domingo, setembro 16, 2012

Para Bailar un Tango






Un tango se danza con un cuchillo
en la mirada
y zapatos acolchados de silencio
Un tango rompe
todo lo que está cerca
el aire donde el cuerpo se contonea
donde las manos ahogan
manos o en la cintura
navegan como si fuese
un río de plata

Tradução de Adriana F.Lagoa

sexta-feira, setembro 14, 2012

Do que quer falar o poeta



Por vezes da alegria. Num dia triste
que começa a quebrar-se
com as vozes aos pulos, contentes
das crianças. Tantas vezes
do mar, não exactamente do mar que se vê
mas daquele que banha de lume turquesa
as ilhas mais distantes
Outras vezes da morte, não explícita
mas dos cristais que se partem nos olhos
de quem morre
Quase sempre a encher-se de silêncio
para encontrar uma palavra, aquela
mesma, pequenina, amedrontada
caída da árvore
no meio de palavras enormes.

13/9/2012

sexta-feira, setembro 07, 2012

NAUFRÁGIO





Desabitado, o convés
ao largo aguarda a visita das marés
e dos olhos
que vêm à praia, rasos de água
ninguém
espera mais nada
senão os apetrechos do barco
lentamente repartidos.

 
 
7/9/2012

sábado, setembro 01, 2012

VIVER EM ÍTACA

quinta-feira, agosto 23, 2012

As estórias em acrílico de Duy Huynh



Duy Huynh (pronuncia-se Yee Wun) é vietnamita radicado nos Estados Unidos da América desde os anos 80.

A sua pintura em acrílico é poética e contemplativa, assume-se em todos os formatos como a obra pictórica de um contador de estórias. As imagens repetem-se, saem do mundo físico para o onírico. E esta mistura confere beleza – que é a primeira palavra que me ocorre – a quase tudo que o pintor narra nas suas telas.

Não sei, contudo, se Duy Huynh é um seguidor consciente de René Magritte, mas as estórias que conta na sua pintura, suscitam-me esse criador belga.

Pelo onirismo de cada proposta, pela diegese da sua poesia pictórica, pela escrita de uma poesia pura nas formas e cores. É uma pintura que seria quase tangível – pelos materiais que usa, a tinta acrílica é mais rugosa, saliente – não fora tratar-se de Sonho.

Se a poesia é estar dentro da realidade e escrever a imagem, a pintura deste artista vietnamita estrutura-se do mesmo modo: ele pinta a imagem da realidade dentro da realidade.

Tão surrealista quando trata de referentes que poderiam ser dos contos de fadas ou dos mitos, como Magritte. Tão realista quando dá forma onírica ao que nos revela, sendo que pela sua própria natureza, um sonho é íntimo.



sexta-feira, agosto 17, 2012

OS BARCOS DE INHAMBANE






Velas arriadas, remos
descansando o gume

os barcos ao sol a secar as águas
e o peixe
é um cheiro sem a cor
nas redes

Então o pôr-do-sol
derrama mel na noite.

17/8/2012

terça-feira, agosto 14, 2012

terça-feira, agosto 07, 2012

JAZZ NA RUA 52


Depois tudo
depois do fumo, iria subir
os degraus dos clubes da Rua 52
gente desfolhando-se ao vento
folhas dos ramos de uma velha árvore

A Rua 52
tem o silêncio próprio das ruas
com trânsito, em porta alguma há
hoje o cheiro
da música de Parker, a sua pressa
contida no saxe alto.

7/8/2012

segunda-feira, julho 30, 2012

REGRESSO A CASA


Les Sirens, Leon Belly, Séc XIX, França

E se eu implorar (...) que me liberteis,
devereis amarrar-me com mais cordas ainda”
Odisseia


O doce canto desnudando o coração

o desejo nu, bem amarrado ao mastro

Ulisses não podia

atirar às ondas de Sereias

os seus braços.

30/7/2012

segunda-feira, julho 16, 2012

Encontro com James Joyce em Zurique


Perdoa-me, Ezra Pound, que imperturbável
te receba
o meu jardim estiola sobre um epitáfio
lavrado no chão e estou cansado
desta morte
na forma de liga de metal
perdoa-me que olhe para ti
pela cegueira do infinito
Vieste visitar-me, meu velho poeta
meu filho crescido
no bolso do sobretudo é bom que tragas
para desvendar os Cantos de Pisa
os instrumentos para o meu Leopold Bloom
esse homem vacilante do Ulysses
aprender a tua firme sabedoria
Perdoa-me Ezra, que não me levante
mesmo que os meus olhos não consigam
apanhar o teu tão alto tamanho.

16/7/2012

sábado, julho 14, 2012

CONVERSA NOS JOELHOS

Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos.— E encontrei-a amarga. — E insultei-a
Rimbaud


Sentei nos joelhos a suposta inspiração
esperei décadas pelo seu talento
pelo leve sopro de flauta imaginada
por uma asa num verso de poesia
um tigre
que me dá a pata com ternura
uma pomba ornando um telhado
ou uma estrela fugida do tumulto
das galáxias, conversamos:
por que demorou tanto
agora que estou quase a acabar
por que vinha com roupas
impronunciáveis
disse: mas sempre me encontraste
nos silêncios.


13/7/2012

sexta-feira, julho 06, 2012

Vou-me Embora



Há por acaso alguma nova Tróia para incendiar?
É preciso movermo-nos na imaginação
que, tal como as pernas, está a ficar mármore
Haverá alguma coluna ainda ou algum arco a abater
para o futuro, para render o olhar
abismado sobre Roma?
Então nada a fazer
vou-me embora
para a pequena aldeia onde o vento
passe plácido como um regato verde
no pináculo dos pinheiros.

5/7/2012

quinta-feira, julho 05, 2012

O Caminho




 Desde sempre caminhamos para o nevoeiro
com a morte, invisível
às costas
desde sempre à sua maneira
a morte vai penetrando
e num domingo que se apaga cedo
ou numa terça-feira de sol
aperta o vértice do ângulo

-Não
 e não temos letras suficientes
para um tão ínfimo vocábulo.


4/7/2012


Foto de Flor Garduño, México, 1957 -
Ver mais

terça-feira, junho 26, 2012

AS BARCAS DE CARONTE



 “navegam em mim barcos assustados”
Julio Saraiva

Algum dia
queimaremos as naves de Caronte
Por agora prossegue a obstinada morte
no alfabeto a letra com que vai
começar o nosso nome
Mas ainda o sangue se renova
nos ramos que partem do nosso coração
Algum dia estaremos sentados a ouvir
os anjos a tirar das suas harpas
os silêncios celestiais
Por agora, como Ulisses amarrados
ao mastro do navio, deixamos que as ondas
nos falem ao ouvido.

24/6/2012

segunda-feira, junho 18, 2012

Observar Vagalumes



Da janela defronte da noite
vejo pirilampos
que se movem e param
renovam
e o negrume está carregado de luzes
de pequenos barcos de pesca
na faina nocturna
nas correntes do ar.


18/6/2012

sábado, junho 16, 2012

ENTRE O MADEIRO E A LANÇA

Entre o madeiro e a lança
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.


15/6/2012

terça-feira, junho 12, 2012

A Tentação


Sobre a aridez sem referências
do deserto, o Filho do homem
falou com o frio da noite, espesso
frio como a escuridão sem lugares
onde encostar os olhos, falou
com o sol sem sombras
como o próprio Deus depois de plantar
o jardim, falou sozinho
até que Satan – não o de Dante
lhe pôs pedras no meio do caminho.

12/6/2012
 

terça-feira, junho 05, 2012

SANCHO



Sancho é um corpo universal”
Nélida Piñon


Sancho é largo, quase rente
ao chão, Sancho
avoluma-se na magreza do Quixote

É um gigante, largo
em trânsito no chão manchego
é, por vezes, os olhos do Quixote

O ritmo de Sancho é lento
a realidade vai atrás do brilho
da armadura do Quixote

O moinhos são os panos do vento
Sancho, vestido de pele
e coração, como os conhece de perto.

5/6/2012




segunda-feira, maio 28, 2012

O CINEMA


 “llega la oscuridad y después las / caras gigantescas”
Charles Bukowski

Às vezes, no cinema
enterrados até ao pescoço
na cadeira, à procura no negrume
da vida real
contam-se as pipocas com dedos infantis
os lábios molham-se
admirados num refresco
os rostos maiores que o nosso no ecrã
corpos gigantes
partem o escuro, falam
e nós passivos
na nossa vida banal.

28/5/2012
 

sexta-feira, maio 18, 2012

Maremoto



 “mon malheur (...)
observe un silence d’océan”
 
René Depestre 



O oceano observa depois
o nosso infortúnio
em silêncio

as espumas iluminam
os areais, após o fio
das navalhas dilacerar
por dentro a terra

depois
do cume das ondas gigantes
que inunda de frio
os homens

por agora quando observamos
o mar
fazemo-lo
em grande silêncio

17/5/2012

quarta-feira, maio 16, 2012

OS COMENTADORES




Deixem Atenas respirar
à borda do Egeu
o ar de vidro transparente
e claro que corre do Egeu
Deixem que goze as sombras brancas
no sol das suas casas claras
poderíamos deixar a Grécia em paz


Que falta faz Platão
para verter grinaldas nas cabeças
dos homens e mulheres
que sabem tanto sobre os gregos
como dormem, comem, gastam
o seu corpo no amor, gastam
o que é nosso – dizem eles


Platão mandá-los-á para fora da cidade
entregues à mimésis uns dos outros.

terça-feira, maio 08, 2012

A Dança de Salomé


Valeu uma cabeça, o corpo
a sair dos véus, a luxúria
enlaçava os braços
nus dançando, os olhos
seduzindo a morte,
como poços negros
convidavam
ao prazer da carne
mais escondido.

Valeu uma cabeça, cada perna
a esgrimir com os desejos
como um florete frio.

Valeu uma cabeça, a bela
cabeleira a fustigar
o ar enlouquecido.

8/5/2012

quinta-feira, maio 03, 2012

JESUS EM MÁS COMPANHIAS


 Jesus em más companhias
- dizia o olho humano
arranhavam as línguas
das víboras

E o vaso quebrado com unguento
Seus pés enxutos
nos cabelos de mulher
E o sábado dessagrado

E a porta larga de Mateus
E a alegria à mesa posta pelos publicanos
disseram

até dos Seus olhos que fugiam
da multidão para os ramos da figueira
onde o Zaqueu crescia.

1/5/2012



 

terça-feira, maio 01, 2012

Nota talvez poética


Já escrevi poemas em Paris e Nova Iorque e pus as datas
Mil novecentos e noventa e pouco, hoje
mais velho e mais humilde
escrevo em casa
e deixo a minha gata passear
sobre eles.

1/5/2012

sexta-feira, abril 27, 2012

ESTAÇÃO DOS COMBOIOS

(Estação da CP, Aveiro, foto de Hugo Gamelas)
 
 
 
Não conheço os horários, sei que vem
eu olho e sei nos meus olhos
colocados ao fundo da linha
que chegará, estou em pé na estação
evito
bagagem excessiva
cheguei com minutos suficientes
para esperar esse comboio
que vem sobre as linhas paralelas
do infinito.

27/4/2012


domingo, abril 22, 2012

Quase Naufrágio


As ondas subiam por cima do barco
o barco entrava
no caracol das ondas
o vento subia pelos cabelos
os olhos subiam até às estrelas
os homens lançavam o medo nas vozes


E até a luz da lua
descendo pelas nuvens
fazia desenhos de medo sobre as águas


E no fundo do barco
que pensamentos na cabeça divina
dormem
alheios à tempestade?


21/4/2012



terça-feira, abril 17, 2012

A MULTIDÃO

            


As mãos não tocam no quadro
lançam sinais, roubam
com os olhos a Gioconda
estão a cercá-la de espantos
com os olhos prontos
a levar o sorriso até à fronteira
do mistério
A Gioconda pode repousar
despir-se
do olhar e do sorriso
à noite ficar nua, ninguém
desvenda o segredo atrás do vidro.

17/4/2012

sábado, abril 14, 2012

Tróicas, com um inédito de Brissos Lino



OS NOVOS VAMPIROS

Os antigos atacavam em bandos
pela calada da noite
estes atacam ao meio-dia
em directo na televisão
com um sorriso tímido nos lábios
e um olhar compungido
de mãos postas
como se tivessem dó
das vítimas
e sem nunca sujar o fato caro
nem a gravata fina.
     
11/4/12         
Brissos Lino


TRÓICA (i)  

É um tridente
que nos dói aqui.

TRÓICA (ii)

Eles são muitos
eu pouco.

11/4/2012






sexta-feira, abril 13, 2012

ISTO É UM POEMA?



Diz-se por aí que o Süddeutsche Zeitung (literalmente, Jornal do sul da Alemanha) publicou o mais novo poema de Günther Grass, “Was gesagt werden muss” ("O que deve ser dito"). Neste, Grass critica Israel por seu poderio ...nuclear e pelas ameaças de ataque ao Irão.

É explícito que GG critica Israel, não é assim tão certo, tecnicamente, que se trate de um poema; a não ser que qualquer pedaço de prosa de um Nobel da Literatura, com mais ou menos prosódia, com mais ou menos (no caso, nenhuma) prosopopeia, seja considerado universalmente um poema. Este não é.

A narrativa que aqui temos não é poética, é política.

Obedece a um estilo próprio do autor, é justo referi-lo, no que concerne ao uso de poesia ou prosas poéticas intercaladas nos seus romances. Também ao modo poiético com que o romancista alemão sempre abordou a sua poesia, com poemas datados no sentido do "ano político". GG afirmou-se um dia como "poeta de circunstâncias".

Seja como for, o alegado “poema” do Nobel Gunter Grass, autor dos celebrados e incontornáveis romances “O Tambor” e “O Cão de Hitler”, pelo menos, não suporia vir a ter enquanto artefacto literário, pelo lado da poiética e da ars poetica, qualquer menção especial que não fosse a de puro panfletarismo.

Panfleto prosaico em forma de poema. E deixando correr um rio subterrâneo que leva as águas carregadas de urânio ao moinho do Irão. É o que se lê neste pedaço de prosa, que nem prosa poética é:

“É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita.
do fabrico de uma bomba atômica.”

O autor de “Descascando as cebolas” (uma auto-biografia que também foi polémica), usa o direito inalienável, concordo, da velhice, da idade, para dizer o que, segundo ele, ainda não foi dito:

“Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?”

À sua própria pergunta, Gunter Grass simultaneamente responde-se numa quase tautologia:

“que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil”

O autor de “O Cão de Hitler”, soberbo romance de tom surrealista que desenvolve a crítica ao período nacional -socialista da Alemanha, vai compondo o seu texto dito poema como se se tratasse de um comunicado de imprensa ou uma peça jornalística, nos quais dirige o leitor para a conclusão prévia sobre a inocência do Irão:

“Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba, “

Poderíamos continuar, mas basta que se leia o “poema”. E não temos poesia, nem na parte em que se manifesta a garantia de amizade e de união fervorosa ou mística com o “ país de Israel, ao qual estou unido / e quero continuar a estar", nem naquela em que obviamente concordamos : “ da hipocrisia do Ocidente".

Melhor teria sido o próprio autor chamar a este texto o manifesto do romancista Prémio Nobel Gunter Grass. No entanto, é justo dizê-lo, que Grass é poeta e poeta do célebre Grupo 47.

Basta ler poemas, de outro tempo, cujo tom e discurso poemático expressionista tardio, porém afastado da dureza original desse Movimento dos anos 20 alemães, surrealista também, nos interpelam ainda hoje e interpelaram com certeza os alemães desse tempo. O livro “As vantagens das galinhas de vento” (título traduzido do volume em castelhano), de 1956, é paradigmático do que dissemos.

Um poema extraordinário basta, pela sua acutilância, ironia e brevidade comovedora:

Asuntos de Família/ Familiär

En nuestro museo – vamos todos los domingos -,
han inaugurado una sección nueva.
Nuestros hijos abortados, embriones pálidos y serios,
se acurrucan en simples tarros de cristal,
preocupados por el futuro de sus padres.

(Versão em castelhano da obra “Poemas”, Colección Visor de Poesía, Alfaguara, Madrid, 1994)

Assuntos de Família

No nosso museu - vamos todos os domingos-,
inauguraram uma nova secção.
Nossos filhos abortados, embriões pálidos e sérios,
encolhidos em redomas de cristal,
preocupados com o futuro dos seus pais.

(Trad. do alemão e espanhol, por J.T.Parreira)


segunda-feira, abril 09, 2012

A Ressurreição

 
Sem nada por que chorar
senão o túmulo vazio
e dois anjos a arrumarem a casa
vazia para sempre
sem nada sobre o que derramar o seu incenso

as mulheres
recém chegadas ao sepulcro
vão gastar os olhos na vigília

as mulheres sem um corpo onde encostar
o seu olhar silencioso
o fio das suas lágrimas

e regressam, as mulheres
regressam com o vento nas sandálias

as mulheres que vêm com o medo
mas com os cabelos como os ramos
perfumados de alegria.


7/4/2012 

segunda-feira, abril 02, 2012

VINTAGE



O corpo é um espanto na brancura
nu
o olhar se eleva à divindade da matéria
Nos anos vinte a nudez
era a da carne por baixo dos vestidos
e um subtil ardor nos olhos e na boca
um pasmo a espremer um Oh!
Escondido dos olhares
tudo se passava além do vidro.

1/4/2012
"Vintage", fotografia de Robert Doisneau

domingo, abril 01, 2012

terça-feira, março 27, 2012

OUTRA JERUSALÉM

 “Construam casas para nelas habitarem; plantem hortas e comam do seu fruto.”
Jeremias 29:5

disseram-nos
que construíssemos casas
e as adornássemos de pomares
a toda a volta da nossa vista
aí, dia a dia, faríamos amor
até bisnetos nos nascerem

disseram-nos
que nessa terra ao plantarmos hortas
colheríamos paz, que muros
não haveria que estancassem
os nossos sonhos
nem o flagelo da fome nos puniria

e assim fizemos:
mesmo embutidos entre os rios
toda a terra
é outra Jerusalém


 Poema inédito de Rui Miguel Duarte

sábado, março 24, 2012

“DIRTY REALISM”: UM PARADIGMA



In English dictionary: “a style of writing, originating in the US in the 1980s, which depicts in great detail the seamier or more mundane aspects of ordinary life”

Um movimento literário, como tantos outros que enriqueceram esteticamente a Europa. Todavia, este é originário dos Estados Unidos, da década de 80, e também poderia ser da de 40, no Brasil, com o poema-chave da nova poética de Manuel Bandeira: “Vou lançar a teoria do poeta sórdido”.
E ultrapassa os objectivos da Beat-Generation, que face ao “Dirty Realism” era um movimento de anjos pela estrada fora, embora os anjos não façam literatura, remetem-se apenas, celestialmente, a cantar o milagre celeste dos Salmos.
O Realismo Sujo capta inocentes e culpados. Nesta escrita, poética ou em prosa, a narrativa é despida até ao osso. Bandeira antecipou e definiu bem, escrevendo que o poeta sórdido é “aquele em cuja poesia há a marca suja da vida”.
Às vezes, quase sempre, não são os autores que nomeiam o seu movimento, em regra têm sido os jornalistas ( como o Impressionismo assim foi, em 1870). O editor da revista sobre a escrita nova, Granta, Bill Buford baptizou o movimento, como literatura em que a narrativa é despojada de suas características fundamentais.
O Dirty realism nos Estados Unidos reuniu autores como Raimond Carver e Charles Bukowsky, teve mesmo ancestrais próximos como Ernest Hemingway e Henry Miller, sobretudo a prosa despojada, sem receio da crítica da moral, do autor do “Trópico de Câncer”.
A técnica usada, resume-se a utilizar uma escrita na qual se iluminam sobretudo coisas que não se dizem em público. Sobrepõe-se também às regras prescritivas na gramática. Com a economia de palavras. Minimalista. Usa a mecânica de sublinhar a vida, que pode ser o fato branco onde cai uma nódoa. Que quase sempre é assim.
Realismo sujo é a ficção na qual se escreve o que ocorre na voracidade da vida contemporânea - um marido abandonado, uma mãe solteira, um ladrão de carros, um carteirista, um viciado em drogas - mas escreve-se sobre tudo isso com distanciamento perturbador, às vezes beirando a comédia- dizia, na introdução histórica do movimento, a revista Granta.
Alguns dos autores do movimento, esconderam-se atrás das suas personagens. Paradigmaticamente, o poeta Charles Bukowski. Em alemão, a isto chamava-se Maskenfreiheit, a liberdade conferida pelas máscaras. Ezra Pound, muito antes, chamou-lhes Personae.
Dois excertos do poema “Noite Imbecil” e “Pássaro Azul”, de Bukowski,

noite imbecil,

(...)

o dia foi um contínuo inferno

e agora vens

arrastando-te pelos canos

esvaziando a bexiga

por onde vais,

bebi 9 garrafas de cerveja

uma caneca de vodka

fumei 18 cigarros

e ainda te sentas em cima de mim

---------

Há um pássaro azul no meu coração que

quer sair

mas deito-lhe whisky em cima e levo

-lhe o fumo dos cigarros,

e as prostitutas e os criados

(...)nunca ficam a saber

que ele está lá dentro

Aqui estão presentes, em detalhe, descrições numa linha semântica de objectos do quotidiano nos seus aspectos “mais sórdidos ou mundanos da vida comum” - como define o dicionário.

(Traduções dos poemas da versão castelhana ) 




quinta-feira, março 22, 2012

Poema de Gregory Corso



AOS 25 ANOS


Com um amor e uma loucura por Shelley
Chatterton Rimbaud
o lamento imprudente da minha juventude
foi de ouvido em ouvido:
EU ODEIO OS POETAS VELHOS!
Especialmente aqueles que se desdizem
que consultam outros poetas velhos
que recordam sua mocidade em suspiros,
e dizem: eu escrevi alguns desses
mas isso foi dantes
foi dantes -
Ah eu gostaria de acalmar os velhos
dizendo-lhes: - Sou vosso amigo
o que alguma vez fostes, através de mim
voltareis a ser -
Então uma noite, quando me confiassem suas casas
rasgaria as desculpas da sua língua
e roubaria seus poemas.

in Gasoline
 
(Trad. J.T.Parreira)

domingo, março 18, 2012

A vista do Cais de Álvaro de Campos

(Foto de Adelino Lyon de Castro, 1952)

 “Fiquei a vê-lo: primeiro junto ao cais
com um certo ar simpático”
Mário Cesariny de Vasconcelos


À vista do cais do Álvaro de Campos
na linha do horizonte, há um paquete
um ponto vago a fazer, ao que parece
exercícios de equilíbrio
Começa a ficar nítido o costado
pequeno, negro e sozinho
à sua maneira contra o mar vasto
deixa no ar o Verão com uma nuvem de fumo
Sob o olhar clássico de quem olha
de um cais com a saudade em pedra
e vidro das lágrimas partidas
traz a vida marítima de longe
a bordo para o cais, é real, sozinho
e deixa para trás um mistério.

16/3/2012

quinta-feira, março 15, 2012

A QUEDA



Nus, não nos rompia a vida
o corpo
nem se rasgava nas arestas
dos ramos das árvores do Jardim
os pássaros eram corpos celestes
menores que os astros
nada ficava esquecido, nada
se esperava, estendia-se a mão
e ardia a mão na mão de Deus
nus, embora deste mundo, os nossos olhos
viam mais além do sol
até aquele dia em que a água
de um fruto nos regou os lábios
para a flor da morte.

11/2011

segunda-feira, março 12, 2012

Numa estação de província




Tentava recordar o rosto
que vinha, fechado na composição
nas palavras a dizer,

os olhos que deixara
a crescer noutra cidade, talvez
do outro lado do mar,

o coração,
bateria o coração do mesmo modo
que outrora?

Tentava recordar o que a saudade
deixara crescer no peito
Seria o mesmo, seria outro?

Tentava antecipar o que diria
com o olhar
exausto de descrever a paisagem

e com a voz,
posta em silêncio
do cansaço distante da viagem.

10/3/2012

segunda-feira, março 05, 2012

O SILÊNCIO DE DEUS


 O silêncio de Deus é ouro
nos céus, por vezes, aqui na terra
passamos pelo silêncio divino
como pelo escuro, passamos depressa
e não nos surpreende a claridade
das coisas onde Deus detém os olhos
levamos anos
a entender esse silêncio
por exemplo o que levou
minutos a cair do lado esquerdo do Seu Filho
o silêncio
que as pálpebras divinas, fechadas
demoraram, o silêncio de Deus
é como Deus, é como o papel de veludo
amarrotado dos altos oceanos.

5/3/2012

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

AVISO


O piano reserva o direito
de quebrar as teias
do silêncio

de abrir com a clave de sol
a porta
adormecida dos ouvidos
o piano conserva ainda
o porte majestoso
em que recaem olhares silenciosos
todos os não-seres esperam
nada, mas a luz virá
apagar as sombras como água.


 
23/2/2012

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Ouvir a Grécia


 “Um grego só entre os deuses se há-de achar”
Konstantinos Kaváfis


No meio dos bárbaros da Europa, a voz do teu senado
espera, em silêncio de pedra, a tua voz dos mármores
ouve-se mas é impenetrável
és um texto que teus poetas guardam
sobre a força esbelta das colunas
susténs ainda
nos frisos a sageza dos rostos das mulheres
e a provocação caindo sobre um peito
a alça de um vestido
Tu és Antígona que desautoriza o rei.

21/2/2012
 

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Manso como boi de carga




Poema inédito de Brissos Lino


(…) o Oceano Pacífico com a sua paciência semelhante à eternidade (…)
Antonio Skármeta


Manso como boi de carga
silencioso como mulher de esperanças
prenhe de baleias e mistério
desafio de navegadores e poetas
quieto como a eternidade que sabe
as coisas dos tempos
este pacífico oceano apura há milénios
a arte de ficar.

9/2/2012

© Brissos Lino

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Um gato num apartamento vazio


 Wislawa Szymborska
Morrer - isso não se faz a um gato.
Porque o que pode fazer um gato
num apartamento vazio.
Escalar paredes.
Afagar-se contra os móveis.
Parece que aqui nada mudou
contudo, as coisas estão diferentes
Que nada se moveu,
mas está tudo misturado.
E aquela lâmpada durante a noite já não arde.

Ouvem-se passos na escada,
todavia não são esses.
A mão que coloca o peixe no prato
não é já a mesma mão.

Há aqui alguma coisa que não começa
à hora do costume.
Há algo que não acontece
como deveria.
Alguém esteve aqui e esteve
e de repente desapareceu
e agora é um ausente obstinado.

 Foram revistos todos os armários
e todas as prateleiras percorridas.
Não resultou deslizar sob o tapete.
Mesmo a regra de não espalhar papéis foi violada.

Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Deixá-lo regressar,
ou pelo menos que se mostre.
Vai aprender
que não se pode tratar assim um gato.
Irá em direcção a ele fingindo relutância,
devagar,
sobre as patas ofendidas.
Sem saltar nem ronronar à primeira.

Trad. do inglês J.T.Parreira

domingo, fevereiro 05, 2012

A Orquestra do Titanic



O fox dos ahogados sin consuelo”
Joaquim Sabina y J.M.Serrat


A orquestra do Titanic inclina os sopros e as cordas
soam como um alarme os címbalos
contemplam as estrelas
o dorso do barco inclinado
o seu rasgão mortal
um flautista de Hamelin vai repetir
a dança, lá fora está o frio
no espelho partido do Atlântico
cercado
por sólidos castelos de luar.
5/2/2012

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

EXEMPLO, poema de Wislawa Szymborska

A ventania
despiu todas as folhas das árvores na última noite
excepto uma folha
deixada
para brincar na solidão de um ramo nu


Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor
tem sentido de humor de vez em quando.

(Tradução de J.T.Parreira)

EXAMPLE

A gale
stripped all the leaves from the trees last night
except for one leaf
left
to sway solo on a naked branch.

With this example
Violence demonstrates
that yes of course –
it likes its little joke from time to time.

Wislawa Szymborska, a Mozart da Poesia, morreu

Bilbao, Março de 1998, ainda em Portugal não havia nenhum livro traduzido de Wislawa Szymborska, encontrei "El Gran Número /Fin y Princípio", por 1.500 pesetas, da Prémio Nobel de Literatura de 1996. Nem o seu nome seria muito falado pelos ..."intelectuais" portugueses ( a fonética mais próxima seria com certeza "Sesimbra").

Como quase sempre, as traduções adiantam-se em Madrid ou Barcelona a Lisboa.
Parece-me que só muito mais tarde surgem "Instante" (2002), pela Relógio d'Água, e em 2004 uma Antologia "Alguns Gostam de Poesia", pela Cavalo de Ferro ( tenho ambos aqui ao lado...).
 


AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Kaddish profano para Paul Celan



Às vezes um rosto, todas as manhãs
do fundo do espelho
vem despedir-se de mim
por vezes cego, começa a abrir-se
ao acender da luz
que vem do tecto e enche o espelho
Também aparecem os meus ombros
e estremecem
sacodem os fios da noite
Algo me acusa de estar vivo
aos cinquenta anos
judeu sobrevivente
aos nomes dos meus pais.

25/1/2012

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Exercício sobre cores


Inéditos do poeta residente Brissos Lino


2

Verde

Confunde-me a tua diversidade tonal
a riqueza com que te vestes
mas o mar, sempre o mar oceano
a reinventar aquele verde imenso
imperador

se eu me chamasse Esperança seria
uma esmeralda
como tu.

14/1/12

3

Vemelho

De fogo nascida
paixão devastadora
fogueira lavrada em terra seca
dormindo no olvido
lábios que insinuam uma maçã
suculenta e breve
entre romã e rubi
fico com os olhos incendiados
de ti.


15/1/12




terça-feira, janeiro 17, 2012

Mensagem encontrada na praia


Chegou na última onda
metade corpo
de vidro metade papel
como um perfume brando
de alfazema, como um licor
de leões na sua força
vencendo os limos
e todos os navios.
14/1/2012

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Exercício sobre cores



Inéditos do poeta residente Brissos Lino


1.

Azul

Sei que me fazes doer o olhar

sempre que pintas um céu limpo

de Verão

imaculado

que me fazes deslumbrado quando assomas

nas janelas da alma

de uma mulher

que me fascinas

quando o teu nome é

safira


ah, se eu pudesse voar nesse céu

habitar esses olhos

seria como pedra preciosa. Atrairia

a fortuna.

13/1/12








domingo, janeiro 15, 2012

Cais da Rocha

          

Eu tive um rio na infância
o rio vinha aos cais de Lisboa
buscar lembranças

Por vezes à tardinha
olhava até ao fim
da altura de uma proa presa ao cais

e o meu coração subia
até à festa das gaivotas
e do marinheiro desenhado contra o azul

o rio que tive na infância
sempre ali, macio, nas suas cores cintilantes
a sustentar os navios.

15/12/2011

sábado, janeiro 14, 2012

Vocabulário

Coisas que sairam das mãos de Deus, na Criação, e que começaram a ser sem as palavras ainda: Flor, Estrela, Rio. A Criação antes da Nomeação. Só o Homem, já tinha palavra antes do Criador o moldar com Suas mãos.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Cantares de Salomão com uma gravura

(inédito)

O despertar do dia
na respiração de ambos, o odor
orvalhado do amor
Veio voando sobre as pernas o gamo
saltou sobre os outeiros
os seus olhos o alvo procuravam
o aroma da corça
para, na carícia familiar
do beijo, respirar.

12/1/2012

sábado, janeiro 07, 2012

Ezra Pound sentado em Veneza




“Um poeta está sentado na Holanda”
Herberto Helder


Embora pese a ondulação da água
do Canal Central, o poeta procura
no silêncio do bolso ruído de moedas
um papel
atravessado por palavras, um calor
para as suas velhas mãos? À sua volta
ignoram-no os olhares.  E.P.
está sentado com o rosto em pregas
em Veneza, gôndolas atravessam
as sombras dos palácios
e as casas se inclinam para o fundo
e estão fixas
no manejar das águas.

6/1/2012

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Momento

“… enquanto as estrelas da manhã cantavam… ?”
Job 38:7



dormias por certo
e quando despertaste
já havia terra e árvores
as águas medidas na régua das marés
dormias a um canto do silêncio

despertaste
como um flor nova
num jardim já vetusto
ao céu erguendo as pétalas
e só
arranhando os pés
fulvos das estrelas

03/01/12
Poema inédito de Rui Miguel Duarte