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sábado, novembro 15, 2014

a desimportância de ser poeta


(talvez dedicado a Manoel de Barros, 1916-2014)


Que me perdoem os apanhadores
das grandes frases, os filósofos
de banhos de areia na grande praia
argelina de Camus, que me perdoem
os pregadores massivos de Facebook

Os apanhadores de estrelas
nas poças de água que a noite não consegue
perturbar, prefiro estes a todos os outros

E ainda fico extasiado com o chamamento
da minha gata, sentada com os olhos
fixos a olhar-me e a miar as suas próprias palavras
para eu a seguir  e vê-la comer – dou comigo
a entender  sua linguagem, e por mais
que me digam o contrário, só o Homem
é selvagem.

14-11-2014

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domingo, setembro 21, 2014

UMA PALAVRA

    Estamos desprevenidos e uma palavra 
    Que parece não fazer falta, força o tumulto
    Na corrente profunda da alma, paira
    Acima do tempo, uma palavra simples
    Que começa nas franjas do sangue, Mãe
    Como Hoffmann perdido sem reflexo no espelho
    Olho-me e estou órfão
    Agora que a morte cortou o cordão umbilical.


    20-09-2014
    ©

segunda-feira, outubro 28, 2013

De Édipo todos temos um pouco



 

“As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam”
Herberto Helder


Houve um tempo na infância
em que desejei descer pelos teus cabelos negros
nenhum homem, nem o pai poderia
aproximar-se dos ramos dos teus dedos
Houve esse tempo na infância
em que te disputava com um amor
que poderia até matar
qualquer olhar de homem que impedisse
o teu caminho

Era o tempo em que o teu peito
me acudia e chamava pelo meu nome

Hoje, quando a morte é para ambos
a próxima infância
para viver no olhar de Deus
vejo os teus cabelos de prata
em que não ouso tocar, com medo de partí-los
porque são uma frágil luz cansada.

26/10/2013
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sábado, setembro 01, 2012

VIVER EM ÍTACA

terça-feira, maio 01, 2012

Nota talvez poética


Já escrevi poemas em Paris e Nova Iorque e pus as datas
Mil novecentos e noventa e pouco, hoje
mais velho e mais humilde
escrevo em casa
e deixo a minha gata passear
sobre eles.

1/5/2012

domingo, outubro 30, 2011

Se me tirar os olhos

Se me tirar os olhos, não ficarei
no entardecer
nem me perderei no caminho
com os meus dedos irei
sob o fogo azul do sol
tocar ainda os rostos que conheço
Se me tirar os olhos
poderei sonhar para dentro
tal como a água terna das lágrimas
começa antes no fundo inominável

Se me tirar os olhos
todas as coisas
serão cores que ouvirei
nos sons que conheço, um neto
afundando a cabeça no meu peito
será uma canção
entre um pássaro e outro pássaro
sentirei o vento do seu voo
e assim o que agora não vejo
em todas as coisas tornar-se-á claro.

6/04/2011

quinta-feira, julho 21, 2011

A minha pequena Siamesa


As manhãs não entrarão mais
na sonolência dos teus pequenos olhos
os insectos agora
na casa estarão tranquilos
os saltos
que davas na plenitude
do teu corpo, precocemente parados
não envelhecerás como o tapete
da cozinha, azul
sob o qual logravas te esconder
Eu olho para o silêncio
que deixaste por trás dos móveis.

21/7/2011

domingo, janeiro 23, 2011

Não estou a chorar, Mãe

Não estou a chorar, Mãe
é a minha alma que cai pelas faces
Sabes, Mãe? Os meus olhos são teimosos
não se fecham com facilidade
nem quando gotas salgadas
se desprendem do vento
ou quando as árvores
rompem em gorjeios
As lágrimas, Mãe, não são o que parecem
são o amor da alma por esse corpo
que se limita a morrer
Não, não estou a chorar, Mãe
é o silêncio que se torna sólido
este teimoso silêncio
da lágrima.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Os olhos de um neto

Com estes olhos
já vi uma estrela com medo das alturas,
já andei pelo arco-íris e já
estive com estes olhos no futuro.

10-11-2010

segunda-feira, abril 05, 2010

A ode chamada marítima


«Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!»
Álvaro Campos


Dispondo do vento sobre o papel
e do cheiro a oceano que vem
do meio da multidão
das águas, sozinho, em pé
no baloiço do meu próprio corpo
escrevo como outrora o hebreu
à beira do Eufrates
e o que choro é um
choro nítido a meu modo
ao cair das tardes
no cais molhado de gaivotas
deserto, pequeno e sem viagens.

2-4-2010

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A ave aflita do meu beijo

Chagall, Paisagem Azul

Quando a minha mão
contém a tua mão
quando os meus olhos contêm
os teus olhos
Quando a minha língua
desagua em tua boca
para levar para dentro de ti
o meu desejo
Eu sei como te amo
quando os teus lábios andam longe
e não te encontra
a ave aflita do meu beijo.

27/1/2010

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Só o teu nome sobrevive


Zé Fernando, à esquerda, mãe e tia Fernanda, e JTP, 1949



para o meu primo Zé Fernando

Só o teu nome sobrevive
ao coração
a notícia
desatou os empecilhos da manhã
morreste
Morreste tantas vezes no telefone
que tocou
nas casas dos amigos
Um destes dias passarei
pela nossa infância em Santiago:

O céu põe o perfume
das estevas
e acordaremos como dantes
com os ruídos de uma rua de azulejos
Alentejo salpicado de sobreiros

Embora saibamos tudo
agora
que só as tuas laranjeiras sobrevivem
ao sangue
que parou teu coração.

1/12/2009




sábado, agosto 29, 2009

Bianca

Eu não sei ler, mas leio com as palavras
Que eu quiser.
Invento
tudo o que leio.



(Baseado nas palavras da minha neta Bianca Tomaz, 4 anos)

sexta-feira, abril 24, 2009

Leste de Angola (1968-70)

para MC

Lembro-me que lhe escrevia cartas
verdadeiras, as palavras
não eram transparentes
eram como o coração no corpo
sentido em sinais ininterruptos
Veias e artérias
gravadas nas palavras
Recordo que invejava
as cartas que iam tocar a pele
dos seus dedos
Eram cartas verdadeiras
da dor obscura
iriam voar no éter
numa liga de alumínio
A única palavra que recordo
é o amor.

sábado, abril 11, 2009

Na terra de meu pai há leões


Na terra de meu pai há leões

Iluminam
o ar da noite e erguem
dentro dos olhos enormes
o seu poder

Quando os leões atravessam a terra
de meu pai, é um silêncio fundo
como um rio
que avassala amarelo-fulvo

Os leões da terra de meu pai sobem
no espaço como barcos
compridos egípcios, sabem
no alto das ondas do vento
enviar os seus sinais
A savana abre os seus ouvidos
para os leões da terra virgem de meu pai.

sábado, março 21, 2009

Dia Mundial da Poesia

Num dia assim


Num dia assim
Iria para a rua com os bolsos
Preparados para receber as mãos
Sem destinatários da minha simpatia

Num dia assim, iria para a rua
Para estar comigo nos outros, com os dedos
Resolvidos a fazer grandes coisas

Tocar o cabelo das crianças, se isso
Não fosse pedofilia, amar
O próximo como a mim mesmo

Entrar com o jornal do dia
Um bilhete de comboio
Numa Ópera, pisar o chão de uma livraria
Onde toda a gente se acha doutorada

Num dia assim
Talvez passe por entre as esplanadas
Que estendem a primavera
Na cidade.


21-3-2009

terça-feira, março 03, 2009

Mostrar o coração

I showed my heart to the doctor: he said I just have to quit.
Leonard Cohen


Abri o meu coração para o médico, gráficos
atropelando as batidas do sangue- o médico disse
que embora os exames
não mostrassem indícios
havia solidão, ele mostrou o perigo
de se ter um amor maior do que a idade
a que podemos chegar Por fim
mostrou-me como trabalha
ainda o sopro divino.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Segurar um manuscrito


Minhas mãos agora adormecem
sobre a beleza
do que descrevo

parece que a morte
as quer apertar
num punho

o meu toque já foi soberano
sobre o papel, já vi o afã
do aparo frágil sobre a folha

e o rápido movimento dos olhos
apanhar as palavras
antes da queda final.

21-2-2009

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A Visita


Trazia o corpo
arrastado nos sapatos
gastos, com uma história
de buracos negros sucessivos

Os seus silêncios
eram de incenso, o cheiro divino
do lume

e as suas mãos tinham dedos infrangíveis
para tocar as notas da chuva
que bate nos vidros

Trazia os olhos naturais
neles não havia fundo, vogavam
apenas como se espalhassem um perfume.

9/2/2009