A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
segunda-feira, julho 22, 2013
O VERÃO
Um espelho verde reflete a trémula dança das folhas
das arvores pegajosas de luz e verao
Ha um restolhar dormente entre troncos e ramos
a renda da toalha de sombras no chao
convida a um abraço.
O ar cheira a peras. A casa dos avós . O bafo preguiçoso
do burro encostado ao poço. O cesto de ameixas luzidias
como bolas de vidro amarelas e vermelhas.
O espelho verde do ribeiro reflete a tremula dança
de nuvens brincando com o pegajoso sol de verão.
Sento-me a tricotar com agulhas da lembrança
um casaco de infancia com muitas cores.
Clélia Mendes
Julho, 2013
segunda-feira, julho 15, 2013
As manhãs de Penélope
É primordial toda a manhã
de Penélope, o tear começa
a emaranhar os fios nos dedos
de Penélope,
como um ribeiro
desliza no silêncio
o fio da lã
que vai vestir a morte de Laertes,
enquanto os olhos de Penélope na manhã
primordial, apetrechados de asas
vigiam o amplo mar divino.
15/7/2013
©
terça-feira, julho 09, 2013
ALFARROBEIRA EM FLOR, William Carlos Williams
Do meio
dos
verdes
rijos
velhoshúmidos
tortos
ramoschega
branco
amávelnovo
Maio.
© Versão de J.T.Parreira
sexta-feira, julho 05, 2013
Salmo brasileiro de Portinari
Toda a música vestida de flauta
e clarinete e afagada nas cordas
toda a música de branco
louva onde quer
que nossos ouvidos se humilhem.
5/7/2013
e clarinete e afagada nas cordas
toda a música de branco
louva onde quer
que nossos ouvidos se humilhem.
5/7/2013
©
quinta-feira, junho 27, 2013
segunda-feira, junho 24, 2013
ALMOÇO NA RELVA
Trazem as pálpebras
semiabertas, o olhar
envergonhado, se pudessem
os vestidos
e as calças, as camisas
sem o corpomas não são invisíveis, um a um, depois
são muitos
trazem o silêncio das mãos, fechado
na prisão dos dedos, carregam
crianças nas veias do sangue
do seu coração, vêm fazer tréguas
com a fome, voltam para casa e fecham
o rosto nas janelas e o nome.
24/6/2013
©
quarta-feira, junho 19, 2013
Delicadeza de Deus
Dos ramos do vento, caiu uma folha
bateu-me
nos cílios. De modo diferente
achei grande a delicadeza
de Deus.
bateu-me
nos cílios. De modo diferente
achei grande a delicadeza
de Deus.
2/5/2013
terça-feira, junho 11, 2013
A rosa só num banco de jardim
A rosa sustenta sozinha
os olhos do mundo, dentro
das pétalas um silêncio fundo
a rosa dispersa-se na vista de quem passa
a rosa esquecida
sem sonhar, agora triste
por não ter as asas
Por ela hão-de passar as nuvens
que apertam as estrelas, depois a chuva
deixará na rosa o rasto
da água pura.
10/6/2013
©
os olhos do mundo, dentro
das pétalas um silêncio fundo
a rosa dispersa-se na vista de quem passa
a rosa esquecida
sem sonhar, agora triste
por não ter as asas
Por ela hão-de passar as nuvens
que apertam as estrelas, depois a chuva
deixará na rosa o rasto
da água pura.
10/6/2013
©
segunda-feira, junho 03, 2013
RACH nº 3
Pequenos jorros de água pura, o que vem primeiro
depois o acariciar as
crinas dos cavalos
que esperam, escondidos
sob as teclas
começam um tropel, os
teclados
surpreendem-se com os
dedos do silêncio
então despertam, do
fundo
das cordas mais humildes,
invisíveis os ouvidos
aguardam do pianista o
misterioso vendaval.
3/6/2013
©
terça-feira, maio 28, 2013
Como é triste Veneza
(Piazza di San Marco, Canaletto)
Como é triste Veneza se não há amor
como serão tristes
as pombas da Piazza se não rodeiam
um homem e uma mulher escondidos
no fundo de um abraço
como é triste sem ninguém
a Ponte dos Suspiros
como são tristes as gôndolas
que envelhecem no asfalto.
28/5/2013
©
Como é triste Veneza se não há amor
como serão tristes
as pombas da Piazza se não rodeiam
um homem e uma mulher escondidos
no fundo de um abraço
como é triste sem ninguém
a Ponte dos Suspiros
como são tristes as gôndolas
que envelhecem no asfalto.
28/5/2013
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sábado, maio 25, 2013
A Espiritualidade de Bocage
A Essência Espiritual do Pensamento de Bocage, Aqui
Texto de 1979 recuperado da História da Cultura Evangélica
segunda-feira, maio 20, 2013
1947
“Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
Ruy Belo
Veio a primavera e o sono
das cores despertou, as
florestornaram os ramos aprazíveis
e as abelhas expandem-se suaves
Mas o verão levou a primavera
e as suas manhãs celestiais
vão abrindo clareiras e as ruas
com raparigas, são paisagens
como os campos de morangos
e um quadro de Gauguin
Quase tudo se resume às folhas no chão
com o outono, os nossos olhos
só percebem os contornos do Infinito
e chegam as chuvas para molharem
a melancolia do inverno
E tudo volta ao seu trilião de princípios.
13/5/2013
©
sábado, maio 18, 2013
ATÉ AO MEU REGRESSO
(em memória...)
No chão manchado de vermelho e cinza
o amarelo brinca entre as folhas e os papeis amarrotados
de cadernos e bicos de lápis partidos.
No bolso branco da bata a mancha azul do aparo lambuzado
da caneta de pau. Tinteiro. Prova dos nove, fora a infância
gritada no recreio. Bola de trapos . Sol na bochecha. Campainha aos gritos
a chamar ao recolher. Orelhas quentes da correria e dedos da professora.
"Ai o menino!"
Todos os rios a desaguarem no Atlântico ou talvez não
e as linhas dos comboios de áfrica onde um dia...
até ao meu regresso. Nariz colado no vidro enjoativo.
Noves fora, e vai um ao quadro. Giz que se parte em dois. Mais dois quatro.
E a linha reta que se torna orgulhosamente curva . Lamarosa, Alfarelos...e outros apeadeiros clandestinos. Uma sardanisca subversiva trepa a janela.
Galhofa da cambada. O ar adocicado do cardeal paira pegajoso sobre
a dormência dos grilos nas franjas.
A prova lambuzada de azul da tinta e o morse do ponteiro
na tabuada dos 8...
O chão manchado de cinza la fora onde o amarelo brinca com folhas
e bicos de cor dos lápis partidos, enrola na brisa papeis
amarrotados de contas. Fúria escarlate num "mau"...ai agora!
As orelhas quentes da brincadeira e dos dedos do pai,"ai o menino!"
Os ramos a crescer e as raízes quadradas dos anos a segurar por um fio
rios e comboios de áfrica. Províncias de nomes estranhos onde um dia,
até ao meu regresso - se plantaria noutro chão. Outro tom de amarelo
a brincar com papeis amarrotados de contas "já falta pouco...e vai um"
Tinta permanente no bolso da farda . Prova dos nove
contada pelos dedos na gritaria do recreio da escola. Tão longe.
Maio, 2013
Clélia Mendes
No chão manchado de vermelho e cinza
o amarelo brinca entre as folhas e os papeis amarrotados
de cadernos e bicos de lápis partidos.
No bolso branco da bata a mancha azul do aparo lambuzado
da caneta de pau. Tinteiro. Prova dos nove, fora a infância
gritada no recreio. Bola de trapos . Sol na bochecha. Campainha aos gritos
a chamar ao recolher. Orelhas quentes da correria e dedos da professora.
"Ai o menino!"
Todos os rios a desaguarem no Atlântico ou talvez não
e as linhas dos comboios de áfrica onde um dia...
até ao meu regresso. Nariz colado no vidro enjoativo.
Noves fora, e vai um ao quadro. Giz que se parte em dois. Mais dois quatro.
E a linha reta que se torna orgulhosamente curva . Lamarosa, Alfarelos...e outros apeadeiros clandestinos. Uma sardanisca subversiva trepa a janela.
Galhofa da cambada. O ar adocicado do cardeal paira pegajoso sobre
a dormência dos grilos nas franjas.
A prova lambuzada de azul da tinta e o morse do ponteiro
na tabuada dos 8...
O chão manchado de cinza la fora onde o amarelo brinca com folhas
e bicos de cor dos lápis partidos, enrola na brisa papeis
amarrotados de contas. Fúria escarlate num "mau"...ai agora!
As orelhas quentes da brincadeira e dos dedos do pai,"ai o menino!"
Os ramos a crescer e as raízes quadradas dos anos a segurar por um fio
rios e comboios de áfrica. Províncias de nomes estranhos onde um dia,
até ao meu regresso - se plantaria noutro chão. Outro tom de amarelo
a brincar com papeis amarrotados de contas "já falta pouco...e vai um"
Tinta permanente no bolso da farda . Prova dos nove
contada pelos dedos na gritaria do recreio da escola. Tão longe.
Maio, 2013
Clélia Mendes
domingo, maio 12, 2013
AQUILA
Alheia às ruínas da terra
para ela não há abismos, das alturas
há maravilhas, escuta as canções dos abetos
e dos pinheiros, dos píncaros das florestas
que o sopro do silêncio espalha
baila como se estivesse nua
e alimenta o vento com as densas penas
mesmo no céu os dias sombrios queimam
alguns, poucos, olham-na como um ponto
de referência que se move e sabem
que aos olhos não é legítimo retê-la
o seu bico é uma bússola para todos os sentidos
da rosa dos ventos.
12/5/2013
©
sexta-feira, maio 10, 2013
CAPRICHO ÁRABE
Toca no meu coração delicadamente as cordas
Com dedos ternos – seixos de um riacho
Suave e quedo como asas de pomba
Passando pelo castanho dos meus olhos
Toca meu rosto
Com esse sol andaluz da tua voz
O gosto a tangerina dos teus lábios
Toca a guitarra dos meus ombros
Com o som quente do horizonte de onde vieste
Numa misteriosa tarde de verão.
Fev 2013
Clélia Mendes
terça-feira, maio 07, 2013
TELEFONE PARA O SILÊNCIO
Para Sylvia Plath
Telefona-me para o silêncio
do meu coração, o som
baterá no que resta ainda dos cristais
nos recantos vazios da noite
Esta noite
preciso da luz apagada
da minha estrela
Chamo-te quando vem o silêncio
desse lado do fio, do frio
deste telefone público sem respostas
na profundidade dos teus ouvidos
caem as minhas chamadas
há um grito
no limite das sombras
a perder-se no abismo.
19/6/2012
©
sexta-feira, maio 03, 2013
Formulação para os Guarda-Chuvas de Renoir
Eles são pássaros abertos e derramam
Asas azuis, metalicamente
Octogonais, eles sobrevoam ombros
No fluxo do rio da multidão
Mas
Se o azul acender o sol, os guarda-chuvas
Pássaros fechados
Se dissipam.
3/5/2013
©
segunda-feira, abril 29, 2013
SÍSIFO HOJE
“arrastam uma pedra terrível”
Mário Quintana
Um homem
arrasta uma pedra terrível, está sozinho
na montanha, entre o cume e o abismo
tem um declive mortal
a pedra é velha, lançou raízes
o vento e as flores
despontam na pedra, o vento
ao passar lembra gazelas
que cobrem o sol nas planícies
e o homem chegado ao cimo
assiste à sua pedra triste
a rolar para o princípio.
27/4/2013
©
sábado, abril 27, 2013
Na Baía, num estanhado e escuro inverno
Na Baía, num estanhado e escuro inverno,
quando o sol tinha pouca coisa
de Ipanema,
numa estranha rua a ficar deserta,
caminhei só com o som dos próprios passos
para a poesia das estórias
de Amado.
26/4/2013
©
segunda-feira, abril 22, 2013
O SILÊNCIO É O QUE É
Escrevia silêncios”
Arthur Rimbaud
O silêncio é a garrafa vazia que chega à praia,
o silêncio
é no fundo do mar
um peixe ébrio por excesso de cores,
é a onda que vem bordar a beira mar
e esquece-se do regresso, mas como
não o esquecimento?
Se uns pés passam como verdade
descalça na praia. A solidão
do silêncio
é uma vez passado o pássaro
o ar torna ao sossego. É o silêncio
uma harpa à espera ou um velho
gato a jogar xadrez ao sol.
Como os dedos da mão, não há
um silêncio igual a outro.
20/4/2013
©
Poema publicado inédito Aqui
quinta-feira, abril 18, 2013
PASSAM A MÃO PELO ROSTO
“Aqui cada um é o seu próprio
carcereiro, irreconhecível
e anónimo.”
Paal Brekke (Poeta noruguês, trad. Amadeu Baptista)
carcereiro, irreconhecível
e anónimo.”
Paal Brekke (Poeta noruguês, trad. Amadeu Baptista)
Passam a mão pelo rosto e não encontram nada
o nariz adunco
faz uma curva para o abismo, os olhos
sem possibilidade de evasão, os lábios
apenas com a sintaxe da dor
São estranhos
marcados com seis pontas estelares
como uma roda dentada
que tritura o corpo
Passam com as mãos nos ouvidos
e sentem a falta das canções maternas.
18/4/2013
©
(Foto de Dachau Concentration Camp)
segunda-feira, abril 15, 2013
A TRAGÉDIA
estão no chão, os olhos
ligam-nos ao chão, só o menino
ergue a esperança
que virá, o próprio mar
humilha-se aos seus pés.
14/4/2013
© Picasso, Tragédia, Fase Azul
quarta-feira, abril 10, 2013
Carta de Virginia Woolf
Sinto que as vozes batem, de novo
nas paredes da minha cabeça, tenho a certeza
que é o morse intermitente da loucura
fomos felizes até surgirem estas vozes, duas pessoas
jamais foram tão felizes como nós
Abrirei os braços, soltarei os cabelos
serão a cabeleira de uma ninfa nas águas
deste rio, o meu corpo será um dardo na corrente
Na margem deste rio sei que haverá
um pescador de casaco vermelho, ovelhas
espalhadas sob a sombra dos salgueiros
Perdi tudo, menos este espaço pequeno
que ocupo na morte, não vou continuar
a estragar a nossa vida. Espero por ti no fundo rio.
10/4/2013
©
terça-feira, abril 09, 2013
Cântico de Maria Madalena
Eu vi-Te na flor da manhã
na luz dispersa pelas primeiras horas
de domingo
Naquele segundo a pedra
pareceu-me transparente,
o arum espelho que reflectia anjos
Eu vi os lençóis
arrumados no vórtice
imóvel do sepulcro
quando ia pousar ramos
de incenso sobre o corpo.
©
segunda-feira, abril 01, 2013
ANNE SEXTON TUDO EM MIM É UM PÁSSARO
Tudo em mim é um
pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
(Anne Sexton, poeta americana, 1928-1974, morte por suicídio)
não é fácil
livrarmo-nos da morte, os fumos
do escape a cegarem seus olhos
com as lágrimas
Escrevia cartas de censura a Sylvia Plath
porque lhe roubara a morte, arrastando-se
primeiro ao seu regaço
a morte que estava pegada à sua pele
que respirava, escondida, dentro dela
da beleza dos seios, bebendo-a
como o leite da aurora.
1/4/2013
©
domingo, março 31, 2013
NOLI ME TANGERE
Não me toques
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto
deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto
deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
©
sexta-feira, março 29, 2013
ANTIQUALHAS
Do algodão das arcas para outro silêncio
o do olhar conspícuo
saem móveis retro
que já tiveram a flor da idade
azulejos árabes, livros
onde o raro
é terem resistido aos
bibliófagos, algunsvidros coloridos de Murano
bustos romanos sem nariz,
uma orelha
a menos numa esfínge, um
braço a menosnuma réplica de Vénus
porcelanas de reis que tinem e cristais
que mãos delicadas festejaram.
28/3/2013
© sexta-feira, março 22, 2013
O Escritor E.L.Doctorow só agora chegou a Portugal ?
No panorama das edições em Portugal de autores estrangeiros vivos, obedece-se muito a critérios que, não sendo cegos, parecem ter muita falta de memória.
No suplemento Ipsilon, do diário Público de hoje (22/3/2012), a capa traz em parangonas: "E.L.Doctorow vai deixar de ser desconhecido em Portugal"
Não sei se em Portugal, pelo menos no suplemento e na informação literária da redactora em NYC, Isabel Lucas, talvez seja.
O autor perguntou "quantos livros meus estão publicados em Portugal?" Em português, só no Brasil, terá sido a resposta. "Mas mais de 50 anos depois da sua estreia literária - escreve o Ipsilon- está finalmente a chegar às livrarias portuguesas o romance mais recente, através da Porto Editora, "Homer & Langley".
Perguntamos nós, e o romance "A Cidade de Deus", editado pela Europa-América, em 2002?
quinta-feira, março 21, 2013
O POEMA COMEÇA NOS OLHOS
“Le più belle poesie / si scrivono sopra le pietre”
Alda Merini
Os mais belos poemas escrevem-se
nos nossos olhos, começam
por ser um pequeno risco indolor
depois uma pequena cor que se avoluma
pode ser
por dentro de uma lágrima, não importa
a cor está lá, protegida
inquebrável mesmo no escuro da retina
as mais belas poesias começam nuas
depois há uma luz que lhes alonga
a sombra
sobre a suavidade do mármore
só então é que as palavras tocam
como outra carne, os nossos lábios.
21/3/2013
©
nos nossos olhos, começam
por ser um pequeno risco indolor
depois uma pequena cor que se avoluma
pode ser
por dentro de uma lágrima, não importa
a cor está lá, protegida
inquebrável mesmo no escuro da retina
as mais belas poesias começam nuas
depois há uma luz que lhes alonga
a sombra
sobre a suavidade do mármore
só então é que as palavras tocam
como outra carne, os nossos lábios.
21/3/2013
©
terça-feira, março 19, 2013
OS SAPATOS DO PESCADOR
Estes sapatos pretos não andarão sobre as águas
Inconformados
Com as pedras, amaciam a sua dureza
Os meus sapatos não se perdem
Em inigmas divinos
Uso os meus próprios sapatos
Pretos, solas habituadas
Ao chão em que os homens caem
E se levantam, os meus pés
Estão à vontade nestes sapatos pretos
Conhecem os meus caminhos, os olhos
Não se envergonham destes sapatos.
19/3/2013
©
Inconformados
Com as pedras, amaciam a sua dureza
Os meus sapatos não se perdem
Em inigmas divinos
Uso os meus próprios sapatos
Pretos, solas habituadas
Ao chão em que os homens caem
E se levantam, os meus pés
Estão à vontade nestes sapatos pretos
Conhecem os meus caminhos, os olhos
Não se envergonham destes sapatos.
19/3/2013
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sexta-feira, março 15, 2013
A GRAVE OF SYLVIA PLATH
Um rectângulo onde gerações de gerânios
e de olhos
têm chorado, um terreno de poesia
onde flores douradas, devagar
serão plantadas e as nuvens
passam no vidro gelado do céu
Um nome de pedra num rectângulo frio.
14/3/2013
©
e de olhos
têm chorado, um terreno de poesia
onde flores douradas, devagar
serão plantadas e as nuvens
passam no vidro gelado do céu
Um nome de pedra num rectângulo frio.
14/3/2013
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segunda-feira, março 11, 2013
O QUE RESTA
Um capote número 42
pequeno para a morte
que a guerra poupou, agora
semi fechado agasalha o silêncio
um capote que um corpo já não pesa
a manga como a corda que se lança
do convés para um braço triste
as mãos intocáveis do soldado só sonhadas
misturam-se com raízes em qualquer lugar
há um buraco ainda quente, vazio
num boné em que o filho há-de crescer.
11/3/2013
©
quarta-feira, março 06, 2013
MULHER DE AZUL
Natan
Altman, Retrato da poetisa Anna Akhmátova, 1914
Não, mulher de azul, o céu
de anjos te cantaria, e as rosas
ao fundo como células que crescem benignas
em nenhum outro lugar
haverá perfume, mulher de azul
com o sol a descer pelos teus ombros.
24/2/2013
©
terça-feira, março 05, 2013
WESTERN
Duas ou três mãos de póquer
sobre a mesa, meia garrafa de whiskey
persegue-se a si própria, desce
uma pálpebra sobre um olho
a chamar a corista, disparam
na rua principal, noutra mesa
os cinco dados rolam
como pequenos cubos de gelo no cristal.
5/3/2013
©
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
PIQUENIQUE NO ÉDEN
“É inútil a tentativa de um piquenique no Éden."
Elizabeth Bowen
Sentados diante de uma maçã- é costume
dizer-se –
foi o último piquenique no Éden, depois
o chão tremeu, com aquela reverência
quando Deus passa, quando Deus faz o silêncio
com seu olhar telúrico, o lugar
crescia como a sombra do sol inclinado
a desolação
a terra nos lábios que o fruto deixou
o medo entre as palavras.
28/2/2013
©
("Adão e Eva no Paraíso", de Paul Rubens e Jan Brueghel, o Jovem)
domingo, fevereiro 24, 2013
DIA DE CHUVA

Rua de pedra gasta de agua onde as poças
espelham arvores com coragem de flores
O brilho negro das botas reflecte
As cores do arco iris no chapéu de chuva
Nevoa doce da tua carícia molhada no cabelo
Lava-me os braços nus.
Fixo os olhos nas cores do arco iris
No chapeu de chuva que pinga pedaços
De ausencia nas poças onde se espelha
O sorriso com promessa de regresso.
O brilho negro dos cabelos na caricia molhada
lava-me o cabelo que reflecte o negro
das botas na pedra gasta da tarde.
Fev 2013
© Clélia Mendes
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
POEMA PARA OS QUE ANDAM DE “METRO”
“Levantar-me, mergulhar no “metro”(...)
Vicente Gaos
Ainda com sonhos pelo meio, as nuvens
homens e mulheres multiplicados
como nos espelhos em silêncio, esperam
a noite ainda nos olhos,
no tunel
o tubo vem do fundo da luzpara comprimir os perfumes e os corpos
actores de todos os papéis, rostos
com todos os vícios
entram e sentam-se com a
alma
ao colo, um jornal, um
livroou a carteira
a insónia começa enfim a partir-se
como um vidro em todos os ruídos.
©
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
O CAIS
“Tudo é silêncio de cimento”
Marcos Konder Reis
O cais está parado no último regresso
a linha é inquebrantável, o cimento
está silencioso, a gare sem olhos
a água imóvel espera rostos debruçados
tudo o que há são velhos óleos
reflectidos.
14/2/2012
©
quarta-feira, fevereiro 13, 2013
A ÚLTIMA CARTA DA FRENTE DE BATALHA
São as tuas palavras, as
últimas
que choram nos meus olhos,
brilham
e pesam tanto as lágrimas
esperámos-te, capazes da
maior ferocidade
contra a morte
mas não haverá regresso,
só silêncio
dentro de nós
A tua vida deslizou,
quando entre mãos
entre os joelhos
poisei a tua carta, a
última
luz escrita a carvão, que
lentamente se extinguiu.
13/2/2013
©
(B.Nemensky, A Última Carta, Pinturas Soviéticas da II Guerra)
(B.Nemensky, A Última Carta, Pinturas Soviéticas da II Guerra)
domingo, fevereiro 10, 2013
TODOS OS MEUS AMIGOS TOCAM PIANO
Todos os meus amigos tocam piano
adormecem os dedos sobre as teclas
alguns seguram lanças
e sentados diante dos moinhos avaliam
as possibilidades, outros
empalidecem o silêncio com a sua voz
quase todas
as suas palavras repicam a qualquer hora.
5/2/2013
terça-feira, fevereiro 05, 2013
UMA LENDA, poema de Eeva Kilpi
o Redentor dá uma volta pelos currais,
pelos estábulos, pocilgas, aidos e galinheiros,
quer dar uma vista de olhos ao lugar onde nasceu,
saudar os animais
entre os quais certa vez adormeceu
e teve em cueiros o seu primeiro sonho.
Mas tudo mudou.
Os animais contemplam-no através de grades,
humilhados no seu cativeiro,
com angústia e desespero nos olhos.
Reconhecem-no, gritam-lhe:
Volta a nascer, Redentor,
nasce para nós.
Os homens levaram-te.
Cuidaram-te bem?
Animalia, 1987
© Versão de Amadeu Batista, Aqui
sábado, fevereiro 02, 2013
NAS ÁGUAS DO GOLFO
Meteu as mãos dentro de
si ( diz-se meter a mão na consciência) e não encontrou nada. Até
iniciar a viagem às Keys, costumava falar assim:
-A minha linguagem hoje é
um misto de gin tónico e añejo gelado.
- Tens de começar uma
viagem para lá disso, ou os teus rins no “border line” não
aguentam – disseram-lhe. Uma depuração, portanto, uma limpeza.
Ao inciar o trajecto para
a última das ilhas, a Key West, iria percorrer uma autêntica linha
quase recta sobre as águas. Teria de meter também as mãos dentro dos olhos
e retirar todas as imagens partidas e encher-se daquela solidão, que
desejava fosse um sinónimo de inocência.
2/2/2013
sexta-feira, janeiro 25, 2013
CÂNTICOS DAVÍDICOS
SALMO 3
Senhor,
os meus dedos não chegam
para
contar os meus inimigosposso juntar as mãos
dos que me amam mesmo assim
são mais os inimigos
mas posso ceder
ao sono toda a noite
porque a Tua voz desce para mim
desde o monte sagrado
e o medo
não encontra espelho nos meus olhos.
SALMO 4
A
alegria de Deus
não
é a alegria dos trigos abundantesnem das uvas cheias de vinho
é muito mais
alimenta o sangue que entra e sai
no nosso coração
Todos os que buscam o que é falso
desconhecem esta verdade
e por isso a insónia
não lhes desce as pálpebras.
SALMO 5
Senhor,
prende aos teus ouvidos
as
minhas palavras, a súplicaque se instala no meu grito
As minhas manhãs comovem
os teus olhos, por mim
o teu coração se alvoroça
e o teu escudo
pelo justo faz todos os combates.
quinta-feira, janeiro 24, 2013
BIOGRAFIA DE MOISÉS ATÉ SER MÁRMORE
Roma, 1992, o poeta em São Pedro em Vincoli
iriam guardar seu nome, iriam abrir
as veias
a cada signo do seu nome
as aves entendiam o silêncio, o menino
ora dormente, ora com um choro umbilical
a fragilidade das águas.
Aquele que no
mármore havia de sentar-se
pela pesada mão
de Miguel Angelo
começou
escondido entre as folhas
do rio Nilo, os
papiros onde entrouiriam guardar seu nome, iriam abrir
as veias
a cada signo do seu nome
sombras
verdes oblíquas o escondiam
dos olhares,
debruçadas sobre as águasas aves entendiam o silêncio, o menino
ora dormente, ora com um choro umbilical
e o cesto de
juncos e betume
não rompia, na
folhagema fragilidade das águas.
15/11/2012
segunda-feira, janeiro 21, 2013
TEMPORAL
Há temporal lá fora, pior
é a ventania cá dentro, a atirar o coração
contra as paredes,
as árvores,
lá fora
são balés russos,
até a verticalidade dos candeeiros
públicos, são um pêndulo.
A pressa dos transeuntes é o vento.
19/1/2013
quarta-feira, janeiro 16, 2013
GAZA
No caminho para Gaza
tudo será diferente,
encontrarásexplicação, das metáforas de Isaías
a visão será real nos teus olhos
já nascido o Menino
foi belo, até a beleza se perder
do rosto no Calvário.
16/1/2013
terça-feira, janeiro 15, 2013
SIMONE
Canta com a voz que tem, um coração
na cavidade da voz, uma rocha
que amolece
quando um pássaro vem nidificar, uma flor
agreste onde o vento é que se verga
ou recebe a voz que vem do mar
canta com a voz, que tem olhares e gestos
Canta com a voz sem liftings.
15/1/2013
segunda-feira, janeiro 14, 2013
CARREGO O SILÊNCIO NA BAGAGEM
I carry silent baggage.
Herta Müller
Eu carrego a leveza do silêncio
na minha bagagem, o silêncio
dos olhos do cego Bartimeu
um silencioso pacote de palavras
à espera de coisas surpreendentes
E vou levando o silêncio
como uma pequena mala de outros
que falam sob a arquitrave do dia
a dia, mesmo assim posso escutar a neve
que é o vento em flocos
e o sonho do menino na almofada
que é um lugar em paz
ou mesmo ouvir uma lágrima
que é o silêncio da alma
e carrego nos olhos
uma bagagem silenciosa.
13/1/2013
Herta Müller
Eu carrego a leveza do silêncio
na minha bagagem, o silêncio
dos olhos do cego Bartimeu
um silencioso pacote de palavras
à espera de coisas surpreendentes
E vou levando o silêncio
como uma pequena mala de outros
que falam sob a arquitrave do dia
a dia, mesmo assim posso escutar a neve
que é o vento em flocos
e o sonho do menino na almofada
que é um lugar em paz
ou mesmo ouvir uma lágrima
que é o silêncio da alma
e carrego nos olhos
uma bagagem silenciosa.
13/1/2013
domingo, janeiro 06, 2013
A 9ª
Beethoven é um querubim surdo
Beethoven como o vento
não se escuta a si próprio
tem música nas mãos
onde toca, tira a poeira
do mais pobre dos silêncios.
1/1/2013
segunda-feira, dezembro 31, 2012
ESPERAR EM CASABLANCA
Em Casablanca com o deserto a arder
e a guerra dentro de todos, esperar
esperar é o que dizem os olhos
do amor, os corações são um eco
os mais felizes
têm Lisboa depois do tumulto
sob as nuvens, Casablanca
parece uma canção em voz branda.
31/12/2012
e a guerra dentro de todos, esperar
esperar é o que dizem os olhos
do amor, os corações são um eco
os mais felizes
têm Lisboa depois do tumulto
sob as nuvens, Casablanca
parece uma canção em voz branda.
31/12/2012
quinta-feira, dezembro 27, 2012
Para uma noite de Natal em algum lado
Todos sentados à volta da mesa, ou quase
todos a olhar para as iguarias, todos
pedem e dão algo no Natal
todos os anos se repete
a mesma palavra familiar
mas por vezes falta um rosto
e há lentas sílabas
pronunciadas a custo
a eternidade
que volta sempre ao mesmo sítio
mortes que se levantam do silêncio.
21/12/2012
sexta-feira, dezembro 14, 2012
Poema de Ezra Pound : SOIREE
(Ezra Pound's head, Gaudier-Brzeska)
Ao saber que a mãe escrevia versos,
E que o pai escrevia versos,
E que o filho mais novo estava numa editora,
E que o amigo da segunda filha estava
a iniciar uma novela,
O jovem expatriado Americano
Exclamou:
“Ó que ramo danado de inteligências!”
© nossa versão
E que o filho mais novo estava numa editora,
E que o amigo da segunda filha estava
a iniciar uma novela,
O jovem expatriado Americano
Exclamou:
“Ó que ramo danado de inteligências!”
© nossa versão
segunda-feira, dezembro 10, 2012
O ÚLTIMO SALMO (CL)
Não iria demorar-se muito
o silêncio
nos cantos dos lábios
as palavras como o som
de uma fonte alegre
o fôlego nas trombetas
e os dedoslímpidos nas liras, será hoje
uma respiração diferente.
10/12/2012
domingo, dezembro 02, 2012
POR ESTAS RUAS
Por estas pedras vai-se à casa em frente
a sentir o som da terra
com estes ombros carregamos a fome
dos animais, esta cabra
única vai guiando os nossos olhos
já cansados
por estas paredes o tempo escorre
e espera, vai
esperando que se abram as janelas.
4/10/2012
sábado, dezembro 01, 2012
POEMA DA EXISTÊNCIA
Ao sair à rua
vejo que Deus existe
pode passar num perfume
da chuva, passar no rosto que bate
com os olhos no chão
na criança que borboleteia
mesmo na mulher que se reflecte no vidro
e gostaria
de vestir o que está na montra
Deus existe, e caminha na minha rua
deixo ficar a Sua mão no meu ombro.
30/11/2012
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