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quinta-feira, março 12, 2015

CALEB



“Há anos que escrevo o mesmo poema”
J. T. Parreira

Sou ainda o mesmo que fui outrora
ainda hoje os mesmos olhos
olham por dentro das mesmas pupilas
e procuram o mesmo infinito

há quarenta anos que sonho
o mesmo sonho
que este passeia pelo monte e lhe cria
um nome, Hebron,
e o soletra letra a letra,
como o nome de um amigo, com
o mesmo suspiro em silêncio

há quarenta anos que espero
então era soldado e lavava
a espada no sangue de gigantes
hoje lavo-a na chuva
que se acumula no vale

sou o mesmo rosto furtivo
à viragem do vento e recalcitrante
à passagem dos dias

há anos que escrevo o mesmo poema
que fala de promessas e de campos largos
e montes para conquistar
a mão do Senhor abrindo a minha
a pulso no papiro

os cabelos que hoje são brancos
já o eram então há quarenta anos:
embora mais longos

© Rui Miguel Duarte
6/03/2015

quinta-feira, novembro 14, 2013

SAMUCA SANTOS, RECIFE ( 1960-2013)




ALGUNS POEMAS:


NENA

ela sabe dos boleros
e do rock’n roll
sabe do sonho e do pé no chão
do presente no futuro
do ácido que o ócio
derrama na espera
dos pensamentos que rolam
e do medo de perde-la
que as paixões me iluminam
ela sabe
todos os fogos
dos artifícios que nos unem
e tem os credos, cartilhas
onde aprendo a vida

 sem título
nunca minta para mim
deixe que eu invente
as minhas verdades

 FOTOGRAFIA
te encontro no baú dos fósseis
cedo envelheci
mas teu sorriso ainda me cega
teu olhar ainda me reduz ao pó

 REPENTE
tão simples, claro
quanto um beija-flor
parado no ar, chegaste
não tive tempo
de arrumar o mundo
nem de fugir

 RISCOS
quantos copos faltam
pra que a gente se afaste
e role pelos braços, alheios
à procura de nós?

 DONA MÚSICA
tem uma festa rolando
meu amor se veste, bela
e vai acender a noite
dizer que é bela
é pouco:
nem tão belle époque
nem tão afro-chique
meu amor e mil motivos
pra festa rolar
e eu aqui,
de touca na rede


sábado, maio 18, 2013

ATÉ AO MEU REGRESSO

(em memória...)

No chão manchado de vermelho e cinza
o amarelo brinca entre as folhas e os papeis amarrotados
de cadernos e bicos de lápis partidos.
No bolso branco da bata a mancha azul do aparo lambuzado
da caneta de pau. Tinteiro. Prova dos nove, fora a infância
gritada no recreio. Bola de trapos . Sol na bochecha. Campainha aos gritos
a chamar ao recolher. Orelhas quentes da correria e dedos da professora.
"Ai o menino!"
Todos os rios a desaguarem no Atlântico ou talvez não
e as linhas dos comboios de áfrica onde um dia...
até ao meu regresso. Nariz colado no vidro enjoativo.
Noves fora, e vai um ao quadro. Giz que se parte em dois. Mais dois quatro.
E a linha reta que se torna orgulhosamente curva . Lamarosa, Alfarelos...e outros apeadeiros clandestinos. Uma sardanisca subversiva trepa a janela.
Galhofa da cambada. O ar adocicado do cardeal paira pegajoso sobre
a dormência dos grilos nas franjas.
A prova lambuzada de azul da tinta e o morse do ponteiro
na tabuada dos 8...
O chão manchado de cinza la fora onde o amarelo brinca com folhas
e bicos de cor dos lápis partidos, enrola na brisa papeis
amarrotados de contas. Fúria escarlate num "mau"...ai agora!
As orelhas quentes da brincadeira e dos dedos do pai,"ai o menino!"
Os ramos a crescer e as raízes quadradas dos anos a segurar por um fio
rios e comboios de áfrica. Províncias de nomes estranhos onde um dia,
até ao meu regresso - se plantaria noutro chão. Outro tom de amarelo
a brincar com papeis amarrotados de contas "já falta pouco...e vai um"
Tinta permanente no bolso da farda . Prova dos nove
contada pelos dedos na gritaria do recreio da escola. Tão longe.

Maio, 2013


Clélia Mendes

sexta-feira, maio 10, 2013

CAPRICHO ÁRABE





Toca no meu coração delicadamente as cordas
Com dedos ternos – seixos de um riacho
Suave e quedo como asas de pomba

Passando pelo castanho dos meus olhos
Toca meu rosto
Com esse sol andaluz da tua voz
O gosto a tangerina dos teus lábios
Toca a guitarra dos meus ombros
Com o som quente do horizonte de onde vieste
Numa misteriosa tarde de verão.

 Fev 2013

 
Clélia Mendes

domingo, fevereiro 24, 2013

DIA DE CHUVA



Rua de pedra gasta de agua onde as poças
espelham arvores com coragem de flores
O brilho negro das botas reflecte
As cores do arco iris no chapéu de chuva
Nevoa doce da tua carícia molhada no cabelo
Lava-me os braços nus.

Fixo os olhos nas cores do arco iris
No chapeu de chuva que pinga pedaços
De ausencia nas poças onde se espelha
O sorriso com promessa de regresso.

O brilho negro dos cabelos na caricia molhada
lava-me o cabelo que reflecte o negro
das botas na pedra gasta da tarde.

Fev 2013

© Clélia Mendes
         
 




terça-feira, fevereiro 05, 2013

UMA LENDA, poema de Eeva Kilpi

 
Ao entardecer
o Redentor dá uma volta pelos currais,
pelos estábulos, pocilgas, aidos e galinheiros,
quer dar uma vista de olhos ao lugar onde nasceu,
saudar os animais
entre os quais certa vez adormeceu
e teve em cueiros o seu primeiro sonho.
Mas tudo mudou.
Os animais contemplam-no através de grades,
humilhados no seu cativeiro,
com angústia e desespero nos olhos.
Reconhecem-no, gritam-lhe:
Volta a nascer, Redentor,
nasce para nós.
Os homens levaram-te.
Cuidaram-te bem?

Animalia, 1987


© Versão de Amadeu Batista, Aqui