Mostrar mensagens com a etiqueta Inédito. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Inédito. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, janeiro 05, 2018

EM TODO O LADO HÁ DEUSES




Li que Paulo ao chegar aos gregos teve um espanto
E irritou-se com o encontro de um deus em todo o lado
Um deus sem nome a quem chamar
Um deus desconhecido, não sabemos
Que tarefas empreendeu, ou que palavras disse
De veludo ou afiadas como facas
Um deus que nem sabe que há humanos
Li algures que Paulo ao chegar aos gregos
Via-os tactear entre esses deuses
Que havia muito tempo ninguém via
Como o rio Ilisos
Sem nomes a não ser de mistério e de silêncio.

05/01/2018

©  

sábado, julho 08, 2017

POEMA DA RECÉM VIUVEZ

(Marc Chagall)



O que farei depois de partires, ninguém
Sabe, apenas nós por uma telepatia
De mãos, de olhares, de beijos, de risos
De caminhar
Sobre as mesmas pedras, ninguém saberá
É um segredo que o sangue guarda
Como aquele que Deus retém nos lírios do campo
Que os veste gloriosamente como nem um arco-íris
Ou nas aves que distinguindo o trigo e o joio
Ainda assim encontram o seu festim.
Outra coisa não farei depois de partires
Senão olhar todos os levantes
Na esperança da aurora.

08/07/2017

©

sábado, maio 28, 2016

A ORELHA





“Ponho-me no lugar 
Do silêncio da orelha de Van Gogh”

J.T. Parreira




o que uma orelha contém
é retirado quando uma lâmina
a corta: o trinado das aves, o murmúrio
de amor entre os ramos e o vento
o bater do mar contra os pés
o cicio do universo por dentro
certo crepúsculo também uma espada
excluiu a orelha de Malco
foi o poente sobre o que importava
ouvir, não cortes
disse Jesus, que se cortas uma orelha
te cortarão o tronco e a cabeça
abre-a bem, a orelha,
ela resgatar-te-á do nada
para o silêncio
de um mundo de palavras que ainda
não foram ditas



Rui Miguel Duarte
28-05-2016

sábado, fevereiro 07, 2015

POESIA PARA TRATAR FERIDAS


1.
Passar a ferro

Na “ars poetica” inicial do seu livro recente de poemas, João de Mancelos(JM) confirma o pensamento de Adolfo Casais Monteiro sobre a poesia ser cosa mentale, sem raízes no inconsciente.  A Poesia pensa-se, é acto consciente.
  Diz JM que “poema a poema” passa a alma a ferro:
os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.
poema a poema, passo a alma a ferro.

Salvo melhor opinião, resolve problemas interiores, ontológicos mesmo,   através do poema que (se) escreve.

No presente livro, das Edições Colibri, Lisboa , 2014, JM  serve-nos um conjunto de 62 poemas límpidos, de uma claridade sem poeiras, mesmo aquelas que os raios solares podem salientar.

A simetria formal de cada poema, na primeira parte do seu livro, dispostos no papel graficamente sob a forma de tercetos, dão-nos essa medida da roupa, quero dizer do texto, desenrugado, bem engomado sem dobras nem vincos.

A forma aí é fundamental para dar uma estrutura a cada poema de texto ordenado, eximiamente ordenado, onde as palavras correm sem obstáculos
para usar a imagem do ferro de engomar.

Convém dizer, antes de escolher e salientar  três desses poemas da primeira parte do livro e outro da segunda, que em todo o caso estamos perante poemas de amor, de uma paixão contida, escritos de uma forma disruptiva quanto a esse amor.
Todavia, o autor não parece alimentar o amor, nem a paixão, nalguns casos – leia-se poemas- rasga-os mesmo.

Alguns exemplos breves:

vivíamos trocando beijos envenenados/ e discussões em círculos/(…)// só tive saudades do ódio, / de que tanto precisava/ para poder dormir em paz( do poema “há mais de quinze anos”)

“não me procures, amor, / nos  lugares do desencontro: / estações, aeroportos, hóteis” ( do poema “nowhere”)

“hóspedes um do outro, / o seu amor consistia / no ranger das molas de um colchão.” (do poema “havia um casal”)

“só escutara a palavra amo-te numa canção da rádio” (do pungente poema sobre um suicídio “limbo”)

Claro que também existem poemas de perfeito amor, aquele que se diz em metáforas e com reflexos tão rápidos que podem fugir-nos – se concordamos com Freud quando reduziu a criação artística a um “reflexo” de condições fisiológicas - , a verdade é que são instantes que quase nos escapam, os seguintes:

“às vezes, depois do amor, / quando feras dóceis rondam o nosso sono”, “às vezes, quando me encosto à nudez, exausto”, “às vezes, quando me inventas um nome” (do poema “depois do amor”). Mas, quiçá os dois melhores poemas de amor do livro sejam estes:

três da manhã

o que a noite traz à costa é inesperado:
o teu corpo tão perfeito quanto um búzio
na primeira praia.
(…)
amamo-nos até os nós do sono desatarem
e dentro de ti o oceano exausto
chamar o teu nome secreto.
_____________________________________

com as mãos manchadas de azul

regressarás a mim com as mãos manchadas de azul
e os pés sujos de tanto correr mundo,
ignorando que aqui só ardem ruínas sem mãe.
(…)
pedirás que te ame, riso a riso, numa cama de folhas,
mas o outono passou há muitos anos,
e tem a idade da noite quando chove.

2.
Três poemas para a história da Literatura em geral

Não é para admirar que um poeta doutorado em Literaturas Comparadas e Norte-Americana, escreva sobre poetas de outras latitudes literárias.

Um poema como “pedidos de empréstimos”, abre-nos um caminho de reflexão sobre o que Harold Bloom escreveu acerca da “angústia da influência” e dos poetas precursores. 


“toda a noite, as vozes de poetas mortos
Me emprestaram versos e canções,
Numa insónia ardida até de madrugada.
whitman e pessoa, os mais insistentes”


O próprio poema que dá título ao volume “a sombra do pó”  ( “as memórias entram com o vento/ sob a porta, escorrem pelas vidraças, / pingam avulsas no lago”), sobre o pó do tempo no sentido do passado e das suas recordações/memórias, não deixa de me lembrar o romancista John Fante, americano,  e o seu “Pergunta ao Pó”.

Sylvia Plath aparece num belíssimo terceto que é uma fotografia da malograda quanto bela autora de “Ariel”: 

“quando nem os médicos nem os loucos nem os santos
a escutavam,
ela negociava o silêncio com as aves mais azuis.”

Finalmente, um poema sobre Emily, a Dickinson. E neste as metáforas assumem papel estruturante para nos abrir caminho à poética da estranha poeta norte-americana de Amherst.
“Aranha laboriosa” que tece poemas “em fios de noite”, versos que foram “um intranquilo fogo”, que amou homens e mulheres “escondida entre as palavras.” Poeta da solidão, Emily, como poeta de uma certa solidão ordenada em poemas, a de João de Mancelos neste seu livro de poesia para tratamento de feridas.  

Aveiro, 05-02-2015
© 

segunda-feira, dezembro 15, 2014

O CALVÁRIO






Morreu esta tarde, por três dias,
às três num monte à beira da cidade.
Inclinou o seu espírito às últimas palavras
que seus lábios entregaram aos ouvidos
dos homens e de Deus, da mãe
não chegariam as mãos para o tirar da cruz.
Do lençol de linho de José de Arimateia
-só é certo que lhe deu o sepulcro- não se sabe,
qualquer teologia que diga que ao morrer
às três da tarde, por três dias, tinha nos lábios
um sorriso, sabemos pelas feridas da morte
que não é verdade, ninguém
morre pelo ódio do seu povo e sorri.
Morreu com o tempo marcado, o relógio
do sol marcaria na porta do sepulcro
a manhã de sábado,  depois outra manhã viria
limpar da noite as sombras, para que o branco
Corpo intocável mais brilhasse.

14-12-2014
©



domingo, setembro 21, 2014

UMA PALAVRA

    Estamos desprevenidos e uma palavra 
    Que parece não fazer falta, força o tumulto
    Na corrente profunda da alma, paira
    Acima do tempo, uma palavra simples
    Que começa nas franjas do sangue, Mãe
    Como Hoffmann perdido sem reflexo no espelho
    Olho-me e estou órfão
    Agora que a morte cortou o cordão umbilical.


    20-09-2014
    ©

sábado, maio 10, 2014

[A mulher carrega livros instáveis para vender]


A woman carries books for sale in Luanda, Angola. © Rafael Marchante.


A mulher carrega livros instáveis para vender
em Luanda, sem tempo
para a sua sombra

Como o coração aguenta uma torre de utopias
inclinada à cabeça, uma Pisa
uma  Babel,  uma vaga de letras cortando o vento!

Competem pássaros e folhas a dançar
equilíbrios instáveis na manhã

Que livros carrega e não lê, como se fossem fortuna
para mudar em silêncio a vozearia da rua.

10-05-2014
 ©  

quinta-feira, agosto 15, 2013

A Transfiguração




Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde

Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,

a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,

o vento cantava no cume da montanha,
 
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza
da morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.

9/8/2013
©

domingo, maio 12, 2013

AQUILA





Alheia às ruínas da terra
para ela não há abismos, das alturas
há maravilhas, escuta as canções dos abetos
e dos pinheiros, dos píncaros das florestas
que o sopro do silêncio espalha
baila como se estivesse nua
e alimenta o vento com as densas penas
mesmo no céu os dias sombrios queimam
alguns, poucos, olham-na como um ponto
de referência que se move e sabem
que aos olhos não é legítimo retê-la
o seu bico é uma bússola para todos os sentidos
da rosa dos ventos.

12/5/2013
©

sexta-feira, maio 03, 2013

Formulação para os Guarda-Chuvas de Renoir



Eles são pássaros abertos e derramam
Asas azuis, metalicamente
Octogonais, eles sobrevoam ombros
No fluxo do rio da multidão
Mas
Se o azul acender o sol, os guarda-chuvas
Pássaros fechados
Se dissipam.

3/5/2013

©


segunda-feira, abril 01, 2013

ANNE SEXTON TUDO EM MIM É UM PÁSSARO




 

Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.


(Anne Sexton, poeta americana, 1928-1974, morte por suicídio)
 


A sua vida começa pelo fim
não é fácil
livrarmo-nos da morte, os fumos
do escape a cegarem seus olhos
com as lágrimas
Escrevia cartas de censura a Sylvia Plath
porque lhe roubara a morte, arrastando-se
primeiro ao seu regaço
a morte que estava pegada à sua pele
que respirava, escondida, dentro dela
da beleza dos seios, bebendo-a
como o leite da aurora.


1/4/2013

©

sexta-feira, março 29, 2013

ANTIQUALHAS


Do algodão das arcas para outro silêncio
o do olhar conspícuo
saem móveis retro
que já tiveram a flor da idade

azulejos árabes, livros onde o raro
é terem resistido aos bibliófagos, alguns
vidros coloridos de Murano

bustos romanos sem nariz, uma orelha
a menos numa esfínge, um braço a menos
numa réplica de Vénus
porcelanas de reis que tinem e cristais
que mãos delicadas festejaram.

28/3/2013
©

segunda-feira, janeiro 21, 2013

TEMPORAL


Há temporal lá fora, pior
é a ventania cá dentro, a atirar o coração
contra as paredes,

as árvores,
lá fora
são balés russos,

até a verticalidade dos candeeiros
públicos, são um pêndulo.
A pressa dos transeuntes é o vento.

19/1/2013

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Poema de Ezra Pound : SOIREE



(Ezra Pound's head, Gaudier-Brzeska)




Ao saber que a mãe escrevia versos,
E que o pai escrevia versos,
E que o filho mais novo estava numa editora,
E que o amigo da segunda filha estava
a iniciar uma novela,
O jovem expatriado Americano
Exclamou:
“Ó que ramo danado de inteligências!”

© nossa versão

sexta-feira, setembro 28, 2012

Vi a tua sombra na calçada

(Foto do poeta tirada num jardim em Vila Viçosa)


Vi a tua sombra na calçada e era um rio

com o teu preciso recorte

pressenti a respiração ofegante que queria ouvir

mas apenas a brisa me beijou o pescoço

como que a pedir desculpa

talvez fosse apenas uma árvore

no seu jogo da tarde com os pássaros

ou uma nuvem debruçada no céu

a fazer das suas.

27/9/12

Poema inédito de Brissos Lino

sexta-feira, setembro 14, 2012

Do que quer falar o poeta



Por vezes da alegria. Num dia triste
que começa a quebrar-se
com as vozes aos pulos, contentes
das crianças. Tantas vezes
do mar, não exactamente do mar que se vê
mas daquele que banha de lume turquesa
as ilhas mais distantes
Outras vezes da morte, não explícita
mas dos cristais que se partem nos olhos
de quem morre
Quase sempre a encher-se de silêncio
para encontrar uma palavra, aquela
mesma, pequenina, amedrontada
caída da árvore
no meio de palavras enormes.

13/9/2012