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sábado, maio 28, 2016

A ORELHA





“Ponho-me no lugar 
Do silêncio da orelha de Van Gogh”

J.T. Parreira




o que uma orelha contém
é retirado quando uma lâmina
a corta: o trinado das aves, o murmúrio
de amor entre os ramos e o vento
o bater do mar contra os pés
o cicio do universo por dentro
certo crepúsculo também uma espada
excluiu a orelha de Malco
foi o poente sobre o que importava
ouvir, não cortes
disse Jesus, que se cortas uma orelha
te cortarão o tronco e a cabeça
abre-a bem, a orelha,
ela resgatar-te-á do nada
para o silêncio
de um mundo de palavras que ainda
não foram ditas



Rui Miguel Duarte
28-05-2016

quarta-feira, outubro 08, 2014

A morte do artilheiro na torre giratória do B-24


Poema Randall Jarrell

Do ventre da minha mãe caí no Estado,
E dobrado num útero de acrílico até meu blusão molhado congelou.
A trinta mil pés da terra, perdi o sonho da vida,
Acordei com a anti aérea e o pesadelo dos caças.
Quando morri lavaram-me para fora da torre com a mangueira.

Versão minha ©

quinta-feira, novembro 14, 2013

SAMUCA SANTOS, RECIFE ( 1960-2013)




ALGUNS POEMAS:


NENA

ela sabe dos boleros
e do rock’n roll
sabe do sonho e do pé no chão
do presente no futuro
do ácido que o ócio
derrama na espera
dos pensamentos que rolam
e do medo de perde-la
que as paixões me iluminam
ela sabe
todos os fogos
dos artifícios que nos unem
e tem os credos, cartilhas
onde aprendo a vida

 sem título
nunca minta para mim
deixe que eu invente
as minhas verdades

 FOTOGRAFIA
te encontro no baú dos fósseis
cedo envelheci
mas teu sorriso ainda me cega
teu olhar ainda me reduz ao pó

 REPENTE
tão simples, claro
quanto um beija-flor
parado no ar, chegaste
não tive tempo
de arrumar o mundo
nem de fugir

 RISCOS
quantos copos faltam
pra que a gente se afaste
e role pelos braços, alheios
à procura de nós?

 DONA MÚSICA
tem uma festa rolando
meu amor se veste, bela
e vai acender a noite
dizer que é bela
é pouco:
nem tão belle époque
nem tão afro-chique
meu amor e mil motivos
pra festa rolar
e eu aqui,
de touca na rede


quinta-feira, fevereiro 02, 2012

EXEMPLO, poema de Wislawa Szymborska

A ventania
despiu todas as folhas das árvores na última noite
excepto uma folha
deixada
para brincar na solidão de um ramo nu


Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor
tem sentido de humor de vez em quando.

(Tradução de J.T.Parreira)

EXAMPLE

A gale
stripped all the leaves from the trees last night
except for one leaf
left
to sway solo on a naked branch.

With this example
Violence demonstrates
that yes of course –
it likes its little joke from time to time.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Exercício sobre cores


Inéditos do poeta residente Brissos Lino


2

Verde

Confunde-me a tua diversidade tonal
a riqueza com que te vestes
mas o mar, sempre o mar oceano
a reinventar aquele verde imenso
imperador

se eu me chamasse Esperança seria
uma esmeralda
como tu.

14/1/12

3

Vemelho

De fogo nascida
paixão devastadora
fogueira lavrada em terra seca
dormindo no olvido
lábios que insinuam uma maçã
suculenta e breve
entre romã e rubi
fico com os olhos incendiados
de ti.


15/1/12




segunda-feira, janeiro 16, 2012

Exercício sobre cores



Inéditos do poeta residente Brissos Lino


1.

Azul

Sei que me fazes doer o olhar

sempre que pintas um céu limpo

de Verão

imaculado

que me fazes deslumbrado quando assomas

nas janelas da alma

de uma mulher

que me fascinas

quando o teu nome é

safira


ah, se eu pudesse voar nesse céu

habitar esses olhos

seria como pedra preciosa. Atrairia

a fortuna.

13/1/12








segunda-feira, setembro 05, 2011

Cambridge, Primeiras Impressões, Gregory Corso




5


Cansado de andar
cansado de ver nada
olho por uma janela
pertencente a alguém
bastante amável para me deixar olhar

E de uma janela Cambridge não é assim tão má
É uma grande sensação saber
que a partir de uma janela

posso ir aos livros a um amor antigo e às latas de cerveja
E de tudo reunir o sonho suficiente
para me esgueirar pela porta das traseiras



Trad. J.T.Parreira

quarta-feira, junho 15, 2011

O Banho (no Miño)


Poema de Francisco X.Fernández Naval

Tomávamos banho nele
mas sempre lhe tivemos medo
que havia lodo no fundo
e os pés resvalavam nos seixos
e no escuro
e tinha charcos e água a borbulhar
e entre as pontes
remoinhos do mistério.

Dizíamos cantigas populares
porém tremíamos
e regressávamos de autobus vermelho
cheirando a lama fresca, a urzes e saibro

Tínhamos medo
de nos vermos meninos
nos olhos velhos do rio,
no silencioso sangue
das poças,
evitávamos o seu abraço de estío e de sargaço,
de poço,
de remoinho escuro.

(Tradução de J.T.Parreira)

domingo, setembro 26, 2010

Esquecimento, Hart Crane

Esquecimento é como a canção
Que, livre de ritmo e medida, flutua
Esquecimento é como a ave cujas asas se encontram,
Distendidas e imóveis, --
Uma ave que rodeia o vento infatigável.
Esquecimento é chuva nocturna
Ou uma velha casa na floresta, -- ou uma criança.
Esquecimento é branco, -- pálido como a árvore desolada
E pode enganar as profecias da Sibila
Ou sepultar os deuses.
Eu posso lembrar muito esquecimento.

(Trad. de J.T.Parreira)

sexta-feira, setembro 10, 2010

Tu sabes? (pergunta sobre o holocausto das crianças)

Poema inédito de Clélia Inácio Mendes

Tu sabes onde foram as crianças, Sabes onde estão?
Sabes porque se ouvem notas musicais de flautas
E ninguém dança…
Sabes porque há ainda marcas de anjos
No chão frio da tarde e delas nem traço?
Sabes das crianças, João aquelas crianças que espreitavam
Pelo arame pingado de sal de olhos
Debaixo do céu sem cor e trapos de silêncio
Por onde foram?
Senta-te um pouco na soleira da alma com a poesia na mão nua e a tinta
Do sangue nos caminhos por onde elas não passarão.
Aquelas por quem pergunto e não vejo, nem a sombra, nem o riso partido
Do espelho a que falta pedaços.
Eu fico também aqui sentada nesta pedra suja e gasta
Espreitando agora pelo arame pingado de sal, com os dedos crispados
E a boca despida de gritos.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Poesia para a Música: Schubert

Poema inédito oferecido pela Autora, minha amiga de infância.

A voz que ouvi não era o ramo que tombava breve
Na floresta
Era o suave toque de uma asa repentina ou mesmo um pássaro
Assustado que se escondia
A voz não era o ondular do piano mansamente
Na imensa sala dos meus olhos
Era um cheiro de terra e orvalho
Um sopro morno que abraçava e enlaçava o corpo
Lá nesse lugar onde a alma estremece.
Depois parou.
(Clélia Inácio Mendes)

segunda-feira, agosto 09, 2010

Lição sobre como acabar um poema

ATÉ AO FIM

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

(Nuno Judíce)

sábado, junho 05, 2010

Procura-se: Perdido na Cidade

Perdido na cidade
entre homens e bichos
o caminheiro processa a sua
habitual peregrinação laica
todos os dias
às horas banais
as pernas o levam exactamente
aos mesmos poisos
inserido em tétrico bando
de aves cinzentas
e mudas
nem sorrisos envergonhados nem o olhar
musical de uma criança
lhe deixam vislumbrar sequer
um pequeno raio de sol
que saiba aquecer
a alma cansada.

3/6/10

(Brissos Lino)

quinta-feira, junho 03, 2010

Do livro inédito: "Fluxos da Memória":

Ai, se o vento me levasse
Na orla infinda das marés
Que ainda me salpicam!

Ai, se o vento me levasse
No espasmo matinal
Do cheiro eterno das flores!

Aí permaneceria, cândida, pura...
No seio de uma alegria sem fim
Que me acalentaria a alma.

Já não choraria mais
A criança que não fui
Ou a infância que não tive.

Voltaria a brincar com os infantes.
E, finalmente, sorria
Na transparência de um desejo inocente.

(Isabel Rosete)

poema cedido pela autora para o Poeta Salutor

quinta-feira, maio 27, 2010

Voo de Ti


Inédito do poeta Brissos Lino

Voo de ti rumo a um amanhã
que me desvenda uma larga
planície verde
salpicada de amarelo
vivo
extasiam-se-me os sentidos
de alto a baixo
porque só a partir de ti
sei voar
rumo a um amanhã
que pode ser um oceano
de prazer
uma epifania dos sentidos
ou um céu azul limpo
gentilmente bordado com fios
de seda e sonho
se não voar de ti é só porque
alguém me cortou
amplas asas
pedi que me investigassem o crime
e disseram-me que talvez
tenhas sido tu, não? Há cada coisa
que se faz por amor…

19/05/10
(Brissos Lino)

quinta-feira, maio 20, 2010

Um "thriller" psicológico em poema



O EXACTO MOMENTO DO CRIME

do poeta residente Brissos Lino

O assassino esconde
dentro de si
o exacto momento do crime
transita-lhe quente
nas veias
escorre-lhe pelas paredes
da consciência
e quando chega aos pés
ata-lhe os sonhos
a um poste negro
de imobilidade
e impotência

o assassino não morre
vai morrendo devagar
porque a vida acabou
no exacto momento do crime.

18/5/10


(Brissos Lino)

quarta-feira, maio 05, 2010

O sapato no pé do poeta:


O sapato do poeta

Sapato que se preza olha em frente, poema inédito

Sapato que se preza olha em frente
sempre em frente
levanta a biqueira quanto possa
alinha com as linhas do futuro
procura sempre
o mais longe

sapato que se preza veste o pé
de quem serve
adapta-se-lhe como uma pele macia
de boa qualidade
- é melhor para os dois -
e olha em frente
sempre em frente

sapato que se preza
conta com uma retaguarda sólida
bem assente no chão
mas olha em frente
sempre em frente
de onde vem a luz.

27/4/10

(Brissos Lino)

quinta-feira, abril 29, 2010

O poeta: «Quero dizer um piano»

Poema inédito do colaborador/poeta residente Brissos LinoQuero dizer um piano
na tua boca
aconchegar-te uma intenção de amor
sobre o peito
sussurrar-te aos ouvidos
uma bela canção napolitana
até chegar a ver uma flor amarela
envergonhada
a boiar nos teus cabelos

quero depositar-te o Sol no regaço

e depois esperar toda a sinfonia
que escorrerá
dos teus olhos.

21/4/10


(Brissos Lino)

sábado, abril 24, 2010

Abri o livro


Abri o livro e afundei-me nele
(bem que me tinham avisado
que era objecto perigoso)
só na última página consegui
vir à tona
e os que me esperavam ansiosamente
admiraram-se
com o meu sorriso enigmático
de peregrino
de outros mundos.
23/4/10

(Brissos Lino)

terça-feira, abril 20, 2010

EYJAFJALLAJOKULL


poema inédito do poeta Brissos Lino

Rugem demónios de fogo
na ilha gelada
a revolta telúrica brada
aos céus
recorrentes indignações

e essa tosse cavernosa e doente
das entranhas
esse cuspir insistente
de braço dado com Éolo
perturba o voo das aves
e dos pássaros de ferro
no mundo dos homens.

20/4/10

(Brissos Lino)