sábado, maio 10, 2014

[A mulher carrega livros instáveis para vender]


A woman carries books for sale in Luanda, Angola. © Rafael Marchante.


A mulher carrega livros instáveis para vender
em Luanda, sem tempo
para a sua sombra

Como o coração aguenta uma torre de utopias
inclinada à cabeça, uma Pisa
uma  Babel,  uma vaga de letras cortando o vento!

Competem pássaros e folhas a dançar
equilíbrios instáveis na manhã

Que livros carrega e não lê, como se fossem fortuna
para mudar em silêncio a vozearia da rua.

10-05-2014
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sábado, maio 03, 2014

O RIO CUJO NOME NÃO SABEMOS


Por vezes, como o tigre de Jorge Luís Borges
passamos pela margem do rio
cujo nome ignoramos

pode ser a Morte
ou a Manhã futura, forma clara
que se move desde o arché
em que Deus está, é aqui    

que os nossos olhos se repartem, 
olhar o abismo sob a água
ou deixarmos que corra
à superfície da frescura, o rasto
do odor que se segue até ao mar.


2/5/2014

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(Washington Allston, 1779-1843. Paisagem. Pintura do romantismo americano.)

segunda-feira, abril 28, 2014

HELENA DE TRÓIA



“Helena de alvos braços / Helena, divina entre as mulheres”
Canto III, da Íliada, de Homero

 Pela beleza dos teus olhos mil navios
fazem-se  ao mar, pelo fogo
que o vento nos teus cabelos despenteia
mil olhos ficaram com insónias

Pelo amor inatingível do teu corpo
mil homens dão o peito à morte
e pelo ouro dos teus lábios, gritam
nas praias de Tróia mil heróis

Pela tua beleza transparente nos vestidos
erram ainda cegos pelos campos
à procura de vestígios.

27-4-2014
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domingo, abril 27, 2014

Novo livro de poesia, lançado em Pontevedra


Lançado em Pontevedra. no dia 25 de Abril, na Fundación Cuña-Casasbellas, com a presença do autor e do prefaciador.

" RECOMENDAÇÕES PARA ENTRAR NO SÓTÃO

Entrar com os olhos muito abertos
porque a luz se esconde
atrás do pó, das coisas
que esquecemos, alguma há-de
ser a nossa infância, trará sapatinhos
de verniz, um laço
dos casamentos das tias
uma tabuada com as contas
furadas de um dos filhos
cadernos com línguas estranhas
um Ferrari
repentino sem uma roda
uma subida até aos Himalaias
de uma teia de aranha remendada
Por que será que o sótão
está sempre no derradeiro andar da vida?"
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Pedidos através de:
http://www.eltallerdelpoeta.com/

domingo, abril 13, 2014

GAUGUIN CHEGA À POLINÉSIA




Olhos postos nas mulheres
às cores
tu virás do mar
pacífico nos teus olhos o desejo

verás o ritmo das folhas dos coqueiros
 que remam contra o vento
a água abundante
que refresca o sol nos corpos

à noite
tu virás para ver perto do chão
verdes, escuras e tangíveis
as únicas estrelas.


13-04-2014

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quarta-feira, abril 02, 2014

Dia Mundial do Livro Infantil: Para Desenhar Uma Flor


PARA DESENHAR UMA FLOR

Primeiro faz-se subir da escuridão,
em que as raízes dormem,
um caule, depois
conhecemos
os passos que em silêncio dá, primeiro
um botão
que já revela o ponto ómega. A seguir,
como um lápis lazúli que esconde a mão invisível,
abre-se uma corola e com cuidado,
mesmo que as folhas anoiteçam,
vai-se desenhando a claridade da flor.

2/4/2014
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segunda-feira, março 31, 2014

[OLHO PARA O MISTÉRIO DA SOMBRA CONHECIDA]


"E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior"
Álvaro de Campos


Olho para o mistério da sombra conhecida
Fica para trás o navio como mistério parado
No espelho do rio, ao fim da tarde
O dia começa o descanso da pedra
Da  vida marítima, da Distância
De onde se vem, o barco trouxe a névoa
De quem chega, que se dissipa
Numa saudade cumprida, olho
E o meu olhar é inocente
Entre a sombra conhecida, e o mistério
do rumor oleoso do Tejo, tão inocente
que meu olhos não sentem barco nem cais
só a alegria parada do fim da tarde
Por não saber que havia ilhas e grandes mares
Todos ligados entre si porque a Terra é redonda.

30-03-2014

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segunda-feira, março 24, 2014

AUSÊNCIAS




O silêncio já não é igual
àquele de quando está gente em casa.

Esse silêncio não tem forma de corpo e nem ocupa
o ar quando passamos, não estamos
presos à sombra, sentados, e o gato,
imerso no seu sono,  reconhece-o
e não corre na alegria das patas pelos quartos.

24-03-2014
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sábado, março 22, 2014

RENOIR


Não há nas naturezas-mortas de Renoir
um fruto falso, nos nossos olhos escondido
cresce o desejo de morder

pêssegos, maçãs e a exuberância do pão
mesmo assim entre migalhas
no Cabaret de la mére Anthony

e vemos num instante o fruto apetecível
diante da nudez rotunda das mulheres de Renoir
como a luz, que voa numa asa de seda de libélula.

22-03-2014

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sexta-feira, março 14, 2014

OS PESSEGUEIROS



“Onde pessegueiros pequenos estão em flor - tudo é pequeno lá (…) é a razão porque o assunto me atraiu. " 
Van Gogh


Os pessegueiros de Van Gogh esperaram
que a neve fosse deixando o silêncio
do branco tomar forma
de pequenos sóis, com os ramos
abraçados
Então os pessegueiros de Van Gogh
começam a ser árvores sonoras.

14-03-2014
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quarta-feira, março 05, 2014

A MULHER DE SAMARIA


(Annibale Carraci, 1560-1609)



Não é qualquer uma. É uma mulher ao meio-dia
De olhos no chão, equilibrando o cântaro
Frágil
Cada lágrima que esconde

É uma mulher que teve abraços
Beijos na sua face morena, escondida
Em silêncios

Não é qualquer uma, é uma mulher
Que conhece bem o seu rosto
No espelho triste do fundo do poço

É uma mulher ao meio-dia
Que resiste, mesmo que isso a torne
Invisível, para que outros não tenham sede.

2-03-2014

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sexta-feira, fevereiro 21, 2014

AS COISAS PASSAM-SE ASSIM



Nada muda para um gato, as coisas
são dias iguais, mas percebe
pelos passos do amigo, pelas mãos
mais rápidas do que o ar,
ou cheias de sacos de viagem
que alguma coisa não está bem,
que vai sair e depois que a alta sombra
do amigo em casa desabou, porque faltam
uns joelhos onde se sentar, a mão
a segurar o gin tónico na varanda
e os joelhos onde andarão?
A nossa solidão faz falta ao gato,
é uma sombra dele mesmo
quando passa orgulhoso por nós
e nos ignora e adormece
onde nada mudou.

13/8/2013
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sábado, fevereiro 08, 2014

ESTÁ PRÓXIMO O FIM DO VERÃO (uma leitura bucólica do Apocalipse de João)

(Michael Ticino)


A saudade sonora das cigarras
quando a tarde se inclina nas searas

A solidão dos grilos, a certeza
das folhas caídas, que se entregam
aos dedos do vento atarefados

Não sei como sentem
As estrelas, mas esperam no silêncio
Adormecido das distâncias.

8-02-2014

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terça-feira, janeiro 28, 2014

40º Aniversário do Manifesto "Nova Poesia Evangélica"


J. T. Parreira: “a poesia é a passagem do não-ser para o ser


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Cumprem-se, dentro de dias, quarenta anos sobre a publicação do Manifesto por uma Nova Poesia Evangélica (NPE), simultaneamente no Brasil e em Portugal. Este documento histórico foi assinado no país irmão pelos poetas Joanyr de Oliveira, brasileiro (já falecido) e João Tomaz Parreira, português, e em Portugal também por Brissos Lino.
É tempo de fazer um balanço. Daí a longa entrevista a João Tomaz Parreira.

Entrevista de José Brissos-Lino (c)

sábado, janeiro 25, 2014

JUSTAMENTE, inédito de Rui Miguel Duarte


“… e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura…”
Mário Cesariny, “Uma certa quantidade”

justamente — dizes
são os poetas, os que caem e vêm à procura
em cada pedra o sol 
gente, pássaros de regresso ao Norte
do que já não precisamos, do que já temos
a pólvora, a gente, a agitação das ondas
a perturbação da areia
a fugir
justamente — dizes
são os poetas, os que aparecem de repente
quando já
não eram requeridos, 
quando já
foram, estão substituídos
quando já a comida tem sal
que chegue, mas para que precisamos do sal
afinal, se nem temos o vinho?
justamente — dizes
são os poetas, os que doem 
e fingem aqui e acolá, que não 
cantam, mas emitem pássaros
que cantam por eles
quando já não são precisos
quando são poetas

Rui Miguel Duarte
23/01/13




(Busto/Estátua de David Mourão Ferreira, em Oeiras)

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Uma mulher sentada em qualquer sítio



Escolheste-me mal
para olhares para mim, os meus olhos
não condizem com a alma
O meu cabelo desatado são pontas
de um verão que insiste
em ser perpétuo, cada um dos meus dedos
enrugou as coisas, à minha volta
o perfume é uma mentira fragrante
mas defende-me, o meu vestido
é apenas um véu
de mulher que deveria ser plausível.


 23-1-2014
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sábado, janeiro 11, 2014

O Brinco

Vermeer, A rapariga do brinco de pérola


Ali começa a nascer um sistema solar, um planeta
move-se  na orbita do rosto, brilha
ainda uma breve sombra
do abismo
ali de onde a luz se ergue. Um espelho
começa ali naquele rosto
onde a beleza sorri entre os lábios
um silêncio.

11-1-2014

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quarta-feira, janeiro 08, 2014

NAVEGANDO PARA A TERRA DE NINGUÉM








“That is no country for old man”
W.B.Yeats

 
Ali  não é país para os velhos, os ramos
estiolados das primaveras, as bengalas
gastas a estenderem-se das mãos, enquanto puderam
podaram rosas
altivas nos olhos juvenis, agora
têm a dança solitária da tristeza  
nos seus sonhos, isso não é país
para os velhos, vivem tanto tempo
e pesam demasiado espaço aqui,  há a terra de ninguém
mandem-nos para lá, há pouca certeza
de que sobrevivam, estão grisalhos
mandem-nos para o Ocidente
onde se apaga a luz do sol.

 
7-1-2014
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quarta-feira, janeiro 01, 2014

LIVROS, inédito, de Brissos Lino


 


 

 Vida e sonho em camadas
escada para subir os degraus
da existência

sangue
suor
lágrimas
afectos
crenças
risos
medos
à luz de súbitas latitudes

sopa de palavras e emoções
com cheiro e sabor estranhos

as lombadas do tempo apontam
à aventura dos mundos.

 
30/12/13
 
© Brissos Lino


(O último poema do ano 2013 do poeta)

terça-feira, dezembro 31, 2013

ANDAR SOBRE AS ÁGUAS





Sob os seus pés, os átomos da água
rendiam-se, o mar não tinha fundo
voava
como as aves que não pesam sobre as árvores
o mar dormia sob o peso divino
com o mesmo silêncio do veludo.
 
30-12-2013
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Publicado inédito aqui: http://ovelhaperdida.wordpress.com/2013/12/31/andar-sobre-as-aguas-inedito-de-j-t-parreira-a-fechar-2013/

terça-feira, dezembro 24, 2013

BORRASCA



O vento uiva onde quer, e fechamos os olhos
E sentímo-lo a partir-se contra o barro
Das flores na varanda, a rasgar-se
Nos vidros
A ondular como água ancestral nas janelas
Ocupa-nos as frestas do medo, depois
Descansa
E volta a tremer em tudo, como um trem
Que passa inesperado noutra linha
Ao nosso lado
E faz chocalhar tudo dentro do silêncio.

24-12-2013
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quarta-feira, dezembro 18, 2013

CHEGOU O MENINO


 

 
Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido.

Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo

Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.

 18/12/2013
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(Imagem do Facebook - Desert-rose)

domingo, dezembro 01, 2013

O Guardador dos Rebanhos



Sentado numa pedra à beira do Hélicon
conta as cabeças e vê as suas musas
a comerem erva, depois
conduz o lume dos olhos do rebanho
à frescura das águas tranquilas

O seu rebanho faz um arco
de brancura sobre a erva

O guardador de rebanhos rasga
os olhos pelos quatro pontos cardeais
até pelos espinhos, quando uma ovelha
perde o rumo à sua voz.

30/11/2013
©
(The Little Shepherd Boy, Friedrich Otto Gebler)

terça-feira, novembro 26, 2013

COMO UMA PENÉLOPE

 
 

 
Passou os dias a fazer um grande tapete de trapos
tecido de lãs velhas, uma encruzilhada
de cores
para prosseguir esperava
que a manhã  as desfizesse
as estrelas, do tecido da noite.

26-11-2013
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quinta-feira, novembro 21, 2013

Os Pastores da Arcadia



Nicola Poussin, "Os Pastores da Arcadia", óleo em tela
 
De todas as maneiras, quando acordam
vão ver as ovelhas, se já sabem voar
e se o sol nasceu noutro ponto qualquer
da Rosa dos Ventos, sobre os rios
deveriam correr os restos de um luar
sim, todas as manhãs
vão ouvir a música de Orfeu, se ele toca
as estrelas que compôs no céu.

19/11/2013
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quinta-feira, novembro 14, 2013

SAMUCA SANTOS, RECIFE ( 1960-2013)




ALGUNS POEMAS:


NENA

ela sabe dos boleros
e do rock’n roll
sabe do sonho e do pé no chão
do presente no futuro
do ácido que o ócio
derrama na espera
dos pensamentos que rolam
e do medo de perde-la
que as paixões me iluminam
ela sabe
todos os fogos
dos artifícios que nos unem
e tem os credos, cartilhas
onde aprendo a vida

 sem título
nunca minta para mim
deixe que eu invente
as minhas verdades

 FOTOGRAFIA
te encontro no baú dos fósseis
cedo envelheci
mas teu sorriso ainda me cega
teu olhar ainda me reduz ao pó

 REPENTE
tão simples, claro
quanto um beija-flor
parado no ar, chegaste
não tive tempo
de arrumar o mundo
nem de fugir

 RISCOS
quantos copos faltam
pra que a gente se afaste
e role pelos braços, alheios
à procura de nós?

 DONA MÚSICA
tem uma festa rolando
meu amor se veste, bela
e vai acender a noite
dizer que é bela
é pouco:
nem tão belle époque
nem tão afro-chique
meu amor e mil motivos
pra festa rolar
e eu aqui,
de touca na rede


segunda-feira, outubro 28, 2013

De Édipo todos temos um pouco



 

“As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam”
Herberto Helder


Houve um tempo na infância
em que desejei descer pelos teus cabelos negros
nenhum homem, nem o pai poderia
aproximar-se dos ramos dos teus dedos
Houve esse tempo na infância
em que te disputava com um amor
que poderia até matar
qualquer olhar de homem que impedisse
o teu caminho

Era o tempo em que o teu peito
me acudia e chamava pelo meu nome

Hoje, quando a morte é para ambos
a próxima infância
para viver no olhar de Deus
vejo os teus cabelos de prata
em que não ouso tocar, com medo de partí-los
porque são uma frágil luz cansada.

26/10/2013
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terça-feira, outubro 22, 2013

A GARE DO ORIENTE



No fundo da Gare do Oriente
existe um silêncio de olhos no chão.

Os corações estendidos

no abrigo do peito, acolhem-se
nos bancos de pedra, os sem
-abrigo abraçados aos sapatos,

procuram aconchegar a noite
no estômago,
e no fumo de um cigarro
erram os sonhos e o fantasma do lume.

21/10/2013
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quarta-feira, outubro 16, 2013

Ingenuidade



Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.

14/10/2013
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quarta-feira, outubro 09, 2013

O Poeta e o Pássaro




(Pormenor da capa do último JL)




 para António Ramos Rosa

De súbito toma o pássaro o silêncio
do poeta como um vegetal
sentado no jardim,
os braços quietos, as mãos abertas de onde partem
ramos de dedos pousados nos joelhos
do poeta, de súbito a ave fica imóvel
trocou o arbusto por outro
o ombro do poeta.

9/10/2013
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sexta-feira, outubro 04, 2013

JUDAS ISCARIOTES COMO COSTUMAVA SER



Judas Iscariotes continua deste lado
dos nossos olhos
procura o melhor ângulo da traição
a esquina da cilada
no nosso nariz o seu olfacto
avalia o perfume dos unguentos
Judas Iscariotes continua
a sentar-se deste lado e estende as mãos
para apalpar o amor da raiz
de todos os males, e Judas continua
a usar a sua voz nocturna
para esconder o beijo mortal.

26/8/2013
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segunda-feira, setembro 23, 2013

Baile Gitano


(Baile Gitano, 1914, Anglada-Camarasa
Museo Carmen Thyssen, Málaga)



Era uma água corrente, uma cascata
os seus vestidos
o baile era um céu ao pôr do sol
eu queria a gruta profunda dos seus olhos
que mundo de princípios escondia
porque era uma cigana
e suas mãos apaixonavam-se
no ar quando dançavam.

23/9/2013
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segunda-feira, setembro 09, 2013

O MESMO POEMA, SEGUNDO SHELLEY





Tantas luchas que há costado, / tantos afanes en vela”
Pedro Salinas                                                                


Há anos que escrevo o mesmo poema
os meus dedos
conhecem o caminho e guardam silêncio
conservam o que tenho
para que ninguém tome a minha coroa
há anos que gasto as minhas mãos
nas mesmas pedras

O mesmo poema lavra-se
lava-se cada dia na corrente sanguínea
para as visitações da divindade

Não há novas palavras é engano
dos dicionaristas, polir palavras
para serem novas como os que restauram
telas ou as colunas do Parténon

Por isso há anos que escrevo o mesmo poema
sem aparências, não há outros
os poemas são como os pássaros de Salinas
o mesmo pássaro imenso.

8/9/2013
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terça-feira, agosto 20, 2013

ELEGIA DE DAVID QUANDO PERDEU UM FILHO




Se eu encostar a minha lira ao silêncio
apaziguarei a minha dor? 

Decretaste, Senhor, aí em cima,
poupar a vida da criança?
Não estão nuas ainda as minhas preces?
Os meus lábios movem-se em sobressaltos

De saco e cinza me visto e na terra me deito
emerge dos meus poros a água
da tristeza e o sangue desta minha dor
que reverte ao coração

Ó meu coração isolado do mundo

Porque morreu o menino, com a mesma pureza
com que vive um pássaro
até cair da sua linha invisível do céu

A sua vida vai deixar a minha
poderei eu fazê-la voltar?

Ó pequena criatura, que foste a figuração
do meu amor inacabado
Eu um dia irei para ti, porém tu
não voltarás para mim

10/5/2013
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