quinta-feira, março 21, 2013

O POEMA COMEÇA NOS OLHOS



“Le più belle poesie / si scrivono sopra le pietre”
Alda Merini

Os mais belos poemas escrevem-se
nos nossos olhos, começam
por ser um pequeno risco indolor
depois uma pequena cor que se avoluma
pode ser
por dentro de uma lágrima, não importa
a cor está lá, protegida
inquebrável mesmo no escuro da retina
as mais belas poesias começam nuas
depois há uma luz que lhes alonga
a sombra
sobre a suavidade do mármore
só então é que as palavras tocam
como outra carne, os nossos lábios.

21/3/2013
©

terça-feira, março 19, 2013

OS SAPATOS DO PESCADOR






Estes sapatos pretos não andarão sobre as águas
Inconformados
Com as pedras, amaciam a sua dureza
Os meus sapatos não se perdem

Em inigmas divinos

Uso os meus próprios sapatos
Pretos, solas habituadas
Ao chão em que os homens caem
E se levantam, os meus pés
Estão à vontade nestes sapatos pretos

Conhecem os meus caminhos, os olhos
Não se envergonham destes sapatos.

19/3/2013
©
 

sexta-feira, março 15, 2013

A GRAVE OF SYLVIA PLATH






Um rectângulo onde gerações de gerânios
e de olhos
têm chorado, um terreno de poesia
onde flores douradas, devagar

serão plantadas e as nuvens
passam no vidro gelado do céu
Um nome de pedra num rectângulo frio.

14/3/2013
©

segunda-feira, março 11, 2013

O QUE RESTA



Um capote número 42 pequeno para a morte
que a guerra poupou, agora
semi fechado agasalha o silêncio
um capote que um corpo já não pesa
a manga como a corda que se lança
do convés para um braço triste
as mãos intocáveis do soldado só sonhadas
misturam-se com raízes em qualquer lugar
há um buraco ainda quente, vazio
num boné em que o filho há-de crescer.

11/3/2013
©

quarta-feira, março 06, 2013

MULHER DE AZUL


 
Natan Altman, Retrato da poetisa Anna Akhmátova, 1914


Não, mulher de azul, o céu
do teu vestido é um corpo, um coro
de anjos te cantaria, e as rosas
ao fundo como células que crescem benignas
em nenhum outro lugar
haverá perfume, mulher de azul
com o sol a descer pelos teus ombros.

24/2/2013
©

terça-feira, março 05, 2013

WESTERN


Duas ou três mãos de póquer
sobre a mesa, meia garrafa de whiskey
persegue-se a si própria, desce
uma pálpebra sobre um olho
a chamar a corista, disparam
na rua principal, noutra mesa
os cinco dados rolam
como pequenos cubos de gelo no cristal.

5/3/2013

©

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

PIQUENIQUE NO ÉDEN




“É inútil a tentativa de um piquenique no Éden."
Elizabeth Bowen 
 


 
 Sentados diante de uma maçã- é costume
dizer-se –
foi o último piquenique no Éden, depois
o chão tremeu, com aquela reverência
quando Deus passa, quando Deus faz o silêncio
com seu olhar telúrico, o lugar
crescia como a sombra do sol inclinado
a desolação
a terra nos lábios que o fruto deixou
o medo entre as palavras.

28/2/2013
©

("Adão e Eva no Paraíso", de Paul Rubens e Jan Brueghel, o Jovem)

domingo, fevereiro 24, 2013

DIA DE CHUVA



Rua de pedra gasta de agua onde as poças
espelham arvores com coragem de flores
O brilho negro das botas reflecte
As cores do arco iris no chapéu de chuva
Nevoa doce da tua carícia molhada no cabelo
Lava-me os braços nus.

Fixo os olhos nas cores do arco iris
No chapeu de chuva que pinga pedaços
De ausencia nas poças onde se espelha
O sorriso com promessa de regresso.

O brilho negro dos cabelos na caricia molhada
lava-me o cabelo que reflecte o negro
das botas na pedra gasta da tarde.

Fev 2013

© Clélia Mendes
         
 




quinta-feira, fevereiro 21, 2013

POEMA PARA OS QUE ANDAM DE “METRO”



Levantar-me, mergulhar no “metro”(...)
sair (…) para uma foz de estrelas”
Vicente Gaos


Ainda com sonhos pelo meio, as nuvens
que cada cabeça procura dissipar
homens e mulheres multiplicados
como nos espelhos em silêncio, esperam

a noite ainda nos olhos, no tunel
o tubo vem do fundo da luz
para comprimir os perfumes e os corpos
actores de todos os papéis, rostos
com todos os vícios

entram e sentam-se com a alma
ao colo, um jornal, um livro
ou a carteira
a insónia começa enfim a partir-se
como um vidro em todos os ruídos.

©

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

O CAIS


 

Tudo é silêncio de cimento”
Marcos Konder Reis


O cais está parado no último regresso
espera fumo ao longe, a Ocidente
a linha é inquebrantável, o cimento
está silencioso, a gare sem olhos
a água imóvel espera rostos debruçados
tudo o que há são velhos óleos
reflectidos.

14/2/2012

©

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

A ÚLTIMA CARTA DA FRENTE DE BATALHA

 
São as tuas palavras, as últimas
que choram nos meus olhos, brilham
e pesam tanto as lágrimas
esperámos-te, capazes da maior ferocidade
contra a morte
mas não haverá regresso, só silêncio
dentro de nós
A tua vida deslizou, quando entre mãos
entre os joelhos
poisei a tua carta, a última
luz escrita a carvão, que lentamente se extinguiu.

13/2/2013
©
(B.Nemensky, A Última Carta, Pinturas Soviéticas da II Guerra)

domingo, fevereiro 10, 2013

TODOS OS MEUS AMIGOS TOCAM PIANO



Todos os meus amigos tocam piano
adormecem os dedos sobre as teclas
alguns seguram lanças
e sentados diante dos moinhos avaliam
as possibilidades, outros
empalidecem o silêncio com a sua voz
quase todas
as suas palavras repicam a qualquer hora.

5/2/2013

terça-feira, fevereiro 05, 2013

UMA LENDA, poema de Eeva Kilpi

 
Ao entardecer
o Redentor dá uma volta pelos currais,
pelos estábulos, pocilgas, aidos e galinheiros,
quer dar uma vista de olhos ao lugar onde nasceu,
saudar os animais
entre os quais certa vez adormeceu
e teve em cueiros o seu primeiro sonho.
Mas tudo mudou.
Os animais contemplam-no através de grades,
humilhados no seu cativeiro,
com angústia e desespero nos olhos.
Reconhecem-no, gritam-lhe:
Volta a nascer, Redentor,
nasce para nós.
Os homens levaram-te.
Cuidaram-te bem?

Animalia, 1987


© Versão de Amadeu Batista, Aqui

sábado, fevereiro 02, 2013

NAS ÁGUAS DO GOLFO


 Meteu as mãos dentro de si ( diz-se meter a mão na consciência) e não encontrou nada. Até iniciar a viagem às Keys, costumava falar assim:

-A minha linguagem hoje é um misto de gin tónico e añejo gelado.
- Tens de começar uma viagem para lá disso, ou os teus rins no “border line” não aguentam – disseram-lhe. Uma depuração, portanto, uma limpeza.

Ao inciar o trajecto para a última das ilhas, a Key West, iria percorrer uma autêntica linha quase recta sobre as águas. Teria de meter também as mãos dentro dos olhos e retirar todas as imagens partidas e encher-se daquela solidão, que desejava fosse um sinónimo de inocência.

2/2/2013

sexta-feira, janeiro 25, 2013

CÂNTICOS DAVÍDICOS


SALMO 3

Senhor, os meus dedos não chegam
para contar os meus inimigos
posso juntar as mãos
dos que me amam mesmo assim
são mais os inimigos
mas posso ceder
ao sono toda a noite
porque a Tua voz desce para mim
desde o monte sagrado
e o medo
não encontra espelho nos meus olhos.


SALMO 4

A alegria de Deus
não é a alegria dos trigos abundantes
nem das uvas cheias de vinho
é muito mais
alimenta o sangue que entra e sai
no nosso coração
Todos os que buscam o que é falso
desconhecem esta verdade
e por isso a insónia
não lhes desce as pálpebras.


SALMO 5

Senhor, prende aos teus ouvidos
as minhas palavras, a súplica
que se instala no meu grito
As minhas manhãs comovem
os teus olhos, por mim
o teu coração se alvoroça
e o teu escudo
pelo justo faz todos os combates.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

BIOGRAFIA DE MOISÉS ATÉ SER MÁRMORE

Roma, 1992, o poeta em São Pedro em Vincoli
 
 
 
Aquele que no mármore havia de sentar-se
pela pesada mão de Miguel Angelo

começou escondido entre as folhas
do rio Nilo, os papiros onde entrou
iriam guardar seu nome, iriam abrir
as veias
a cada signo do seu nome

sombras verdes oblíquas o escondiam
dos olhares, debruçadas sobre as águas
as aves entendiam o silêncio, o menino
ora dormente, ora com um choro umbilical

e o cesto de juncos e betume
não rompia, na folhagem
a fragilidade das águas.

15/11/2012

segunda-feira, janeiro 21, 2013

TEMPORAL


Há temporal lá fora, pior
é a ventania cá dentro, a atirar o coração
contra as paredes,

as árvores,
lá fora
são balés russos,

até a verticalidade dos candeeiros
públicos, são um pêndulo.
A pressa dos transeuntes é o vento.

19/1/2013

quarta-feira, janeiro 16, 2013

GAZA



No caminho para Gaza
tudo será diferente, encontrarás
explicação, das metáforas de Isaías
a visão será real nos teus olhos
já nascido o Menino
foi belo, até a beleza se perder
do rosto no Calvário.

16/1/2013

 




terça-feira, janeiro 15, 2013

SIMONE








 Canta com a voz que tem, um coração
na cavidade da voz, uma rocha
que amolece
quando um pássaro vem nidificar, uma flor
agreste onde o vento é que se verga
ou recebe a voz que vem do mar
canta com a voz, que tem olhares e gestos
Canta com a voz sem liftings.

15/1/2013

segunda-feira, janeiro 14, 2013

CARREGO O SILÊNCIO NA BAGAGEM

 
 I carry silent baggage.
Herta Müller


Eu carrego a leveza do silêncio
na minha bagagem, o silêncio
dos olhos do cego Bartimeu
um silencioso pacote de palavras
à espera de coisas surpreendentes
E vou levando o silêncio
como uma pequena mala de outros
que falam sob a arquitrave do dia
a dia, mesmo assim posso escutar a neve
que é o vento em flocos
e o sonho do menino na almofada
que é um lugar em paz
ou mesmo ouvir uma lágrima
que é o silêncio da alma
e carrego nos olhos
uma bagagem silenciosa.

13/1/2013

domingo, janeiro 06, 2013

A 9ª



Beethoven é um querubim surdo
Beethoven como o vento
não se escuta a si próprio
tem música nas mãos
onde toca, tira a poeira
do mais pobre dos silêncios.

1/1/2013



 

segunda-feira, dezembro 31, 2012

ESPERAR EM CASABLANCA

Em Casablanca com o deserto a arder
e a guerra dentro de todos, esperar
esperar é o que dizem os olhos
do amor, os corações são um eco
os mais felizes
têm Lisboa depois do tumulto
sob as nuvens, Casablanca
parece uma canção em voz branda.


31/12/2012

quinta-feira, dezembro 27, 2012

Para uma noite de Natal em algum lado


Todos sentados à volta da mesa, ou quase
todos a olhar para as iguarias, todos
pedem e dão algo no Natal
todos os anos se repete
a mesma palavra familiar
mas por vezes falta um rosto
e há lentas sílabas
pronunciadas a custo
a eternidade
que volta sempre ao mesmo sítio
mortes que se levantam do silêncio.

21/12/2012

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Poema de Ezra Pound : SOIREE



(Ezra Pound's head, Gaudier-Brzeska)




Ao saber que a mãe escrevia versos,
E que o pai escrevia versos,
E que o filho mais novo estava numa editora,
E que o amigo da segunda filha estava
a iniciar uma novela,
O jovem expatriado Americano
Exclamou:
“Ó que ramo danado de inteligências!”

© nossa versão

segunda-feira, dezembro 10, 2012

O ÚLTIMO SALMO (CL)


Não iria demorar-se muito
o silêncio
nos cantos dos lábios

as palavras como o som
de uma fonte alegre

o fôlego nas trombetas
e os dedos
límpidos nas liras, será hoje
uma respiração diferente.

10/12/2012

domingo, dezembro 02, 2012

POR ESTAS RUAS





Por estas pedras vai-se à casa em frente
a sentir o som da terra
com estes ombros carregamos a fome
dos animais, esta cabra
única vai guiando os nossos olhos
já cansados
por estas paredes o tempo escorre
e espera, vai
esperando que se abram as janelas.

4/10/2012

sábado, dezembro 01, 2012

POEMA DA EXISTÊNCIA



Ao sair à rua
vejo que Deus existe
pode passar num perfume
da chuva, passar no rosto que bate
com os olhos no chão
na criança que borboleteia
mesmo na mulher que se reflecte no vidro
e gostaria
de vestir o que está na montra
Deus existe, e caminha na minha rua
deixo ficar a Sua mão no meu ombro.

30/11/2012

quinta-feira, novembro 29, 2012

PODIAS TER SIDO UM OUTRO ASTRO, WOODY ALLEN






Poema inédito de Brissos Lino


Podias ter sido um outro astro no azul
da comédia americana
Woddy Allen
um Charlot em Nova Iorque
ou uma estrela de jazz
a soprar um clarinete em New Orleans
mas a cabeça fértil nunca deixou
ia-te exigindo a criação de novos mundos
no escuro do cinema
pela virtude de saberes desnudar
o coração dos homens
mas a rir.


28/11/2012

© Brissos Lino

domingo, novembro 18, 2012

CARTA DE AMOR




Adeus a todos...” (Ofélia, de Hamlet)

 
Já tens água de mais, ó pobre Ofélia
as tuas lágrimas
temo que no regato, à beira do salgueiro
os cristais dos teus olhos estejam baços
temo que no ribeiro as flores iludam
o leito profundo da morte, a água
enleando de sedas os teus pés
a tua boca
afogada no encalço da última palavra
senão já com amor, com o lodo
do silêncio.

© 18/11/2012 

segunda-feira, novembro 12, 2012

JACOB






Essa pedra a que o sonho deu
a gravidade zero, testemunha
que nos degraus da noite, a escada
era leve para o céu, a porta
eram os anjos, e estes que desciam
a reunir vestígios do mundo
e voltavam a subir, nessa pedra
onde encostou Jacob o sono, só
por fora a dormir.

6/11/2012

terça-feira, novembro 06, 2012

PARQUE INFANTIL



Nos meus olhos, alguma vez
recordo
a baloiçar quase no céu
a loucura sã de uma criança.

6/11/2012

segunda-feira, novembro 05, 2012

HOMENS DE PEDRA








Homens de pedra que custam a dobrar joelhos

corações de pedra insensíveis ao lençol

de lágrimas do outro lado da janela

cabeças de pedra

duras como ideias fora de prazo

mas que se contém dentro dos finos limites

do aço da realidade. Bonecos que só se vergam

perante a inocência

de uma criança inquiridora.

2/11/ 2012

Poema inédito de Brissos Lino

 

terça-feira, outubro 30, 2012

TRÂNSITO







todos nascemos com um rio pelas mãos
e aloendro batendo nos lábios
com a noite em busca de si mesma
imaginando ter ela um avesso
uma face oculta clara
que nos esclareça os sonhos que vamos
deixando germinar
quando nascemos canta o céu
e chora a terra, porque logo
nos esquecemos
que só a lama é o poiso dos pés
e se batemos asas nem às copas
das árvores subimos, não temos
envergadura nem ternura na voz
que cheguem para a majestade
quando nascemos somos duros,
dói-nos o ferro da pele, não sabemos nada
nem que o rio a cada um de nós dado
é vidro polido nas nossas mãos
e nos mergulha, solitários, não na placenta materna
mas na água limpa das novas madrugadas
onde não se vê noite, nem o dia tem rosto
mas só a corrente tem sentido

29/10/12
 
Inédito de Rui Miguel Duarte

    sábado, outubro 27, 2012

    MOBY DICK- UM ENSAIO DO PRINCÍPIO


     
     
    "A meditação e a água encontram-se para sempre
    intimamente ligadas"
    Herman Melville



    O meu nome é Ismael. Catão lançou seu corpo
    sobre a ponta da espada, eu
    tranquilamente vou para o mar. Nenhum amor
    me prende à terra firme, a parte aquática do mundo
    é que me chama. Chega ao meu coração
    como um aroma. É o modo
    que tenho de fugir ao suicídio, sempre
    que a alma é um nevoeiro espesso
    e se fecha como um Novembro brumoso
    Chega a altura de voltar
    com pressa para o mar. Antes que dê
    por mim a seguir o rasto aos funerais, a arrancar
    na cidade os chapéus aos transeuntes, a cair
    no tédio de já nem conseguir rir-me do espelho
    Preciso de um espelho marinho, onde lance os olhos
    do topo de um mastro. Uma só gota de mar
    é colírio para evitar a noite nos meus olhos.

    27/10/2012

    quarta-feira, outubro 24, 2012

    HÁ LIVROS QUE MERECEM SORRISOS

     



    Sorriu para dentro do livro aberto.
    (Rohinton Mistry)

    Há livros que merecem sorrisos e lágrimas
    cascatas de gargalhadas francas
    levam-nos pela mão a outros mundos
    em viagens fascinantes
    ao interior
    desenham rostos e dramas
    insinuam corpos e medos ancestrais
    reinventam as paisagens do desejo
    deflagram sentimentos que nos invadem
    os olhos
    e a alma à espera
    livros que vivem unindo passados
    e possibilidades remotas
    entre o chão e o sonho
    numa nuvem de prazeres.


    20/10/12
     
    Brissos Lino
     
     
     

    sábado, outubro 20, 2012

    O ANJO SENTADO NA CADEIRA DE VAN GOGH





    “Uma vez um anjo apaixonou-se por van gogh e veio vê-lo
    van gogh pintou-o naquela cadeira”
     
    Manuel António Pina (1943-2012)

     Sentado na cadeira de Van Gogh
    um anjo calça as botas de camponês
    insubstancial, o seu corpo
    atravessou o cansaço das galaxias
    uma sombra branca, chega
    o olhar de Van Gogh para o ver
    com as terrenas cores
    com que sonhamos, nunca
    pinta o anjo mas o silêncio do seu corpo.

    20/10/2012
     


    terça-feira, outubro 16, 2012

    Do outro lado do ribeiro de Cedrom




    Preciso das vossas mãos para velarem comigo
    porque tenho o peso do mundo
    no meu coração, as mãos que trabalharam as redes
    as vossas mãos rudes que amaram o mar
    para segurarem o cálice, e dos vossos olhos
    para desvelarem comigo a cortina da noite
    a minha alma está pronta, o corpo
    não, é uma rosa triste, madura
    uma rosa de terra perante a morte.


    12/10/2012

    segunda-feira, outubro 08, 2012

    Desembarque



     
    Alguns
    morreram, muitos
    morreram, quase todos
    como um poema rasgado
    que não viu a luz ao fundo
    da última palavra.

    20/9/2012

    sábado, outubro 06, 2012

    Feira do Livro e de Poesia e BD

    Organizada pela Inês Ramos

    A Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada realiza-se todos os sábados, das 10H00 às 18H00, no espaço Guilherme Cossoul de Campolide: Rua Professor Sousa da Câmara, 156 – Campolide (às Amoreiras).

    http://feiradolivrodepoesia.blogspot.pt/2012/10/novidades-da-proxima-feira.html

    terça-feira, outubro 02, 2012

    MARYLIN



    A sua nudez não foi suficiente

    não surpreendeu

    a morte, os seus olhos

    não penetraram nada

    adormeceu, ou foi

    adormecendo.



    30/9/2012

    sexta-feira, setembro 28, 2012

    Vi a tua sombra na calçada

    (Foto do poeta tirada num jardim em Vila Viçosa)


    Vi a tua sombra na calçada e era um rio

    com o teu preciso recorte

    pressenti a respiração ofegante que queria ouvir

    mas apenas a brisa me beijou o pescoço

    como que a pedir desculpa

    talvez fosse apenas uma árvore

    no seu jogo da tarde com os pássaros

    ou uma nuvem debruçada no céu

    a fazer das suas.

    27/9/12

    Poema inédito de Brissos Lino

    domingo, setembro 23, 2012

    HAMLET







     

     “Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos”
     
    Yorgos Seferis


    Acordo com esta cabeça
    com estes buracos no lugar dos olhos
    e o seu silêncio pesa-me nas mãos
    acordo todas as manhãs
    e o dilema e as perguntas
    pesam-me no espírito
    Será mais nobre sofrer na alma, não
    pegar em armas
    ou sofrer os dentes do destino?
    A cada palavra um eco vem
    que se perde a caminho de nada
    dentro desta caveira, sem servidão
    indomável, ninguém.


    22/9/2012

    domingo, setembro 16, 2012

    Para Bailar un Tango






    Un tango se danza con un cuchillo
    en la mirada
    y zapatos acolchados de silencio
    Un tango rompe
    todo lo que está cerca
    el aire donde el cuerpo se contonea
    donde las manos ahogan
    manos o en la cintura
    navegan como si fuese
    un río de plata

    Tradução de Adriana F.Lagoa

    sexta-feira, setembro 14, 2012

    Do que quer falar o poeta



    Por vezes da alegria. Num dia triste
    que começa a quebrar-se
    com as vozes aos pulos, contentes
    das crianças. Tantas vezes
    do mar, não exactamente do mar que se vê
    mas daquele que banha de lume turquesa
    as ilhas mais distantes
    Outras vezes da morte, não explícita
    mas dos cristais que se partem nos olhos
    de quem morre
    Quase sempre a encher-se de silêncio
    para encontrar uma palavra, aquela
    mesma, pequenina, amedrontada
    caída da árvore
    no meio de palavras enormes.

    13/9/2012

    sexta-feira, setembro 07, 2012

    NAUFRÁGIO





    Desabitado, o convés
    ao largo aguarda a visita das marés
    e dos olhos
    que vêm à praia, rasos de água
    ninguém
    espera mais nada
    senão os apetrechos do barco
    lentamente repartidos.

     
     
    7/9/2012

    sábado, setembro 01, 2012

    VIVER EM ÍTACA

    quinta-feira, agosto 23, 2012

    As estórias em acrílico de Duy Huynh



    Duy Huynh (pronuncia-se Yee Wun) é vietnamita radicado nos Estados Unidos da América desde os anos 80.

    A sua pintura em acrílico é poética e contemplativa, assume-se em todos os formatos como a obra pictórica de um contador de estórias. As imagens repetem-se, saem do mundo físico para o onírico. E esta mistura confere beleza – que é a primeira palavra que me ocorre – a quase tudo que o pintor narra nas suas telas.

    Não sei, contudo, se Duy Huynh é um seguidor consciente de René Magritte, mas as estórias que conta na sua pintura, suscitam-me esse criador belga.

    Pelo onirismo de cada proposta, pela diegese da sua poesia pictórica, pela escrita de uma poesia pura nas formas e cores. É uma pintura que seria quase tangível – pelos materiais que usa, a tinta acrílica é mais rugosa, saliente – não fora tratar-se de Sonho.

    Se a poesia é estar dentro da realidade e escrever a imagem, a pintura deste artista vietnamita estrutura-se do mesmo modo: ele pinta a imagem da realidade dentro da realidade.

    Tão surrealista quando trata de referentes que poderiam ser dos contos de fadas ou dos mitos, como Magritte. Tão realista quando dá forma onírica ao que nos revela, sendo que pela sua própria natureza, um sonho é íntimo.



    sexta-feira, agosto 17, 2012

    OS BARCOS DE INHAMBANE






    Velas arriadas, remos
    descansando o gume

    os barcos ao sol a secar as águas
    e o peixe
    é um cheiro sem a cor
    nas redes

    Então o pôr-do-sol
    derrama mel na noite.

    17/8/2012

    terça-feira, agosto 14, 2012

    terça-feira, agosto 07, 2012

    JAZZ NA RUA 52


    Depois tudo
    depois do fumo, iria subir
    os degraus dos clubes da Rua 52
    gente desfolhando-se ao vento
    folhas dos ramos de uma velha árvore

    A Rua 52
    tem o silêncio próprio das ruas
    com trânsito, em porta alguma há
    hoje o cheiro
    da música de Parker, a sua pressa
    contida no saxe alto.

    7/8/2012

    segunda-feira, julho 30, 2012

    REGRESSO A CASA


    Les Sirens, Leon Belly, Séc XIX, França

    E se eu implorar (...) que me liberteis,
    devereis amarrar-me com mais cordas ainda”
    Odisseia


    O doce canto desnudando o coração

    o desejo nu, bem amarrado ao mastro

    Ulisses não podia

    atirar às ondas de Sereias

    os seus braços.

    30/7/2012

    segunda-feira, julho 16, 2012

    Encontro com James Joyce em Zurique


    Perdoa-me, Ezra Pound, que imperturbável
    te receba
    o meu jardim estiola sobre um epitáfio
    lavrado no chão e estou cansado
    desta morte
    na forma de liga de metal
    perdoa-me que olhe para ti
    pela cegueira do infinito
    Vieste visitar-me, meu velho poeta
    meu filho crescido
    no bolso do sobretudo é bom que tragas
    para desvendar os Cantos de Pisa
    os instrumentos para o meu Leopold Bloom
    esse homem vacilante do Ulysses
    aprender a tua firme sabedoria
    Perdoa-me Ezra, que não me levante
    mesmo que os meus olhos não consigam
    apanhar o teu tão alto tamanho.

    16/7/2012

    sábado, julho 14, 2012

    CONVERSA NOS JOELHOS

    Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos.— E encontrei-a amarga. — E insultei-a
    Rimbaud


    Sentei nos joelhos a suposta inspiração
    esperei décadas pelo seu talento
    pelo leve sopro de flauta imaginada
    por uma asa num verso de poesia
    um tigre
    que me dá a pata com ternura
    uma pomba ornando um telhado
    ou uma estrela fugida do tumulto
    das galáxias, conversamos:
    por que demorou tanto
    agora que estou quase a acabar
    por que vinha com roupas
    impronunciáveis
    disse: mas sempre me encontraste
    nos silêncios.


    13/7/2012

    sexta-feira, julho 06, 2012

    Vou-me Embora



    Há por acaso alguma nova Tróia para incendiar?
    É preciso movermo-nos na imaginação
    que, tal como as pernas, está a ficar mármore
    Haverá alguma coluna ainda ou algum arco a abater
    para o futuro, para render o olhar
    abismado sobre Roma?
    Então nada a fazer
    vou-me embora
    para a pequena aldeia onde o vento
    passe plácido como um regato verde
    no pináculo dos pinheiros.

    5/7/2012

    quinta-feira, julho 05, 2012

    O Caminho




     Desde sempre caminhamos para o nevoeiro
    com a morte, invisível
    às costas
    desde sempre à sua maneira
    a morte vai penetrando
    e num domingo que se apaga cedo
    ou numa terça-feira de sol
    aperta o vértice do ângulo

    -Não
     e não temos letras suficientes
    para um tão ínfimo vocábulo.


    4/7/2012


    Foto de Flor Garduño, México, 1957 -
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