A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
sábado, abril 27, 2013
Na Baía, num estanhado e escuro inverno
Na Baía, num estanhado e escuro inverno,
quando o sol tinha pouca coisa
de Ipanema,
numa estranha rua a ficar deserta,
caminhei só com o som dos próprios passos
para a poesia das estórias
de Amado.
26/4/2013
©
segunda-feira, abril 22, 2013
O SILÊNCIO É O QUE É
Escrevia silêncios”
Arthur Rimbaud
O silêncio é a garrafa vazia que chega à praia,
o silêncio
é no fundo do mar
um peixe ébrio por excesso de cores,
é a onda que vem bordar a beira mar
e esquece-se do regresso, mas como
não o esquecimento?
Se uns pés passam como verdade
descalça na praia. A solidão
do silêncio
é uma vez passado o pássaro
o ar torna ao sossego. É o silêncio
uma harpa à espera ou um velho
gato a jogar xadrez ao sol.
Como os dedos da mão, não há
um silêncio igual a outro.
20/4/2013
©
Poema publicado inédito Aqui
quinta-feira, abril 18, 2013
PASSAM A MÃO PELO ROSTO
“Aqui cada um é o seu próprio
carcereiro, irreconhecível
e anónimo.”
Paal Brekke (Poeta noruguês, trad. Amadeu Baptista)
carcereiro, irreconhecível
e anónimo.”
Paal Brekke (Poeta noruguês, trad. Amadeu Baptista)
Passam a mão pelo rosto e não encontram nada
o nariz adunco
faz uma curva para o abismo, os olhos
sem possibilidade de evasão, os lábios
apenas com a sintaxe da dor
São estranhos
marcados com seis pontas estelares
como uma roda dentada
que tritura o corpo
Passam com as mãos nos ouvidos
e sentem a falta das canções maternas.
18/4/2013
©
(Foto de Dachau Concentration Camp)
segunda-feira, abril 15, 2013
A TRAGÉDIA
estão no chão, os olhos
ligam-nos ao chão, só o menino
ergue a esperança
que virá, o próprio mar
humilha-se aos seus pés.
14/4/2013
© Picasso, Tragédia, Fase Azul
quarta-feira, abril 10, 2013
Carta de Virginia Woolf
Sinto que as vozes batem, de novo
nas paredes da minha cabeça, tenho a certeza
que é o morse intermitente da loucura
fomos felizes até surgirem estas vozes, duas pessoas
jamais foram tão felizes como nós
Abrirei os braços, soltarei os cabelos
serão a cabeleira de uma ninfa nas águas
deste rio, o meu corpo será um dardo na corrente
Na margem deste rio sei que haverá
um pescador de casaco vermelho, ovelhas
espalhadas sob a sombra dos salgueiros
Perdi tudo, menos este espaço pequeno
que ocupo na morte, não vou continuar
a estragar a nossa vida. Espero por ti no fundo rio.
10/4/2013
©
terça-feira, abril 09, 2013
Cântico de Maria Madalena
Eu vi-Te na flor da manhã
na luz dispersa pelas primeiras horas
de domingo
Naquele segundo a pedra
pareceu-me transparente,
o arum espelho que reflectia anjos
Eu vi os lençóis
arrumados no vórtice
imóvel do sepulcro
quando ia pousar ramos
de incenso sobre o corpo.
©
segunda-feira, abril 01, 2013
ANNE SEXTON TUDO EM MIM É UM PÁSSARO
Tudo em mim é um
pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
(Anne Sexton, poeta americana, 1928-1974, morte por suicídio)
não é fácil
livrarmo-nos da morte, os fumos
do escape a cegarem seus olhos
com as lágrimas
Escrevia cartas de censura a Sylvia Plath
porque lhe roubara a morte, arrastando-se
primeiro ao seu regaço
a morte que estava pegada à sua pele
que respirava, escondida, dentro dela
da beleza dos seios, bebendo-a
como o leite da aurora.
1/4/2013
©
domingo, março 31, 2013
NOLI ME TANGERE
Não me toques
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto
deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto
deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
©
sexta-feira, março 29, 2013
ANTIQUALHAS
Do algodão das arcas para outro silêncio
o do olhar conspícuo
saem móveis retro
que já tiveram a flor da idade
azulejos árabes, livros
onde o raro
é terem resistido aos
bibliófagos, algunsvidros coloridos de Murano
bustos romanos sem nariz,
uma orelha
a menos numa esfínge, um
braço a menosnuma réplica de Vénus
porcelanas de reis que tinem e cristais
que mãos delicadas festejaram.
28/3/2013
© sexta-feira, março 22, 2013
O Escritor E.L.Doctorow só agora chegou a Portugal ?
No panorama das edições em Portugal de autores estrangeiros vivos, obedece-se muito a critérios que, não sendo cegos, parecem ter muita falta de memória.
No suplemento Ipsilon, do diário Público de hoje (22/3/2012), a capa traz em parangonas: "E.L.Doctorow vai deixar de ser desconhecido em Portugal"
Não sei se em Portugal, pelo menos no suplemento e na informação literária da redactora em NYC, Isabel Lucas, talvez seja.
O autor perguntou "quantos livros meus estão publicados em Portugal?" Em português, só no Brasil, terá sido a resposta. "Mas mais de 50 anos depois da sua estreia literária - escreve o Ipsilon- está finalmente a chegar às livrarias portuguesas o romance mais recente, através da Porto Editora, "Homer & Langley".
Perguntamos nós, e o romance "A Cidade de Deus", editado pela Europa-América, em 2002?
quinta-feira, março 21, 2013
O POEMA COMEÇA NOS OLHOS
“Le più belle poesie / si scrivono sopra le pietre”
Alda Merini
Os mais belos poemas escrevem-se
nos nossos olhos, começam
por ser um pequeno risco indolor
depois uma pequena cor que se avoluma
pode ser
por dentro de uma lágrima, não importa
a cor está lá, protegida
inquebrável mesmo no escuro da retina
as mais belas poesias começam nuas
depois há uma luz que lhes alonga
a sombra
sobre a suavidade do mármore
só então é que as palavras tocam
como outra carne, os nossos lábios.
21/3/2013
©
nos nossos olhos, começam
por ser um pequeno risco indolor
depois uma pequena cor que se avoluma
pode ser
por dentro de uma lágrima, não importa
a cor está lá, protegida
inquebrável mesmo no escuro da retina
as mais belas poesias começam nuas
depois há uma luz que lhes alonga
a sombra
sobre a suavidade do mármore
só então é que as palavras tocam
como outra carne, os nossos lábios.
21/3/2013
©
terça-feira, março 19, 2013
OS SAPATOS DO PESCADOR
Estes sapatos pretos não andarão sobre as águas
Inconformados
Com as pedras, amaciam a sua dureza
Os meus sapatos não se perdem
Em inigmas divinos
Uso os meus próprios sapatos
Pretos, solas habituadas
Ao chão em que os homens caem
E se levantam, os meus pés
Estão à vontade nestes sapatos pretos
Conhecem os meus caminhos, os olhos
Não se envergonham destes sapatos.
19/3/2013
©
Inconformados
Com as pedras, amaciam a sua dureza
Os meus sapatos não se perdem
Em inigmas divinos
Uso os meus próprios sapatos
Pretos, solas habituadas
Ao chão em que os homens caem
E se levantam, os meus pés
Estão à vontade nestes sapatos pretos
Conhecem os meus caminhos, os olhos
Não se envergonham destes sapatos.
19/3/2013
©
sexta-feira, março 15, 2013
A GRAVE OF SYLVIA PLATH
Um rectângulo onde gerações de gerânios
e de olhos
têm chorado, um terreno de poesia
onde flores douradas, devagar
serão plantadas e as nuvens
passam no vidro gelado do céu
Um nome de pedra num rectângulo frio.
14/3/2013
©
e de olhos
têm chorado, um terreno de poesia
onde flores douradas, devagar
serão plantadas e as nuvens
passam no vidro gelado do céu
Um nome de pedra num rectângulo frio.
14/3/2013
©
segunda-feira, março 11, 2013
O QUE RESTA
Um capote número 42
pequeno para a morte
que a guerra poupou, agora
semi fechado agasalha o silêncio
um capote que um corpo já não pesa
a manga como a corda que se lança
do convés para um braço triste
as mãos intocáveis do soldado só sonhadas
misturam-se com raízes em qualquer lugar
há um buraco ainda quente, vazio
num boné em que o filho há-de crescer.
11/3/2013
©
quarta-feira, março 06, 2013
MULHER DE AZUL
Natan
Altman, Retrato da poetisa Anna Akhmátova, 1914
Não, mulher de azul, o céu
de anjos te cantaria, e as rosas
ao fundo como células que crescem benignas
em nenhum outro lugar
haverá perfume, mulher de azul
com o sol a descer pelos teus ombros.
24/2/2013
©
terça-feira, março 05, 2013
WESTERN
Duas ou três mãos de póquer
sobre a mesa, meia garrafa de whiskey
persegue-se a si própria, desce
uma pálpebra sobre um olho
a chamar a corista, disparam
na rua principal, noutra mesa
os cinco dados rolam
como pequenos cubos de gelo no cristal.
5/3/2013
©
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
PIQUENIQUE NO ÉDEN
“É inútil a tentativa de um piquenique no Éden."
Elizabeth Bowen
Sentados diante de uma maçã- é costume
dizer-se –
foi o último piquenique no Éden, depois
o chão tremeu, com aquela reverência
quando Deus passa, quando Deus faz o silêncio
com seu olhar telúrico, o lugar
crescia como a sombra do sol inclinado
a desolação
a terra nos lábios que o fruto deixou
o medo entre as palavras.
28/2/2013
©
("Adão e Eva no Paraíso", de Paul Rubens e Jan Brueghel, o Jovem)
domingo, fevereiro 24, 2013
DIA DE CHUVA

Rua de pedra gasta de agua onde as poças
espelham arvores com coragem de flores
O brilho negro das botas reflecte
As cores do arco iris no chapéu de chuva
Nevoa doce da tua carícia molhada no cabelo
Lava-me os braços nus.
Fixo os olhos nas cores do arco iris
No chapeu de chuva que pinga pedaços
De ausencia nas poças onde se espelha
O sorriso com promessa de regresso.
O brilho negro dos cabelos na caricia molhada
lava-me o cabelo que reflecte o negro
das botas na pedra gasta da tarde.
Fev 2013
© Clélia Mendes
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
POEMA PARA OS QUE ANDAM DE “METRO”
“Levantar-me, mergulhar no “metro”(...)
Vicente Gaos
Ainda com sonhos pelo meio, as nuvens
homens e mulheres multiplicados
como nos espelhos em silêncio, esperam
a noite ainda nos olhos,
no tunel
o tubo vem do fundo da luzpara comprimir os perfumes e os corpos
actores de todos os papéis, rostos
com todos os vícios
entram e sentam-se com a
alma
ao colo, um jornal, um
livroou a carteira
a insónia começa enfim a partir-se
como um vidro em todos os ruídos.
©
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
O CAIS
“Tudo é silêncio de cimento”
Marcos Konder Reis
O cais está parado no último regresso
a linha é inquebrantável, o cimento
está silencioso, a gare sem olhos
a água imóvel espera rostos debruçados
tudo o que há são velhos óleos
reflectidos.
14/2/2012
©
quarta-feira, fevereiro 13, 2013
A ÚLTIMA CARTA DA FRENTE DE BATALHA
São as tuas palavras, as
últimas
que choram nos meus olhos,
brilham
e pesam tanto as lágrimas
esperámos-te, capazes da
maior ferocidade
contra a morte
mas não haverá regresso,
só silêncio
dentro de nós
A tua vida deslizou,
quando entre mãos
entre os joelhos
poisei a tua carta, a
última
luz escrita a carvão, que
lentamente se extinguiu.
13/2/2013
©
(B.Nemensky, A Última Carta, Pinturas Soviéticas da II Guerra)
(B.Nemensky, A Última Carta, Pinturas Soviéticas da II Guerra)
domingo, fevereiro 10, 2013
TODOS OS MEUS AMIGOS TOCAM PIANO
Todos os meus amigos tocam piano
adormecem os dedos sobre as teclas
alguns seguram lanças
e sentados diante dos moinhos avaliam
as possibilidades, outros
empalidecem o silêncio com a sua voz
quase todas
as suas palavras repicam a qualquer hora.
5/2/2013
terça-feira, fevereiro 05, 2013
UMA LENDA, poema de Eeva Kilpi
o Redentor dá uma volta pelos currais,
pelos estábulos, pocilgas, aidos e galinheiros,
quer dar uma vista de olhos ao lugar onde nasceu,
saudar os animais
entre os quais certa vez adormeceu
e teve em cueiros o seu primeiro sonho.
Mas tudo mudou.
Os animais contemplam-no através de grades,
humilhados no seu cativeiro,
com angústia e desespero nos olhos.
Reconhecem-no, gritam-lhe:
Volta a nascer, Redentor,
nasce para nós.
Os homens levaram-te.
Cuidaram-te bem?
Animalia, 1987
© Versão de Amadeu Batista, Aqui
sábado, fevereiro 02, 2013
NAS ÁGUAS DO GOLFO
Meteu as mãos dentro de
si ( diz-se meter a mão na consciência) e não encontrou nada. Até
iniciar a viagem às Keys, costumava falar assim:
-A minha linguagem hoje é
um misto de gin tónico e añejo gelado.
- Tens de começar uma
viagem para lá disso, ou os teus rins no “border line” não
aguentam – disseram-lhe. Uma depuração, portanto, uma limpeza.
Ao inciar o trajecto para
a última das ilhas, a Key West, iria percorrer uma autêntica linha
quase recta sobre as águas. Teria de meter também as mãos dentro dos olhos
e retirar todas as imagens partidas e encher-se daquela solidão, que
desejava fosse um sinónimo de inocência.
2/2/2013
sexta-feira, janeiro 25, 2013
CÂNTICOS DAVÍDICOS
SALMO 3
Senhor,
os meus dedos não chegam
para
contar os meus inimigosposso juntar as mãos
dos que me amam mesmo assim
são mais os inimigos
mas posso ceder
ao sono toda a noite
porque a Tua voz desce para mim
desde o monte sagrado
e o medo
não encontra espelho nos meus olhos.
SALMO 4
A
alegria de Deus
não
é a alegria dos trigos abundantesnem das uvas cheias de vinho
é muito mais
alimenta o sangue que entra e sai
no nosso coração
Todos os que buscam o que é falso
desconhecem esta verdade
e por isso a insónia
não lhes desce as pálpebras.
SALMO 5
Senhor,
prende aos teus ouvidos
as
minhas palavras, a súplicaque se instala no meu grito
As minhas manhãs comovem
os teus olhos, por mim
o teu coração se alvoroça
e o teu escudo
pelo justo faz todos os combates.
quinta-feira, janeiro 24, 2013
BIOGRAFIA DE MOISÉS ATÉ SER MÁRMORE
Roma, 1992, o poeta em São Pedro em Vincoli
iriam guardar seu nome, iriam abrir
as veias
a cada signo do seu nome
as aves entendiam o silêncio, o menino
ora dormente, ora com um choro umbilical
a fragilidade das águas.
Aquele que no
mármore havia de sentar-se
pela pesada mão
de Miguel Angelo
começou
escondido entre as folhas
do rio Nilo, os
papiros onde entrouiriam guardar seu nome, iriam abrir
as veias
a cada signo do seu nome
sombras
verdes oblíquas o escondiam
dos olhares,
debruçadas sobre as águasas aves entendiam o silêncio, o menino
ora dormente, ora com um choro umbilical
e o cesto de
juncos e betume
não rompia, na
folhagema fragilidade das águas.
15/11/2012
segunda-feira, janeiro 21, 2013
TEMPORAL
Há temporal lá fora, pior
é a ventania cá dentro, a atirar o coração
contra as paredes,
as árvores,
lá fora
são balés russos,
até a verticalidade dos candeeiros
públicos, são um pêndulo.
A pressa dos transeuntes é o vento.
19/1/2013
quarta-feira, janeiro 16, 2013
GAZA
No caminho para Gaza
tudo será diferente,
encontrarásexplicação, das metáforas de Isaías
a visão será real nos teus olhos
já nascido o Menino
foi belo, até a beleza se perder
do rosto no Calvário.
16/1/2013
terça-feira, janeiro 15, 2013
SIMONE
Canta com a voz que tem, um coração
na cavidade da voz, uma rocha
que amolece
quando um pássaro vem nidificar, uma flor
agreste onde o vento é que se verga
ou recebe a voz que vem do mar
canta com a voz, que tem olhares e gestos
Canta com a voz sem liftings.
15/1/2013
segunda-feira, janeiro 14, 2013
CARREGO O SILÊNCIO NA BAGAGEM
I carry silent baggage.
Herta Müller
Eu carrego a leveza do silêncio
na minha bagagem, o silêncio
dos olhos do cego Bartimeu
um silencioso pacote de palavras
à espera de coisas surpreendentes
E vou levando o silêncio
como uma pequena mala de outros
que falam sob a arquitrave do dia
a dia, mesmo assim posso escutar a neve
que é o vento em flocos
e o sonho do menino na almofada
que é um lugar em paz
ou mesmo ouvir uma lágrima
que é o silêncio da alma
e carrego nos olhos
uma bagagem silenciosa.
13/1/2013
Herta Müller
Eu carrego a leveza do silêncio
na minha bagagem, o silêncio
dos olhos do cego Bartimeu
um silencioso pacote de palavras
à espera de coisas surpreendentes
E vou levando o silêncio
como uma pequena mala de outros
que falam sob a arquitrave do dia
a dia, mesmo assim posso escutar a neve
que é o vento em flocos
e o sonho do menino na almofada
que é um lugar em paz
ou mesmo ouvir uma lágrima
que é o silêncio da alma
e carrego nos olhos
uma bagagem silenciosa.
13/1/2013
domingo, janeiro 06, 2013
A 9ª
Beethoven é um querubim surdo
Beethoven como o vento
não se escuta a si próprio
tem música nas mãos
onde toca, tira a poeira
do mais pobre dos silêncios.
1/1/2013
segunda-feira, dezembro 31, 2012
ESPERAR EM CASABLANCA
Em Casablanca com o deserto a arder
e a guerra dentro de todos, esperar
esperar é o que dizem os olhos
do amor, os corações são um eco
os mais felizes
têm Lisboa depois do tumulto
sob as nuvens, Casablanca
parece uma canção em voz branda.
31/12/2012
e a guerra dentro de todos, esperar
esperar é o que dizem os olhos
do amor, os corações são um eco
os mais felizes
têm Lisboa depois do tumulto
sob as nuvens, Casablanca
parece uma canção em voz branda.
31/12/2012
quinta-feira, dezembro 27, 2012
Para uma noite de Natal em algum lado
Todos sentados à volta da mesa, ou quase
todos a olhar para as iguarias, todos
pedem e dão algo no Natal
todos os anos se repete
a mesma palavra familiar
mas por vezes falta um rosto
e há lentas sílabas
pronunciadas a custo
a eternidade
que volta sempre ao mesmo sítio
mortes que se levantam do silêncio.
21/12/2012
sexta-feira, dezembro 14, 2012
Poema de Ezra Pound : SOIREE
(Ezra Pound's head, Gaudier-Brzeska)
Ao saber que a mãe escrevia versos,
E que o pai escrevia versos,
E que o filho mais novo estava numa editora,
E que o amigo da segunda filha estava
a iniciar uma novela,
O jovem expatriado Americano
Exclamou:
“Ó que ramo danado de inteligências!”
© nossa versão
E que o filho mais novo estava numa editora,
E que o amigo da segunda filha estava
a iniciar uma novela,
O jovem expatriado Americano
Exclamou:
“Ó que ramo danado de inteligências!”
© nossa versão
segunda-feira, dezembro 10, 2012
O ÚLTIMO SALMO (CL)
Não iria demorar-se muito
o silêncio
nos cantos dos lábios
as palavras como o som
de uma fonte alegre
o fôlego nas trombetas
e os dedoslímpidos nas liras, será hoje
uma respiração diferente.
10/12/2012
domingo, dezembro 02, 2012
POR ESTAS RUAS
Por estas pedras vai-se à casa em frente
a sentir o som da terra
com estes ombros carregamos a fome
dos animais, esta cabra
única vai guiando os nossos olhos
já cansados
por estas paredes o tempo escorre
e espera, vai
esperando que se abram as janelas.
4/10/2012
sábado, dezembro 01, 2012
POEMA DA EXISTÊNCIA
Ao sair à rua
vejo que Deus existe
pode passar num perfume
da chuva, passar no rosto que bate
com os olhos no chão
na criança que borboleteia
mesmo na mulher que se reflecte no vidro
e gostaria
de vestir o que está na montra
Deus existe, e caminha na minha rua
deixo ficar a Sua mão no meu ombro.
30/11/2012
quinta-feira, novembro 29, 2012
PODIAS TER SIDO UM OUTRO ASTRO, WOODY ALLEN

Poema inédito de Brissos Lino
Podias ter sido um outro astro no azul
da comédia americana
Woddy Allen
um Charlot em Nova Iorque
ou uma estrela de jazz
a soprar um clarinete em New Orleans
mas a cabeça fértil nunca deixou
ia-te exigindo a criação de novos mundos
no escuro do cinema
pela virtude de saberes desnudar
o coração dos homens
mas a rir.
28/11/2012
© Brissos Lino
domingo, novembro 18, 2012
CARTA DE AMOR
“Adeus a todos...” (Ofélia, de Hamlet)
Já tens água de mais, ó
pobre Ofélia
as tuas lágrimastemo que no regato, à beira do salgueiro
os cristais dos teus olhos estejam baços
temo que no ribeiro as flores iludam
o leito profundo da morte, a água
enleando de sedas os teus pés
a tua boca
afogada no encalço da última palavra
senão já com amor, com o lodo
do silêncio.
© 18/11/2012
segunda-feira, novembro 12, 2012
JACOB
Essa pedra a que o sonho deu
a gravidade zero, testemunha
que nos degraus da noite, a escada
era leve para o céu, a porta
eram os anjos, e estes que desciam
a reunir vestígios do mundo
e voltavam a subir, nessa pedra
onde encostou Jacob o sono, só
por fora a dormir.
6/11/2012
terça-feira, novembro 06, 2012
segunda-feira, novembro 05, 2012
HOMENS DE PEDRA
Homens de pedra que custam a dobrar joelhos
corações de pedra insensíveis ao lençol
de lágrimas do outro lado da janela
cabeças de pedra
duras como ideias fora de prazo
mas que se contém dentro dos finos limites
do aço da realidade. Bonecos que só se vergam
perante a inocência
de uma criança inquiridora.
2/11/ 2012
Poema inédito de Brissos Lino
terça-feira, outubro 30, 2012
TRÂNSITO
todos nascemos com um rio pelas mãos
e aloendro batendo nos lábios
com a noite em busca de si mesma
imaginando ter ela um avesso
uma face oculta clara
que nos esclareça os sonhos que vamos
deixando germinar
quando nascemos canta o céu
e chora a terra, porque logo
nos esquecemos
que só a lama é o poiso dos pés
e se batemos asas nem às copas
das árvores subimos, não temos
envergadura nem ternura na voz
que cheguem para a majestade
quando nascemos somos duros,
dói-nos o ferro da pele, não sabemos nada
nem que o rio a cada um de nós dado
é vidro polido nas nossas mãos
e nos mergulha, solitários, não na placenta materna
mas na água limpa das novas madrugadas
onde não se vê noite, nem o dia tem rosto
mas só a corrente tem sentido
29/10/12
Inédito de Rui Miguel Duarte
sábado, outubro 27, 2012
MOBY DICK- UM ENSAIO DO PRINCÍPIO
intimamente ligadas"
Herman Melville
O meu nome é Ismael. Catão lançou seu corpo
tranquilamente vou para o mar. Nenhum amor
me prende à terra firme, a parte aquática do mundo
é que me chama. Chega ao meu coração
como um aroma. É o modo
que tenho de fugir ao suicídio, sempre
que a alma é um nevoeiro espesso
e se fecha como um Novembro brumoso
Chega a altura de voltar
com pressa para o mar. Antes que dê
por mim a seguir o rasto aos funerais, a arrancar
na cidade os chapéus aos transeuntes, a cair
no tédio de já nem conseguir rir-me do espelho
Preciso de um espelho marinho, onde lance os olhos
do topo de um mastro. Uma só gota de mar
é colírio para evitar a noite nos meus olhos.
27/10/2012
quarta-feira, outubro 24, 2012
HÁ LIVROS QUE MERECEM SORRISOS
(Rohinton Mistry)
Há
livros que merecem sorrisos e lágrimas
cascatas
de gargalhadas francas levam-nos pela mão a outros mundos
em viagens fascinantes
ao interior
desenham rostos e dramas
insinuam corpos e medos ancestrais
reinventam as paisagens do desejo
deflagram sentimentos que nos invadem
os olhos
e a alma à espera
livros que vivem unindo passados
e possibilidades remotas
entre o chão e o sonho
numa nuvem de prazeres.
20/10/12
Brissos
Lino
sábado, outubro 20, 2012
O ANJO SENTADO NA CADEIRA DE VAN GOGH
“Uma vez um anjo apaixonou-se por van gogh e veio vê-lo
van gogh pintou-o naquela cadeira”
Manuel António Pina (1943-2012)
Sentado na cadeira de Van Gogh
um anjo calça as botas de camponês
insubstancial, o seu corpo
atravessou o cansaço das galaxias
uma sombra branca, chega
o olhar de Van Gogh para o ver
com as terrenas cores
com que sonhamos, nunca
pinta o anjo mas o silêncio do seu corpo.
20/10/2012
terça-feira, outubro 16, 2012
Do outro lado do ribeiro de Cedrom
Preciso das vossas mãos para velarem comigo
porque tenho o peso do mundo
no meu coração, as mãos que trabalharam as redes
as vossas mãos rudes que amaram o mar
para segurarem o cálice, e dos vossos olhos
para desvelarem comigo a cortina da noite
a minha alma está pronta, o corpo
não, é uma rosa triste, madura
uma rosa de terra perante a morte.
12/10/2012
quarta-feira, outubro 10, 2012
GLEEN GOULD
Estendia as mãos para o silêncio
E Bach
voltava
a respirar
quando tocava
Era uma escultura da música.
8/10/2012
segunda-feira, outubro 08, 2012
Desembarque
Alguns
morreram, muitos
morreram, quase todos
como um poema rasgado
que não viu a luz ao fundo
da última palavra.
20/9/2012
sábado, outubro 06, 2012
Feira do Livro e de Poesia e BD
Organizada pela Inês Ramos
A Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada realiza-se todos os sábados, das 10H00 às 18H00, no espaço Guilherme Cossoul de Campolide: Rua Professor Sousa da Câmara, 156 – Campolide (às Amoreiras).
http://feiradolivrodepoesia.blogspot.pt/2012/10/novidades-da-proxima-feira.html
A Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada realiza-se todos os sábados, das 10H00 às 18H00, no espaço Guilherme Cossoul de Campolide: Rua Professor Sousa da Câmara, 156 – Campolide (às Amoreiras).
http://feiradolivrodepoesia.blogspot.pt/2012/10/novidades-da-proxima-feira.html
terça-feira, outubro 02, 2012
MARYLIN
A sua nudez não foi suficiente
não surpreendeu
a morte, os seus olhos
não penetraram nada
adormeceu, ou foi
adormecendo.
30/9/2012
sexta-feira, setembro 28, 2012
Vi a tua sombra na calçada
(Foto do poeta tirada num jardim em Vila Viçosa)
Poema inédito de Brissos Lino
Vi
a tua sombra na calçada e era um rio
com
o teu preciso recorte
pressenti
a respiração ofegante que queria ouvir
mas
apenas a brisa me beijou o pescoço
como
que a pedir desculpa
talvez
fosse apenas uma árvore
no
seu jogo da tarde com os pássaros
ou
uma nuvem debruçada no céu
a
fazer das suas.
27/9/12
Poema inédito de Brissos Lino
domingo, setembro 23, 2012
HAMLET
“Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos”
Yorgos Seferis
Acordo com esta cabeça
com estes buracos no lugar dos olhos
e o seu silêncio pesa-me nas mãos
acordo todas as manhãs
e o dilema e as perguntas
pesam-me no espírito
Será mais nobre sofrer na alma, não
pegar em armas
ou sofrer os dentes do destino?
A cada palavra um eco vem
que se perde a caminho de nada
dentro desta caveira, sem servidão
indomável, ninguém.
22/9/2012
domingo, setembro 16, 2012
Para Bailar un Tango
Un tango se danza con un cuchillo
en la mirada
y zapatos acolchados de silencio
Un tango rompe
todo lo que está cerca
el aire donde el cuerpo se contonea
donde las manos ahogan
manos o en la cintura
navegan como si fuese
un río de plata
Tradução de Adriana F.Lagoa
sexta-feira, setembro 14, 2012
Do que quer falar o poeta
Por vezes da alegria. Num dia triste
que começa a quebrar-se
com as vozes aos pulos, contentes
das crianças. Tantas vezes
do mar, não exactamente do mar que se vê
mas daquele que banha de lume turquesa
as ilhas mais distantes
Outras vezes da morte, não explícita
mas dos cristais que se partem nos olhos
de quem morre
Quase sempre a encher-se de silêncio
para encontrar uma palavra, aquela
mesma, pequenina, amedrontada
caída da árvore
no meio de palavras enormes.
13/9/2012
sexta-feira, setembro 07, 2012
NAUFRÁGIO
Desabitado, o convés
ao largo aguarda a visita das marés
e dos olhos
que vêm à praia, rasos de água
ninguém
espera mais nada
senão os apetrechos do barco
lentamente repartidos.
7/9/2012
sábado, setembro 01, 2012
VIVER EM ÍTACA
Vivo em Ítaca ausente
Octávio Mora
Com a memória nos olhos em fuga
por mundos claros, viver em Ítaca
depois de Tróia
na noite por demais conhecida
e nos gestos da manhã, os mesmos
passos pela casa, o mesmo galo
a lançar ao sol os agudos do seu cântico
começo agora a viajar pela Ásia
corro atrás da minha gata
siamesa, é assim
viver em Ítaca depois de regressar
com o mar calado em meus ouvidos.
30/8/2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)










































