Passou
os dias a fazer um grande tapete de trapos tecido
de lãs velhas, uma encruzilhada de
cores para
prosseguir esperava que
a manhã as desfizesse as
estrelas, do tecido da noite.
Nicola Poussin, "Os Pastores da Arcadia", óleo em tela
De todas as maneiras, quando acordam vão ver as ovelhas, se já sabem voar e se o sol nasceu noutro ponto qualquer da Rosa dos Ventos, sobre os rios deveriam correr os restos de um luar sim, todas as
manhãs vão ouvir a música de Orfeu, se ele toca as estrelas que compôs no céu.
e do rock’n roll sabe do sonho e do pé no chão do presente no futuro do ácido que o ócio derrama na espera dos pensamentos que rolam e do medo de perde-la que as paixões me iluminam ela sabe todos os fogos dos artifícios que nos unem e tem os credos, cartilhas
onde aprendo a vida
sem título
nunca minta para mim deixe que eu invente
as minhas verdades
FOTOGRAFIA
te encontro no baú dos fósseis cedo envelheci mas teu sorriso ainda me cega
teu olhar ainda me reduz ao pó
REPENTE
tão simples, claro quanto um beija-flor parado no ar, chegaste não tive tempo de arrumar o mundo
nem de fugir
RISCOS
quantos copos faltam pra que a gente se afaste e role pelos braços, alheios
à procura de nós?
DONA MÚSICA
tem uma festa rolando meu amor se veste, bela e vai acender a noite dizer que é bela é pouco: nem tão belle époque nem tão afro-chique meu amor e mil motivos pra festa rolar e eu aqui,
de touca na rede
“As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam” Herberto Helder
Houve um tempo na infância em que desejei descer pelos teus cabelos negros nenhum homem, nem o pai poderia aproximar-se dos ramos dos teus dedos Houve esse tempo na infância em que te disputava com um amor que poderia até matar qualquer olhar de homem que impedisse o teu caminho
Era o tempo em que o teu peito me acudia e chamava pelo meu nome
Hoje, quando a morte é para ambos a próxima infância para viver no olhar de Deus vejo os teus cabelos de prata em que não ouso tocar, com medo de partí-los porque são uma frágil luz cansada.
Quando chegamos à nossa nova casa sem paredes de tijolo e estuque rodeada de arame onde suspendemos as estrelas apertando ao peito o frio ainda acreditamos que nos dessem o maná como Jeová no deserto aos nossos pais.
De súbito toma o pássaro o silêncio do poeta como um vegetal sentado no jardim, os braços quietos, as mãos abertas de onde partem ramos de dedos pousados nos joelhos do poeta, de súbito a ave fica imóvel trocou o arbusto por outro o ombro do poeta.
Judas Iscariotes continua
deste lado dos nossos olhos procura o melhor ângulo
da traição a esquina da cilada no nosso nariz o seu
olfacto avalia o perfume dos
unguentos Judas Iscariotes continua a sentar-se deste lado e
estende as mãos para apalpar o amor da
raiz de todos os males, e Judas
continua a usar a sua voz nocturna para esconder o beijo
mortal.
(Baile Gitano, 1914, Anglada-Camarasa
Museo Carmen Thyssen, Málaga)
Era uma água corrente,
uma cascata
os seus vestidos o baile era um céu ao pôr
do sol eu queria a gruta profunda
dos seus olhos que mundo de princípios
escondia porque era uma cigana e suas mãos
apaixonavam-se no ar quando dançavam.
“Tantas luchas que há
costado, / tantos afanes en vela” Pedro Salinas
Há anos que escrevo o
mesmo poema
os meus dedos conhecem o caminho e
guardam silêncio conservam o que tenho para que ninguém tome a
minha coroa há anos que gasto as
minhas mãos nas mesmas pedras
O mesmo poema lavra-se
lava-se cada dia na
corrente sanguínea para as visitações da
divindade
Não há novas palavras é
engano
dos dicionaristas, polir
palavras para serem novas como os
que restauram telas ou as colunas do
Parténon
Por isso há anos que
escrevo o mesmo poema
sem aparências, não há
outros os poemas são como os
pássaros de Salinas o mesmo pássaro imenso.
Se eu encostar a minha lira ao silêncio apaziguarei a minha dor? Decretaste, Senhor, aí em cima, poupar a vida da criança? Não estão nuas ainda as minhas preces? Os meus lábios movem-se em sobressaltos
De saco e cinza me visto e na terra me deito emerge dos meus poros a água da tristeza e o sangue desta minha dor que reverte ao coração
Ó meu coração isolado do mundo
Porque morreu o menino, com a mesma pureza com que vive um pássaro até cair da sua linha invisível do céu
A sua vida vai deixar a minha poderei eu fazê-la voltar?
Ó pequena criatura, que foste a figuração do meu amor inacabado Eu um dia irei para ti, porém tu não voltarás para mim
“Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,porque era semelhante à dos anjos” Oscar Wilde
Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,
a luz velando o rostoe sobre a luz e o branco dos vestidos os discípulos se alegraram,
o vento cantava no cume da montanha,
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza da morte redentora, falou-se de cicatrizes e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse a neve dos cabelos envolvida em lume.
Noé e os filhos, para o
princípio do solo, o primeiro dia da terra
com a luz a secar as águas. Começou Noé a plantar
uma vinha para colorir o silêncio
das colinas, e os seus pés moveram-se no ar e riu e
cambaleou dentro de si, na alegre
nudez do seu regresso.
Apenas lhe ocorreu que
se se afogasse seria uma pena Stephen Crane (“O
Salva Vidas”)
Já nenhum deles sabia a
cor do céu o vento levava a negridão das nuvens aos
andares celestes as águas eram um muro que
desmoronava como avalanche branca
Já nenhum deles ouvia o
grito
do peito das gaivotas,
nenhum deles sentia já as
feridas nas mãos que à vida se
agarravam só com os remos e um pressentimento.
Já nenhum
tem nos olhos a alegria da
viagem do início à plenitude.
Um espelho verde reflete a trémula dança das folhas das arvores pegajosas de luz e verao Ha um restolhar dormente entre troncos e ramos a renda da toalha de sombras no chao convida a um abraço. O ar cheira a peras. A casa dos avós . O bafo preguiçoso do burro encostado ao poço. O cesto de ameixas luzidias como bolas de vidro amarelas e vermelhas. O espelho verde do ribeiro reflete a tremula dança de nuvens brincando com o pegajoso sol de verão. Sento-me a tricotar com agulhas da lembrança um casaco de infancia com muitas cores. Clélia Mendes Julho, 2013
e as calças, as camisas
sem o corpo mas não são invisíveis,
um a um, depois são muitos trazem o silêncio das
mãos, fechado na prisão dos dedos,
carregam crianças nas veias do
sangue do seu coração, vêm
fazer tréguas com a fome, voltam para
casa e fecham o rosto nas janelas e o
nome.
A rosa sustenta sozinha os olhos do mundo, dentro das pétalas um silêncio fundo a rosa dispersa-se na vista de quem passa a rosa esquecida sem sonhar, agora triste por não ter as asas Por ela hão-de passar as nuvens que apertam as estrelas, depois a chuva deixará na rosa o rasto da água pura.
Como é triste Veneza se não há amor como serão tristes as pombas da Piazza se não rodeiam um homem e uma mulher escondidos no fundo de um abraço como é triste sem ninguém a Ponte dos Suspiros como são tristes as gôndolas que envelhecem no asfalto.
das cores despertou, as
flores tornaram os ramos
aprazíveis e as abelhas expandem-se
suaves Mas o verão levou a
primavera e as suas manhãs
celestiais vão abrindo clareiras e
as ruas com raparigas, são
paisagens como os campos de morangos e um quadro de Gauguin Quase
tudo se resume às folhas no chão com o outono, os nossos
olhos só percebem os contornos
do Infinito e chegam as chuvas para
molharem a melancolia do inverno E tudo volta ao seu
trilião de princípios.
No chão manchado de vermelho e cinza o amarelo brinca entre as folhas e os papeis amarrotados de cadernos e bicos de lápis partidos. No bolso branco da bata a mancha azul do aparo lambuzado da caneta de pau. Tinteiro. Prova dos nove, fora a infância gritada no recreio. Bola de trapos . Sol na bochecha. Campainha aos gritos a chamar ao recolher. Orelhas quentes da correria e dedos da professora. "Ai o menino!" Todos os rios a desaguarem no Atlântico ou talvez não e as linhas dos comboios de áfrica onde um dia... até ao meu regresso. Nariz colado no vidro enjoativo. Noves fora, e vai um ao quadro. Giz que se parte em dois. Mais dois quatro. E a linha reta que se torna orgulhosamente curva . Lamarosa, Alfarelos...e outros apeadeiros clandestinos. Uma sardanisca subversiva trepa a janela. Galhofa da cambada. O ar adocicado do cardeal paira pegajoso sobre a dormência dos grilos nas franjas. A prova lambuzada de azul da tinta e o morse do ponteiro na tabuada dos 8... O chão manchado de cinza la fora onde o amarelo brinca com folhas e bicos de cor dos lápis partidos, enrola na brisa papeis amarrotados de contas. Fúria escarlate num "mau"...ai agora! As orelhas quentes da brincadeira e dos dedos do pai,"ai o menino!" Os ramos a crescer e as raízes quadradas dos anos a segurar por um fio rios e comboios de áfrica. Províncias de nomes estranhos onde um dia, até ao meu regresso - se plantaria noutro chão. Outro tom de amarelo a brincar com papeis amarrotados de contas "já falta pouco...e vai um" Tinta permanente no bolso da farda . Prova dos nove contada pelos dedos na gritaria do recreio da escola. Tão longe.
Alheia às ruínas da
terra para ela não há abismos,
das alturas há maravilhas, escuta as
canções dos abetos e dos pinheiros, dos
píncaros das florestas que o sopro do silêncio
espalha baila como se estivesse
nua e alimenta o vento com as
densas penas mesmo no céu os dias
sombrios queimam alguns, poucos, olham-na
como um ponto de referência que se move
e sabem que aos olhos não é
legítimo retê-la o seu bico é uma bússola
para todos os sentidos da rosa dos ventos.
Toca no meu coração delicadamente as cordas Com dedos ternos – seixos de um riacho Suave e quedo como asas de pomba Passando pelo castanho dos meus olhos Toca meu rosto Com esse sol andaluz da tua voz O gosto a tangerina dos teus lábios Toca a guitarra dos meus ombros Com o som quente do horizonte de onde vieste Numa misteriosa tarde de verão.
Telefona-me para o silêncio do meu coração, o som baterá no que resta ainda dos cristais nos recantos vazios da noite
Esta noite preciso da luz apagada da minha estrela
Chamo-te quando vem o silêncio desse lado do fio, do frio deste telefone público sem respostas na profundidade dos teus ouvidos caem as minhas chamadas há um grito no limite das sombras a perder-se no abismo.
Eles são pássaros
abertos e derramam Asas azuis, metalicamente Octogonais, eles sobrevoam
ombros No fluxo do rio da
multidão Mas Se o azul acender o sol,
os guarda-chuvas Pássaros fechados Se dissipam.
Um homem arrasta uma pedra terrível, está sozinho na montanha, entre o cume e o abismo tem um declive mortal a pedra é velha, lançou raízes o vento e as flores despontam na pedra, o vento ao passar lembra gazelas que cobrem o sol nas planícies e o homem chegado ao cimo assiste à sua pedra triste a rolar para o princípio.
Na Baía, num estanhado e escuro inverno, quando o sol tinha pouca coisa de Ipanema, numa estranha rua a ficar deserta, caminhei só com o som dos próprios passos para a poesia das estórias de Amado.
“Aqui cada um é o seu próprio carcereiro, irreconhecível e anónimo.” Paal Brekke (Poeta noruguês, trad. Amadeu Baptista)
Passam a mão pelo rosto e não encontram nada o nariz adunco faz uma curva para o abismo, os olhos sem possibilidade de evasão, os lábios apenas com a sintaxe da dor São estranhos marcados com seis pontas estelares como uma roda dentada que tritura o corpo Passam com as mãos nos ouvidos e sentem a falta das canções maternas.
Tão nus com uma nudez sem
sombra estão no chão, os olhos ligam-nos ao chão, só o
menino ergue a esperança que virá, o próprio mar humilha-se aos seus pés.
Sinto que as vozes batem, de novo nas paredes da minha cabeça, tenho a certeza que é o morse intermitente da loucura fomos felizes até surgirem estas vozes, duas pessoas jamais foram tão felizes como nós Abrirei os braços, soltarei os cabelos serão a cabeleira de uma ninfa nas águas deste rio, o meu corpo será um dardo na corrente Na margem deste rio sei que haverá um pescador de casaco vermelho, ovelhas espalhadas sob a sombra dos salgueiros Perdi tudo, menos este espaço pequeno que ocupo na morte, não vou continuar a estragar a nossa vida. Espero por ti no fundo rio.
Tudo em mim é um
pássaro. Adejo com todas as minhas asas. Queriam extirpar-te
mas não o farão.
(Anne Sexton, poeta americana, 1928-1974, morte por suicídio)
A sua vida começa pelo
fim não é fácil livrarmo-nos da morte, os
fumos do escape a cegarem seus
olhos com as lágrimas Escrevia cartas de censura
a Sylvia Plath porque lhe roubara a
morte, arrastando-se primeiro ao seu regaço a morte que estava pegada
à sua pele que respirava, escondida,
dentro dela da beleza dos seios,
bebendo-a como o leite da aurora.