Mostrar mensagens com a etiqueta poesia evangélica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia evangélica. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, janeiro 05, 2018

EM TODO O LADO HÁ DEUSES




Li que Paulo ao chegar aos gregos teve um espanto
E irritou-se com o encontro de um deus em todo o lado
Um deus sem nome a quem chamar
Um deus desconhecido, não sabemos
Que tarefas empreendeu, ou que palavras disse
De veludo ou afiadas como facas
Um deus que nem sabe que há humanos
Li algures que Paulo ao chegar aos gregos
Via-os tactear entre esses deuses
Que havia muito tempo ninguém via
Como o rio Ilisos
Sem nomes a não ser de mistério e de silêncio.

05/01/2018

©  

quarta-feira, setembro 13, 2017

A ORAÇÃO NO GETSEMANE



Seria bonito desaparecer no ar, voltar a casa
Com o odor no corpo das flores
Que Tu criaste, passar entre as folhas
Das oliveiras como o beijo do vento
Seria fácil mesmo com os joelhos feridos
Do chão de onde a minha prece se elevou
Se assim fosse o que seria dos homens?
Morreriam para sempre na minha dúvida
Se é possível que o cálice passe, seria fácil
Não o tragar, não olhar para trás, evanescer no ar.

13/09/2017
© 

domingo, agosto 06, 2017

POEMA DE MARIA MADALENA JUNTO AO SEPULCRO



Onde puseram o meu Senhor? Mesmo morto

O seu corpo receberia o perfume dos meus olhos

Onde o puseram? Ele não é um morto

Como os outros para que o Seu corpo se consuma

O meu choro é o que sobra do meu coração

Tanto amor, sem retorno físico, preso

Na indiferença da morte

Dizei-me anjos, vós que não trouxestes

Do céu os crepes com que se amortalham os mortos

Não sei onde o puseram, e a Sua ausência

Mais enobrece o meu amor, sou uma mulher simples

Que rompeu as cadeias dos olhares dos homens

Para vir derramar-se junto ao seu sepulcro.



06/08/2017
©


domingo, julho 16, 2017

SENHOR LAZARUS


“A sort of walking miracle”
Sylvia Plath



Aquele que veio do outro lado

da morte, com os olhos cheios

de intraduzíveis paisagens

Lázaro voltou

enriquecido com o seu silêncio

de ouro.



16/07/2017

©

domingo, maio 22, 2016

CERTO HOMEM TINHA DOIS FILHOS - POESIA








http://poesiaevanglica.blogspot.pt/2016/05/certo-homem-tinha-dois-filhos-novo-e.html


     Das diversas parábolas relatadas por Jesus, talvez nenhuma outra tenha tido tanta repercussão, e consequentemente sido alvo de mais representações artísticas quanto a Parábola do Filho Pródigo (Lc 15:11-32). E, em apoio à sua singularidade, note-se que, ao contrário de outras parábolas, esta aparece apenas no livro de Lucas. Sua mensagem, por ser perfeitamente evangélica, é de simples, universal compreensão; seu impacto é duradouro. Talvez porque diante de um Deus santo de quem nos afastamos e fomos afastados pelo pecado, sejamos todos pródigos a priori (e tantas e tantas vezes, a rematar nossa rebelião, a posteriori).
       É essa figura arquetípica do pródigo que é o Homem, inserida nesta parábola também arquetípica sobre o incomensurável e incondicional amor do Deus-Pai, que JTP elege para objeto de sua reflexão poética.
       Este pequeno e-book colige textos escritos em períodos diversos, mas que em comum trazem a marca da economia e extrema expressividade, tão características da poesia do autor.

Sammis Reachers 

quarta-feira, abril 13, 2016

À Mesa com o Pródigo

Murillo



Já estava sentado à mesa, com os olhos
Do meu pai a verterem alegria, o vinho
Dos odres novos a brilhar no banquete
O bezerro a sair do remoinho das chamas
Depois de anos a andar sem sandálias
E com vestes festivas e um vestígio
Real no dedo, apontava a saudade
Do meu coração para a porta, esperava
Que entrasse com o sol crepuscular
O meu irmão, nos meus olhos
Eu dizia palavras de amor, enquanto
O silêncio da porta deixava passar
A lua plena.


13-04-2016


©

domingo, agosto 16, 2015

NA CASA DE MARTA E MARIA




Estava sentada à espera da revelação
Os séculos vindouros  de Grão Vasco e de Velázquez
Iriam vê-la em retábulos de igreja, naquele dia
Ficava sentada aos pés do Mestre
Na posição de quem se guarda do tumulto
Em que pairam outras vozes
Estava rés ao chão onde o silêncio circunscreve
O que é vital ouvir, letra por letra
A sua boca sequiosa repetia 
A água límpida que vinha nas palavras.

16-08-2015
©


sexta-feira, maio 01, 2015

A PROCURA DO AMADO NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS




A escuridão fecha os nossos olhos, a névoa
Às vezes humedece a tristeza das pupilas,
O nosso coração cansa-se
Embriagado do seu próprio vinho.
Subimos desertos encostados ao seu peito,
Para onde foi o nosso amado? Que rumo tomou,
Os lírios foram a sua fronteira? Ou as estrelas
Mais altas cobriram-se à sua passagem?


Que faremos sem o nosso amado, somos fiéis,
Nossas  mãos não tocaram outras mãos, os lábios
Nunca tiveram outro nome, nossos ouvidos
Outros canteiros de jardim senão as suas palavras,
Os nossos cabelos outro odor. Não abriremos
Mais romãs à tua espera. Vem!
Os companheiros estão atentos
Já limpamos as nuvens que empalidecem os telhados.

15-03-2015

© 

quinta-feira, abril 02, 2015

PILATOS DIRIGE-SE AOS JUDEUS - IV







Eis o homem
que chegou aqui pelo valor mais baixo
que às vezes tem o beijo, o da traição
Este que chegou a golpes de chicote pelo corpo
e pelas faces em silêncio que oferecia
às bofetadas. Este que chegou aqui 
pelo crime de ser Deus
com uma cruz difícil sobre as costas.

02-04-2015
©

segunda-feira, dezembro 15, 2014

O CALVÁRIO






Morreu esta tarde, por três dias,
às três num monte à beira da cidade.
Inclinou o seu espírito às últimas palavras
que seus lábios entregaram aos ouvidos
dos homens e de Deus, da mãe
não chegariam as mãos para o tirar da cruz.
Do lençol de linho de José de Arimateia
-só é certo que lhe deu o sepulcro- não se sabe,
qualquer teologia que diga que ao morrer
às três da tarde, por três dias, tinha nos lábios
um sorriso, sabemos pelas feridas da morte
que não é verdade, ninguém
morre pelo ódio do seu povo e sorri.
Morreu com o tempo marcado, o relógio
do sol marcaria na porta do sepulcro
a manhã de sábado,  depois outra manhã viria
limpar da noite as sombras, para que o branco
Corpo intocável mais brilhasse.

14-12-2014
©



quinta-feira, agosto 15, 2013

A Transfiguração




Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde

Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,

a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,

o vento cantava no cume da montanha,
 
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza
da morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.

9/8/2013
©

terça-feira, abril 09, 2013

Cântico de Maria Madalena


Eu vi-Te na flor da manhã
na luz dispersa pelas primeiras horas
de domingo

Naquele segundo a pedra
pareceu-me transparente, o ar
um espelho que reflectia anjos

Eu vi os lençóis
arrumados no vórtice imóvel
do sepulcro
quando ia pousar ramos
de incenso sobre o corpo.

©

domingo, março 31, 2013

NOLI ME TANGERE



 
Não me toques
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto

deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
©

quarta-feira, janeiro 16, 2013

GAZA



No caminho para Gaza
tudo será diferente, encontrarás
explicação, das metáforas de Isaías
a visão será real nos teus olhos
já nascido o Menino
foi belo, até a beleza se perder
do rosto no Calvário.

16/1/2013

 




segunda-feira, novembro 12, 2012

JACOB






Essa pedra a que o sonho deu
a gravidade zero, testemunha
que nos degraus da noite, a escada
era leve para o céu, a porta
eram os anjos, e estes que desciam
a reunir vestígios do mundo
e voltavam a subir, nessa pedra
onde encostou Jacob o sono, só
por fora a dormir.

6/11/2012

terça-feira, outubro 16, 2012

Do outro lado do ribeiro de Cedrom




Preciso das vossas mãos para velarem comigo
porque tenho o peso do mundo
no meu coração, as mãos que trabalharam as redes
as vossas mãos rudes que amaram o mar
para segurarem o cálice, e dos vossos olhos
para desvelarem comigo a cortina da noite
a minha alma está pronta, o corpo
não, é uma rosa triste, madura
uma rosa de terra perante a morte.


12/10/2012

terça-feira, junho 26, 2012

AS BARCAS DE CARONTE



 “navegam em mim barcos assustados”
Julio Saraiva

Algum dia
queimaremos as naves de Caronte
Por agora prossegue a obstinada morte
no alfabeto a letra com que vai
começar o nosso nome
Mas ainda o sangue se renova
nos ramos que partem do nosso coração
Algum dia estaremos sentados a ouvir
os anjos a tirar das suas harpas
os silêncios celestiais
Por agora, como Ulisses amarrados
ao mastro do navio, deixamos que as ondas
nos falem ao ouvido.

24/6/2012

sábado, junho 16, 2012

ENTRE O MADEIRO E A LANÇA

Entre o madeiro e a lança
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.


15/6/2012