quarta-feira, abril 02, 2014

Dia Mundial do Livro Infantil: Para Desenhar Uma Flor


PARA DESENHAR UMA FLOR

Primeiro faz-se subir da escuridão,
em que as raízes dormem,
um caule, depois
conhecemos
os passos que em silêncio dá, primeiro
um botão
que já revela o ponto ómega. A seguir,
como um lápis lazúli que esconde a mão invisível,
abre-se uma corola e com cuidado,
mesmo que as folhas anoiteçam,
vai-se desenhando a claridade da flor.

2/4/2014
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segunda-feira, março 31, 2014

[OLHO PARA O MISTÉRIO DA SOMBRA CONHECIDA]


"E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior"
Álvaro de Campos


Olho para o mistério da sombra conhecida
Fica para trás o navio como mistério parado
No espelho do rio, ao fim da tarde
O dia começa o descanso da pedra
Da  vida marítima, da Distância
De onde se vem, o barco trouxe a névoa
De quem chega, que se dissipa
Numa saudade cumprida, olho
E o meu olhar é inocente
Entre a sombra conhecida, e o mistério
do rumor oleoso do Tejo, tão inocente
que meu olhos não sentem barco nem cais
só a alegria parada do fim da tarde
Por não saber que havia ilhas e grandes mares
Todos ligados entre si porque a Terra é redonda.

30-03-2014

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segunda-feira, março 24, 2014

AUSÊNCIAS




O silêncio já não é igual
àquele de quando está gente em casa.

Esse silêncio não tem forma de corpo e nem ocupa
o ar quando passamos, não estamos
presos à sombra, sentados, e o gato,
imerso no seu sono,  reconhece-o
e não corre na alegria das patas pelos quartos.

24-03-2014
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sábado, março 22, 2014

RENOIR


Não há nas naturezas-mortas de Renoir
um fruto falso, nos nossos olhos escondido
cresce o desejo de morder

pêssegos, maçãs e a exuberância do pão
mesmo assim entre migalhas
no Cabaret de la mére Anthony

e vemos num instante o fruto apetecível
diante da nudez rotunda das mulheres de Renoir
como a luz, que voa numa asa de seda de libélula.

22-03-2014

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sexta-feira, março 14, 2014

OS PESSEGUEIROS



“Onde pessegueiros pequenos estão em flor - tudo é pequeno lá (…) é a razão porque o assunto me atraiu. " 
Van Gogh


Os pessegueiros de Van Gogh esperaram
que a neve fosse deixando o silêncio
do branco tomar forma
de pequenos sóis, com os ramos
abraçados
Então os pessegueiros de Van Gogh
começam a ser árvores sonoras.

14-03-2014
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quarta-feira, março 05, 2014

A MULHER DE SAMARIA


(Annibale Carraci, 1560-1609)



Não é qualquer uma. É uma mulher ao meio-dia
De olhos no chão, equilibrando o cântaro
Frágil
Cada lágrima que esconde

É uma mulher que teve abraços
Beijos na sua face morena, escondida
Em silêncios

Não é qualquer uma, é uma mulher
Que conhece bem o seu rosto
No espelho triste do fundo do poço

É uma mulher ao meio-dia
Que resiste, mesmo que isso a torne
Invisível, para que outros não tenham sede.

2-03-2014

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sexta-feira, fevereiro 21, 2014

AS COISAS PASSAM-SE ASSIM



Nada muda para um gato, as coisas
são dias iguais, mas percebe
pelos passos do amigo, pelas mãos
mais rápidas do que o ar,
ou cheias de sacos de viagem
que alguma coisa não está bem,
que vai sair e depois que a alta sombra
do amigo em casa desabou, porque faltam
uns joelhos onde se sentar, a mão
a segurar o gin tónico na varanda
e os joelhos onde andarão?
A nossa solidão faz falta ao gato,
é uma sombra dele mesmo
quando passa orgulhoso por nós
e nos ignora e adormece
onde nada mudou.

13/8/2013
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sábado, fevereiro 08, 2014

ESTÁ PRÓXIMO O FIM DO VERÃO (uma leitura bucólica do Apocalipse de João)

(Michael Ticino)


A saudade sonora das cigarras
quando a tarde se inclina nas searas

A solidão dos grilos, a certeza
das folhas caídas, que se entregam
aos dedos do vento atarefados

Não sei como sentem
As estrelas, mas esperam no silêncio
Adormecido das distâncias.

8-02-2014

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terça-feira, janeiro 28, 2014

40º Aniversário do Manifesto "Nova Poesia Evangélica"


J. T. Parreira: “a poesia é a passagem do não-ser para o ser


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Cumprem-se, dentro de dias, quarenta anos sobre a publicação do Manifesto por uma Nova Poesia Evangélica (NPE), simultaneamente no Brasil e em Portugal. Este documento histórico foi assinado no país irmão pelos poetas Joanyr de Oliveira, brasileiro (já falecido) e João Tomaz Parreira, português, e em Portugal também por Brissos Lino.
É tempo de fazer um balanço. Daí a longa entrevista a João Tomaz Parreira.

Entrevista de José Brissos-Lino (c)

sábado, janeiro 25, 2014

JUSTAMENTE, inédito de Rui Miguel Duarte


“… e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura…”
Mário Cesariny, “Uma certa quantidade”

justamente — dizes
são os poetas, os que caem e vêm à procura
em cada pedra o sol 
gente, pássaros de regresso ao Norte
do que já não precisamos, do que já temos
a pólvora, a gente, a agitação das ondas
a perturbação da areia
a fugir
justamente — dizes
são os poetas, os que aparecem de repente
quando já
não eram requeridos, 
quando já
foram, estão substituídos
quando já a comida tem sal
que chegue, mas para que precisamos do sal
afinal, se nem temos o vinho?
justamente — dizes
são os poetas, os que doem 
e fingem aqui e acolá, que não 
cantam, mas emitem pássaros
que cantam por eles
quando já não são precisos
quando são poetas

Rui Miguel Duarte
23/01/13




(Busto/Estátua de David Mourão Ferreira, em Oeiras)

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Uma mulher sentada em qualquer sítio



Escolheste-me mal
para olhares para mim, os meus olhos
não condizem com a alma
O meu cabelo desatado são pontas
de um verão que insiste
em ser perpétuo, cada um dos meus dedos
enrugou as coisas, à minha volta
o perfume é uma mentira fragrante
mas defende-me, o meu vestido
é apenas um véu
de mulher que deveria ser plausível.


 23-1-2014
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sábado, janeiro 11, 2014

O Brinco

Vermeer, A rapariga do brinco de pérola


Ali começa a nascer um sistema solar, um planeta
move-se  na orbita do rosto, brilha
ainda uma breve sombra
do abismo
ali de onde a luz se ergue. Um espelho
começa ali naquele rosto
onde a beleza sorri entre os lábios
um silêncio.

11-1-2014

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quarta-feira, janeiro 08, 2014

NAVEGANDO PARA A TERRA DE NINGUÉM








“That is no country for old man”
W.B.Yeats

 
Ali  não é país para os velhos, os ramos
estiolados das primaveras, as bengalas
gastas a estenderem-se das mãos, enquanto puderam
podaram rosas
altivas nos olhos juvenis, agora
têm a dança solitária da tristeza  
nos seus sonhos, isso não é país
para os velhos, vivem tanto tempo
e pesam demasiado espaço aqui,  há a terra de ninguém
mandem-nos para lá, há pouca certeza
de que sobrevivam, estão grisalhos
mandem-nos para o Ocidente
onde se apaga a luz do sol.

 
7-1-2014
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quarta-feira, janeiro 01, 2014

LIVROS, inédito, de Brissos Lino


 


 

 Vida e sonho em camadas
escada para subir os degraus
da existência

sangue
suor
lágrimas
afectos
crenças
risos
medos
à luz de súbitas latitudes

sopa de palavras e emoções
com cheiro e sabor estranhos

as lombadas do tempo apontam
à aventura dos mundos.

 
30/12/13
 
© Brissos Lino


(O último poema do ano 2013 do poeta)

terça-feira, dezembro 31, 2013

ANDAR SOBRE AS ÁGUAS





Sob os seus pés, os átomos da água
rendiam-se, o mar não tinha fundo
voava
como as aves que não pesam sobre as árvores
o mar dormia sob o peso divino
com o mesmo silêncio do veludo.
 
30-12-2013
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Publicado inédito aqui: http://ovelhaperdida.wordpress.com/2013/12/31/andar-sobre-as-aguas-inedito-de-j-t-parreira-a-fechar-2013/

terça-feira, dezembro 24, 2013

BORRASCA



O vento uiva onde quer, e fechamos os olhos
E sentímo-lo a partir-se contra o barro
Das flores na varanda, a rasgar-se
Nos vidros
A ondular como água ancestral nas janelas
Ocupa-nos as frestas do medo, depois
Descansa
E volta a tremer em tudo, como um trem
Que passa inesperado noutra linha
Ao nosso lado
E faz chocalhar tudo dentro do silêncio.

24-12-2013
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quarta-feira, dezembro 18, 2013

CHEGOU O MENINO


 

 
Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido.

Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo

Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.

 18/12/2013
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(Imagem do Facebook - Desert-rose)

domingo, dezembro 01, 2013

O Guardador dos Rebanhos



Sentado numa pedra à beira do Hélicon
conta as cabeças e vê as suas musas
a comerem erva, depois
conduz o lume dos olhos do rebanho
à frescura das águas tranquilas

O seu rebanho faz um arco
de brancura sobre a erva

O guardador de rebanhos rasga
os olhos pelos quatro pontos cardeais
até pelos espinhos, quando uma ovelha
perde o rumo à sua voz.

30/11/2013
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(The Little Shepherd Boy, Friedrich Otto Gebler)

terça-feira, novembro 26, 2013

COMO UMA PENÉLOPE

 
 

 
Passou os dias a fazer um grande tapete de trapos
tecido de lãs velhas, uma encruzilhada
de cores
para prosseguir esperava
que a manhã  as desfizesse
as estrelas, do tecido da noite.

26-11-2013
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