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sexta-feira, janeiro 05, 2018

EM TODO O LADO HÁ DEUSES




Li que Paulo ao chegar aos gregos teve um espanto
E irritou-se com o encontro de um deus em todo o lado
Um deus sem nome a quem chamar
Um deus desconhecido, não sabemos
Que tarefas empreendeu, ou que palavras disse
De veludo ou afiadas como facas
Um deus que nem sabe que há humanos
Li algures que Paulo ao chegar aos gregos
Via-os tactear entre esses deuses
Que havia muito tempo ninguém via
Como o rio Ilisos
Sem nomes a não ser de mistério e de silêncio.

05/01/2018

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segunda-feira, dezembro 18, 2017

CÂNTICO DE NATAL DE MARIA



Estou grávida e José deu-me um anel, diz
Que aceita o meu bebé, vai criá-lo
Como se fosse seu, o mistério
Fazer da madeira um utensílio
Vai passar ao meu menino, vai crescer
A maravilha no meu ventre, soa
Ainda em meus ouvidos a alegria
Do Eterno na voz daquele anjo
Que me disse agraciada, bendita
Tu entre as mulheres, estou grávida
E a luz vai apagando devagar
Todas as sombras do meu corpo
 E os meus olhos já sentem as suas mãos
Pequenas a salvar o mundo.

17/12/2017

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segunda-feira, julho 31, 2017

A MULHER DE LOT




Presa a alguns vestidos, os únicos

Que a pressa arrancou de casa, sonâmbula

Na fuga da destruição, e indecisa

Entre um lugar e outro, um olhar e outro

Para trás onde a casa começa a derruir

Um rio de lava a morrer nos olhos

E a estrada em frente

O que pesa nos seus olhos

Que a levou ao fundo, um olhar para trás

E tornar-se um marco no caminho?

Um corpo salgado aonde as aves vão

Debicar o sal e deixar rastos de plumas

No corpo da mulher de Lot nenhuma vida

Agora se repete, é uma língua morta.


30/07/2017

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segunda-feira, julho 24, 2017

COMO UM PRÓDIGO ANTIGO

Pompeo Batoni, 1773



Quando o filho deixou a casa, não houve

discussão violenta nem ódios a partirem o olhar

um velho pai chorou

toda a sua vida inundando os olhos, o filho

mais novo silenciosamente juntou tudo

derramou sem pressas o ruído

da porta, que fechou, no silêncio da casa

chamava-o um rio sem leito, uma montanha

sem chão, um espelho, mas sem o riso

de uma boca iluminada, uma mulher talvez

com seu vestido sonhado, não sabia ainda

das humilhações, dentro de si

estava já uma terra longínqua.


23/07/2017

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segunda-feira, março 20, 2017

BATESEBA

(Francesco Hayez)


Vestida de água, lavavam-lhe o corpo
Com dedos cautelosos, deixou de lado
Um vestido azul, estampado com ouro
De flores amarelas
Bateseba lavava no corpo os recantos
Mais puros de ser mulher, alheia aos dardos
De um lampejo nos olhos de David
Uma pomba
Espreguiçava a sombra e o ócio
Num ramo de acácia.

20-03-2017

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quarta-feira, maio 04, 2016

TRAVESSIA DO MAR VERMELHO

(Arte: Ivan Aivazovsky)


O  que nos movia para a margem
do mar vermelho, o desejo com asas
tranquilas e os olhos com a doce lágrima
da liberdade,
mesmo sob a febre do deserto?  Movia-nos
uma terra que não conhecíamos, ainda
perto do egipto e com os cascos dos cavalos
egípcios a partirem o silêncio sagrado do chão  
montadas e cavaleiros confiantes
na perseguição. O que movia um povo,
cujo censo estava nas estrelas, multidão escondida
para a margem do mar? A esperança juvenil dos velhos,
o útero das mulheres jovens
para darem à luz no leite e no mel
da terra prometida?

19-04-2016
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segunda-feira, dezembro 21, 2015

Santo Natal com um poema para os Amigos


PARA ENCONTRAR A CRIANÇA ENVOLTA EM PANOS

Deus pôs no céu a mão a guiar uma estrela
No meio de lugar nenhum
Que é o espaço indecifrável da noite
A luz era o único lugar visível, não se via
A mão que a guiava, foi com surpresa
Que a viram estacionar os anos-luz
Sobre um discreto estábulo de Belém.

18-12-2015

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segunda-feira, novembro 23, 2015

SALMO 137 DO SÉCULO PASSADO





Sentávamo-nos junto aos muros do gueto de Varsóvia
e chorávamos com uma estrela ao peito, nas sombras
dos casacos rotos, pensando
que éramos o povo escolhido. Deus
estava em Jerusalém e lá pendurámos nossas preces.
Os que nos tinham feiro prisioneiros pediam-nos
que cantássemos com a nossa boca
cheia de pão negro, aqueles que nos haviam de destruir
queriam a nossa alegria. Mas como era possível
que entoássemos outro cântico senão um kaddish
pelos mortos? O canto do Senhor em terra estranha.
Se tu, Senhor, te esqueceres de nós, seremos harpas
partidas e as nossas cinzas voarão pelos ares
como um silêncio.

10-10-2015

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domingo, outubro 11, 2015

SALMO CENTO E VINTE E SETE






É inútil levantar cedo, desviar
O curso desta morte lúcida
Que é o sono, inútil será contar estrelas
Até que amanheça, ir ao berço dos filhos
Ver se respiram, fazer mais filhos
Para serem frechas na aljava do valente

Se o Senhor não guardar o pão do bolor
O  pão ganho com desalento
Se não guardar da casa a trave-mestra
Nem vigiar nos olhos da sentinela
Tudo será vão como a areia
Que não resiste ao vento

12-09-2015
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sábado, junho 13, 2015

POEMA DO MEDO

“E não quis que me visses nu. Então escondi-me.”
Adão



Tive medo e regressei
para trás das árvores, das folhas
entrevi Teu rosto, não quis que me visses nu.
Então escondi os meus ouvidos,
onde a Tua voz não chegasse, ou chegasse
suavizada só pelo amor à natureza,
tive medo e quis regressar ao pó.

16-03-2015

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terça-feira, junho 09, 2015

Apenas o Salmo 8 escrito por um simples poeta de província



Não se pode averiguar o peso quântico da eternidade
Na oficina celeste, todos os anjos reunidos
Não sabem a mais leve partícula do nome Deus
Não há espaço no Céu para conter Deus
Todo o Céu fica aquém, só as Suas mãos
Que fazem e desfazem astros estão para lá de tudo
O que nos adormece em segurança quando olhamos
O Espaço, quem somos nós para limitar Deus ao quarto
Onde dobramos os joelhos e citamos várias vezes a nossa vontade
E contudo
Não sendo o Seu corpo que habita nos templos
Feitos pelas mãos dos homens
Só o Seu olhar  agrega-nos a todos como um alvo
Do Seu Amor no fio do horizonte.

09-06-2015
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sexta-feira, maio 01, 2015

A PROCURA DO AMADO NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS




A escuridão fecha os nossos olhos, a névoa
Às vezes humedece a tristeza das pupilas,
O nosso coração cansa-se
Embriagado do seu próprio vinho.
Subimos desertos encostados ao seu peito,
Para onde foi o nosso amado? Que rumo tomou,
Os lírios foram a sua fronteira? Ou as estrelas
Mais altas cobriram-se à sua passagem?


Que faremos sem o nosso amado, somos fiéis,
Nossas  mãos não tocaram outras mãos, os lábios
Nunca tiveram outro nome, nossos ouvidos
Outros canteiros de jardim senão as suas palavras,
Os nossos cabelos outro odor. Não abriremos
Mais romãs à tua espera. Vem!
Os companheiros estão atentos
Já limpamos as nuvens que empalidecem os telhados.

15-03-2015

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terça-feira, outubro 14, 2014

ALGUMAS COISAS QUE FIZESTE



Já dançaste em círculos à volta do bezerro, ébrio
do ouro a escorrer pelos teus olhos,  alguns
dos teus haveres empenhados  no caminho
rumo a Canaã; sentiste as tábuas da lei partidas
contra o teu coração, mesmo assim  colheste
dos arbustos sem nome o mais belo pão divino;
bateste numa rocha
e bebeste a água represada desde o dilúvio; viste gigantes
à porta da terra do leite e do mel, já longe
do Egipto começaste a ter a noção da saudade,a falta das cebolas
e da carne e olhavas para trás, com os pés no chão
andaste quarenta anos no deserto.

13-10-2014
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sexta-feira, junho 20, 2014

A Coroa


(Annibale Carracci, óleo s/tela, 1585)



Repouso a minha cabeça para a coroa
de espinhos, ostentarei
o silêncio da flor envergonhada
com flechas no lugar das pétalas

Poderia no fim da vida
ter uma coroa que me amaciasse
a cabeça, mesmo que o reino fosse pesado
uma coroa limpa

Mas não, eu não poderia suportar uma coroa
que esmagasse em mim o meu amor
escarlate pelo mundo
para ter um reino na terra, se assim fosse
teríeis outras razões para a minha morte. 

20-06-2014

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sexta-feira, junho 06, 2014

O MURO DAS LAMENTAÇÕES



(Mulheres junto ao Muro, foto antiga retirada da Web)


É o som dos sapatos que se ouve
para não acordar os mortos, o silêncio
envolve os murmúrios
Os carros passam longe, noutra civilização
Mãos e orações trocam papéis com as pedras
 As pedras conseguem há milénios
guardar tudo
o que diz o povo com a cabeça rente ao muro.

05-06-2014
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terça-feira, maio 27, 2014

[ QUANDO VOLTÁMOS A CASA ]

Foto de Robert Capa, 1948


“Quem são estes que vêm voando como nuvens,

e como pombas às suas janelas?”  Isaías, 60,8



Quando voltámos a casa e crescemos
Sobre os nossos pés
Para espreitar as janelas, com algumas teias
Como véus antigos, e entrámos e nos inclinámos
Sobre a mesa de madeira com rugas de solidão
Anos e anos com um silêncio
Sem pão, a nossa casa estava estéril, agora
Começará  a dar frutos, a deitar calor pela chaminé
Vai  começar a acender as janelas.


27-05-2014
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terça-feira, dezembro 31, 2013

ANDAR SOBRE AS ÁGUAS





Sob os seus pés, os átomos da água
rendiam-se, o mar não tinha fundo
voava
como as aves que não pesam sobre as árvores
o mar dormia sob o peso divino
com o mesmo silêncio do veludo.
 
30-12-2013
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Publicado inédito aqui: http://ovelhaperdida.wordpress.com/2013/12/31/andar-sobre-as-aguas-inedito-de-j-t-parreira-a-fechar-2013/

terça-feira, agosto 20, 2013

ELEGIA DE DAVID QUANDO PERDEU UM FILHO




Se eu encostar a minha lira ao silêncio
apaziguarei a minha dor? 

Decretaste, Senhor, aí em cima,
poupar a vida da criança?
Não estão nuas ainda as minhas preces?
Os meus lábios movem-se em sobressaltos

De saco e cinza me visto e na terra me deito
emerge dos meus poros a água
da tristeza e o sangue desta minha dor
que reverte ao coração

Ó meu coração isolado do mundo

Porque morreu o menino, com a mesma pureza
com que vive um pássaro
até cair da sua linha invisível do céu

A sua vida vai deixar a minha
poderei eu fazê-la voltar?

Ó pequena criatura, que foste a figuração
do meu amor inacabado
Eu um dia irei para ti, porém tu
não voltarás para mim

10/5/2013
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domingo, agosto 04, 2013

Depois do Dilúvio



Voltaram para casa
Noé e os filhos, para o princípio do solo,
o primeiro dia da terra com a luz
a secar as águas.
Começou Noé a plantar uma vinha
para colorir o silêncio das colinas,
e os seus pés
moveram-se no ar e riu e cambaleou
dentro de si, na alegre nudez
do seu regresso.

4/8/2013
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