segunda-feira, abril 28, 2014

HELENA DE TRÓIA



“Helena de alvos braços / Helena, divina entre as mulheres”
Canto III, da Íliada, de Homero

 Pela beleza dos teus olhos mil navios
fazem-se  ao mar, pelo fogo
que o vento nos teus cabelos despenteia
mil olhos ficaram com insónias

Pelo amor inatingível do teu corpo
mil homens dão o peito à morte
e pelo ouro dos teus lábios, gritam
nas praias de Tróia mil heróis

Pela tua beleza transparente nos vestidos
erram ainda cegos pelos campos
à procura de vestígios.

27-4-2014
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domingo, abril 27, 2014

Novo livro de poesia, lançado em Pontevedra


Lançado em Pontevedra. no dia 25 de Abril, na Fundación Cuña-Casasbellas, com a presença do autor e do prefaciador.

" RECOMENDAÇÕES PARA ENTRAR NO SÓTÃO

Entrar com os olhos muito abertos
porque a luz se esconde
atrás do pó, das coisas
que esquecemos, alguma há-de
ser a nossa infância, trará sapatinhos
de verniz, um laço
dos casamentos das tias
uma tabuada com as contas
furadas de um dos filhos
cadernos com línguas estranhas
um Ferrari
repentino sem uma roda
uma subida até aos Himalaias
de uma teia de aranha remendada
Por que será que o sótão
está sempre no derradeiro andar da vida?"
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Pedidos através de:
http://www.eltallerdelpoeta.com/

domingo, abril 13, 2014

GAUGUIN CHEGA À POLINÉSIA




Olhos postos nas mulheres
às cores
tu virás do mar
pacífico nos teus olhos o desejo

verás o ritmo das folhas dos coqueiros
 que remam contra o vento
a água abundante
que refresca o sol nos corpos

à noite
tu virás para ver perto do chão
verdes, escuras e tangíveis
as únicas estrelas.


13-04-2014

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quarta-feira, abril 02, 2014

Dia Mundial do Livro Infantil: Para Desenhar Uma Flor


PARA DESENHAR UMA FLOR

Primeiro faz-se subir da escuridão,
em que as raízes dormem,
um caule, depois
conhecemos
os passos que em silêncio dá, primeiro
um botão
que já revela o ponto ómega. A seguir,
como um lápis lazúli que esconde a mão invisível,
abre-se uma corola e com cuidado,
mesmo que as folhas anoiteçam,
vai-se desenhando a claridade da flor.

2/4/2014
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segunda-feira, março 31, 2014

[OLHO PARA O MISTÉRIO DA SOMBRA CONHECIDA]


"E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior"
Álvaro de Campos


Olho para o mistério da sombra conhecida
Fica para trás o navio como mistério parado
No espelho do rio, ao fim da tarde
O dia começa o descanso da pedra
Da  vida marítima, da Distância
De onde se vem, o barco trouxe a névoa
De quem chega, que se dissipa
Numa saudade cumprida, olho
E o meu olhar é inocente
Entre a sombra conhecida, e o mistério
do rumor oleoso do Tejo, tão inocente
que meu olhos não sentem barco nem cais
só a alegria parada do fim da tarde
Por não saber que havia ilhas e grandes mares
Todos ligados entre si porque a Terra é redonda.

30-03-2014

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segunda-feira, março 24, 2014

AUSÊNCIAS




O silêncio já não é igual
àquele de quando está gente em casa.

Esse silêncio não tem forma de corpo e nem ocupa
o ar quando passamos, não estamos
presos à sombra, sentados, e o gato,
imerso no seu sono,  reconhece-o
e não corre na alegria das patas pelos quartos.

24-03-2014
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sábado, março 22, 2014

RENOIR


Não há nas naturezas-mortas de Renoir
um fruto falso, nos nossos olhos escondido
cresce o desejo de morder

pêssegos, maçãs e a exuberância do pão
mesmo assim entre migalhas
no Cabaret de la mére Anthony

e vemos num instante o fruto apetecível
diante da nudez rotunda das mulheres de Renoir
como a luz, que voa numa asa de seda de libélula.

22-03-2014

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sexta-feira, março 14, 2014

OS PESSEGUEIROS



“Onde pessegueiros pequenos estão em flor - tudo é pequeno lá (…) é a razão porque o assunto me atraiu. " 
Van Gogh


Os pessegueiros de Van Gogh esperaram
que a neve fosse deixando o silêncio
do branco tomar forma
de pequenos sóis, com os ramos
abraçados
Então os pessegueiros de Van Gogh
começam a ser árvores sonoras.

14-03-2014
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quarta-feira, março 05, 2014

A MULHER DE SAMARIA


(Annibale Carraci, 1560-1609)



Não é qualquer uma. É uma mulher ao meio-dia
De olhos no chão, equilibrando o cântaro
Frágil
Cada lágrima que esconde

É uma mulher que teve abraços
Beijos na sua face morena, escondida
Em silêncios

Não é qualquer uma, é uma mulher
Que conhece bem o seu rosto
No espelho triste do fundo do poço

É uma mulher ao meio-dia
Que resiste, mesmo que isso a torne
Invisível, para que outros não tenham sede.

2-03-2014

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sexta-feira, fevereiro 21, 2014

AS COISAS PASSAM-SE ASSIM



Nada muda para um gato, as coisas
são dias iguais, mas percebe
pelos passos do amigo, pelas mãos
mais rápidas do que o ar,
ou cheias de sacos de viagem
que alguma coisa não está bem,
que vai sair e depois que a alta sombra
do amigo em casa desabou, porque faltam
uns joelhos onde se sentar, a mão
a segurar o gin tónico na varanda
e os joelhos onde andarão?
A nossa solidão faz falta ao gato,
é uma sombra dele mesmo
quando passa orgulhoso por nós
e nos ignora e adormece
onde nada mudou.

13/8/2013
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sábado, fevereiro 08, 2014

ESTÁ PRÓXIMO O FIM DO VERÃO (uma leitura bucólica do Apocalipse de João)

(Michael Ticino)


A saudade sonora das cigarras
quando a tarde se inclina nas searas

A solidão dos grilos, a certeza
das folhas caídas, que se entregam
aos dedos do vento atarefados

Não sei como sentem
As estrelas, mas esperam no silêncio
Adormecido das distâncias.

8-02-2014

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terça-feira, janeiro 28, 2014

40º Aniversário do Manifesto "Nova Poesia Evangélica"


J. T. Parreira: “a poesia é a passagem do não-ser para o ser”


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Cumprem-se, dentro de dias, quarenta anos sobre a publicação do Manifesto por uma Nova Poesia Evangélica (NPE), simultaneamente no Brasil e em Portugal. Este documento histórico foi assinado no país irmão pelos poetas Joanyr de Oliveira, brasileiro (já falecido) e João Tomaz Parreira, português, e em Portugal também por Brissos Lino.
É tempo de fazer um balanço. Daí a longa entrevista a João Tomaz Parreira.

Entrevista de José Brissos-Lino (c)

sábado, janeiro 25, 2014

JUSTAMENTE, inédito de Rui Miguel Duarte


“… e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura…”
Mário Cesariny, “Uma certa quantidade”

justamente — dizes
são os poetas, os que caem e vêm à procura
em cada pedra o sol 
gente, pássaros de regresso ao Norte
do que já não precisamos, do que já temos
a pólvora, a gente, a agitação das ondas
a perturbação da areia
a fugir
justamente — dizes
são os poetas, os que aparecem de repente
quando já
não eram requeridos, 
quando já
foram, estão substituídos
quando já a comida tem sal
que chegue, mas para que precisamos do sal
afinal, se nem temos o vinho?
justamente — dizes
são os poetas, os que doem 
e fingem aqui e acolá, que não 
cantam, mas emitem pássaros
que cantam por eles
quando já não são precisos
quando são poetas

Rui Miguel Duarte
23/01/13




(Busto/Estátua de David Mourão Ferreira, em Oeiras)

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Uma mulher sentada em qualquer sítio



Escolheste-me mal
para olhares para mim, os meus olhos
não condizem com a alma
O meu cabelo desatado são pontas
de um verão que insiste
em ser perpétuo, cada um dos meus dedos
enrugou as coisas, à minha volta
o perfume é uma mentira fragrante
mas defende-me, o meu vestido
é apenas um véu
de mulher que deveria ser plausível.


 23-1-2014
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sábado, janeiro 11, 2014

O Brinco

Vermeer, A rapariga do brinco de pérola


Ali começa a nascer um sistema solar, um planeta
move-se  na orbita do rosto, brilha
ainda uma breve sombra
do abismo
ali de onde a luz se ergue. Um espelho
começa ali naquele rosto
onde a beleza sorri entre os lábios
um silêncio.

11-1-2014

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quarta-feira, janeiro 08, 2014

NAVEGANDO PARA A TERRA DE NINGUÉM








“That is no country for old man”
W.B.Yeats

 
Ali  não é país para os velhos, os ramos
estiolados das primaveras, as bengalas
gastas a estenderem-se das mãos, enquanto puderam
podaram rosas
altivas nos olhos juvenis, agora
têm a dança solitária da tristeza  
nos seus sonhos, isso não é país
para os velhos, vivem tanto tempo
e pesam demasiado espaço aqui,  há a terra de ninguém
mandem-nos para lá, há pouca certeza
de que sobrevivam, estão grisalhos
mandem-nos para o Ocidente
onde se apaga a luz do sol.

 
7-1-2014
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quarta-feira, janeiro 01, 2014

LIVROS, inédito, de Brissos Lino


 


 

 Vida e sonho em camadas
escada para subir os degraus
da existência

sangue
suor
lágrimas
afectos
crenças
risos
medos
à luz de súbitas latitudes

sopa de palavras e emoções
com cheiro e sabor estranhos

as lombadas do tempo apontam
à aventura dos mundos.

 
30/12/13
 
© Brissos Lino


(O último poema do ano 2013 do poeta)

terça-feira, dezembro 31, 2013

ANDAR SOBRE AS ÁGUAS





Sob os seus pés, os átomos da água
rendiam-se, o mar não tinha fundo
voava
como as aves que não pesam sobre as árvores
o mar dormia sob o peso divino
com o mesmo silêncio do veludo.
 
30-12-2013
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Publicado inédito aqui: http://ovelhaperdida.wordpress.com/2013/12/31/andar-sobre-as-aguas-inedito-de-j-t-parreira-a-fechar-2013/

terça-feira, dezembro 24, 2013

BORRASCA



O vento uiva onde quer, e fechamos os olhos
E sentímo-lo a partir-se contra o barro
Das flores na varanda, a rasgar-se
Nos vidros
A ondular como água ancestral nas janelas
Ocupa-nos as frestas do medo, depois
Descansa
E volta a tremer em tudo, como um trem
Que passa inesperado noutra linha
Ao nosso lado
E faz chocalhar tudo dentro do silêncio.

24-12-2013
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quarta-feira, dezembro 18, 2013

CHEGOU O MENINO


 

 
Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido.

Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo

Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.

 18/12/2013
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(Imagem do Facebook - Desert-rose)