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sábado, abril 14, 2012

Tróicas, com um inédito de Brissos Lino



OS NOVOS VAMPIROS

Os antigos atacavam em bandos
pela calada da noite
estes atacam ao meio-dia
em directo na televisão
com um sorriso tímido nos lábios
e um olhar compungido
de mãos postas
como se tivessem dó
das vítimas
e sem nunca sujar o fato caro
nem a gravata fina.
     
11/4/12         
Brissos Lino


TRÓICA (i)  

É um tridente
que nos dói aqui.

TRÓICA (ii)

Eles são muitos
eu pouco.

11/4/2012






quinta-feira, janeiro 12, 2012

Cantares de Salomão com uma gravura

(inédito)

O despertar do dia
na respiração de ambos, o odor
orvalhado do amor
Veio voando sobre as pernas o gamo
saltou sobre os outeiros
os seus olhos o alvo procuravam
o aroma da corça
para, na carícia familiar
do beijo, respirar.

12/1/2012

quinta-feira, junho 23, 2011

Fazer Poesia Social com lirismo

Manuel Bandeira acabou por ensinar a fazê-la, mas não correu riscos de fazer a poesia social cair no execrável panfletarismo a que muitos poetas cedem. O exemplo é o poema “O Bicho”.

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

(1947, Belo Belo)

Aqui, ainda que pareça, não é metáfora, nestes versos de matiz social, a personagem que desde o primeiro verso percorre o poema, como uma entidade que paira supra poema ( o poeta viu “ontem”, a memória a doer), é factual.
Existe até final do breve poema a desconstrução da ideia que poderia ter-se, talvez na obscuridade, talvez na névoa da manhã cedo, de que quem procura no lixo é um animal vadio, e também a desrealização da narrativa poética para uma narrativa social sobre o último limiar da pobreza.

A frase do desvendamento é uma exclamação do espanto do poeta. Manuel Bandeira, que através do seu forte lirismo de acento modernista, já havia feito incursões belíssimas no verso social, com expressões de solidariedade pelo elemento dos desvalidos, dos pobres, dos suburbanos, das pobres mulheres da rua, em versos como: “Beco...fôste rua de mulheres? / Todas são filhas de Deus!”, “Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça”, “Pálidas meninas/Sem olhar de pai”, “Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas”.

Agora é absolutamente declarativo: “O bicho, meu Deus, era um homem”, sem sinal de exclamação, uma vez que esta é interior, faz parte da diegese, digamos assim, poética; é o próprio verso toda uma exclamação.

Houve exegetas da poesia bandeireana, designadamente deste poema, que concordaram em que o sofrimento aqui não é do homem que procura comida nos restos, da civilização e do consumismo, do desperdício e da riqueza, que não cheira, não examina o que encontra, ao contrário, engole “com voracidade”, dizem esses intérpretes que o sofrimento é do próprio poeta.

22/6/2011

segunda-feira, agosto 02, 2010

Duas poiéticas que levam a obra a Abril



Se na poesia contemporânea portuguesa há dois poetas distintos no seu discurso poético e na sua poiética (o modo de construir seus poemas), são, sem dúvida, José Gomes Ferreira e António Ramos Rosa.

Aquele trabalhava a metáfora lírica, grande parte dos poemas inserindo-se mesmo no que poderíamos dizer proximidade do surrealismo, mesmo nos seus poemas cujos referentes eram Memórias, «Na infância da janela do primeiro andar/ aquela rapariga de corcel nos cabelos» ou «O sol corria/ nos bibes do vento»;

Ramos Rosa, por seu turno, está integralmente dedicado à poesia pura, e não encontro melhor exemplo do que o conteúdo do seu livro “Ocupação do Espaço”, e o das suas mais recentes obras. Poeta da linguagem, talvez o Saussure ou o Roman Jakobson das relações entre linguística poética e a ciência dos homens, uma antropologia no poema: «Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.» ou «tenho o coração confundido e a rua é estreita», «soletro velhas palavras generosas» «Não posso adiar o amor para outro século»
É interessante pois notar um pequeno poema de ARR cujos referentes são dois: Abril e o próprio Ferreira, o autor de Memória das Palavras. O gosto de falar de um poeta, fazendo-o crescer por detrás do sol, evocando-o profeticamente, sem a prisão cristalina e rochosa da Sibila (que não tem lugar na Poesia), como “homem de Abril”.
O mês de Abril sempre surgiu nos poetas com a força das suas próprias raízes, que despontam, ancestrais. Desde Chaucer ( When April with his showers sweet with fruit) a Withman, até ao definitivo “Abril é o mais cruel dos meses, gerando / Lilases na terra morta).

sábado, julho 17, 2010

António Ramos Rosa - A rejeição consciente de um lirismo

A arte literária encontrou no Século XVIII e IX a lírica como a mais poética forma de poesia, uma forma descentrada do mundo exterior, conhecido por fora pelos homens, para o mundo interior do próprio poeta. Este passaria a expressar-se perante o mundo com o lirismo da sua observação. O lirismo seria o que transformava as pedras em rosas, e estas em pães. Seria necessário um equilíbrio. Uma tensão entre o que se cantava e o objecto do próprio canto.

António Ramos Rosa, não apenas como grande poeta da língua, mas também grande pensador sobre o fenómeno da poiética e antologiador da valorização da nova poesia portuguesa (anos 60), apontou o lirismo nesta poesia ao escrever sobre poetas (Incisões Oblíquas, A poesia moderna e a interrogação do real I e II.), mas objectivamente e, como tal, conscientemente rejeitou-o, salvo melhor opinião.

O padrão das palavras que ARR emprega não é normativamente lírico, embora esteja nele a expressão pessoal do poeta. Estilo e expressão próprios do poeta. António Ramos Rosa interrogou o real de outro modo. Com uma Poética e uma Poiética pensada e elaborada. A sua palavra não era tributária do lirismo, mas era, segundo o seu próprio pensamento, uma palavra poética. “A verdadeira poesia ignora a afirmação fácil”, escreveu, por vezes a facilidade na poesia reveste-se da superfície do lirismo, este às vezes cega.

Poeta sempre na chamada, por ele próprio, “linha da sombra”, à partida da qual a claridade poética surge, “com a sua margem de indecisão, de interrogação, de acaso, de aleatório”. Exemplos de não submissão ao padrão do lírico? E de uma integração da plena verdade, nua e crua, poética?

“Não trago lâmpadas nem armas/Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte / é um dia baço como um pão”

“Escrevo versos ao meio-dia /e amorte ao sol é uma cabeleira/(...)/Estou vivo e escrevo sol”

No entanto, em um dos seus primeiros e mais conhecidos poemas inserto em o Grito Claro, de 1958, (poemas imagísticos no seu todo, mas não líricos), ligados ainda a um condicionalismo lírico-social, o poeta tem estes versos deliciosos em “O Funcionário Cansado”:

“o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
E debitou-me na minha conta de empregado”

E estoutro, de 1990, do livro O Sim e o Não, Um deus adormecido num jardim ( só o título do poema já carregado de lirismo):

“Eu vi o seu sorriso sob a sombra das folhas
E vi-o adormecer. Senti que mergulhava
em plácidas águas.Um tesouro
fulgurava entre as pedras e os limos”

Não ousaria dizê-lo, para terminar, mas sempre digo que a poética de ARR tem na sua magistral e única Poesia a presentificação da disciplina da Filosofia, hegeliana por suposto( basta ler Ocupação do Espaço). Perdoem-me este ensaio.

(Escrito em 17/7/2010, para o Grupo Leitores da Poesia de ARR, no Facebook)

domingo, maio 30, 2010

O Silêncio Poiético

A poesia, mais do que outro género literário, consubstanciada no Poema é tanto mais verdadeira quanto maior for a contradição a que abre caminho. A dialética dos contrários faz de qualquer poema um grande poema, porque se não houver tensão, dialogia na pura aplicação dos ensinos de Bakhtin, confronto no poema, não existe verdade poética. Novalis dizia-o, «quanto mais poético mais verdadeiro» porque «a poesia é o autêntico real absoluto». É preciso por vezes refutar sujeito e objecto.

Na instauração, digamos assim, da obra de arte que é o poema, na poiética, a obra-no-acto-de-fazer, o silêncio é a sua matriz tanto quanto a palavra.

A poesia não nasce do ruído

O ruído não é poesia, poderá ser matéria de poema, poiético, como o foi para Álvaro de Campos, no dealbar do modernismo, o barulho da civilização e da maquinaria na Ode Triunfal ( Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! ) ou mesmo as interjeições na Marítima ( Grita tudo! tudo a gritar! Ventos, vagas, barcos, [...]Eh-eh-eh-eh![...] )

Mas a poesia não nasce do ruído, tal como a música, a sua produção, direi de ambas, enquanto poiesis no vero e amplificado sentido aristotélico vem da planície dos silêncios, onde a palavra está no caso da poesia. No dicionário? Pois bem, sim, Drummond de Andrade disse-o, para se buscar no reino das palavras o poema, um vocábulo no seu limbo, no seu estado de dicionário, em conjunto com outros onde reside o poema, só e mudo. Silencioso.

Há do mesmo poeta uns versos exemplares sobre a luta com as palavras, que exprimem o paradigma do silêncio matinal transposto para o acto da escrita:

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.

Elas são muitas, eu pouco, e está estabelecido o diálogo, onde o poeta se dimensiona em minoria, e dessa quadra pelo menos (pois o poema que ela inicia é longo), surge uma certeza, não há vencedores nem vencidos, há apenas luta, no mais puro sentido grego, numa atitude agónica.

O poema parte do silêncio, sem dúvida, mas o silêncio enquanto palavra no poema é o quê? Há em cada poeta lexemas recorrentes, vocábulos que isolados têm o rigor da sua morfologia, são significantes rígidos, quase nunca são anfibologias – para usar uma expressão de Roland Barthes -, todavia em conjunto com outros exibem uma qualidade semântica diversa. São espermatozóide e óvulo, são embrião no poema fecundado.

Eugénio de Andrade, para falar de um dos maiores poetas contemporâneos da nossa língua, tinha um léxico repetitivo de palavras como lugares de beleza, onde a sua poesia passa como um caudal heraclíteo por ter uma água sempre nova no mesmo rio poiético. O desejo de «juntar palavras»: mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, fenos, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada. Um percurso musical sobre as mesmas teclas, escrevi em 2005, num artigo intitulado As mesmas teclas de Eugénio de Andrade.

Há uma exigência por parte das palavras do poeta para figurarem no poema, uma dessas palavras é o silêncio, quanto a mim.
O silêncio no poema não é um contraponto da voz, nem de uma presença, nem sequer é uma ausência. O poema é uma linguagem e como tal comporta tanto o silêncio como a palavra.
Há palavras que no poema produzem silêncio, um silêncio interior, uma negação da voz numa dialética de esquecer/ lembrar, uma dessas palavras é o vocábulo Morte, morte no seu sentido filosófico, metafísico e religioso, lato senso, universal, e restritamente como a morte de alguém.

O silêncio pode introduzir-se num texto e ferir os nossos sentidos, porque o escritor é um dador de sentidos.

Um exemplo da história do século XX é significativo; Jean-Paul Sartre escreveu em 1944 o que a Europa andava a esconder e a silenciar, um estranho artigo sobre a maior catástrofe desse século, A República do Silêncio.
Começa o artigo que “Les Lettres Françaises” publicou em 9/9/44, a afirmar: «Tínhamos perdido todos os nossos direitos e, em primeiro lugar, o de falar», os franceses, mas sobretudo os judeus, deportados, humilhados, exterminados em silêncio. Essa república a que Sartre aludia, era a da Resistência ao nazismo, no silêncio e na noite, a responsabilidade individual de enfrentar a morte sem denunciar, mas era também o outro silêncio, o de «ignorar» o holocausto de milhões de judeus nos campos de extermínio. Porque nesta acepção do termo, o silêncio é o crime de se esconder alguma coisa.

Mas existem no poema aquelas palavras que o já referido Roland Barthes apodou com alguma ironia, numa simbiose de lexemas feliz, como palavras-maná. Segundo esta classificação, tais palavras são aquelas que podem responder a tudo. «Não será forçoso haver sempre, no léxico dum autor, uma palavra cuja significação ardente, multiforme, inatingível e como que sagrada dê a ilusão de se poder com ela responder a tudo?» Barthes dizia que essa palavra estava no texto à deriva, pode fugir a qualquer tópico. Dá como exemplo a palavra «corpo». Ou como o vocábulo «silêncio», teimosamente usado em muitos poemas, que por meu turno dou como paradigma.

Por vezes toma a forma da palavra-cor ( também um conceito criado por aquele filósofo da Linguagem). Nesta perspectiva, há um poema breve de Gerardo Diego, poeta e antologista da Geração de 27 em Espanha, que traduz bem o silêncio através de uma adjectivação poética, com colorido, que torna palpável o sujeito poiético desses brevíssimos versos de poema-imagem:

Habrá un silencio verde
todo hecho de guitarras destrenzadas
La guitarra es un pozo
com viento en vez de agua (poema a Guitarra)

A combinação poiética da palavra com o resto do poema

Uma só palavra pode trazer ao poema a força que se pretende lograr, por vezes, com dois ou três versos, frequentemente salva mesmo o poema do pastiche ou déjà vú. A palavra certa, que corresponde psicologicamente, e semanticamente sobretudo, ao que o poeta quer dizer. Todo o poema se sente nessa palavra, numa palavra média, como tal no exemplo seguinte:

“Ao longe com o vestido como sombra / passava, carregada de mágoa / (...) pendurada / no cântaro passava. // É a mulher samaritana / que vai ao poço de Jacob / buscar o silêncio da água.” (poema A Samaritana)

Ao falar do «silêncio», poderia falar de outros vocábulos (a palavra média, que Barthes inventou na escrita sobre linguística e memórias da escrita que foi originalmente a sua), vocábulos tais como pássaro ou ave, como significante de liberdade, água, às vezes no lugar de vida, outras significando o contrário do fogo. Palavras sempre contidas, seguindo o ensino de T.S.Eliot, segundo o qual «a poesia não é dar rédea solta à emoção».

As palavras no poeta são quase sempre o equivalente verbal ao que ele vê, ao que ele ouve, ou à sua personalidade; se for um poeta metafísico, claro que as palavras equivalem ao seu estado de espírito e sentimento também. Materializações que o poeta gostaria de erguer, um corpo do pó.«Eu acredito/ Embora não as tenha encontrado, que possa haver/ Palavras que são coisas» - escrevia Byron no seu Childe Harold.

O silêncio nas culturas greco-romanas, nas semitas, nas ptolomaicas, foi também objecto, foi coisa. Uma criança, um dedo sobre a boca simbolicamente, uma estátua ptolomaica representando Harpócrates quando criança, mistura de homem e de deus Hórus.

O silêncio, na Física, corresponde a O decibéis, corresponde a sinal nenhum. Com a expressão «um silêncio eloquente», entra no domínio dos tropos de linguagem, como um oxímoro; pontua uma grande verdade silenciosamente, acerca de qualquer coisa.

Ao falar do silêncio não tenho a certeza de ter atingido um cerne ou de ter sido percebido. Talvez porque pertença a um projecto pessoal. Talvez o meu vocábulo médio de eleição seja por isso «silêncio», talvez esta palavra reúna toda a virtualidade da poiética que trabalho, um pouco ao arrepio da aristotélica mimesis, porque a imitação é a cópia do falado, e o silêncio é o nada virginal de onde saem as coisas que conhecemos da Criação. Criar a partir do silêncio foi atitude, um gesto, uma prerrogativa de Deus, o poeta é um «pequeno-deus», ainda hoje na expressão quase secular de Vicente Huidobro, poeta chileno que correspondeu ao modernismo com o criacionismo na época da Geração espanhola del 27.

Talvez seja uma palavra recorrente que dá caminho a outros e diversos conceitos, que dá a mão a outras palavras que nela estão contidas. O silêncio a partir da mitologia que acabou por dar significantes à língua helénica é prefigurado por um deus com o dedo na boca - já o referi -, assinalando com o gesto o calar. O silêncio é persuadido por esse inefável gesto. Ovídio falava daquele «que reprime a voz e com o gesto os silêncios persuade.» O silêncio, hiperbolizando Álvaro de Campos, é no poema «ser nada», «ser uma figura de romance», ou a representação grega do deus-recém nascido, ou a gráfica representação do dedo sobre a boca, mantendo o sigilo. O silêncio no poema é tudo.

domingo, maio 02, 2010

O poeta diz o poema

O poeta dirige os ritmos cardíacos
dos ouvidos
onde entra seu poema
Com os cinco dedos da mão direita
modela o silêncio, é um Cícero
na majestosa mão erguida
O poeta segura a cascata
de águas limpas do livro
não tem pressa, é preciso
que as palavras se respirem.

29/4/2010

(inicialmente publicado no Facebook)

sábado, abril 03, 2010

Revista: trimestrale di conversazioni poetiche

Annelisa Addolorato, Fabiano Alborghetti, Andrea Amoroso, Natasha Bondarenko, Barbara Cannetti, Giampaolo De Pietro, Valeria Di Clemente, Alessandro Ghignoli, Claudio Pagelli, Marina Pizzi, Gabriele Quartero, Silvia Redente, Alessandra Sciacca Banti, Maeba Sciutti, Anna Velieri, voci sul numero
di Aprile 2009
di “π -trimestrale di conversazioni poetiche”.
Revista com poemas de Alessandra Sciacca Banti, poeta e docente universitária em Pisa, e tradutora do meu livro inédito O Regador/ L'Innaffiatoio, para a língua italiana.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Eu não queria Paris

(Janeiro de 1994)

Eu não queria Paris com aguaceiros
nessa noite de luzes
Ofuscavam as pedras da rua
de Montmartre
Eu não queria
para passear os versos
que levava sob o braço

A neblina sobre o Sena
esboçava os barcos
onde vive gente
debruçada sobre óleos
espalhando a água e rosas em vias
de extinção

Eu não queria Paris com cortinados
de chuva, nessa noite
de inverno para subir
nos meus olhos
ao topo da Eiffel.

26/12/2009

sábado, novembro 28, 2009

segunda-feira, novembro 16, 2009

Heródoto, História e Poética


No Helesponto, Xerxes

“Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou.”
Heródoto, Histórias VII, 45


Do alto do meu trono
o meu olhar voa de mim
e entrelaça as duas margens
desta passagem
do Helesponto para a Hélade,
pequena janela que se abre imensa
para a promessa de glória

O meu olhar plana então
sobre estas plagas e campinas
atapetadas de milhões de navios cavalos e homens
que, pintados das todas as nações da Ásia e do Egipto
e estampados do brilho do aço das armas,
eriçam os estandartes em saudação à minha glória
à glória do Divino Príncipe da Pérsia

De dentro da voz de júbilo
decreto que eu, Xerxes, sou mais do que abençoado

Mas para além de até aonde pode o olhar adejar
não descortino toda a terra, nem possuo todo o mar
Há um aviso um arrepio um pio de pássaro

O meu olhar foi finalmente visto
regressar à sua morada e decantar em lágrimas
este estreito tão estreito que me aperta a traqueia

Pois não há reis
que ocasionalmente se não prostrem
à enfermidade e à dor
também eles contam a terra e as pedras
com que têm coberto os seus amados
Rompendo a janela da minha glória
o meu olhar abre a porta da vertigem
mais funestamente desejada do que todo o ouro
a vertigem altaneira
da morte

No meu espírito fala
uma voz dalém das orlas do tempo
Lê um epitáfio inscrito num mausoléu:
“Aqui jaz Xerxes da Pérsia Rei dos reis
no Olimpo anelou o Hades
foi a primeira flor nascida da Primavera
por mão ceifada em pleno Verão
conquistador da terra
hoje servo debaixo dela.”

E prossegue:
“Cem anos e destes milhões
só se contarão as areias das praias
serão meros pontilhados numa tela
tinta fresca na pena de um contador de histórias.”

12/11/09
(Rui Miguel Duarte)

terça-feira, novembro 03, 2009

GPA e Jorge de Sena

Homenagem a Jorge de Sena


O Grupo Poético de Aveiro e Buchholz Aveiro convidam todas as pessoas a participar nesta tertúlia. Dia 07 de Novembro, na livraria, pelas 18H. (Praça Marquês de Pombal, nº3)
Entrada Livre!

quinta-feira, outubro 22, 2009

Os Poetas

“El poeta lírico está sentado cómodamente en casa
El poeta épico recorre las colinas.”
(Peter Handke)


O poeta lírico está comodamente
sentado em casa e na metáfora
constrói o vento da cortina
inquieta, o poeta olha a janela
Enquanto isso
o poeta épico percorre as colinas
de Atenas, molha os pés no fogo
que as sereias ateiam
no Egeu.

Publicado originalmente em A Ovelha Perdida

sexta-feira, outubro 02, 2009

Splendore a Parigi-Orly

Il taxi correva nelle strade, un fiume in piena, chi a piedi, chi in auto, di fretta, evitava gli argini, in lotta contro il tempo, tutti gli orologi contro il suo. Arrivarono a Parigi Orly.
Ancora in tempo per quel fuoco dentro,amaro il caffè, come un falò in un campo di sogni. Quando una voce chiamò per l’ultima volta i viaggiatori, addii e baci morirono sulle labbra, ricordarono sempre la mezza luna finale prima di diventare uccelli.

(Trad. da Alessandra S. Banti)

terça-feira, setembro 15, 2009

A espera de Bukowski



Robinson Crusoe a gastar garrafas
e garrafas para se salvar
do imenso oceano
desolado da palavra morte

A olhar para o lado, com os pés em terra
um passo nas coisas reais e outro
bêbedo nas estrelas
Atado a coisas banais
como esperar o metro

Ou o resgate da máquina de escrever
da casa de penhores.

14/9/2009

segunda-feira, setembro 14, 2009

Poética

Comentário sobre o poema "Casa na costa"

Tranquilidade demorada, apenas a casa, o nevoeiro e o oceano. Lugar de resguardo e continência, de balanços, e ao mesmo tempo de desejo de se expressar, daí o grito. As gaivotas sopradas são prosopopeia feliz. Na passiva, sem agente de passiva, parece implícita a presença do vento, em ausência. Pois pode ser o vento a fazer ou desfazer névoas. Ou o "eu" que se converte em agente desse fazer e desfazer. Fica como que a "pictura", que é o que é dado ver. As gaivotas, ao elevarem-se e voltearem no ar (vão no vento), para quem olha da casa, ou de outra perspectiva, parecem sopradas.

(Rui Miguel Duarte)

sábado, setembro 05, 2009

Nicanor Parra, quase um século


Conheci Nicanor Parra em 1976 e quando procurava estruturar minha poesia nas várias poiéticas e aprender, li «nós conversamos / na linguagem de todos os dias /não cremos em signos cabalísticos».

Em 2009, enclausurado em sua casa em Valparaíso, Chile, mas ainda activo na sua poesia neo-simbolista desde 1967, até aí cultivando os seus anti-poemas desde a década de 30, Nicanor Parra faz hoje 95 anos.

No início da década de 70 tomou chá na Casa Branca, a convite da mulher de Richard Nixon - a esquerda rompeu com ele.

Um dos maiores poetas da literatura hispânica, segundo o crítico Harold Bloom é um dos melhores poetas do Ocidente. Este qualificativo tomará forma em Março próximo, quando o criador da anti-poesia for homenageado no V Congreso Internacional de la Lengua Española , que se vai celebrar justamente em Valparaíso.

Amanhã, tentaremos a tradução de um poema seu, Ritos.

sábado, agosto 29, 2009

Bianca

Eu não sei ler, mas leio com as palavras
Que eu quiser.
Invento
tudo o que leio.



(Baseado nas palavras da minha neta Bianca Tomaz, 4 anos)

quarta-feira, julho 22, 2009

Drama Clássico

Há Orestes por todo o lado
como moscas, Édipos completos
dos pés à cabeça, cegos
adolescências longínquas
sem lar, a vingança igual
a respirar, Muito poucas Antígonas
-que sepultam no corpo
um amor perdido- muito poucas
Antígonas, porque a fraternidade
interior deixou um buraco
onde apenas há um músculo cardíaco
Há também algumas Ismenas
sem memória
à espera de um programa
de uma fuga, Há muita gente
que apesar de tudo é vulgar.