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segunda-feira, fevereiro 16, 2015

MONUMENTO COM UM NOME





 Caminhar por Auschwitz  é andar no espaço
 Conseguido pela morte.
 No meio de barracões esculpidos de quietude
 Enganadora, a neve, falsa, se estendia
 Como roupa suja no chão.
 Não havia escadas para subir, no inferno tudo
 Era devolvido em cinzas. Sentem-se hoje
 Olhares perdidos ainda no passado. Um gato
 Com a sua inesgotável infância
 Alheio aos reflexos da vida.

16-02-2015

©

Foto: Kacper Pempel/Reuters

quarta-feira, outubro 16, 2013

Ingenuidade



Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.

14/10/2013
 ©

quinta-feira, abril 18, 2013

PASSAM A MÃO PELO ROSTO


 

“Aqui cada um é o seu próprio
carcereiro, irreconhecível
e anónimo.”
Paal Brekke (Poeta noruguês, trad. Amadeu Baptista)
 
 


 Passam a mão pelo rosto e não encontram nada
o nariz adunco
faz uma curva para o abismo, os olhos
sem possibilidade de evasão, os lábios
apenas com a sintaxe da dor
São estranhos
marcados com seis pontas estelares
como uma roda dentada
que tritura o corpo
Passam com as mãos nos ouvidos
e sentem a falta das canções maternas.

18/4/2013
©



(Foto de Dachau Concentration Camp)

domingo, outubro 02, 2011

O rapaz do pijama às riscas


O rapaz do pijama às riscas
senta-se num banco de cimento
numa casa hermética
no cimento
e sela com a sua mão a mão
de outro rapaz
ambos livres do pijama às riscas
agora no silêncio da nudez.

1/10/2011

sexta-feira, janeiro 28, 2011

A Mãe


Era a morte envergonhada
escondida nestes rostos
tão próximos do chão
pequenos corpos, um dia saberemos
como a morte com sapatos precários
caminhou nestes corpos infantis
como a morte se vergou
nestas costas ao peso
do inverno
Era a morte já tão arruinada
nestas roupas, um dia saberemos
como foram lentos os seus passos
a querer retardar a pressa
dos relógios.

27-1-2011

sábado, outubro 30, 2010

Hiroshima, Meu Amor


Não, tu não viste nada em Hiroshima
o sol explodindo nos olhos, dentro
da tua cabeça sombras
Tu não viste nada a acontecer
o nada de Hiroshima, nem a fissão
do Amor
Nada viste em Hiroshima
Dez mil sóis de temperatura
a cobrir a morte
como um lençol de cinza.

29/10/2010

sábado, setembro 11, 2010

Poemas sobre as Crianças do Holocausto

POEMAS SOBRE FOTOS DAS CRIANÇAS DO HOLOCAUSTO,
para ler AQUI



A Marcha

A morte não deveria ser obrigatória
em marcha
nestes pequenos pés
Uma fila de olhos sem regresso
pequenas dimensões
onde só deveria estar a alegria
vão
sem reparar que é enganosa
a sua infância tranquila.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Tu sabes? (pergunta sobre o holocausto das crianças)

Poema inédito de Clélia Inácio Mendes

Tu sabes onde foram as crianças, Sabes onde estão?
Sabes porque se ouvem notas musicais de flautas
E ninguém dança…
Sabes porque há ainda marcas de anjos
No chão frio da tarde e delas nem traço?
Sabes das crianças, João aquelas crianças que espreitavam
Pelo arame pingado de sal de olhos
Debaixo do céu sem cor e trapos de silêncio
Por onde foram?
Senta-te um pouco na soleira da alma com a poesia na mão nua e a tinta
Do sangue nos caminhos por onde elas não passarão.
Aquelas por quem pergunto e não vejo, nem a sombra, nem o riso partido
Do espelho a que falta pedaços.
Eu fico também aqui sentada nesta pedra suja e gasta
Espreitando agora pelo arame pingado de sal, com os dedos crispados
E a boca despida de gritos.

sexta-feira, março 12, 2010

Irena Sendler

Salvas por uma pequena mão
maior que o corpo
a mão
que escondia
as crianças judias

esperavam brincar
na palma azul
da mão infinita

espreitavam em buracos
dentro de malas, ao lado
do sol
em caixas do lixo
pequenos cordeiros calados
na sua inocência.

12/03/2010