A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
terça-feira, dezembro 10, 2013
domingo, dezembro 01, 2013
O Guardador dos Rebanhos
Sentado
numa pedra à beira do Hélicon
conta
as cabeças e vê as suas musasa comerem erva, depois
conduz o lume dos olhos do rebanho
à frescura das águas tranquilas
O
seu rebanho faz um arco
de
brancura sobre a erva
O
guardador de rebanhos rasga
os
olhos pelos quatro pontos cardeaisaté pelos espinhos, quando uma ovelha
perde o rumo à sua voz.
30/11/2013
©
(The Little Shepherd Boy, Friedrich Otto Gebler)
terça-feira, novembro 26, 2013
COMO UMA PENÉLOPE
tecido de lãs velhas, uma encruzilhada
de cores
para prosseguir esperava
que a manhã as desfizesse
as estrelas, do tecido da noite.
26-11-2013
©quinta-feira, novembro 21, 2013
Os Pastores da Arcadia
Nicola Poussin, "Os Pastores da Arcadia", óleo em tela
vão ver as ovelhas, se já sabem voar
e se o sol nasceu noutro ponto qualquer
da Rosa dos Ventos, sobre os rios
deveriam correr os restos de um luar
sim, todas as manhãs
vão ouvir a música de Orfeu, se ele toca
as estrelas que compôs no céu.
19/11/2013
©quinta-feira, novembro 14, 2013
SAMUCA SANTOS, RECIFE ( 1960-2013)
ALGUNS POEMAS:
NENA
ela sabe dos boleros
e do rock’n roll sabe do sonho e do pé no chão
do presente no futuro
do ácido que o ócio
derrama na espera
dos pensamentos que rolam
e do medo de perde-la
que as paixões me iluminam
ela sabe
todos os fogos
dos artifícios que nos unem
e tem os credos, cartilhas
onde aprendo a vida
deixe que eu invente
as minhas verdades
cedo envelheci
mas teu sorriso ainda me cega
teu olhar ainda me reduz ao pó
quanto um beija-flor
parado no ar, chegaste
não tive tempo
de arrumar o mundo
nem de fugir
pra que a gente se afaste
e role pelos braços, alheios
à procura de nós?
meu amor se veste, bela
e vai acender a noite
dizer que é bela
é pouco:
nem tão belle époque
nem tão afro-chique
meu amor e mil motivos
pra festa rolar
e eu aqui,
de touca na rede
segunda-feira, outubro 28, 2013
De Édipo todos temos um pouco
Herberto Helder
Houve um tempo na infância
em que desejei descer pelos teus cabelos negros
nenhum homem, nem o pai poderia
aproximar-se dos ramos dos teus dedos
Houve esse tempo na infância
em que te disputava com um amor
que poderia até matar
qualquer olhar de homem que impedisse
o teu caminho
Era o tempo em que o teu peito
me acudia e chamava pelo meu nome
Hoje, quando a morte é para ambos
a próxima infância
para viver no olhar de Deus
vejo os teus cabelos de prata
em que não ouso tocar, com medo de partí-los
porque são uma frágil luz cansada.
26/10/2013
©
terça-feira, outubro 22, 2013
A GARE DO ORIENTE
No fundo da Gare do Oriente
existe um silêncio de olhos no chão.
Os corações estendidos
no abrigo do peito, acolhem-se
nos bancos de pedra, os sem
-abrigo abraçados aos sapatos,
procuram aconchegar a noite
no estômago,
e no fumo de um cigarro
erram os sonhos e o fantasma do lume.
21/10/2013
©
quarta-feira, outubro 16, 2013
Ingenuidade
Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.
14/10/2013
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quarta-feira, outubro 09, 2013
O Poeta e o Pássaro
(Pormenor da capa do último JL)
para António Ramos Rosa
De súbito toma o pássaro o silêncio
do poeta como um vegetal
sentado no jardim,
os braços quietos, as mãos abertas de onde partem
ramos de dedos pousados nos joelhos
do poeta, de súbito a ave fica imóvel
trocou o arbusto por outro
o ombro do poeta.
9/10/2013
©
sexta-feira, outubro 04, 2013
JUDAS ISCARIOTES COMO COSTUMAVA SER
Judas Iscariotes continua deste lado
dos nossos olhos
procura o melhor ângulo da traição
a esquina da cilada
no nosso nariz o seu olfacto
avalia o perfume dos unguentos
Judas Iscariotes continua
a sentar-se deste lado e estende as mãos
para apalpar o amor da raiz
de todos os males, e Judas continua
a usar a sua voz nocturna
para esconder o beijo mortal.
26/8/2013
©
segunda-feira, setembro 23, 2013
Baile Gitano
(Baile Gitano, 1914, Anglada-Camarasa
Museo Carmen Thyssen, Málaga)
Era uma água corrente,
uma cascata
os seus vestidoso baile era um céu ao pôr do sol
eu queria a gruta profunda dos seus olhos
que mundo de princípios escondia
porque era uma cigana
e suas mãos apaixonavam-se
no ar quando dançavam.
23/9/2013
© segunda-feira, setembro 09, 2013
O MESMO POEMA, SEGUNDO SHELLEY
Pedro Salinas
Há anos que escrevo o mesmo poema
conhecem o caminho e guardam silêncio
conservam o que tenho
para que ninguém tome a minha coroa
há anos que gasto as minhas mãos
nas mesmas pedras
O mesmo poema lavra-se
lava-se cada dia na
corrente sanguíneapara as visitações da divindade
Não há novas palavras é
engano
dos dicionaristas, polir
palavraspara serem novas como os que restauram
telas ou as colunas do Parténon
Por isso há anos que
escrevo o mesmo poema
sem aparências, não há
outrosos poemas são como os pássaros de Salinas
o mesmo pássaro imenso.
8/9/2013
©
sábado, agosto 24, 2013
"Nove penas para Sylvia Plath"
terça-feira, agosto 20, 2013
ELEGIA DE DAVID QUANDO PERDEU UM FILHO
Se eu encostar a minha lira ao silêncio
apaziguarei a minha dor?
Decretaste, Senhor, aí em cima,
poupar a vida da criança?
Não estão nuas ainda as minhas preces?
Os meus lábios movem-se em sobressaltos
De saco e cinza me visto e na terra me deito
emerge dos meus poros a água
da tristeza e o sangue desta minha dor
que reverte ao coração
Ó meu coração isolado do mundo
Porque morreu o menino, com a mesma pureza
com que vive um pássaro
até cair da sua linha invisível do céu
A sua vida vai deixar a minha
poderei eu fazê-la voltar?
Ó pequena criatura, que foste a figuração
do meu amor inacabado
Eu um dia irei para ti, porém tu
não voltarás para mim
10/5/2013
©
quinta-feira, agosto 15, 2013
A Transfiguração
“Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde
Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,
o vento cantava no cume da montanha,
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certezada morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.
9/8/2013
©
domingo, agosto 04, 2013
Depois do Dilúvio
Voltaram para casa
Noé e os filhos, para o
princípio do solo,o primeiro dia da terra com a luz
a secar as águas.
Começou Noé a plantar uma vinha
para colorir o silêncio das colinas,
e os seus pés
moveram-se no ar e riu e cambaleou
dentro de si, na alegre nudez
do seu regresso.
4/8/2013
© quinta-feira, agosto 01, 2013
O Bote
Apenas lhe ocorreu que se se afogasse seria uma pena
Stephen Crane (“O Salva Vidas”)
Já nenhum deles sabia a cor do céu
o vento levava
a negridão das nuvens aos andares celestes
as águas
eram um muro que desmoronava
como avalanche branca
Já nenhum deles ouvia o
grito
do peito das gaivotas,
nenhumdeles sentia já as feridas
nas mãos que à vida se agarravam
só com os remos
e um pressentimento.
Já nenhum
tem nos olhos a alegria da
viagemdo início à plenitude.
1/8/2013
©
segunda-feira, julho 22, 2013
O VERÃO
Um espelho verde reflete a trémula dança das folhas
das arvores pegajosas de luz e verao
Ha um restolhar dormente entre troncos e ramos
a renda da toalha de sombras no chao
convida a um abraço.
O ar cheira a peras. A casa dos avós . O bafo preguiçoso
do burro encostado ao poço. O cesto de ameixas luzidias
como bolas de vidro amarelas e vermelhas.
O espelho verde do ribeiro reflete a tremula dança
de nuvens brincando com o pegajoso sol de verão.
Sento-me a tricotar com agulhas da lembrança
um casaco de infancia com muitas cores.
Clélia Mendes
Julho, 2013
segunda-feira, julho 15, 2013
As manhãs de Penélope
É primordial toda a manhã
de Penélope, o tear começa
a emaranhar os fios nos dedos
de Penélope,
como um ribeiro
desliza no silêncio
o fio da lã
que vai vestir a morte de Laertes,
enquanto os olhos de Penélope na manhã
primordial, apetrechados de asas
vigiam o amplo mar divino.
15/7/2013
©
terça-feira, julho 09, 2013
ALFARROBEIRA EM FLOR, William Carlos Williams
Do meio
dos
verdes
rijos
velhoshúmidos
tortos
ramoschega
branco
amávelnovo
Maio.
© Versão de J.T.Parreira
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