A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
quarta-feira, outubro 08, 2014
A morte do artilheiro na torre giratória do B-24
Poema Randall Jarrell
Do ventre da minha mãe caí no Estado,
E dobrado num útero de acrílico até meu blusão molhado congelou.
A trinta mil pés da terra, perdi o sonho da vida,
Acordei com a anti aérea e o pesadelo dos caças.
Quando morri lavaram-me para fora da torre com a mangueira.
Versão minha ©
domingo, setembro 21, 2014
UMA PALAVRA
Estamos desprevenidos e uma palavra
Que parece não fazer falta, força o tumulto
Na corrente profunda da alma, paira
Acima do tempo, uma palavra simples
Que começa nas franjas do sangue, Mãe
Como Hoffmann perdido sem reflexo no espelho
Olho-me e estou órfão
Agora que a morte cortou o cordão umbilical.
Na corrente profunda da alma, paira
Acima do tempo, uma palavra simples
Que começa nas franjas do sangue, Mãe
Como Hoffmann perdido sem reflexo no espelho
Olho-me e estou órfão
Agora que a morte cortou o cordão umbilical.
20-09-2014
©
segunda-feira, setembro 01, 2014
PEDE-SE RIGOROSO SILÊNCIO
Há
silêncios que enchem nossos ouvidos
mais que o
trovão, Antígona
a conspirar
vingança é um clássico
do
silêncio, o silêncio do verso que começa
a costurar
o melhor tecido que há em nós
Há muito
silêncio no odor a colinas queimadas
o perfume
das rosas é um silêncio às cores
o silêncio
das janelas que se entregam à noite
Um
iluminado silêncio
quando um
fósforo vence o vento
e
irremediavelmente arde, nas mãos
existe o
lugar preferido dos silêncios
E não se
pense que o que ocorre numa
estante
não é o silêncio, Ulisses fatigado
das
lágrimas na praia de Calipso
é um
silêncio no Canto Quinto
E o
silêncio que durante algum tempo sustemos
num haiku,
o silêncio
é um vazio
de tudo.
©
quinta-feira, agosto 28, 2014
quinta-feira, agosto 21, 2014
O SEGREDO
Poema de
Charles Bukowski
Não se
incomode, ninguém tem
a mulher
mais bela, não é verdade, e
ninguém tem
qualquer estranho e
escondido
poder, ninguém é
excepcional
ou maravilhoso ou
mágico, apenas parecem ser
é tudo uma fraude, cada um com a sua,
não compre
nem acredite.
o mundo está cheio de
biliões de pessoas cujas vidas
e mortes
são inúteis e
quando uma
dessas se distingue
e a luz da
história brilha
iluminando-a,
esqueça, não é
o que
parece, é só
outra
ficção para enganar tolos
novamente.
não há
super-homens, não há
mulheres formosas.
pelo menos
você pode morrer
com
esta
verdade
esta é a
sua única
vitória.
© Versão minha
sexta-feira, agosto 15, 2014
NA ÚLTIMA ILHA
“ O que
eu quero é ser eu a lutar e a apanhar o meu peixe.”
Ernest Hemingway ( em "Ter ou Não Ter")
Desde que chegara a Angela Street, depois de abandonar a sua própria velhice rotineira na Europa, que saía de casa todas as manhãs muito cedo.
Desde que chegara a Angela Street, depois de abandonar a sua própria velhice rotineira na Europa, que saía de casa todas as manhãs muito cedo.
Key West no extremo sul da Florida é o último
lugar da América, vai-se para ele como as abelhas saltando de flor em flor.
Ele são algumas “ilhas” até chegar lá, um mar
de águas largas, e quase transparentes, mas quando se aporta na cidade, o ar
levemente salgado, amarra o forasteiro, como a uma velha escuna.
Quando chegou, na tarde em que Miami ficara
para trás, e ainda mais longe o seu país, ainda sentiu uma nostalgia a humedecer-lhe os
olhos.
Agora, todas as manhãs, sem pensar já nisso,
saía para estar junto do mar. A sua respiração era, como dizer, era marinha.
Isso, percorria as ruas desde a Angela até à
William, para ver o que se passava no Schooners Bar, mais para lançar os olhos
a alguns veleiros e ganhar ideias , depois descia ao Southermost Point. Voltava pela Whitehead St., porque o seu bar
era outro.
Sentava-se, com o gin, uma pedra de gelo que
parecia um iceberg, no Green
Parrot. Gostava do nome e da sua alusão
aos trópicos. Olhava para o copo e
parecia-lhe sempre que a rodela de limão era um jangada.
Ia
para junto do mar. Era a sua companhia, ia tocar-lhe, sentir as mãos cheias de
água do Golfo. Derivava, por vezes, os olhos para o lado da ilha de Cuba, mas a
distância era ainda uma névoa imensa.
Todas as manhãs levava blocos e lápis e as
notas sucediam-se manuscritas, quem o visse, deveria perguntar-se porque não
usava os meios modernos.
Mas o lápis era telúrico, estava ligado ao
solo, como se quisesse ter sempre os dedos sujos de carvão. Escrevia com um
minério que ainda trazia calor à humanidade.
Todas os dias almoçava e jantava pelos bares
da praia, umas vezes na Smathers Beach, outras na Higgs Beach Dog Park. Não
dava por viver sozinho.
Embora não o admitisse, esperava, sem nada
porém que lhe marcasse a jurisdição da espera. Andava perfeitamente descansado,
porque deixava um papel, o mesmo gesto de há anos, pregado na porta: “Estou no
Green Parrot, se chegarem sem avisar”.
sexta-feira, julho 18, 2014
MADRID, 1936
Com um fuzil apagado nas mãos
morrer em Madrid, as casas sólidas
a caírem do pó, os
pássaros
caídos das janelas, para morrerem
em Madrid, os filhos
presos aos cabelos das mães
Morrer em Madrid
com um cravo roto nos olhos.
18-07-2014
©
quarta-feira, julho 16, 2014
DEVASTAÇÃO, Inédito de Rui Miguel Duarte
"And the
dead tree gives no shelter, the cricket no relief"
“E a árvore
morte não dá abrigo, nem alívio vem do grilo”
T. S. Eliot, de
"Waste Land", secção I v. 23
as árvores
escondem o que há de cinza
avessas ao
vulgo, ao desenfado profano
só lhes dava o
sol, de manhã,
e têm frio
(quanto mais
lhes dá mais frio têm)
não procures
indagar para onde
te eleva o voo
da locusta
para onde a
mancha dos grilos
que do céu
galopa sobre a terra
eles
não adivinharão nada do mistério
do dia e da
noite,
ou o marulhar
potente do exército de pedras
só um vento
vermelho
que te descascam
as folhas até à solidão
até ao vazio das
palavras
o que vês do
alto da tua copa
é o oceano seco
que tuas raízes jorram
roídas
ainda que o
fruto minta, mente
o rio do olvido
vem reclamar
os fardos das
árvores: que dispam
os seus troncos
assim entoarás
louvores à nuvem que
passa
Rui Miguel
Duarte
15/07/14
quinta-feira, julho 10, 2014
FERIA DE SAN FERMÍN
É terrível a sombra de toiros negros
a rolar pelas paredes um rumor como o chão em pânico
é terrível
como se tremessem as janelas das casas hirtas
e o medo nas vozes tremesse é terrível
a tarde incendiada
por laços vermelhos
no pescoço ao vento que os toiros negros deixam
ao passar é terrível cada corpo a cingir-se contra as
paredes
é terrível as costelas a baterem umas nas outras
castanholas partidas é terrível
com a respiração do toiro sobre o corpo.
10-07-2014
©
terça-feira, julho 08, 2014
Inédito de José Brissos-Lino
Sento-me num livro
Sento-me num livro e espero as contingências
do sol da manhã
percorro-lhe a alma vagarosamente
com a gentileza de um piscar de olhos
ao virar da página
e depois custo a despegar os olhos
e o sentido
da corrente de vida
até que desague
na última capa.
7/7/14
© José Brissos-Lino
segunda-feira, julho 07, 2014
quarta-feira, julho 02, 2014
BLUES PARA UM FUNERAL
Wystan
Hugh Auden ( W.H.Auden, Inglaterra, 1907-1973)
Parem os relógios, cortem o telefone,
atirem ao cão um osso sumarento,
um lençol de silêncio sobre o piano e os tambores
atirem ao cão um osso sumarento,
um lençol de silêncio sobre o piano e os tambores
precedam o caixão, com carpideiras.
Que os aviões, gemendo por cima do cortejo
rabisquem no céu a mensagem Ele Está Morto.
rabisquem no céu a mensagem Ele Está Morto.
Ponham
laços negros no pescoço das pombas
e
os polícias respeitem o dia com luvas brancas
Ele era o meu norte e o sul, meu leste
e o oeste,
minha semana de trabalho e meu domingo,
era o meu dia e a noite, a minha voz e o meu cântico;
eu pensei que o amor era eterno: E enganei-me.
minha semana de trabalho e meu domingo,
era o meu dia e a noite, a minha voz e o meu cântico;
eu pensei que o amor era eterno: E enganei-me.
não procurem mais as estrelas, apaguem-nas,
empacotar a lua e desmantelar o sol é o que resta,
empacotar a lua e desmantelar o sol é o que resta,
despejem os oceanos e derrubem as florestas;
pois nada mais será bom como foi antes.
pois nada mais será bom como foi antes.
01-07-2014
© Versão livre minha
quarta-feira, junho 25, 2014
RETROSPECTIVA
para o José Monteiro (1956-2014)
Não, era a vida à tua maneira
à tua maneira que
as cores saíam
da hibernação
dos tubos, de dentro dos teus olhos
as voltas que as tintas davam, uma volta
ao mundo, nem Lewis Carrol descreveu
túneis para o País
das Maravilhas
tão cúmplices das tuas fantasias, algumas
geométricas engoliam-nos
e ficávamos a respirar com o silêncio muito aberto.
25-06-2014
©
sexta-feira, junho 20, 2014
A Coroa
(Annibale Carracci, óleo s/tela, 1585)
Repouso a minha cabeça para a coroa
de espinhos, ostentarei
o silêncio da flor envergonhada
com flechas no lugar das pétalas
Poderia no fim da vida
ter uma coroa que me amaciasse
a cabeça, mesmo que o reino fosse pesado
uma coroa limpa
Mas não, eu não poderia
suportar uma coroa
que esmagasse em mim o meu
amor
escarlate pelo mundo
para ter um reino na terra, se
assim fosse
teríeis outras razões para a
minha morte.
20-06-2014
©
sexta-feira, junho 06, 2014
No Blog Crebas. Blogaliza.Org: Traduções de um poema de Seamus Heaney
NO BLOG CREBAS.BLOGALIZA.ORG:
Poemas (LXIII): Fragmento de «Field Work» (Traballo de campo), de Seamus Heaney
Published by Miro Villar under Poesía,Versións ou traducións
Field Work (Traballo de campo, Xerais, 1996, reeditado en 2005 por La Voz de Galicia), de Seamus Heaney, con introdución e tradución do poeta Vicente Araguas, publicouse como primeiro número da colección de poesía Ablativo Absoluto, agora en triste liquidación. Entre os seus textos inclúe o poema que lle dá título ao libro, dividido en catro partes das que agora ofrecemos a primeira en versión orixinal, na versión galega de Araguas e noutra versión portuguesa de J. T. Parreira, con sensibles diferenzas de matiz.
Field Work
I
Where the sally tree went pale in every breeze,
where the perfect eye of nesting blackbird watched,
where one fern was always green
I was standing watching you
take the pad from the gatehouse at the crossing
and reach to lift a white wash off the whins.
I could see the vaccination mark
stretched on your upper arma, and smell the coal smell
of the train that comes between us, a slow goods,
waggon after waggon full of big-eyed cattle.
(Seamus Heaney)
Trabalho de Campo
Onde a acacia palidecía a cada brisa,
onde espreitaba o ollo perfecto do merlo aniñando,
onde un fento estaba sempre verde.
Eu ficaba a ollarte atravesando o curral
desde a caseta do gardabarreiras ata o cruce
e como estendias a man para recoller a roupa lavada das toxeiras.
Podía ver a marca da vacina
dilatada no teu antebrazo, e cheirar o cheiro a carbón
do tren que pasa entre nós, un mercancías lento,
vagón tras vagón cheos de gando de ollos grandes.
(Tradución: Vicente Araguas)
Trabalho de Campo
Onde descorava o salgueiro a cada brisa,
onde o olho do merlo amante vigiava,
onde o feto estava sempre verde,
eu ficava parado a observar-te
ias da cancela do curral à encruzilhada
e estendias a mão para colher a roupa limpa nos tojais.
Eu podia ver a tua marca da vacina
retesada no antebraço, e cheirar o cheiro a carvão
do trem que entre nós passa, mercadorias lento,
vagão após vagão cheio de olhos grandes do gado.
(Tradução: J. T. Parreira)
O MURO DAS LAMENTAÇÕES
(Mulheres junto ao Muro, foto antiga retirada da Web)
É o som dos sapatos que se ouve
para não acordar os mortos, o silêncio
envolve os murmúrios
Os carros passam longe, noutra civilização
Mãos e orações trocam papéis com as pedras
As
pedras conseguem há milénios
guardar tudo
o que diz o povo com a cabeça rente ao muro.
05-06-2014
© quinta-feira, maio 29, 2014
[SEI POR QUE CANTA O PÁSSARO ENJAULADO]
Fotografia de Animesh Ray ©
Um pássaro não canta por ter uma resposta,
Ele canta porque tem uma canção."
Maya Angelou
Um pássaro não canta por ter uma resposta,
Ele canta porque tem uma canção."
Maya Angelou
Sei por que canta o pássaro enjaulado
Ignora as grades
As grades são só um risco entre o azul
E o azul, a luz que parece limitada e depois
a sua explosão, o intervalo entre o ar
e o ar, o cântico
do pássaro ignora as grades, como o cântico
do homem ignora o espartilho da garganta.
29-05-2014
©
Ignora as grades
As grades são só um risco entre o azul
E o azul, a luz que parece limitada e depois
a sua explosão, o intervalo entre o ar
e o ar, o cântico
do pássaro ignora as grades, como o cântico
do homem ignora o espartilho da garganta.
29-05-2014
©
terça-feira, maio 27, 2014
[ QUANDO VOLTÁMOS A CASA ]
Foto de Robert Capa, 1948
“Quem são estes que
vêm voando como nuvens,
e como pombas às
suas janelas?” Isaías, 60,8
Quando voltámos a casa e crescemos
Sobre os nossos pés
Para espreitar as janelas, com algumas teias
Como véus antigos, e entrámos e nos inclinámos
Sobre a mesa de madeira com rugas de solidão
Anos e anos com um silêncio
Sem pão, a nossa casa estava estéril, agora
Começará a dar
frutos, a deitar calor pela chaminé
Vai começar a
acender as janelas.
27-05-2014
sábado, maio 10, 2014
[A mulher carrega livros instáveis para vender]
A woman carries books for sale in Luanda, Angola. © Rafael Marchante.
A
mulher carrega livros instáveis para vender
em Luanda, sem tempo
para
a sua sombra
Como
o coração aguenta uma torre de utopias
inclinada à cabeça, uma Pisa
uma
Babel, uma vaga de letras cortando o vento!
Competem
pássaros e folhas a dançar
equilíbrios
instáveis na manhã
Que
livros carrega e não lê, como se fossem fortuna
para
mudar em silêncio a vozearia da rua.
10-05-2014
©
sábado, maio 03, 2014
O RIO CUJO NOME NÃO SABEMOS
Por
vezes, como o tigre de Jorge Luís Borges
passamos
pela margem do rio
cujo
nome ignoramos
pode
ser a Morte
ou
a Manhã futura, forma clara
que
se move desde o arché
em
que Deus está, é aqui
que
os nossos olhos se repartem,
olhar
o abismo sob a água
ou
deixarmos que corra
à
superfície da frescura, o rasto
do
odor que se segue até ao mar.
2/5/2014
©
(Washington Allston, 1779-1843. Paisagem. Pintura do romantismo americano.)
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