segunda-feira, abril 22, 2013

O SILÊNCIO É O QUE É


Escrevia silêncios”
Arthur Rimbaud
 
O silêncio é a garrafa vazia que chega à praia,
o silêncio
é no fundo do mar
um peixe ébrio por excesso de cores,
é a onda que vem bordar a beira mar
e esquece-se do regresso, mas como
não o esquecimento?
Se uns pés passam como verdade
descalça na praia. A solidão
do silêncio
é uma vez passado o pássaro
o ar torna ao sossego.  É o silêncio
uma harpa à espera ou um velho
gato a jogar xadrez ao sol.
Como os dedos da mão, não há
um silêncio igual a outro.
 
 
20/4/2013
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Poema publicado inédito Aqui

quinta-feira, abril 18, 2013

PASSAM A MÃO PELO ROSTO


 

“Aqui cada um é o seu próprio
carcereiro, irreconhecível
e anónimo.”
Paal Brekke (Poeta noruguês, trad. Amadeu Baptista)
 
 


 Passam a mão pelo rosto e não encontram nada
o nariz adunco
faz uma curva para o abismo, os olhos
sem possibilidade de evasão, os lábios
apenas com a sintaxe da dor
São estranhos
marcados com seis pontas estelares
como uma roda dentada
que tritura o corpo
Passam com as mãos nos ouvidos
e sentem a falta das canções maternas.

18/4/2013
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(Foto de Dachau Concentration Camp)

segunda-feira, abril 15, 2013

A TRAGÉDIA




Tão nus com uma nudez sem sombra
estão no chão, os olhos
ligam-nos ao chão, só o menino
ergue a esperança
que virá, o próprio mar
humilha-se aos seus pés.

14/4/2013
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Picasso, Tragédia, Fase Azul

quarta-feira, abril 10, 2013

Carta de Virginia Woolf




Sinto que as vozes batem, de novo
nas paredes da minha cabeça, tenho a certeza
que é o morse intermitente da loucura
fomos felizes até surgirem estas vozes, duas pessoas
jamais foram tão felizes como nós
Abrirei os braços, soltarei os cabelos
serão a cabeleira de uma ninfa nas águas
deste rio, o meu corpo será um dardo na corrente
Na margem deste rio sei que haverá
um pescador de casaco vermelho, ovelhas
espalhadas sob a sombra dos salgueiros
Perdi tudo, menos este espaço pequeno
que ocupo na morte, não vou continuar
a estragar a nossa vida. Espero por ti no fundo rio.

10/4/2013


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terça-feira, abril 09, 2013

Cântico de Maria Madalena


Eu vi-Te na flor da manhã
na luz dispersa pelas primeiras horas
de domingo

Naquele segundo a pedra
pareceu-me transparente, o ar
um espelho que reflectia anjos

Eu vi os lençóis
arrumados no vórtice imóvel
do sepulcro
quando ia pousar ramos
de incenso sobre o corpo.

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segunda-feira, abril 01, 2013

ANNE SEXTON TUDO EM MIM É UM PÁSSARO




 

Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.


(Anne Sexton, poeta americana, 1928-1974, morte por suicídio)
 


A sua vida começa pelo fim
não é fácil
livrarmo-nos da morte, os fumos
do escape a cegarem seus olhos
com as lágrimas
Escrevia cartas de censura a Sylvia Plath
porque lhe roubara a morte, arrastando-se
primeiro ao seu regaço
a morte que estava pegada à sua pele
que respirava, escondida, dentro dela
da beleza dos seios, bebendo-a
como o leite da aurora.


1/4/2013

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domingo, março 31, 2013

NOLI ME TANGERE



 
Não me toques
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto

deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
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sexta-feira, março 29, 2013

ANTIQUALHAS


Do algodão das arcas para outro silêncio
o do olhar conspícuo
saem móveis retro
que já tiveram a flor da idade

azulejos árabes, livros onde o raro
é terem resistido aos bibliófagos, alguns
vidros coloridos de Murano

bustos romanos sem nariz, uma orelha
a menos numa esfínge, um braço a menos
numa réplica de Vénus
porcelanas de reis que tinem e cristais
que mãos delicadas festejaram.

28/3/2013
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sexta-feira, março 22, 2013

O Escritor E.L.Doctorow só agora chegou a Portugal ?



No panorama das edições em Portugal de autores estrangeiros vivos, obedece-se muito a critérios que, não sendo cegos, parecem ter muita falta de memória.

No suplemento Ipsilon, do diário Públic
o de hoje (22/3/2012), a capa traz em parangonas: "E.L.Doctorow vai deixar de ser desconhecido em Portugal"

Não sei se em Portugal, pelo menos no suplemento e na informação literária da redactora em NYC, Isabel Lucas, talvez seja.

O autor perguntou "quantos livros meus estão publicados em Portugal?" Em português, só no Brasil, terá sido a resposta. "Mas mais de 50 anos depois da sua estreia literária - escreve o Ipsilon- está finalmente a chegar às livrarias portuguesas o romance mais recente, através da Porto Editora, "Homer & Langley".

Perguntamos nós, e o romance "A Cidade de Deus", editado pela Europa-América, em 2002?

quinta-feira, março 21, 2013

O POEMA COMEÇA NOS OLHOS



“Le più belle poesie / si scrivono sopra le pietre”
Alda Merini

Os mais belos poemas escrevem-se
nos nossos olhos, começam
por ser um pequeno risco indolor
depois uma pequena cor que se avoluma
pode ser
por dentro de uma lágrima, não importa
a cor está lá, protegida
inquebrável mesmo no escuro da retina
as mais belas poesias começam nuas
depois há uma luz que lhes alonga
a sombra
sobre a suavidade do mármore
só então é que as palavras tocam
como outra carne, os nossos lábios.

21/3/2013
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terça-feira, março 19, 2013

OS SAPATOS DO PESCADOR






Estes sapatos pretos não andarão sobre as águas
Inconformados
Com as pedras, amaciam a sua dureza
Os meus sapatos não se perdem

Em inigmas divinos

Uso os meus próprios sapatos
Pretos, solas habituadas
Ao chão em que os homens caem
E se levantam, os meus pés
Estão à vontade nestes sapatos pretos

Conhecem os meus caminhos, os olhos
Não se envergonham destes sapatos.

19/3/2013
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sexta-feira, março 15, 2013

A GRAVE OF SYLVIA PLATH






Um rectângulo onde gerações de gerânios
e de olhos
têm chorado, um terreno de poesia
onde flores douradas, devagar

serão plantadas e as nuvens
passam no vidro gelado do céu
Um nome de pedra num rectângulo frio.

14/3/2013
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segunda-feira, março 11, 2013

O QUE RESTA



Um capote número 42 pequeno para a morte
que a guerra poupou, agora
semi fechado agasalha o silêncio
um capote que um corpo já não pesa
a manga como a corda que se lança
do convés para um braço triste
as mãos intocáveis do soldado só sonhadas
misturam-se com raízes em qualquer lugar
há um buraco ainda quente, vazio
num boné em que o filho há-de crescer.

11/3/2013
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quarta-feira, março 06, 2013

MULHER DE AZUL


 
Natan Altman, Retrato da poetisa Anna Akhmátova, 1914


Não, mulher de azul, o céu
do teu vestido é um corpo, um coro
de anjos te cantaria, e as rosas
ao fundo como células que crescem benignas
em nenhum outro lugar
haverá perfume, mulher de azul
com o sol a descer pelos teus ombros.

24/2/2013
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terça-feira, março 05, 2013

WESTERN


Duas ou três mãos de póquer
sobre a mesa, meia garrafa de whiskey
persegue-se a si própria, desce
uma pálpebra sobre um olho
a chamar a corista, disparam
na rua principal, noutra mesa
os cinco dados rolam
como pequenos cubos de gelo no cristal.

5/3/2013

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quinta-feira, fevereiro 28, 2013

PIQUENIQUE NO ÉDEN




“É inútil a tentativa de um piquenique no Éden."
Elizabeth Bowen 
 


 
 Sentados diante de uma maçã- é costume
dizer-se –
foi o último piquenique no Éden, depois
o chão tremeu, com aquela reverência
quando Deus passa, quando Deus faz o silêncio
com seu olhar telúrico, o lugar
crescia como a sombra do sol inclinado
a desolação
a terra nos lábios que o fruto deixou
o medo entre as palavras.

28/2/2013
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("Adão e Eva no Paraíso", de Paul Rubens e Jan Brueghel, o Jovem)

domingo, fevereiro 24, 2013

DIA DE CHUVA



Rua de pedra gasta de agua onde as poças
espelham arvores com coragem de flores
O brilho negro das botas reflecte
As cores do arco iris no chapéu de chuva
Nevoa doce da tua carícia molhada no cabelo
Lava-me os braços nus.

Fixo os olhos nas cores do arco iris
No chapeu de chuva que pinga pedaços
De ausencia nas poças onde se espelha
O sorriso com promessa de regresso.

O brilho negro dos cabelos na caricia molhada
lava-me o cabelo que reflecte o negro
das botas na pedra gasta da tarde.

Fev 2013

© Clélia Mendes
         
 




quinta-feira, fevereiro 21, 2013

POEMA PARA OS QUE ANDAM DE “METRO”



Levantar-me, mergulhar no “metro”(...)
sair (…) para uma foz de estrelas”
Vicente Gaos


Ainda com sonhos pelo meio, as nuvens
que cada cabeça procura dissipar
homens e mulheres multiplicados
como nos espelhos em silêncio, esperam

a noite ainda nos olhos, no tunel
o tubo vem do fundo da luz
para comprimir os perfumes e os corpos
actores de todos os papéis, rostos
com todos os vícios

entram e sentam-se com a alma
ao colo, um jornal, um livro
ou a carteira
a insónia começa enfim a partir-se
como um vidro em todos os ruídos.

©

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

O CAIS


 

Tudo é silêncio de cimento”
Marcos Konder Reis


O cais está parado no último regresso
espera fumo ao longe, a Ocidente
a linha é inquebrantável, o cimento
está silencioso, a gare sem olhos
a água imóvel espera rostos debruçados
tudo o que há são velhos óleos
reflectidos.

14/2/2012

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quarta-feira, fevereiro 13, 2013

A ÚLTIMA CARTA DA FRENTE DE BATALHA

 
São as tuas palavras, as últimas
que choram nos meus olhos, brilham
e pesam tanto as lágrimas
esperámos-te, capazes da maior ferocidade
contra a morte
mas não haverá regresso, só silêncio
dentro de nós
A tua vida deslizou, quando entre mãos
entre os joelhos
poisei a tua carta, a última
luz escrita a carvão, que lentamente se extinguiu.

13/2/2013
©
(B.Nemensky, A Última Carta, Pinturas Soviéticas da II Guerra)