sábado, janeiro 25, 2014

JUSTAMENTE, inédito de Rui Miguel Duarte


“… e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura…”
Mário Cesariny, “Uma certa quantidade”

justamente — dizes
são os poetas, os que caem e vêm à procura
em cada pedra o sol 
gente, pássaros de regresso ao Norte
do que já não precisamos, do que já temos
a pólvora, a gente, a agitação das ondas
a perturbação da areia
a fugir
justamente — dizes
são os poetas, os que aparecem de repente
quando já
não eram requeridos, 
quando já
foram, estão substituídos
quando já a comida tem sal
que chegue, mas para que precisamos do sal
afinal, se nem temos o vinho?
justamente — dizes
são os poetas, os que doem 
e fingem aqui e acolá, que não 
cantam, mas emitem pássaros
que cantam por eles
quando já não são precisos
quando são poetas

Rui Miguel Duarte
23/01/13




(Busto/Estátua de David Mourão Ferreira, em Oeiras)

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Uma mulher sentada em qualquer sítio



Escolheste-me mal
para olhares para mim, os meus olhos
não condizem com a alma
O meu cabelo desatado são pontas
de um verão que insiste
em ser perpétuo, cada um dos meus dedos
enrugou as coisas, à minha volta
o perfume é uma mentira fragrante
mas defende-me, o meu vestido
é apenas um véu
de mulher que deveria ser plausível.


 23-1-2014
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sábado, janeiro 11, 2014

O Brinco

Vermeer, A rapariga do brinco de pérola


Ali começa a nascer um sistema solar, um planeta
move-se  na orbita do rosto, brilha
ainda uma breve sombra
do abismo
ali de onde a luz se ergue. Um espelho
começa ali naquele rosto
onde a beleza sorri entre os lábios
um silêncio.

11-1-2014

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quarta-feira, janeiro 08, 2014

NAVEGANDO PARA A TERRA DE NINGUÉM








“That is no country for old man”
W.B.Yeats

 
Ali  não é país para os velhos, os ramos
estiolados das primaveras, as bengalas
gastas a estenderem-se das mãos, enquanto puderam
podaram rosas
altivas nos olhos juvenis, agora
têm a dança solitária da tristeza  
nos seus sonhos, isso não é país
para os velhos, vivem tanto tempo
e pesam demasiado espaço aqui,  há a terra de ninguém
mandem-nos para lá, há pouca certeza
de que sobrevivam, estão grisalhos
mandem-nos para o Ocidente
onde se apaga a luz do sol.

 
7-1-2014
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quarta-feira, janeiro 01, 2014

LIVROS, inédito, de Brissos Lino


 


 

 Vida e sonho em camadas
escada para subir os degraus
da existência

sangue
suor
lágrimas
afectos
crenças
risos
medos
à luz de súbitas latitudes

sopa de palavras e emoções
com cheiro e sabor estranhos

as lombadas do tempo apontam
à aventura dos mundos.

 
30/12/13
 
© Brissos Lino


(O último poema do ano 2013 do poeta)

terça-feira, dezembro 31, 2013

ANDAR SOBRE AS ÁGUAS





Sob os seus pés, os átomos da água
rendiam-se, o mar não tinha fundo
voava
como as aves que não pesam sobre as árvores
o mar dormia sob o peso divino
com o mesmo silêncio do veludo.
 
30-12-2013
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Publicado inédito aqui: http://ovelhaperdida.wordpress.com/2013/12/31/andar-sobre-as-aguas-inedito-de-j-t-parreira-a-fechar-2013/

terça-feira, dezembro 24, 2013

BORRASCA



O vento uiva onde quer, e fechamos os olhos
E sentímo-lo a partir-se contra o barro
Das flores na varanda, a rasgar-se
Nos vidros
A ondular como água ancestral nas janelas
Ocupa-nos as frestas do medo, depois
Descansa
E volta a tremer em tudo, como um trem
Que passa inesperado noutra linha
Ao nosso lado
E faz chocalhar tudo dentro do silêncio.

24-12-2013
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quarta-feira, dezembro 18, 2013

CHEGOU O MENINO


 

 
Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido.

Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo

Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.

 18/12/2013
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(Imagem do Facebook - Desert-rose)

domingo, dezembro 01, 2013

O Guardador dos Rebanhos



Sentado numa pedra à beira do Hélicon
conta as cabeças e vê as suas musas
a comerem erva, depois
conduz o lume dos olhos do rebanho
à frescura das águas tranquilas

O seu rebanho faz um arco
de brancura sobre a erva

O guardador de rebanhos rasga
os olhos pelos quatro pontos cardeais
até pelos espinhos, quando uma ovelha
perde o rumo à sua voz.

30/11/2013
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(The Little Shepherd Boy, Friedrich Otto Gebler)

terça-feira, novembro 26, 2013

COMO UMA PENÉLOPE

 
 

 
Passou os dias a fazer um grande tapete de trapos
tecido de lãs velhas, uma encruzilhada
de cores
para prosseguir esperava
que a manhã  as desfizesse
as estrelas, do tecido da noite.

26-11-2013
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quinta-feira, novembro 21, 2013

Os Pastores da Arcadia



Nicola Poussin, "Os Pastores da Arcadia", óleo em tela
 
De todas as maneiras, quando acordam
vão ver as ovelhas, se já sabem voar
e se o sol nasceu noutro ponto qualquer
da Rosa dos Ventos, sobre os rios
deveriam correr os restos de um luar
sim, todas as manhãs
vão ouvir a música de Orfeu, se ele toca
as estrelas que compôs no céu.

19/11/2013
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quinta-feira, novembro 14, 2013

SAMUCA SANTOS, RECIFE ( 1960-2013)




ALGUNS POEMAS:


NENA

ela sabe dos boleros
e do rock’n roll
sabe do sonho e do pé no chão
do presente no futuro
do ácido que o ócio
derrama na espera
dos pensamentos que rolam
e do medo de perde-la
que as paixões me iluminam
ela sabe
todos os fogos
dos artifícios que nos unem
e tem os credos, cartilhas
onde aprendo a vida

 sem título
nunca minta para mim
deixe que eu invente
as minhas verdades

 FOTOGRAFIA
te encontro no baú dos fósseis
cedo envelheci
mas teu sorriso ainda me cega
teu olhar ainda me reduz ao pó

 REPENTE
tão simples, claro
quanto um beija-flor
parado no ar, chegaste
não tive tempo
de arrumar o mundo
nem de fugir

 RISCOS
quantos copos faltam
pra que a gente se afaste
e role pelos braços, alheios
à procura de nós?

 DONA MÚSICA
tem uma festa rolando
meu amor se veste, bela
e vai acender a noite
dizer que é bela
é pouco:
nem tão belle époque
nem tão afro-chique
meu amor e mil motivos
pra festa rolar
e eu aqui,
de touca na rede


segunda-feira, outubro 28, 2013

De Édipo todos temos um pouco



 

“As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam”
Herberto Helder


Houve um tempo na infância
em que desejei descer pelos teus cabelos negros
nenhum homem, nem o pai poderia
aproximar-se dos ramos dos teus dedos
Houve esse tempo na infância
em que te disputava com um amor
que poderia até matar
qualquer olhar de homem que impedisse
o teu caminho

Era o tempo em que o teu peito
me acudia e chamava pelo meu nome

Hoje, quando a morte é para ambos
a próxima infância
para viver no olhar de Deus
vejo os teus cabelos de prata
em que não ouso tocar, com medo de partí-los
porque são uma frágil luz cansada.

26/10/2013
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terça-feira, outubro 22, 2013

A GARE DO ORIENTE



No fundo da Gare do Oriente
existe um silêncio de olhos no chão.

Os corações estendidos

no abrigo do peito, acolhem-se
nos bancos de pedra, os sem
-abrigo abraçados aos sapatos,

procuram aconchegar a noite
no estômago,
e no fumo de um cigarro
erram os sonhos e o fantasma do lume.

21/10/2013
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quarta-feira, outubro 16, 2013

Ingenuidade



Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.

14/10/2013
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quarta-feira, outubro 09, 2013

O Poeta e o Pássaro




(Pormenor da capa do último JL)




 para António Ramos Rosa

De súbito toma o pássaro o silêncio
do poeta como um vegetal
sentado no jardim,
os braços quietos, as mãos abertas de onde partem
ramos de dedos pousados nos joelhos
do poeta, de súbito a ave fica imóvel
trocou o arbusto por outro
o ombro do poeta.

9/10/2013
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sexta-feira, outubro 04, 2013

JUDAS ISCARIOTES COMO COSTUMAVA SER



Judas Iscariotes continua deste lado
dos nossos olhos
procura o melhor ângulo da traição
a esquina da cilada
no nosso nariz o seu olfacto
avalia o perfume dos unguentos
Judas Iscariotes continua
a sentar-se deste lado e estende as mãos
para apalpar o amor da raiz
de todos os males, e Judas continua
a usar a sua voz nocturna
para esconder o beijo mortal.

26/8/2013
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segunda-feira, setembro 23, 2013

Baile Gitano


(Baile Gitano, 1914, Anglada-Camarasa
Museo Carmen Thyssen, Málaga)



Era uma água corrente, uma cascata
os seus vestidos
o baile era um céu ao pôr do sol
eu queria a gruta profunda dos seus olhos
que mundo de princípios escondia
porque era uma cigana
e suas mãos apaixonavam-se
no ar quando dançavam.

23/9/2013
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segunda-feira, setembro 09, 2013

O MESMO POEMA, SEGUNDO SHELLEY





Tantas luchas que há costado, / tantos afanes en vela”
Pedro Salinas                                                                


Há anos que escrevo o mesmo poema
os meus dedos
conhecem o caminho e guardam silêncio
conservam o que tenho
para que ninguém tome a minha coroa
há anos que gasto as minhas mãos
nas mesmas pedras

O mesmo poema lavra-se
lava-se cada dia na corrente sanguínea
para as visitações da divindade

Não há novas palavras é engano
dos dicionaristas, polir palavras
para serem novas como os que restauram
telas ou as colunas do Parténon

Por isso há anos que escrevo o mesmo poema
sem aparências, não há outros
os poemas são como os pássaros de Salinas
o mesmo pássaro imenso.

8/9/2013
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