quinta-feira, abril 02, 2015

PILATOS DIRIGE-SE AOS JUDEUS - IV







Eis o homem
que chegou aqui pelo valor mais baixo
que às vezes tem o beijo, o da traição
Este que chegou a golpes de chicote pelo corpo
e pelas faces em silêncio que oferecia
às bofetadas. Este que chegou aqui 
pelo crime de ser Deus
com uma cruz difícil sobre as costas.

02-04-2015
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domingo, março 29, 2015

BEFORE THE FALL








“A rebeldia –e o fruto”
John Milton(“Paraíso Perdido”)


 O fruto desenhava-se no ramo, o princípio
da esfera, maçã ou outro pouco importa,
o volume era o da esfera, permanente
circulo da vida para a morte, o fruto
preso  à gravidade da ciência
do bem do mal da tristeza de saber.
O fruto desenhava-se no ar fresco da tarde
e na noite de prata
mais para os olhos famintos do que os lábios,
até ao coração da mulher escarlate.


29-03-2015

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sexta-feira, março 20, 2015

DOM QUIXOTE SEM REALIDADE




 “e não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens”
Carlos Drummond de Andrade


Vive, ainda, num lugar da Mancha, de cuja
Imortalidade só um nome resta, o Quixote
Só a lança e a espada são reais nas suas mãos            
Metal a balouçar no vento
E Rocinante
No qual cavalga toda a Espanha


Cinquenta anos, seco de carnes, rosto
Enxuto, olhar rijo contra moinhos
Vara de porcos e odres de vinho
Mulheres?  Só uma
Dulcinea,  que no coração do Quixote
O tropel acalma das vitórias.


20-03-2015

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quinta-feira, março 12, 2015

CALEB



“Há anos que escrevo o mesmo poema”
J. T. Parreira

Sou ainda o mesmo que fui outrora
ainda hoje os mesmos olhos
olham por dentro das mesmas pupilas
e procuram o mesmo infinito

há quarenta anos que sonho
o mesmo sonho
que este passeia pelo monte e lhe cria
um nome, Hebron,
e o soletra letra a letra,
como o nome de um amigo, com
o mesmo suspiro em silêncio

há quarenta anos que espero
então era soldado e lavava
a espada no sangue de gigantes
hoje lavo-a na chuva
que se acumula no vale

sou o mesmo rosto furtivo
à viragem do vento e recalcitrante
à passagem dos dias

há anos que escrevo o mesmo poema
que fala de promessas e de campos largos
e montes para conquistar
a mão do Senhor abrindo a minha
a pulso no papiro

os cabelos que hoje são brancos
já o eram então há quarenta anos:
embora mais longos

© Rui Miguel Duarte
6/03/2015

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

MONUMENTO COM UM NOME





 Caminhar por Auschwitz  é andar no espaço
 Conseguido pela morte.
 No meio de barracões esculpidos de quietude
 Enganadora, a neve, falsa, se estendia
 Como roupa suja no chão.
 Não havia escadas para subir, no inferno tudo
 Era devolvido em cinzas. Sentem-se hoje
 Olhares perdidos ainda no passado. Um gato
 Com a sua inesgotável infância
 Alheio aos reflexos da vida.

16-02-2015

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Foto: Kacper Pempel/Reuters

sábado, fevereiro 07, 2015

POESIA PARA TRATAR FERIDAS


1.
Passar a ferro

Na “ars poetica” inicial do seu livro recente de poemas, João de Mancelos(JM) confirma o pensamento de Adolfo Casais Monteiro sobre a poesia ser cosa mentale, sem raízes no inconsciente.  A Poesia pensa-se, é acto consciente.
  Diz JM que “poema a poema” passa a alma a ferro:
os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.
poema a poema, passo a alma a ferro.

Salvo melhor opinião, resolve problemas interiores, ontológicos mesmo,   através do poema que (se) escreve.

No presente livro, das Edições Colibri, Lisboa , 2014, JM  serve-nos um conjunto de 62 poemas límpidos, de uma claridade sem poeiras, mesmo aquelas que os raios solares podem salientar.

A simetria formal de cada poema, na primeira parte do seu livro, dispostos no papel graficamente sob a forma de tercetos, dão-nos essa medida da roupa, quero dizer do texto, desenrugado, bem engomado sem dobras nem vincos.

A forma aí é fundamental para dar uma estrutura a cada poema de texto ordenado, eximiamente ordenado, onde as palavras correm sem obstáculos
para usar a imagem do ferro de engomar.

Convém dizer, antes de escolher e salientar  três desses poemas da primeira parte do livro e outro da segunda, que em todo o caso estamos perante poemas de amor, de uma paixão contida, escritos de uma forma disruptiva quanto a esse amor.
Todavia, o autor não parece alimentar o amor, nem a paixão, nalguns casos – leia-se poemas- rasga-os mesmo.

Alguns exemplos breves:

vivíamos trocando beijos envenenados/ e discussões em círculos/(…)// só tive saudades do ódio, / de que tanto precisava/ para poder dormir em paz( do poema “há mais de quinze anos”)

“não me procures, amor, / nos  lugares do desencontro: / estações, aeroportos, hóteis” ( do poema “nowhere”)

“hóspedes um do outro, / o seu amor consistia / no ranger das molas de um colchão.” (do poema “havia um casal”)

“só escutara a palavra amo-te numa canção da rádio” (do pungente poema sobre um suicídio “limbo”)

Claro que também existem poemas de perfeito amor, aquele que se diz em metáforas e com reflexos tão rápidos que podem fugir-nos – se concordamos com Freud quando reduziu a criação artística a um “reflexo” de condições fisiológicas - , a verdade é que são instantes que quase nos escapam, os seguintes:

“às vezes, depois do amor, / quando feras dóceis rondam o nosso sono”, “às vezes, quando me encosto à nudez, exausto”, “às vezes, quando me inventas um nome” (do poema “depois do amor”). Mas, quiçá os dois melhores poemas de amor do livro sejam estes:

três da manhã

o que a noite traz à costa é inesperado:
o teu corpo tão perfeito quanto um búzio
na primeira praia.
(…)
amamo-nos até os nós do sono desatarem
e dentro de ti o oceano exausto
chamar o teu nome secreto.
_____________________________________

com as mãos manchadas de azul

regressarás a mim com as mãos manchadas de azul
e os pés sujos de tanto correr mundo,
ignorando que aqui só ardem ruínas sem mãe.
(…)
pedirás que te ame, riso a riso, numa cama de folhas,
mas o outono passou há muitos anos,
e tem a idade da noite quando chove.

2.
Três poemas para a história da Literatura em geral

Não é para admirar que um poeta doutorado em Literaturas Comparadas e Norte-Americana, escreva sobre poetas de outras latitudes literárias.

Um poema como “pedidos de empréstimos”, abre-nos um caminho de reflexão sobre o que Harold Bloom escreveu acerca da “angústia da influência” e dos poetas precursores. 


“toda a noite, as vozes de poetas mortos
Me emprestaram versos e canções,
Numa insónia ardida até de madrugada.
whitman e pessoa, os mais insistentes”


O próprio poema que dá título ao volume “a sombra do pó”  ( “as memórias entram com o vento/ sob a porta, escorrem pelas vidraças, / pingam avulsas no lago”), sobre o pó do tempo no sentido do passado e das suas recordações/memórias, não deixa de me lembrar o romancista John Fante, americano,  e o seu “Pergunta ao Pó”.

Sylvia Plath aparece num belíssimo terceto que é uma fotografia da malograda quanto bela autora de “Ariel”: 

“quando nem os médicos nem os loucos nem os santos
a escutavam,
ela negociava o silêncio com as aves mais azuis.”

Finalmente, um poema sobre Emily, a Dickinson. E neste as metáforas assumem papel estruturante para nos abrir caminho à poética da estranha poeta norte-americana de Amherst.
“Aranha laboriosa” que tece poemas “em fios de noite”, versos que foram “um intranquilo fogo”, que amou homens e mulheres “escondida entre as palavras.” Poeta da solidão, Emily, como poeta de uma certa solidão ordenada em poemas, a de João de Mancelos neste seu livro de poesia para tratamento de feridas.  

Aveiro, 05-02-2015
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quarta-feira, fevereiro 04, 2015

O TESTAMENTO DE REMBRANDT VAN RIJN


Arte: Rembrandt, A Ceia de Emaús



Deixou os discípulos de Emaús
no cavalete, encostados
outros quadros ao silêncio, a aparição
de Cristo no horto, a lembrança e os traços da morte
nos seus claros-escuros, deixou algumas roupas de linho
ou lã e as cerdas dos pincéis, as suas coisas
da pintura, no seu nome as águas do Reno  
Poucas coisas
ainda assim maiores do que a miséria.

O4-O2-2015

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quinta-feira, janeiro 22, 2015

UMA BUCÓLICA MODERNA NOS ANOS 50


Arte: Uma Aldeia (Piodão)



Na pura fealdade dos campos que ficavam
por detrás dos prédios, ali
um circo trazia do ar a tenda enorme e os leões
suspiravam por África? ou nesse tempo talvez
os tigres por Emilio Salgari, eu
vivia uma história de infância sem grandezas


Logo que o circo levantasse a tenda, as janelas
do meu quarto ficavam no escuro
E agora aqui estou, um
Género de Prometeu em luta contra a águia
das memórias, com outro centro de beleza
para onde dirigir os olhos, os poemas


alguns estão no meu coração, dentro
do bolso num caderno, esperam desde a
madrugada, outros passeiam na rua
no ar azul, ou em casa nos livros de alguns
amigos,  até na fealdade dos campos,  ali
por detrás dos prédios, onde nada acontece.

21-01-2015
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segunda-feira, janeiro 05, 2015

ALMOÇO CAMPESTRE


(Edouard Manet, "Almoço na Relva", Louvre, 1863)


Tal como Manet os fez, um mundo perfeito
sentados sobre a relva, numa relação directa com
o solo, um pouco menos mortais
do que a flor que mal nasce morre
sob a sombra das árvores, pousados como pássaros
distribuídos do alto cume azul, enchem os olhos
da fragrância de um corpo nu, eles
contudo indiferentes, conversam como dois
discretos cavalheiros que esperam o crepúsculo
cair como o fresco véu da tarde.

01-01-2015
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segunda-feira, dezembro 15, 2014

O CALVÁRIO






Morreu esta tarde, por três dias,
às três num monte à beira da cidade.
Inclinou o seu espírito às últimas palavras
que seus lábios entregaram aos ouvidos
dos homens e de Deus, da mãe
não chegariam as mãos para o tirar da cruz.
Do lençol de linho de José de Arimateia
-só é certo que lhe deu o sepulcro- não se sabe,
qualquer teologia que diga que ao morrer
às três da tarde, por três dias, tinha nos lábios
um sorriso, sabemos pelas feridas da morte
que não é verdade, ninguém
morre pelo ódio do seu povo e sorri.
Morreu com o tempo marcado, o relógio
do sol marcaria na porta do sepulcro
a manhã de sábado,  depois outra manhã viria
limpar da noite as sombras, para que o branco
Corpo intocável mais brilhasse.

14-12-2014
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sexta-feira, novembro 21, 2014

A VIRGEM DE LEONARDO




Tem um par de olhos  quase obscenos e um sorriso
Enigmático, onde tocam
Os pássaros desocupam os ramos, despem
Os nossos ouvidos de ressentimentos
Sobre o dia que passa

Rasgam a carne, tiram o coração do sério
Do seu batimento
Absorvem
Todo o ar à nossa respiração

Sob a ausência do seu par de olhos e do sorriso
Quase obscenos
Quando se afastam morremos
Em silêncio, sem memórias.

21-11-2014

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sábado, novembro 15, 2014

a desimportância de ser poeta


(talvez dedicado a Manoel de Barros, 1916-2014)


Que me perdoem os apanhadores
das grandes frases, os filósofos
de banhos de areia na grande praia
argelina de Camus, que me perdoem
os pregadores massivos de Facebook

Os apanhadores de estrelas
nas poças de água que a noite não consegue
perturbar, prefiro estes a todos os outros

E ainda fico extasiado com o chamamento
da minha gata, sentada com os olhos
fixos a olhar-me e a miar as suas próprias palavras
para eu a seguir  e vê-la comer – dou comigo
a entender  sua linguagem, e por mais
que me digam o contrário, só o Homem
é selvagem.

14-11-2014

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sexta-feira, outubro 31, 2014

A casa em socalcos



(sobre fotografia de Margarida Gama)


Atravesso a casa e o quarto da esquerda esconde
as marcas sobre as quais houve um móvel, teias
desabitadas no quarto da direita,  apalpo
a noite,
onde já nem o silêncio entoa,  atravessa-se
a casa,  a casa do outro lado
prolonga-se em socalcos.

18-10-2014
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terça-feira, outubro 14, 2014

ALGUMAS COISAS QUE FIZESTE



Já dançaste em círculos à volta do bezerro, ébrio
do ouro a escorrer pelos teus olhos,  alguns
dos teus haveres empenhados  no caminho
rumo a Canaã; sentiste as tábuas da lei partidas
contra o teu coração, mesmo assim  colheste
dos arbustos sem nome o mais belo pão divino;
bateste numa rocha
e bebeste a água represada desde o dilúvio; viste gigantes
à porta da terra do leite e do mel, já longe
do Egipto começaste a ter a noção da saudade,a falta das cebolas
e da carne e olhavas para trás, com os pés no chão
andaste quarenta anos no deserto.

13-10-2014
© 

quarta-feira, outubro 08, 2014

A morte do artilheiro na torre giratória do B-24


Poema Randall Jarrell

Do ventre da minha mãe caí no Estado,
E dobrado num útero de acrílico até meu blusão molhado congelou.
A trinta mil pés da terra, perdi o sonho da vida,
Acordei com a anti aérea e o pesadelo dos caças.
Quando morri lavaram-me para fora da torre com a mangueira.

Versão minha ©

domingo, setembro 21, 2014

UMA PALAVRA

    Estamos desprevenidos e uma palavra 
    Que parece não fazer falta, força o tumulto
    Na corrente profunda da alma, paira
    Acima do tempo, uma palavra simples
    Que começa nas franjas do sangue, Mãe
    Como Hoffmann perdido sem reflexo no espelho
    Olho-me e estou órfão
    Agora que a morte cortou o cordão umbilical.


    20-09-2014
    ©

segunda-feira, setembro 01, 2014

PEDE-SE RIGOROSO SILÊNCIO



Há silêncios que enchem nossos ouvidos
mais que o trovão, Antígona
a conspirar vingança é um clássico
do silêncio, o silêncio do verso que começa
a costurar o melhor tecido que há em nós

Há muito silêncio no odor a colinas queimadas
o perfume das rosas é um silêncio às cores
o silêncio das janelas que se entregam à noite

Um iluminado silêncio
quando um fósforo vence o vento
e irremediavelmente arde, nas mãos
existe o lugar preferido dos silêncios

E não se pense que o que ocorre numa
estante não é o silêncio, Ulisses fatigado
das lágrimas na praia de Calipso
é um silêncio no Canto Quinto

E o silêncio que durante algum tempo sustemos
num haiku, o silêncio
é um vazio de tudo.

© 



quinta-feira, agosto 28, 2014

Haiku


 

Por vezes Deus passa

sobre as teclas de um piano

a quatro mãos.

 

28-08-2014

 

©

quinta-feira, agosto 21, 2014

O SEGREDO



Poema de Charles Bukowski


Não se incomode, ninguém tem
a mulher mais bela, não é verdade, e

ninguém tem qualquer estranho e
escondido poder, ninguém é
excepcional ou maravilhoso ou
mágico,  apenas parecem ser
é  tudo uma fraude, cada um com a sua,
não compre nem acredite.
o  mundo está cheio de
biliões  de pessoas cujas vidas
e mortes são inúteis e
quando uma dessas se distingue 
e a luz da história  brilha
iluminando-a, esqueça, não é
o que parece, é só
outra ficção para enganar tolos
novamente.

não há super-homens, não há
mulheres formosas.
pelo menos você pode morrer
com
esta verdade
esta é a sua única
vitória.

©  Versão minha


sexta-feira, agosto 15, 2014

NA ÚLTIMA ILHA


                    
“ O que eu quero é ser eu a lutar e a apanhar o meu peixe.”
Ernest Hemingway ( em "Ter ou Não Ter")


Desde que chegara a Angela Street, depois de abandonar a sua própria velhice rotineira na Europa, que saía de casa todas as manhãs muito cedo.

Key West no extremo sul da Florida é o último lugar da América, vai-se para ele como as abelhas saltando de flor em flor.
Ele são algumas “ilhas” até chegar lá, um mar de águas largas, e quase transparentes, mas quando se aporta na cidade, o ar levemente salgado, amarra o forasteiro, como a uma velha escuna.
Quando chegou, na tarde em que Miami ficara para trás, e ainda mais longe o seu país,  ainda sentiu uma nostalgia a humedecer-lhe os olhos.

Agora, todas as manhãs, sem pensar já nisso, saía para estar junto do mar. A sua respiração era, como dizer, era marinha.
Isso, percorria as ruas desde a Angela até à William, para ver o que se passava no Schooners Bar, mais para lançar os olhos a alguns veleiros e ganhar ideias , depois descia ao Southermost Point.  Voltava pela Whitehead St., porque o seu bar era outro.
Sentava-se, com o gin, uma pedra de gelo que parecia um iceberg,  no Green Parrot.  Gostava do nome e da sua alusão aos trópicos.  Olhava para o copo e parecia-lhe sempre que a rodela de limão era um jangada.

 Ia para junto do mar. Era a sua companhia, ia tocar-lhe, sentir as mãos cheias de água do Golfo. Derivava, por vezes, os olhos para o lado da ilha de Cuba, mas a distância era ainda uma névoa imensa. 
Todas as manhãs levava blocos e lápis e as notas sucediam-se manuscritas, quem o visse, deveria perguntar-se porque não usava os meios modernos.
Mas o lápis era telúrico, estava ligado ao solo, como se quisesse ter sempre os dedos sujos de carvão. Escrevia com um minério que ainda trazia calor à humanidade.

Todas os dias almoçava e jantava pelos bares da praia, umas vezes na Smathers Beach, outras na Higgs Beach Dog Park. Não dava por viver sozinho.
  
Embora não o admitisse, esperava, sem nada porém que lhe marcasse a jurisdição da espera. Andava perfeitamente descansado, porque deixava um papel, o mesmo gesto de há anos, pregado na porta: “Estou no Green Parrot, se chegarem sem avisar”.

©