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domingo, agosto 19, 2018

RETRATO DO GRANDE AMOR JEANNE HÉBUTERNE, 1917





Nas mãos de Modigliani

Todas as suas mulheres ascendiam às alturas

Aos seus olhos, para que todas tivessem

Um pescoço tão fino, um pescoço que chegava

Ao céu, as mulheres de Modigliani

Seriam Nefertitis, cresciam

Num instante entre os seios e a cabeça

Todas expostas

Com o olhar azul voltado para dentro de si próprias.


19/08/2018

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quarta-feira, maio 23, 2018

O ALMOÇO DO TROLHA, 1947, JÚLIO POMAR (1926-2018)





O trolha ao regressar a casa leva as paredes

Da casa que está a erguer, nos olhos

Restos de cimento que secam as lágrimas

Regressa a casa numa rua que um rio refresca

Um quarto e um fogão de lume brando

Uma cama onde recolhe as mãos gastas

Com as linhas da vida gastas das arestas

Dos tijolos. Entre o colo da mulher

Um filho nos seus olhos, o trolha come

A parca sopa do descanso, o pão

Misturado no sangue do seu vinho.


22/05/2018
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sábado, abril 07, 2018

NA IDADE DE PAUL GAUGUIN




Não fossem os setenta e um anos e seria a altura
De fugir para os mares do Sul com a rapariga
Com a pele e os olhos de Taiti, ir colher pássaros
Nas redes dos ramos, entre os arcos das cores
De  flores raras, passar pela frescura
Das mãos molhadas o rosto cada manhã
Subir aos coqueiros, que são parte do silêncio
Verde das praias, e aos recifes como
Vulcões do principiar do mundo
Navegar de canoa e ver a sombra do rosto
No fundo esmeralda das águas transparentes
Mas não. Depois dos setenta anos, todos
Os anos são difíceis e dolorosos
Como disse um salmista.

07/04/2018
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domingo, março 25, 2018

DUAS CRIANÇAS NA ESTRADA DE CHARTRES





Olhando esta pintura não penso em Soutine

Penso nas crianças como um epítome

Da ternura de mãos dadas, a menina com o verão

Estampado no vestido, nos olhos

Do menino o campo fértil, olhando esta pintura

Quem são estas crianças? Estão perdidas?

Regressam a casa

Ao fim de o mundo inteiro?



22/03/2018
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segunda-feira, dezembro 05, 2016

A PINTURA COMO SOCIOLOGIA


A PINTURA COMO SOCIOLOGIA




As viciosas meninas de Avignon, os olhos
Desmesuradamente ovais, indiferentes
à figura nua em véu subtil,  provocam
as meninas de Velásquez, estas            
são observadas mais do que observam, estão
como melancólicas e belas
naturezas-mortas.


(Reescrito em 05-12-2016)

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sábado, agosto 01, 2015

PRADO




Chegamos a este lugar, as pessoas
Que aqui estão há anos nas paredes
Ouviram conversas, olham os nossos espantos
Sorriem com a certeza do passado
Às dúvidas que carregamos, os olhos
Dos retratos fixam os rios interiores
Do nosso coração, nas sombras
Rembrandt vê-nos com desdém
De jovem artista.


31-7-2015
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terça-feira, abril 14, 2015

BOTTICELLI





Nua, de pé, com o corpo de antigo Paraíso
Guarda com cinco dedos
Um  seio e a janela para vida, rosto
De menina que substitui o sol, o fogo
Nos cabelos, e os dois olhos suaves
Com um olhar que não foge para longe
Sereno, que o vento de Zéfiro não perturba
Vénus que emerge de uma flor do mar
Bordado pela espuma.

12-04-2014
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quarta-feira, fevereiro 04, 2015

O TESTAMENTO DE REMBRANDT VAN RIJN


Arte: Rembrandt, A Ceia de Emaús



Deixou os discípulos de Emaús
no cavalete, encostados
outros quadros ao silêncio, a aparição
de Cristo no horto, a lembrança e os traços da morte
nos seus claros-escuros, deixou algumas roupas de linho
ou lã e as cerdas dos pincéis, as suas coisas
da pintura, no seu nome as águas do Reno  
Poucas coisas
ainda assim maiores do que a miséria.

O4-O2-2015

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segunda-feira, janeiro 05, 2015

ALMOÇO CAMPESTRE


(Edouard Manet, "Almoço na Relva", Louvre, 1863)


Tal como Manet os fez, um mundo perfeito
sentados sobre a relva, numa relação directa com
o solo, um pouco menos mortais
do que a flor que mal nasce morre
sob a sombra das árvores, pousados como pássaros
distribuídos do alto cume azul, enchem os olhos
da fragrância de um corpo nu, eles
contudo indiferentes, conversam como dois
discretos cavalheiros que esperam o crepúsculo
cair como o fresco véu da tarde.

01-01-2015
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quarta-feira, junho 25, 2014

RETROSPECTIVA



para o José Monteiro (1956-2014)

Não, era a vida à tua maneira
à tua maneira que as cores saíam          
da hibernação
dos tubos, de dentro dos teus olhos
as voltas que as tintas davam, uma volta
ao mundo, nem Lewis Carrol descreveu
túneis  para o País das Maravilhas
tão cúmplices das tuas fantasias, algumas
geométricas engoliam-nos
e ficávamos a respirar com o silêncio muito aberto.

25-06-2014

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sexta-feira, junho 20, 2014

A Coroa


(Annibale Carracci, óleo s/tela, 1585)



Repouso a minha cabeça para a coroa
de espinhos, ostentarei
o silêncio da flor envergonhada
com flechas no lugar das pétalas

Poderia no fim da vida
ter uma coroa que me amaciasse
a cabeça, mesmo que o reino fosse pesado
uma coroa limpa

Mas não, eu não poderia suportar uma coroa
que esmagasse em mim o meu amor
escarlate pelo mundo
para ter um reino na terra, se assim fosse
teríeis outras razões para a minha morte. 

20-06-2014

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domingo, abril 13, 2014

GAUGUIN CHEGA À POLINÉSIA




Olhos postos nas mulheres
às cores
tu virás do mar
pacífico nos teus olhos o desejo

verás o ritmo das folhas dos coqueiros
 que remam contra o vento
a água abundante
que refresca o sol nos corpos

à noite
tu virás para ver perto do chão
verdes, escuras e tangíveis
as únicas estrelas.


13-04-2014

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sábado, março 22, 2014

RENOIR


Não há nas naturezas-mortas de Renoir
um fruto falso, nos nossos olhos escondido
cresce o desejo de morder

pêssegos, maçãs e a exuberância do pão
mesmo assim entre migalhas
no Cabaret de la mére Anthony

e vemos num instante o fruto apetecível
diante da nudez rotunda das mulheres de Renoir
como a luz, que voa numa asa de seda de libélula.

22-03-2014

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sexta-feira, março 14, 2014

OS PESSEGUEIROS



“Onde pessegueiros pequenos estão em flor - tudo é pequeno lá (…) é a razão porque o assunto me atraiu. " 
Van Gogh


Os pessegueiros de Van Gogh esperaram
que a neve fosse deixando o silêncio
do branco tomar forma
de pequenos sóis, com os ramos
abraçados
Então os pessegueiros de Van Gogh
começam a ser árvores sonoras.

14-03-2014
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sábado, janeiro 11, 2014

O Brinco

Vermeer, A rapariga do brinco de pérola


Ali começa a nascer um sistema solar, um planeta
move-se  na orbita do rosto, brilha
ainda uma breve sombra
do abismo
ali de onde a luz se ergue. Um espelho
começa ali naquele rosto
onde a beleza sorri entre os lábios
um silêncio.

11-1-2014

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quinta-feira, novembro 21, 2013

Os Pastores da Arcadia



Nicola Poussin, "Os Pastores da Arcadia", óleo em tela
 
De todas as maneiras, quando acordam
vão ver as ovelhas, se já sabem voar
e se o sol nasceu noutro ponto qualquer
da Rosa dos Ventos, sobre os rios
deveriam correr os restos de um luar
sim, todas as manhãs
vão ouvir a música de Orfeu, se ele toca
as estrelas que compôs no céu.

19/11/2013
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sexta-feira, julho 05, 2013

Salmo brasileiro de Portinari





Toda a música vestida de flauta
e clarinete e afagada nas cordas
toda a música de branco
louva onde quer

que nossos ouvidos se humilhem.

5/7/2013

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terça-feira, maio 28, 2013

Como é triste Veneza

(Piazza di San Marco, Canaletto)



Como é triste Veneza se não há amor
como serão tristes
as pombas da Piazza se não rodeiam
um homem e uma mulher escondidos
no fundo de um abraço
como é triste sem ninguém
a Ponte dos Suspiros
como são tristes as gôndolas
que envelhecem no asfalto.

28/5/2013

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sexta-feira, maio 03, 2013

Formulação para os Guarda-Chuvas de Renoir



Eles são pássaros abertos e derramam
Asas azuis, metalicamente
Octogonais, eles sobrevoam ombros
No fluxo do rio da multidão
Mas
Se o azul acender o sol, os guarda-chuvas
Pássaros fechados
Se dissipam.

3/5/2013

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segunda-feira, abril 15, 2013

A TRAGÉDIA




Tão nus com uma nudez sem sombra
estão no chão, os olhos
ligam-nos ao chão, só o menino
ergue a esperança
que virá, o próprio mar
humilha-se aos seus pés.

14/4/2013
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Picasso, Tragédia, Fase Azul