segunda-feira, julho 18, 2016

O AMOR



para uma jovem que morreu velha, Amy Winehouse,


Amor é a mão perdida dentro
De um coração, que procura alcançar
A mais dolorosa profundidade, Amor
É um jogo que se perde
Na dependência do outro, perde-se
Em nós entre a alma e os olhos, Amor
Pode ser alguém desaparecer dentro
 De alguém, ao dançar sozinho um tango.

16-7-2016

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sábado, junho 18, 2016

[ Anjos perdidos nas ruas das grandes cidades ]


 Anjos perdidos nas ruas das grandes cidades
Eles caminham para o fundo
Desembarcados dos barcos da fome
Com seus rostos, seus pés rôtos, suas histórias
De uma cor apenas, seus braços
Enrugados com  veias expostas
À tempestade, suas unhas sujas
De procurar comida e alguns
Problemas nas ruas das grandes cidades
As frases que mais conhecem
Em qualquer língua, têm sempre um não.



13-03-2015
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quinta-feira, junho 09, 2016

SAIDA PARA A REALIDADE



para Xisto Rodriguez ("Sugar Man")


Perdi o meu emprego um mês depois do Natal
Ainda não se apagara o perfume
Do nascimento do meu segundo filho e de Jesus
Nem a chuva que bebera no caminho
Para casa como se fosse champanhe
Com poucas pessoas a quem telefonar
A chuva enxugava as minhas lágrimas.


09-06-2016

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sábado, maio 28, 2016

A ORELHA





“Ponho-me no lugar 
Do silêncio da orelha de Van Gogh”

J.T. Parreira




o que uma orelha contém
é retirado quando uma lâmina
a corta: o trinado das aves, o murmúrio
de amor entre os ramos e o vento
o bater do mar contra os pés
o cicio do universo por dentro
certo crepúsculo também uma espada
excluiu a orelha de Malco
foi o poente sobre o que importava
ouvir, não cortes
disse Jesus, que se cortas uma orelha
te cortarão o tronco e a cabeça
abre-a bem, a orelha,
ela resgatar-te-á do nada
para o silêncio
de um mundo de palavras que ainda
não foram ditas



Rui Miguel Duarte
28-05-2016

domingo, maio 22, 2016

CERTO HOMEM TINHA DOIS FILHOS - POESIA








http://poesiaevanglica.blogspot.pt/2016/05/certo-homem-tinha-dois-filhos-novo-e.html


     Das diversas parábolas relatadas por Jesus, talvez nenhuma outra tenha tido tanta repercussão, e consequentemente sido alvo de mais representações artísticas quanto a Parábola do Filho Pródigo (Lc 15:11-32). E, em apoio à sua singularidade, note-se que, ao contrário de outras parábolas, esta aparece apenas no livro de Lucas. Sua mensagem, por ser perfeitamente evangélica, é de simples, universal compreensão; seu impacto é duradouro. Talvez porque diante de um Deus santo de quem nos afastamos e fomos afastados pelo pecado, sejamos todos pródigos a priori (e tantas e tantas vezes, a rematar nossa rebelião, a posteriori).
       É essa figura arquetípica do pródigo que é o Homem, inserida nesta parábola também arquetípica sobre o incomensurável e incondicional amor do Deus-Pai, que JTP elege para objeto de sua reflexão poética.
       Este pequeno e-book colige textos escritos em períodos diversos, mas que em comum trazem a marca da economia e extrema expressividade, tão características da poesia do autor.

Sammis Reachers 

terça-feira, maio 10, 2016

FILHO (CHILD) - Poema de Sylvia Plath



Sylvia Plath  (Estados Unidos, 1932-1963)


O teu olho claro é uma coisa absolutamente bela.
Eu quero enche-lo com patos e cores,
Um zoo de novidades

Em cujos nomes reflectes ---
Campânulas de Abril, flores de cacto,
Pequenas

Hastes sem rugas,
Charco em que as imagens
Sejam grandes e clássicas

Não este turbulento
Retorcer  das mãos, este escuro
Tecto sem uma estrela.


© Versão de J.T.Parreira