quinta-feira, setembro 30, 2010

Nos cantos onde o poeta escreve

Poetas Brissos Lino e JTP, e o Maestro Pedro Duarte.
Poema a quatro mãos:

Nos cantos onde o poeta sofre
caminheiro de estranhos mundos
prenhes de perfumadas vibrações
sente-se a ressonância dessa ternura
doce e leda
nos cantos onde se escondem silenciosos
olhos infantis que esperam
a construção das horas
por aí se observam inesperados
interstícios do coração
e se acoberta a fantasia breve
dos homens livres
quando o vale de ossos secos
de papel
uma simples folha branca se agita e revolve
como súbito canavial
por entre sombras impolutas
e gritos de dar à luz
então o poema nasce
formoso
e não seguro.

22/9/10
(Brissos Lino)

No recanto sob a palidez da luz
em que as palavras no papel navegam
os cantos do poeta
são o mundo, numa folha
há conversas
que são frutos dos lábios, mas vêm
de raízes profundas e longínquas
os olhos do poeta, pacientes
retinas vão abrindo, vê-se
nos seus olhos, nos cantos
é onde não parece
mas o poeta é livre, enquanto
escreve é como a flor silenciosa
os cantos do poeta, salvam-no
do olvido.
As paredes não prendem o olhar
aos cantos do poeta, voa
quando menos se espera o poeta
não está lá.

23/9/2010

terça-feira, setembro 28, 2010

Dança

Nunca conseguiremos ser perfeitos
uma ave
como um desenho de vento
um corpo a saltar
de estrela em estrela, um pas de deux
onde roda o universo, duas pernas
como ponteiros de um relógio
nunca conseguiremos o ângulo raso
da beleza.

24/9/2010

domingo, setembro 26, 2010

Esquecimento, Hart Crane

Esquecimento é como a canção
Que, livre de ritmo e medida, flutua
Esquecimento é como a ave cujas asas se encontram,
Distendidas e imóveis, --
Uma ave que rodeia o vento infatigável.
Esquecimento é chuva nocturna
Ou uma velha casa na floresta, -- ou uma criança.
Esquecimento é branco, -- pálido como a árvore desolada
E pode enganar as profecias da Sibila
Ou sepultar os deuses.
Eu posso lembrar muito esquecimento.

(Trad. de J.T.Parreira)

segunda-feira, setembro 20, 2010

Com o poder da mímica

Com o poder da mímica
inventarei um outro
que do lado de fora da prisão
dos dedos
encherá a minha solidão
O seu silêncio alegre
em círculos
caminhando, será o vento
que veste as minhas mãos
será um cavalo ou uma estrela
uma mulher num rio
será um outro
que corre de mim
e cresce, move e reina
num sorriso de menino.

16/9/2010

sábado, setembro 11, 2010

Poemas sobre as Crianças do Holocausto

POEMAS SOBRE FOTOS DAS CRIANÇAS DO HOLOCAUSTO,
para ler AQUI



A Marcha

A morte não deveria ser obrigatória
em marcha
nestes pequenos pés
Uma fila de olhos sem regresso
pequenas dimensões
onde só deveria estar a alegria
vão
sem reparar que é enganosa
a sua infância tranquila.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Tu sabes? (pergunta sobre o holocausto das crianças)

Poema inédito de Clélia Inácio Mendes

Tu sabes onde foram as crianças, Sabes onde estão?
Sabes porque se ouvem notas musicais de flautas
E ninguém dança…
Sabes porque há ainda marcas de anjos
No chão frio da tarde e delas nem traço?
Sabes das crianças, João aquelas crianças que espreitavam
Pelo arame pingado de sal de olhos
Debaixo do céu sem cor e trapos de silêncio
Por onde foram?
Senta-te um pouco na soleira da alma com a poesia na mão nua e a tinta
Do sangue nos caminhos por onde elas não passarão.
Aquelas por quem pergunto e não vejo, nem a sombra, nem o riso partido
Do espelho a que falta pedaços.
Eu fico também aqui sentada nesta pedra suja e gasta
Espreitando agora pelo arame pingado de sal, com os dedos crispados
E a boca despida de gritos.

quarta-feira, setembro 08, 2010

O Poder cai de podre, poesia gráfica e visual




O poder cai sempre de podre
natureza
inversão
metamorfose
pod er
pod re
o pod er pod re
não pode.


28/8/10


(Brissos Lino)

quinta-feira, setembro 02, 2010

Receita para fazer uma rosa

Uma abelha ou duas(...)
E a sépala, a pétala, e um espinho (...)
Eu tenho uma Rosa!


Emily Dickinson


Como se faz uma rosa, a rosa
imensa, com pequenos pólenes
salpicando o ar
A serenidade da pétala
com outra pétala, o amor
do estame vertendo
Dois saltos de abelha entre dois lábios
E toda a seda
que vem ao colo do vento.

18/7/2010