
De existência,  dar movimento a tudo
Mesmo com leves toques
O que está parado move-se.

Um frasco pode partir o perfume interior
Em mil asas pela casa, de cima da mesa
A maçã rola imprudente para o chão,
Um sofá muda de aspecto e mostra-se
Na sua nudez por dentro,
Os gatos repetem tudo,  podem repetir
Até sete vezes a vida.

07-05-2015

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sexta-feira, maio 01, 2015

A PROCURA DO AMADO NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS




A escuridão fecha os nossos olhos, a névoa
Às vezes humedece a tristeza das pupilas,
O nosso coração cansa-se
Embriagado do seu próprio vinho.
Subimos desertos encostados ao seu peito,
Para onde foi o nosso amado? Que rumo tomou,
Os lírios foram a sua fronteira? Ou as estrelas
Mais altas cobriram-se à sua passagem?


Que faremos sem o nosso amado, somos fiéis,
Nossas  mãos não tocaram outras mãos, os lábios
Nunca tiveram outro nome, nossos ouvidos
Outros canteiros de jardim senão as suas palavras,
Os nossos cabelos outro odor. Não abriremos
Mais romãs à tua espera. Vem!
Os companheiros estão atentos
Já limpamos as nuvens que empalidecem os telhados.

15-03-2015

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segunda-feira, abril 27, 2015

É TERRÍVEL SER O SENHOR



"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós"
Jo. 1,14


É terrível ser o Senhor e estar sentado à mesa
entre os homens, subir a crosta da terra
até ao cume onde já foram contados outros
malfeitores, andar entre leprosos com a carne
diáfana e pura de ser Deus, partilhar
de todas as manhãs como artesão do sol
É terrível ser o Senhor entre cegos
e andar eterno no limite temporal.



14-04-2015
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terça-feira, abril 14, 2015

BOTTICELLI





Nua, de pé, com o corpo de antigo Paraíso
Guarda com cinco dedos
Um  seio e a janela para vida, rosto
De menina que substitui o sol, o fogo
Nos cabelos, e os dois olhos suaves
Com um olhar que não foge para longe
Sereno, que o vento de Zéfiro não perturba
Vénus que emerge de uma flor do mar
Bordado pela espuma.

12-04-2014
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quinta-feira, abril 02, 2015

PILATOS DIRIGE-SE AOS JUDEUS - IV







Eis o homem
que chegou aqui pelo valor mais baixo
que às vezes tem o beijo, o da traição
Este que chegou a golpes de chicote pelo corpo
e pelas faces em silêncio que oferecia
às bofetadas. Este que chegou aqui 
pelo crime de ser Deus
com uma cruz difícil sobre as costas.

02-04-2015
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domingo, março 29, 2015

BEFORE THE FALL








“A rebeldia –e o fruto”
John Milton(“Paraíso Perdido”)


 O fruto desenhava-se no ramo, o princípio
da esfera, maçã ou outro pouco importa,
o volume era o da esfera, permanente
circulo da vida para a morte, o fruto
preso  à gravidade da ciência
do bem do mal da tristeza de saber.
O fruto desenhava-se no ar fresco da tarde
e na noite de prata
mais para os olhos famintos do que os lábios,
até ao coração da mulher escarlate.


29-03-2015

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sexta-feira, março 20, 2015

DOM QUIXOTE SEM REALIDADE




 “e não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens”
Carlos Drummond de Andrade


Vive, ainda, num lugar da Mancha, de cuja
Imortalidade só um nome resta, o Quixote
Só a lança e a espada são reais nas suas mãos            
Metal a balouçar no vento
E Rocinante
No qual cavalga toda a Espanha


Cinquenta anos, seco de carnes, rosto
Enxuto, olhar rijo contra moinhos
Vara de porcos e odres de vinho
Mulheres?  Só uma
Dulcinea,  que no coração do Quixote
O tropel acalma das vitórias.


20-03-2015

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quinta-feira, março 12, 2015

CALEB



“Há anos que escrevo o mesmo poema”
J. T. Parreira

Sou ainda o mesmo que fui outrora
ainda hoje os mesmos olhos
olham por dentro das mesmas pupilas
e procuram o mesmo infinito

há quarenta anos que sonho
o mesmo sonho
que este passeia pelo monte e lhe cria
um nome, Hebron,
e o soletra letra a letra,
como o nome de um amigo, com
o mesmo suspiro em silêncio

há quarenta anos que espero
então era soldado e lavava
a espada no sangue de gigantes
hoje lavo-a na chuva
que se acumula no vale

sou o mesmo rosto furtivo
à viragem do vento e recalcitrante
à passagem dos dias

há anos que escrevo o mesmo poema
que fala de promessas e de campos largos
e montes para conquistar
a mão do Senhor abrindo a minha
a pulso no papiro

os cabelos que hoje são brancos
já o eram então há quarenta anos:
embora mais longos

© Rui Miguel Duarte
6/03/2015

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

MONUMENTO COM UM NOME





 Caminhar por Auschwitz  é andar no espaço
 Conseguido pela morte.
 No meio de barracões esculpidos de quietude
 Enganadora, a neve, falsa, se estendia
 Como roupa suja no chão.
 Não havia escadas para subir, no inferno tudo
 Era devolvido em cinzas. Sentem-se hoje
 Olhares perdidos ainda no passado. Um gato
 Com a sua inesgotável infância
 Alheio aos reflexos da vida.

16-02-2015

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Foto: Kacper Pempel/Reuters

sábado, fevereiro 07, 2015

POESIA PARA TRATAR FERIDAS


1.
Passar a ferro

Na “ars poetica” inicial do seu livro recente de poemas, João de Mancelos(JM) confirma o pensamento de Adolfo Casais Monteiro sobre a poesia ser cosa mentale, sem raízes no inconsciente.  A Poesia pensa-se, é acto consciente.
  Diz JM que “poema a poema” passa a alma a ferro:
os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.
poema a poema, passo a alma a ferro.

Salvo melhor opinião, resolve problemas interiores, ontológicos mesmo,   através do poema que (se) escreve.

No presente livro, das Edições Colibri, Lisboa , 2014, JM  serve-nos um conjunto de 62 poemas límpidos, de uma claridade sem poeiras, mesmo aquelas que os raios solares podem salientar.

A simetria formal de cada poema, na primeira parte do seu livro, dispostos no papel graficamente sob a forma de tercetos, dão-nos essa medida da roupa, quero dizer do texto, desenrugado, bem engomado sem dobras nem vincos.

A forma aí é fundamental para dar uma estrutura a cada poema de texto ordenado, eximiamente ordenado, onde as palavras correm sem obstáculos
para usar a imagem do ferro de engomar.

Convém dizer, antes de escolher e salientar  três desses poemas da primeira parte do livro e outro da segunda, que em todo o caso estamos perante poemas de amor, de uma paixão contida, escritos de uma forma disruptiva quanto a esse amor.
Todavia, o autor não parece alimentar o amor, nem a paixão, nalguns casos – leia-se poemas- rasga-os mesmo.

Alguns exemplos breves:

vivíamos trocando beijos envenenados/ e discussões em círculos/(…)// só tive saudades do ódio, / de que tanto precisava/ para poder dormir em paz( do poema “há mais de quinze anos”)

“não me procures, amor, / nos  lugares do desencontro: / estações, aeroportos, hóteis” ( do poema “nowhere”)

“hóspedes um do outro, / o seu amor consistia / no ranger das molas de um colchão.” (do poema “havia um casal”)

“só escutara a palavra amo-te numa canção da rádio” (do pungente poema sobre um suicídio “limbo”)

Claro que também existem poemas de perfeito amor, aquele que se diz em metáforas e com reflexos tão rápidos que podem fugir-nos – se concordamos com Freud quando reduziu a criação artística a um “reflexo” de condições fisiológicas - , a verdade é que são instantes que quase nos escapam, os seguintes:

“às vezes, depois do amor, / quando feras dóceis rondam o nosso sono”, “às vezes, quando me encosto à nudez, exausto”, “às vezes, quando me inventas um nome” (do poema “depois do amor”). Mas, quiçá os dois melhores poemas de amor do livro sejam estes:

três da manhã

o que a noite traz à costa é inesperado:
o teu corpo tão perfeito quanto um búzio
na primeira praia.
(…)
amamo-nos até os nós do sono desatarem
e dentro de ti o oceano exausto
chamar o teu nome secreto.
_____________________________________

com as mãos manchadas de azul

regressarás a mim com as mãos manchadas de azul
e os pés sujos de tanto correr mundo,
ignorando que aqui só ardem ruínas sem mãe.
(…)
pedirás que te ame, riso a riso, numa cama de folhas,
mas o outono passou há muitos anos,
e tem a idade da noite quando chove.

2.
Três poemas para a história da Literatura em geral

Não é para admirar que um poeta doutorado em Literaturas Comparadas e Norte-Americana, escreva sobre poetas de outras latitudes literárias.

Um poema como “pedidos de empréstimos”, abre-nos um caminho de reflexão sobre o que Harold Bloom escreveu acerca da “angústia da influência” e dos poetas precursores. 


“toda a noite, as vozes de poetas mortos
Me emprestaram versos e canções,
Numa insónia ardida até de madrugada.
whitman e pessoa, os mais insistentes”


O próprio poema que dá título ao volume “a sombra do pó”  ( “as memórias entram com o vento/ sob a porta, escorrem pelas vidraças, / pingam avulsas no lago”), sobre o pó do tempo no sentido do passado e das suas recordações/memórias, não deixa de me lembrar o romancista John Fante, americano,  e o seu “Pergunta ao Pó”.

Sylvia Plath aparece num belíssimo terceto que é uma fotografia da malograda quanto bela autora de “Ariel”: 

“quando nem os médicos nem os loucos nem os santos
a escutavam,
ela negociava o silêncio com as aves mais azuis.”

Finalmente, um poema sobre Emily, a Dickinson. E neste as metáforas assumem papel estruturante para nos abrir caminho à poética da estranha poeta norte-americana de Amherst.
“Aranha laboriosa” que tece poemas “em fios de noite”, versos que foram “um intranquilo fogo”, que amou homens e mulheres “escondida entre as palavras.” Poeta da solidão, Emily, como poeta de uma certa solidão ordenada em poemas, a de João de Mancelos neste seu livro de poesia para tratamento de feridas.  

Aveiro, 05-02-2015
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quarta-feira, fevereiro 04, 2015

O TESTAMENTO DE REMBRANDT VAN RIJN


Arte: Rembrandt, A Ceia de Emaús



Deixou os discípulos de Emaús
no cavalete, encostados
outros quadros ao silêncio, a aparição
de Cristo no horto, a lembrança e os traços da morte
nos seus claros-escuros, deixou algumas roupas de linho
ou lã e as cerdas dos pincéis, as suas coisas
da pintura, no seu nome as águas do Reno  
Poucas coisas
ainda assim maiores do que a miséria.

O4-O2-2015

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quinta-feira, janeiro 22, 2015

UMA BUCÓLICA MODERNA NOS ANOS 50


Arte: Uma Aldeia (Piodão)



Na pura fealdade dos campos que ficavam
por detrás dos prédios, ali
um circo trazia do ar a tenda enorme e os leões
suspiravam por África? ou nesse tempo talvez
os tigres por Emilio Salgari, eu
vivia uma história de infância sem grandezas


Logo que o circo levantasse a tenda, as janelas
do meu quarto ficavam no escuro
E agora aqui estou, um
Género de Prometeu em luta contra a águia
das memórias, com outro centro de beleza
para onde dirigir os olhos, os poemas


alguns estão no meu coração, dentro
do bolso num caderno, esperam desde a
madrugada, outros passeiam na rua
no ar azul, ou em casa nos livros de alguns
amigos,  até na fealdade dos campos,  ali
por detrás dos prédios, onde nada acontece.

21-01-2015
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segunda-feira, janeiro 05, 2015

ALMOÇO CAMPESTRE


(Edouard Manet, "Almoço na Relva", Louvre, 1863)


Tal como Manet os fez, um mundo perfeito
sentados sobre a relva, numa relação directa com
o solo, um pouco menos mortais
do que a flor que mal nasce morre
sob a sombra das árvores, pousados como pássaros
distribuídos do alto cume azul, enchem os olhos
da fragrância de um corpo nu, eles
contudo indiferentes, conversam como dois
discretos cavalheiros que esperam o crepúsculo
cair como o fresco véu da tarde.

01-01-2015
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