terça-feira, outubro 22, 2013

A GARE DO ORIENTE



No fundo da Gare do Oriente
existe um silêncio de olhos no chão.

Os corações estendidos

no abrigo do peito, acolhem-se
nos bancos de pedra, os sem
-abrigo abraçados aos sapatos,

procuram aconchegar a noite
no estômago,
e no fumo de um cigarro
erram os sonhos e o fantasma do lume.

21/10/2013
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quarta-feira, outubro 16, 2013

Ingenuidade



Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.

14/10/2013
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quarta-feira, outubro 09, 2013

O Poeta e o Pássaro




(Pormenor da capa do último JL)




 para António Ramos Rosa

De súbito toma o pássaro o silêncio
do poeta como um vegetal
sentado no jardim,
os braços quietos, as mãos abertas de onde partem
ramos de dedos pousados nos joelhos
do poeta, de súbito a ave fica imóvel
trocou o arbusto por outro
o ombro do poeta.

9/10/2013
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sexta-feira, outubro 04, 2013

JUDAS ISCARIOTES COMO COSTUMAVA SER



Judas Iscariotes continua deste lado
dos nossos olhos
procura o melhor ângulo da traição
a esquina da cilada
no nosso nariz o seu olfacto
avalia o perfume dos unguentos
Judas Iscariotes continua
a sentar-se deste lado e estende as mãos
para apalpar o amor da raiz
de todos os males, e Judas continua
a usar a sua voz nocturna
para esconder o beijo mortal.

26/8/2013
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segunda-feira, setembro 23, 2013

Baile Gitano


(Baile Gitano, 1914, Anglada-Camarasa
Museo Carmen Thyssen, Málaga)



Era uma água corrente, uma cascata
os seus vestidos
o baile era um céu ao pôr do sol
eu queria a gruta profunda dos seus olhos
que mundo de princípios escondia
porque era uma cigana
e suas mãos apaixonavam-se
no ar quando dançavam.

23/9/2013
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segunda-feira, setembro 09, 2013

O MESMO POEMA, SEGUNDO SHELLEY





Tantas luchas que há costado, / tantos afanes en vela”
Pedro Salinas                                                                


Há anos que escrevo o mesmo poema
os meus dedos
conhecem o caminho e guardam silêncio
conservam o que tenho
para que ninguém tome a minha coroa
há anos que gasto as minhas mãos
nas mesmas pedras

O mesmo poema lavra-se
lava-se cada dia na corrente sanguínea
para as visitações da divindade

Não há novas palavras é engano
dos dicionaristas, polir palavras
para serem novas como os que restauram
telas ou as colunas do Parténon

Por isso há anos que escrevo o mesmo poema
sem aparências, não há outros
os poemas são como os pássaros de Salinas
o mesmo pássaro imenso.

8/9/2013
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terça-feira, agosto 20, 2013

ELEGIA DE DAVID QUANDO PERDEU UM FILHO




Se eu encostar a minha lira ao silêncio
apaziguarei a minha dor? 

Decretaste, Senhor, aí em cima,
poupar a vida da criança?
Não estão nuas ainda as minhas preces?
Os meus lábios movem-se em sobressaltos

De saco e cinza me visto e na terra me deito
emerge dos meus poros a água
da tristeza e o sangue desta minha dor
que reverte ao coração

Ó meu coração isolado do mundo

Porque morreu o menino, com a mesma pureza
com que vive um pássaro
até cair da sua linha invisível do céu

A sua vida vai deixar a minha
poderei eu fazê-la voltar?

Ó pequena criatura, que foste a figuração
do meu amor inacabado
Eu um dia irei para ti, porém tu
não voltarás para mim

10/5/2013
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quinta-feira, agosto 15, 2013

A Transfiguração




Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde

Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,

a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,

o vento cantava no cume da montanha,
 
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza
da morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.

9/8/2013
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domingo, agosto 04, 2013

Depois do Dilúvio



Voltaram para casa
Noé e os filhos, para o princípio do solo,
o primeiro dia da terra com a luz
a secar as águas.
Começou Noé a plantar uma vinha
para colorir o silêncio das colinas,
e os seus pés
moveram-se no ar e riu e cambaleou
dentro de si, na alegre nudez
do seu regresso.

4/8/2013
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quinta-feira, agosto 01, 2013

O Bote



Apenas lhe ocorreu que se se afogasse seria uma pena
Stephen Crane (“O Salva Vidas”)


Já nenhum deles sabia a cor do céu
o vento levava
a negridão das nuvens aos andares celestes
as águas
eram um muro que desmoronava
como avalanche branca

Já nenhum deles ouvia o grito
do peito das gaivotas, nenhum
deles sentia já as feridas
nas mãos que à vida se agarravam
só com os remos
e um pressentimento.

Já nenhum
tem nos olhos a alegria da viagem
do início à plenitude.

1/8/2013
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segunda-feira, julho 22, 2013

O VERÃO




Um espelho verde reflete a trémula dança das folhas
das arvores pegajosas de luz e verao
Ha um restolhar dormente entre troncos e ramos
a renda da toalha de sombras no chao
convida a um abraço.
O ar cheira a peras. A casa dos avós . O bafo preguiçoso
do burro encostado ao poço. O cesto de ameixas luzidias
como bolas de vidro amarelas e vermelhas.
O espelho verde do ribeiro reflete a tremula dança
de nuvens brincando com o pegajoso sol de verão.
Sento-me a tricotar com agulhas da lembrança
um casaco de infancia com muitas cores.

 
Clélia Mendes
 
Julho, 2013

segunda-feira, julho 15, 2013

As manhãs de Penélope


É primordial toda a manhã
de Penélope, o tear começa
a emaranhar os fios nos dedos

de Penélope,

como um ribeiro
desliza no silêncio
o fio da lã
que vai vestir a morte de Laertes,

enquanto os olhos de Penélope na manhã
primordial, apetrechados de asas
vigiam o amplo mar divino.


15/7/2013
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terça-feira, julho 09, 2013

ALFARROBEIRA EM FLOR, William Carlos Williams




Do meio
dos
verdes

 
rijos
velhos
húmidos

 
tortos
ramos
chega  

 
branco
amável
novo

 
Maio.

© Versão de J.T.Parreira

sexta-feira, julho 05, 2013

Salmo brasileiro de Portinari





Toda a música vestida de flauta
e clarinete e afagada nas cordas
toda a música de branco
louva onde quer

que nossos ouvidos se humilhem.

5/7/2013

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segunda-feira, junho 24, 2013

ALMOÇO NA RELVA




Trazem as pálpebras semiabertas, o olhar
envergonhado, se pudessem os vestidos
e as calças, as camisas sem o corpo
mas não são invisíveis, um a um, depois
são muitos
trazem o silêncio das mãos, fechado
na prisão dos dedos, carregam
crianças nas veias do sangue
do seu coração, vêm fazer tréguas
com a fome, voltam para casa e fecham
o rosto nas janelas e o nome.

24/6/2013
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quarta-feira, junho 19, 2013

Delicadeza de Deus


Dos ramos do vento, caiu uma folha
bateu-me
nos cílios. De modo diferente
achei grande a delicadeza
de Deus.
2/5/2013
 
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terça-feira, junho 11, 2013

A rosa só num banco de jardim

A rosa sustenta sozinha
os olhos do mundo, dentro
das pétalas um silêncio fundo
a rosa
dispersa-se na vista de quem passa
a rosa esquecida
sem sonhar, agora triste
por não ter as asas
Por ela hão-de passar as nuvens
que apertam as estrelas, depois a chuva
deixará na rosa o rasto
da água pura.

10/6/2013
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segunda-feira, junho 03, 2013

RACH nº 3


Pequenos jorros de água pura, o que vem primeiro
depois o acariciar as crinas dos cavalos
que esperam, escondidos sob as teclas
começam um tropel, os teclados
surpreendem-se com os dedos do silêncio
então despertam, do fundo
das cordas mais humildes, invisíveis os ouvidos
aguardam do pianista o misterioso vendaval.

3/6/2013
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