segunda-feira, março 20, 2017

BATESEBA

(Francesco Hayez)


Vestida de água, lavavam-lhe o corpo
Com dedos cautelosos, deixou de lado
Um vestido azul, estampado com ouro
De flores amarelas
Bateseba lavava no corpo os recantos
Mais puros de ser mulher, alheia aos dardos
De um lampejo nos olhos de David
Uma pomba
Espreguiçava a sombra e o ócio
Num ramo de acácia.

20-03-2017

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terça-feira, fevereiro 21, 2017

Antigo Cemitério Judeu de Praga


A quantidade de mortos é incerta, camadas

De tumbas sob novos túmulos. Lápides
Cuja eternidade é a pedra nos nomes
E as estrelas de David, o sol
Custa a penetrar para banhar o Não-Ser
Lápides lembram a Arca de Moisés
Mortos com séculos de morte às costas
Reclamam seu espaço sob o silêncio
As próprias árvores se ressentem da vida
As raízes atrapalham a ressurreição.

20-02-2017


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sexta-feira, dezembro 23, 2016

AS VINHAS DA IRA







Esperamos que os nossos anjos
Que o Senhor diz que acampam ao nosso redor
Nos levem de volta a casa, as nossas mãos
Lavradas com o ácido das laranjas
E os nossos olhos
Tão gastos dos cachos de uvas
O nosso coração tão rasteiro nesta estrada de pó
Esperamos que os anjos nos levem a casa
Agora que o fumo do sonhos passou.

19-12-2016

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segunda-feira, dezembro 05, 2016

A PINTURA COMO SOCIOLOGIA


A PINTURA COMO SOCIOLOGIA




As viciosas meninas de Avignon, os olhos
Desmesuradamente ovais, indiferentes
à figura nua em véu subtil,  provocam
as meninas de Velásquez, estas            
são observadas mais do que observam, estão
como melancólicas e belas
naturezas-mortas.


(Reescrito em 05-12-2016)

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segunda-feira, novembro 21, 2016

A DESPEDIDA


(Fotografia da Web)


Chegaram à estação, ainda a tempo
De nenhum ruído sobre os carris.
Beijaram-se e o beijo pôs os lábios
Sobre os lábios, e assim o que beijaram?
A carne, o sorriso, a vida
Na respiração ou o silêncio
E a ausência futuros? A única lembrança
Que teriam era o dom do corpo
Que abraçavam e não alma pura.


20-11-2016
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terça-feira, novembro 01, 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO

Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola


O grande pranto triste do fundo dos úteros

Que ficaram órfãos


Ouve-se um choro em Alepo

É Raquel a despedir-se 
De si mesma.

01-11-2016

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