A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
segunda-feira, julho 16, 2012
Encontro com James Joyce em Zurique
Perdoa-me, Ezra Pound, que imperturbável
te receba
o meu jardim estiola sobre um epitáfio
lavrado no chão e estou cansado
desta morte
na forma de liga de metal
perdoa-me que olhe para ti
pela cegueira do infinito
Vieste visitar-me, meu velho poeta
meu filho crescido
no bolso do sobretudo é bom que tragas
para desvendar os Cantos de Pisa
os instrumentos para o meu Leopold Bloom
esse homem vacilante do Ulysses
aprender a tua firme sabedoria
Perdoa-me Ezra, que não me levante
mesmo que os meus olhos não consigam
apanhar o teu tão alto tamanho.
16/7/2012
sábado, julho 14, 2012
CONVERSA NOS JOELHOS
Uma noite, sentei a Beleza em meus
joelhos.— E encontrei-a amarga. — E insultei-a
Rimbaud
pelo leve sopro de flauta imaginada
por uma asa num verso de poesia
um tigre
que me dá a pata com ternura
uma pomba ornando um telhado
ou uma estrela fugida do tumulto
das galáxias, conversamos:
por que demorou tanto
agora que estou quase a acabar
por que vinha com roupas
impronunciáveis
disse: mas sempre me encontraste
Rimbaud
Sentei
nos joelhos a suposta inspiração
esperei
décadas pelo seu talentopelo leve sopro de flauta imaginada
por uma asa num verso de poesia
um tigre
que me dá a pata com ternura
uma pomba ornando um telhado
ou uma estrela fugida do tumulto
das galáxias, conversamos:
por que demorou tanto
agora que estou quase a acabar
por que vinha com roupas
impronunciáveis
disse: mas sempre me encontraste
nos
silêncios.
13/7/2012
sexta-feira, julho 06, 2012
Vou-me Embora
Há por acaso alguma
nova Tróia para incendiar?
É
preciso movermo-nos na imaginaçãoque, tal como as pernas, está a ficar mármore
Haverá alguma coluna ainda ou algum arco a abater
para o futuro, para render o olhar
abismado sobre Roma?
Então nada a fazer
vou-me embora
para a pequena aldeia onde o vento
passe plácido como um regato verde
no pináculo dos pinheiros.
5/7/2012
quinta-feira, julho 05, 2012
O Caminho
Desde sempre caminhamos para o nevoeiro
com a morte, invisível
às costas
desde sempre à sua maneira
a morte vai penetrando
e num domingo que se apaga cedo
ou numa terça-feira de sol
aperta o vértice do ângulo
-Não
e não temos letras suficientes
para um tão ínfimo vocábulo.
4/7/2012
Foto de Flor Garduño, México, 1957 -Ver mais
terça-feira, junho 26, 2012
AS BARCAS DE CARONTE
“navegam em mim barcos assustados”
Julio Saraiva
Algum dia
queimaremos as naves de Caronte
Por agora prossegue a obstinada morte
no alfabeto a letra com que vai
começar o nosso nome
Mas ainda o sangue se renova
nos ramos que partem do nosso coração
Algum dia estaremos sentados a ouvir
os anjos a tirar das suas harpas
os silêncios celestiais
Por agora, como Ulisses amarrados
ao mastro do navio, deixamos que as ondas
nos falem ao ouvido.
24/6/2012
segunda-feira, junho 18, 2012
Observar Vagalumes
Da janela defronte da noite
vejo pirilampos
que se movem e param
renovam
e o negrume está carregado de luzes
de pequenos barcos de pesca
na faina nocturna
nas correntes do ar.
18/6/2012
sábado, junho 16, 2012
ENTRE O MADEIRO E A LANÇA
Entre o madeiro e a
lança
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.
15/6/2012
terça-feira, junho 12, 2012
A Tentação
Sobre a aridez sem referências
do deserto, o Filho do homem
falou com o frio da noite, espesso
frio como a escuridão sem lugares
onde encostar os olhos, falou
com o sol sem sombras
como o próprio Deus depois de plantar
o jardim, falou sozinho
até que Satan – não o de Dante
lhe pôs pedras no meio do caminho.
12/6/2012
terça-feira, junho 05, 2012
SANCHO
“Sancho é um corpo universal”
Sancho é largo, quase rente
avoluma-se na magreza do Quixote
É um
gigante, largo
em
trânsito no chão manchegoé, por vezes, os olhos do Quixote
O
ritmo de Sancho é lento
a
realidade vai atrás do brilhoda armadura do Quixote
O
moinhos são os panos do vento
Sancho,
vestido de pele
e coração, como os conhece de perto.
5/6/2012
segunda-feira, maio 28, 2012
O CINEMA
“llega la oscuridad y después las / caras gigantescas”
Charles Bukowski
Às vezes, no cinema
enterrados até ao pescoço
na cadeira, à procura no negrume
da vida real
contam-se as pipocas com dedos infantis
os lábios molham-se
admirados num refresco
os rostos maiores que o nosso no ecrã
corpos gigantes
partem o escuro, falam
e nós passivos
na nossa vida banal.
28/5/2012
enterrados até ao pescoço
na cadeira, à procura no negrume
da vida real
contam-se as pipocas com dedos infantis
os lábios molham-se
admirados num refresco
os rostos maiores que o nosso no ecrã
corpos gigantes
partem o escuro, falam
e nós passivos
na nossa vida banal.
28/5/2012
sexta-feira, maio 18, 2012
Maremoto
“mon malheur (...)
observe un silence d’océan”
René Depestre
O oceano observa depois
o nosso infortúnio
em silêncio
as espumas iluminam
os areais, após o fio
das navalhas dilacerar
por dentro a terra
depois
do cume das ondas gigantes
que inunda de frio
os homens
por agora quando observamos
o mar
fazemo-lo
em grande silêncio
17/5/2012
quarta-feira, maio 16, 2012
OS COMENTADORES
Deixem Atenas respirar
à borda do Egeu
o ar de vidro transparente
e claro que corre do Egeu
Deixem que goze as sombras brancas
no sol das suas casas claras
poderíamos deixar a Grécia em paz
Que falta faz Platão
para verter grinaldas nas cabeças
dos homens e mulheres
que sabem tanto sobre os gregos
como dormem, comem, gastam
o seu corpo no amor, gastam
o que é nosso – dizem eles
Platão mandá-los-á para fora da cidade
entregues à mimésis uns dos outros.
terça-feira, maio 08, 2012
A Dança de Salomé
Valeu uma cabeça, o corpo
a sair dos véus, a luxúria
enlaçava os braços
nus dançando, os olhos
seduzindo a morte,
como poços negros
convidavam
ao prazer da carne
mais escondido.
Valeu uma cabeça, cada perna
a esgrimir com os desejos
como um florete frio.
Valeu uma cabeça, a bela
cabeleira a fustigar
o ar enlouquecido.
8/5/2012
quinta-feira, maio 03, 2012
JESUS EM MÁS COMPANHIAS
Jesus em más companhias
- dizia o olho humano
arranhavam as línguas
das víboras
E o vaso quebrado com unguento
Seus pés enxutos
nos cabelos de mulher
E o sábado dessagrado
E a porta larga de Mateus
E a alegria à mesa posta pelos publicanos
disseram
até dos Seus olhos que fugiam
da multidão para os ramos da figueira
onde o Zaqueu crescia.
1/5/2012
terça-feira, maio 01, 2012
Nota talvez poética
Já escrevi poemas em Paris e Nova Iorque e pus as datas
Mil novecentos e noventa e pouco, hoje
mais velho e mais humilde
escrevo em casa
e deixo a minha gata passear
sobre eles.
1/5/2012
sexta-feira, abril 27, 2012
ESTAÇÃO DOS COMBOIOS
(Estação da CP, Aveiro, foto de Hugo Gamelas)
Não conheço os horários, sei que vem
eu olho e sei nos meus olhos
colocados ao fundo da linha
que chegará, estou em pé na estação
evito
bagagem excessiva
cheguei com minutos suficientes
para esperar esse comboio
que vem sobre as linhas paralelas
do infinito.
27/4/2012
colocados ao fundo da linha
que chegará, estou em pé na estação
evito
bagagem excessiva
cheguei com minutos suficientes
para esperar esse comboio
que vem sobre as linhas paralelas
do infinito.
27/4/2012
domingo, abril 22, 2012
Quase Naufrágio
As ondas subiam por cima do barco
o barco entrava
no caracol das ondas
o vento subia pelos cabelos
os olhos subiam até às estrelas
os homens lançavam o medo nas vozes
E até a luz da lua
fazia desenhos de medo sobre as águas
E no fundo do barco
dormem
alheios à tempestade?
21/4/2012
terça-feira, abril 17, 2012
A MULTIDÃO
As mãos não tocam no quadro
com os olhos a Gioconda
estão a cercá-la de espantos
com os olhos prontos
a levar o sorriso até à fronteira
do mistério
A Gioconda pode repousar
despir-se
do olhar e do sorriso
à noite ficar nua, ninguém
desvenda o segredo atrás do vidro.
17/4/2012
sábado, abril 14, 2012
Tróicas, com um inédito de Brissos Lino
OS NOVOS VAMPIROS
Os antigos atacavam em bandos
pela calada da noite
estes atacam ao meio-dia
em directo na televisão
com um sorriso tímido nos lábios
e um olhar compungido
de mãos postas
como se tivessem dó
das vítimas
e sem nunca sujar o fato caro
nem a gravata fina.
11/4/12
Brissos Lino
TRÓICA (i)
É um tridente
que nos dói aqui.
TRÓICA (ii)
Eles são muitos
eu pouco.
11/4/2012
sexta-feira, abril 13, 2012
ISTO É UM POEMA?
Diz-se por aí que o Süddeutsche Zeitung (literalmente, Jornal do sul da Alemanha) publicou o mais novo poema de Günther Grass, “Was gesagt werden muss” ("O que deve ser dito"). Neste, Grass critica Israel por seu poderio ...nuclear e pelas ameaças de ataque ao Irão.
É explícito que GG critica Israel, não é assim tão certo, tecnicamente, que se trate de um poema; a não ser que qualquer pedaço de prosa de um Nobel da Literatura, com mais ou menos prosódia, com mais ou menos (no caso, nenhuma) prosopopeia, seja considerado universalmente um poema. Este não é.
A narrativa que aqui temos não é poética, é política.
Obedece a um estilo próprio do autor, é justo referi-lo, no que concerne ao uso de poesia ou prosas poéticas intercaladas nos seus romances. Também ao modo poiético com que o romancista alemão sempre abordou a sua poesia, com poemas datados no sentido do "ano político". GG afirmou-se um dia como "poeta de circunstâncias".
Seja como for, o alegado “poema” do Nobel Gunter Grass, autor dos celebrados e incontornáveis romances “O Tambor” e “O Cão de Hitler”, pelo menos, não suporia vir a ter enquanto artefacto literário, pelo lado da poiética e da ars poetica, qualquer menção especial que não fosse a de puro panfletarismo.
Panfleto prosaico em forma de poema. E deixando correr um rio subterrâneo que leva as águas carregadas de urânio ao moinho do Irão. É o que se lê neste pedaço de prosa, que nem prosa poética é:
“É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita.
do fabrico de uma bomba atômica.”
O autor de “Descascando as cebolas” (uma auto-biografia que também foi polémica), usa o direito inalienável, concordo, da velhice, da idade, para dizer o que, segundo ele, ainda não foi dito:
“Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?”
À sua própria pergunta, Gunter Grass simultaneamente responde-se numa quase tautologia:
“que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil”
O autor de “O Cão de Hitler”, soberbo romance de tom surrealista que desenvolve a crítica ao período nacional -socialista da Alemanha, vai compondo o seu texto dito poema como se se tratasse de um comunicado de imprensa ou uma peça jornalística, nos quais dirige o leitor para a conclusão prévia sobre a inocência do Irão:
“Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba, “
Poderíamos continuar, mas basta que se leia o “poema”. E não temos poesia, nem na parte em que se manifesta a garantia de amizade e de união fervorosa ou mística com o “ país de Israel, ao qual estou unido / e quero continuar a estar", nem naquela em que obviamente concordamos : “ da hipocrisia do Ocidente".
Melhor teria sido o próprio autor chamar a este texto o manifesto do romancista Prémio Nobel Gunter Grass. No entanto, é justo dizê-lo, que Grass é poeta e poeta do célebre Grupo 47.
Basta ler poemas, de outro tempo, cujo tom e discurso poemático expressionista tardio, porém afastado da dureza original desse Movimento dos anos 20 alemães, surrealista também, nos interpelam ainda hoje e interpelaram com certeza os alemães desse tempo. O livro “As vantagens das galinhas de vento” (título traduzido do volume em castelhano), de 1956, é paradigmático do que dissemos.
Um poema extraordinário basta, pela sua acutilância, ironia e brevidade comovedora:
Asuntos de Família/ Familiär
En nuestro museo – vamos todos los domingos -,
han inaugurado una sección nueva.
Nuestros hijos abortados, embriones pálidos y serios,
se acurrucan en simples tarros de cristal,
preocupados por el futuro de sus padres.
(Versão em castelhano da obra “Poemas”, Colección Visor de Poesía, Alfaguara, Madrid, 1994)
Assuntos de Família
No nosso museu - vamos todos os domingos-,
inauguraram uma nova secção.
Nossos filhos abortados, embriões pálidos e sérios,
encolhidos em redomas de cristal,
preocupados com o futuro dos seus pais.
(Trad. do alemão e espanhol, por J.T.Parreira)
segunda-feira, abril 09, 2012
A Ressurreição
Sem nada por que chorar
senão o túmulo vazio
e dois anjos a arrumarem a casa
vazia para sempre
sem nada sobre o que derramar o seu incenso
as mulheres
recém chegadas ao sepulcro
vão gastar os olhos na vigília
as mulheres sem um corpo onde encostar
o seu olhar silencioso
o fio das suas lágrimas
e regressam, as mulheres
regressam com o vento nas sandálias
as mulheres que vêm com o medo
mas com os cabelos como os ramos
perfumados de alegria.
7/4/2012
senão o túmulo vazio
e dois anjos a arrumarem a casa
vazia para sempre
sem nada sobre o que derramar o seu incenso
as mulheres
recém chegadas ao sepulcro
vão gastar os olhos na vigília
as mulheres sem um corpo onde encostar
o seu olhar silencioso
o fio das suas lágrimas
e regressam, as mulheres
regressam com o vento nas sandálias
as mulheres que vêm com o medo
mas com os cabelos como os ramos
perfumados de alegria.
7/4/2012
segunda-feira, abril 02, 2012
VINTAGE
O corpo é um espanto na brancura
nu
o olhar se eleva à divindade da matéria
Nos anos vinte a nudez
era a da carne por baixo dos vestidos
e um subtil ardor nos olhos e na boca
um pasmo a espremer um Oh!
Escondido dos olhares
tudo se passava além do vidro.
1/4/2012
"Vintage", fotografia de Robert Doisneau
domingo, abril 01, 2012
terça-feira, março 27, 2012
OUTRA JERUSALÉM
“Construam casas para nelas habitarem; plantem hortas e comam do seu fruto.”
Jeremias 29:5
disseram-nos
que construíssemos casas
e as adornássemos de pomares
a toda a volta da nossa vista
aí, dia a dia, faríamos amor
até bisnetos nos nascerem
disseram-nos
que nessa terra ao plantarmos hortas
colheríamos paz, que muros
não haveria que estancassem
os nossos sonhos
nem o flagelo da fome nos puniria
e assim fizemos:
mesmo embutidos entre os rios
toda a terra
é outra Jerusalém
Poema inédito de Rui Miguel Duarte
Jeremias 29:5
disseram-nos
que construíssemos casas
e as adornássemos de pomares
a toda a volta da nossa vista
aí, dia a dia, faríamos amor
até bisnetos nos nascerem
disseram-nos
que nessa terra ao plantarmos hortas
colheríamos paz, que muros
não haveria que estancassem
os nossos sonhos
nem o flagelo da fome nos puniria
e assim fizemos:
mesmo embutidos entre os rios
toda a terra
é outra Jerusalém
Poema inédito de Rui Miguel Duarte
sábado, março 24, 2012
“DIRTY REALISM”: UM PARADIGMA
| In English dictionary: “a style of writing, originating in the US in the 1980s, which depicts in great detail the seamier or more mundane aspects of ordinary life” |
Um movimento literário, como tantos outros que enriqueceram esteticamente a Europa. Todavia, este é originário dos Estados Unidos, da década de 80, e também poderia ser da de 40, no Brasil, com o poema-chave da nova poética de Manuel Bandeira: “Vou lançar a teoria do poeta sórdido”.
E ultrapassa os objectivos da Beat-Generation, que face ao “Dirty Realism” era um movimento de anjos pela estrada fora, embora os anjos não façam literatura, remetem-se apenas, celestialmente, a cantar o milagre celeste dos Salmos. O Realismo Sujo capta inocentes e culpados. Nesta escrita, poética ou em prosa, a narrativa é despida até ao osso. Bandeira antecipou e definiu bem, escrevendo que o poeta sórdido é “aquele em cuja poesia há a marca suja da vida”.
Às vezes, quase sempre, não são os autores que nomeiam o seu movimento, em regra têm sido os jornalistas ( como o Impressionismo assim foi, em 1870). O editor da revista sobre a escrita nova, Granta, Bill Buford baptizou o movimento, como literatura em que a narrativa é despojada de suas características fundamentais.
O Dirty realism nos Estados Unidos reuniu autores como Raimond Carver e Charles Bukowsky, teve mesmo ancestrais próximos como Ernest Hemingway e Henry Miller, sobretudo a prosa despojada, sem receio da crítica da moral, do autor do “Trópico de Câncer”.
A técnica usada, resume-se a utilizar uma escrita na qual se iluminam sobretudo coisas que não se dizem em público. Sobrepõe-se também às regras prescritivas na gramática. Com a economia de palavras. Minimalista. Usa a mecânica de sublinhar a vida, que pode ser o fato branco onde cai uma nódoa. Que quase sempre é assim.
Realismo sujo é a ficção na qual se escreve o que ocorre na voracidade da vida contemporânea - um marido abandonado, uma mãe solteira, um ladrão de carros, um carteirista, um viciado em drogas - mas escreve-se sobre tudo isso com distanciamento perturbador, às vezes beirando a comédia- dizia, na introdução histórica do movimento, a revista Granta.
Alguns dos autores do movimento, esconderam-se atrás das suas personagens. Paradigmaticamente, o poeta Charles Bukowski. Em alemão, a isto chamava-se Maskenfreiheit, a liberdade conferida pelas máscaras. Ezra Pound, muito antes, chamou-lhes Personae.
Dois excertos do poema “Noite Imbecil” e “Pássaro Azul”, de Bukowski,
noite imbecil,
(...)
o dia foi um contínuo inferno
e agora vens
arrastando-te pelos canos
esvaziando a bexiga
por onde vais,
bebi 9 garrafas de cerveja
uma caneca de vodka
fumei 18 cigarros
e ainda te sentas em cima de mim
---------
Há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas deito-lhe whisky em cima e levo
-lhe o fumo dos cigarros,
e as prostitutas e os criados
(...)nunca ficam a saber
que ele está lá dentro
Aqui estão presentes, em detalhe, descrições numa linha semântica de objectos do quotidiano nos seus aspectos “mais sórdidos ou mundanos da vida comum” - como define o dicionário.
(Traduções dos poemas da versão castelhana )
quinta-feira, março 22, 2012
Poema de Gregory Corso
AOS 25 ANOS
Com um amor e uma loucura por Shelley
Chatterton Rimbaud
o lamento imprudente da minha juventude
foi de ouvido em ouvido:
EU ODEIO OS POETAS VELHOS!
Especialmente aqueles que se desdizem
que consultam outros poetas velhos
que recordam sua mocidade em suspiros,
e dizem: eu escrevi alguns desses
mas isso foi dantes
foi dantes -
Ah eu gostaria de acalmar os velhos
dizendo-lhes: - Sou vosso amigo
o que alguma vez fostes, através de mim
voltareis a ser -
Então uma noite, quando me confiassem suas casas
rasgaria as desculpas da sua língua
e roubaria seus poemas.
in Gasoline
Com um amor e uma loucura por Shelley
Chatterton Rimbaud
o lamento imprudente da minha juventude
foi de ouvido em ouvido:
EU ODEIO OS POETAS VELHOS!
Especialmente aqueles que se desdizem
que consultam outros poetas velhos
que recordam sua mocidade em suspiros,
e dizem: eu escrevi alguns desses
mas isso foi dantes
foi dantes -
Ah eu gostaria de acalmar os velhos
dizendo-lhes: - Sou vosso amigo
o que alguma vez fostes, através de mim
voltareis a ser -
Então uma noite, quando me confiassem suas casas
rasgaria as desculpas da sua língua
e roubaria seus poemas.
in Gasoline
(Trad. J.T.Parreira)
domingo, março 18, 2012
A vista do Cais de Álvaro de Campos
(Foto de Adelino Lyon de Castro, 1952)
“Fiquei a vê-lo: primeiro junto ao cais
com um certo ar simpático”
Mário Cesariny de Vasconcelos
À vista do cais do Álvaro de Campos
na linha do horizonte, há um paquete
um ponto vago a fazer, ao que parece
exercícios de equilíbrio
Começa a ficar nítido o costado
pequeno, negro e sozinho
à sua maneira contra o mar vasto
deixa no ar o Verão com uma nuvem de fumo
Sob o olhar clássico de quem olha
de um cais com a saudade em pedra
e vidro das lágrimas partidas
traz a vida marítima de longe
a bordo para o cais, é real, sozinho
e deixa para trás um mistério.
16/3/2012
“Fiquei a vê-lo: primeiro junto ao cais
com um certo ar simpático”
Mário Cesariny de Vasconcelos
À vista do cais do Álvaro de Campos
na linha do horizonte, há um paquete
um ponto vago a fazer, ao que parece
exercícios de equilíbrio
Começa a ficar nítido o costado
pequeno, negro e sozinho
à sua maneira contra o mar vasto
deixa no ar o Verão com uma nuvem de fumo
Sob o olhar clássico de quem olha
de um cais com a saudade em pedra
e vidro das lágrimas partidas
traz a vida marítima de longe
a bordo para o cais, é real, sozinho
e deixa para trás um mistério.
16/3/2012
quinta-feira, março 15, 2012
A QUEDA
Nus, não nos rompia a vida
nem se rasgava nas arestas
dos ramos das árvores do Jardim
os pássaros eram corpos celestes
menores que os astros
nada ficava esquecido, nada
se esperava, estendia-se a mão
e ardia a mão na mão de Deus
nus, embora deste mundo, os nossos olhos
viam mais além do sol
até aquele dia em que a água
de um fruto nos regou os lábios
para a flor da morte.
11/2011
segunda-feira, março 12, 2012
Numa estação de província
Tentava recordar o rosto
que vinha, fechado na composição
nas palavras a dizer,
que vinha, fechado na composição
nas palavras a dizer,
os olhos que deixara
a crescer noutra cidade, talvez
do outro lado do mar,
o coração,
bateria o coração do mesmo modo
que outrora?
Tentava recordar o que a saudade
deixara crescer no peito
Seria o mesmo, seria outro?
Tentava antecipar o que diria
com o olhar
exausto de descrever a paisagem
e com a voz,
posta em silêncio
do cansaço distante da viagem.
10/3/2012
segunda-feira, março 05, 2012
O SILÊNCIO DE DEUS
O silêncio de Deus é ouro
nos céus, por vezes, aqui na terra
passamos pelo silêncio divino
como pelo escuro, passamos depressa
e não nos surpreende a claridade
das coisas onde Deus detém os olhos
levamos anos
a entender esse silêncio
por exemplo o que levou
minutos a cair do lado esquerdo do Seu Filho
o silêncio
que as pálpebras divinas, fechadas
demoraram, o silêncio de Deus
é como Deus, é como o papel de veludo
amarrotado dos altos oceanos.
5/3/2012
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
AVISO
O piano reserva o direito
de quebrar as teias
do silêncio
de abrir com a clave de sol
a porta
adormecida dos ouvidos
o piano conserva ainda
o porte majestoso
em que recaem olhares silenciosos
todos os não-seres esperam
nada, mas a luz virá
apagar as sombras como água.
23/2/2012
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Ouvir a Grécia
“Um grego só entre os deuses se há-de achar”
Konstantinos Kaváfis
No meio dos bárbaros da Europa, a voz do teu senado
espera, em silêncio de pedra, a tua voz dos mármores
ouve-se mas é impenetrável
és um texto que teus poetas guardam
sobre a força esbelta das colunas
susténs ainda
nos frisos a sageza dos rostos das mulheres
e a provocação caindo sobre um peito
a alça de um vestido
Tu és Antígona que desautoriza o rei.
21/2/2012
terça-feira, fevereiro 14, 2012
quinta-feira, fevereiro 09, 2012
Manso como boi de carga
Poema inédito de Brissos Lino
(…) o Oceano Pacífico com a sua paciência semelhante à eternidade (…)
Antonio Skármeta
Manso como boi de carga
silencioso como mulher de esperanças
prenhe de baleias e mistério
desafio de navegadores e poetas
quieto como a eternidade que sabe
as coisas dos tempos
este pacífico oceano apura há milénios
a arte de ficar.
9/2/2012
© Brissos Lino
segunda-feira, fevereiro 06, 2012
Um gato num apartamento vazio
Wislawa Szymborska
Morrer - isso não se faz a um gato.
Porque o que pode fazer um gato
num apartamento vazio.
Escalar paredes.
Afagar-se contra os móveis.
Parece que aqui nada mudou
contudo, as coisas estão diferentes
Que nada se moveu,
mas está tudo misturado.
E aquela lâmpada durante a noite já não arde.
Ouvem-se passos na escada,
todavia não são esses.
A mão que coloca o peixe no prato
não é já a mesma mão.
Há aqui alguma coisa que não começa
à hora do costume.
Há algo que não acontece
como deveria.
Alguém esteve aqui e esteve
e de repente desapareceu
e agora é um ausente obstinado.
Foram revistos todos os armários
e todas as prateleiras percorridas.
Não resultou deslizar sob o tapete.
Mesmo a regra de não espalhar papéis foi violada.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.
Deixá-lo regressar,
ou pelo menos que se mostre.
Vai aprender
que não se pode tratar assim um gato.
Irá em direcção a ele fingindo relutância,
devagar,
sobre as patas ofendidas.
Sem saltar nem ronronar à primeira.
Trad. do inglês J.T.Parreira
domingo, fevereiro 05, 2012
A Orquestra do Titanic
.jpg)
“O fox dos ahogados sin consuelo”
Joaquim Sabina y J.M.Serrat
A orquestra do Titanic inclina os sopros e as cordas
soam como um alarme os címbalos
contemplam as estrelas
o dorso do barco inclinado
o seu rasgão mortal
um flautista de Hamelin vai repetir
a dança, lá fora está o frio
no espelho partido do Atlântico
cercado
por sólidos castelos de luar.
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
EXEMPLO, poema de Wislawa Szymborska
A ventania
despiu todas as folhas das árvores na última noite
excepto uma folha
deixada
que sim, senhor
despiu todas as folhas das árvores na última noite
excepto uma folha
deixada
para brincar na solidão de um ramo nu
Com este exemplo
a Violência demonstraque sim, senhor
tem sentido de humor de vez em quando.
(Tradução de J.T.Parreira)
EXAMPLE
A gale
stripped all the leaves from the trees last night
except for one leaf
left
to sway solo on a naked branch.
With this example
Violence demonstrates
that yes of course –
it likes its little joke from time to time.
except for one leaf
left
to sway solo on a naked branch.
With this example
Violence demonstrates
that yes of course –
it likes its little joke from time to time.
Wislawa Szymborska, a Mozart da Poesia, morreu
Bilbao, Março de 1998, ainda em Portugal não havia nenhum livro traduzido de Wislawa Szymborska, encontrei "El Gran Número /Fin y Princípio", por 1.500 pesetas, da Prémio Nobel de Literatura de 1996. Nem o seu nome seria muito falado pelos ..."intelectuais" portugueses ( a fonética mais próxima seria com certeza "Sesimbra").
Como quase sempre, as traduções adiantam-se em Madrid ou Barcelona a Lisboa.
Parece-me que só muito mais tarde surgem "Instante" (2002), pela Relógio d'Água, e em 2004 uma Antologia "Alguns Gostam de Poesia", pela Cavalo de Ferro ( tenho ambos aqui ao lado...).
AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS
Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.
Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
Como quase sempre, as traduções adiantam-se em Madrid ou Barcelona a Lisboa.
Parece-me que só muito mais tarde surgem "Instante" (2002), pela Relógio d'Água, e em 2004 uma Antologia "Alguns Gostam de Poesia", pela Cavalo de Ferro ( tenho ambos aqui ao lado...).
AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS
Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.
Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
quarta-feira, janeiro 25, 2012
Kaddish profano para Paul Celan
Às vezes um rosto, todas as manhãs
do fundo do espelhovem despedir-se de mim
por vezes cego, começa a abrir-se
ao acender da luz
que vem do tecto e enche o espelho
Também aparecem os meus ombros
e estremecem
sacodem os fios da noite
Algo me acusa de estar vivo
aos cinquenta anos
judeu sobrevivente
aos nomes dos meus pais.
25/1/2012
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Exercício sobre cores
Inéditos do poeta residente Brissos Lino
2
Verde
Confunde-me a tua diversidade tonal
a riqueza com que te vestes mas o mar, sempre o mar oceano
a reinventar aquele verde imenso
imperador
se eu me chamasse Esperança seria
uma esmeraldacomo tu.
14/1/12
3
Vemelho
De fogo nascida
paixão devastadora
fogueira lavrada em terra seca
dormindo no olvido
lábios que insinuam uma maçã
suculenta e breve
entre romã e rubi
fico com os olhos incendiados
de ti.
15/1/12
terça-feira, janeiro 17, 2012
Mensagem encontrada na praia
Chegou na última onda
metade corpo
de vidro metade papel
como um perfume brando
de alfazema, como um licor
de leões na sua força
vencendo os limos
e todos os navios.
14/1/2012
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Exercício sobre cores
Inéditos do poeta residente Brissos Lino
1.
Azul
Sei que me fazes doer o olhar
sempre que pintas um céu limpo
de Verão
imaculado
que me fazes deslumbrado quando assomas
nas janelas da alma
de uma mulher
que me fascinas
quando o teu nome é
safira
ah, se eu pudesse voar nesse céu
habitar esses olhos
seria como pedra preciosa. Atrairia
a fortuna.
13/1/12
domingo, janeiro 15, 2012
Cais da Rocha
Eu tive um rio na infância
o rio vinha aos cais de Lisboabuscar lembranças
Por vezes à tardinha
olhava até ao fimda altura de uma proa presa ao cais
e o meu coração subia
até à festa das gaivotase do marinheiro desenhado contra o azul
o rio que tive na infância
sempre ali, macio, nas suas cores cintilantesa sustentar os navios.
15/12/2011
sábado, janeiro 14, 2012
Vocabulário
Coisas que sairam das mãos de Deus, na Criação, e que começaram a ser sem as palavras ainda: Flor, Estrela, Rio. A Criação antes da Nomeação. Só o Homem, já tinha palavra antes do Criador o moldar com Suas mãos.
quinta-feira, janeiro 12, 2012
Cantares de Salomão com uma gravura
(inédito)
O despertar do dia
na respiração de ambos, o odor
orvalhado do amor
Veio voando sobre as pernas o gamo
saltou sobre os outeiros
os seus olhos o alvo procuravam
o aroma da corça
para, na carícia familiar
do beijo, respirar.
12/1/2012
O despertar do dia
na respiração de ambos, o odor
orvalhado do amor
Veio voando sobre as pernas o gamo
saltou sobre os outeiros
os seus olhos o alvo procuravam
o aroma da corça
para, na carícia familiar
do beijo, respirar.
12/1/2012
sábado, janeiro 07, 2012
Ezra Pound sentado em Veneza
“Um poeta está sentado na Holanda”
Herberto Helder
Embora pese a ondulação da água
do Canal Central, o poeta procura
no silêncio do bolso ruído de moedas
um papel
atravessado por palavras, um calor
para as suas velhas mãos? À sua volta
ignoram-no os olhares. E.P.
está sentado com o rosto em pregas
em Veneza, gôndolas atravessam
as sombras dos palácios
e as casas se inclinam para o fundo
e estão fixas
no manejar das águas.
6/1/2012
quinta-feira, janeiro 05, 2012
Momento
“… enquanto as estrelas da manhã cantavam… ?”
Job 38:7
dormias por certo
e quando despertaste
já havia terra e árvores
as águas medidas na régua das marés
dormias a um canto do silêncio
despertaste
como um flor nova
num jardim já vetusto
ao céu erguendo as pétalas
e só
arranhando os pés
fulvos das estrelas
03/01/12
Poema inédito de Rui Miguel Duarte
Job 38:7
dormias por certo
e quando despertaste
já havia terra e árvores
as águas medidas na régua das marés
dormias a um canto do silêncio
despertaste
como um flor nova
num jardim já vetusto
ao céu erguendo as pétalas
e só
arranhando os pés
fulvos das estrelas
03/01/12
Poema inédito de Rui Miguel Duarte
quinta-feira, dezembro 29, 2011
Marilyn Monroe A Última Morte
Se fosse um filme noir, o plano
da sua morte
seria um branco lençol, silêncio
de seda sobre o corpo
A fotografia de um anjo
fugidio
se fosse um filme noir
haveria imagens por segundo
algum corte, o ângulo melhor
das repetições da morte.
22/12/2011
terça-feira, dezembro 27, 2011
Uma Sopa dos Pobres
Calçou os pés com dois buracos
sentia o veludo da chuva
ao caminhar nas ruas
levantou a gola envergonhada
do velho casaco
esperava qualquer dia adormecer
no céu, mas agora tinha de ir
sob a sombra que caía das janelas
buscar a caridade
da sopa dessa noite, buscar calor
para estar diante das estrelas.
27/12/2011
sentia o veludo da chuva
ao caminhar nas ruas
levantou a gola envergonhada
do velho casaco
esperava qualquer dia adormecer
no céu, mas agora tinha de ir
sob a sombra que caía das janelas
buscar a caridade
da sopa dessa noite, buscar calor
para estar diante das estrelas.
27/12/2011
segunda-feira, dezembro 26, 2011
Acontecimento
Todo es oscuridad menos el ángel
Rafael Pérez Estrada
Tudo é escuridão menos os anjos
vestidos
por dentro com o lume das estrelas
do fundo das sombras
do estábulo, tudo é escuro
menos o brilho das faces
do Menino
Tudo é humilde como a luz de uma candeia
menos o ouro, a mirra e o incenso
das mãos que se abrem
de longínquos horizontes.
25/12/2011
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Eu Queria Ser Anjo
Inédito de Brissos Lino para o Poeta Salutor
Eu queria ser anjo
e amaciar os céus de Belém
com músicas de cima
acordar pastores dormentes
carregar toneladas de esperança
dourada. Para aspergir como chuva serôdia
o coração das gentes.
22/12/11
Brissos Lino ©
Eu queria ser anjo
e amaciar os céus de Belém
com músicas de cima
acordar pastores dormentes
carregar toneladas de esperança
dourada. Para aspergir como chuva serôdia
o coração das gentes.
22/12/11
Brissos Lino ©
segunda-feira, dezembro 19, 2011
Palavras de Caim após o Crime
“Abel stand up / so that things may start afresh / between us.”
Hilde DominAbel, levanta-te
as minhas mãos cairam
em si, cada um dos meus dedos
queria voltar ao princípio
da infância
Abel, as nossas primeiras palavras
ainda não conheciam a morte
é estranho
que os teus olhos já não brilhem
Levanta-te, as coisas
podem recomeçar
com novo fôlego entre nós.
6-11-2011
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Lado Oriental com peixes amarelos no tanque
Bashô olha a lua
escande com a mão cinco versos
depois sete, por fim cinco
o lago com nenúfares parece
um crepúsculo iluminado
lâmpadas abrindo
Enquanto as nuvens vão e vêm
descansando os olhos
dos espectadores da lua.
13/12/2011
cerzida num pano de água
o luar adormece o abismoescande com a mão cinco versos
depois sete, por fim cinco
o lago com nenúfares parece
um crepúsculo iluminado
lâmpadas abrindo
Enquanto as nuvens vão e vêm
descansando os olhos
dos espectadores da lua.
13/12/2011
sábado, dezembro 10, 2011
sábado, dezembro 03, 2011
O Mendigo Lázaro
Seria estranho não pensar em ti, depois
que Lucas te deu dez linhas
no Evangelho e deu a palma
das mãos dos anjos como esquife
agora que entraste pela porta
da morte com a túnica rasgada
e o andrajo do teu corpo
Seria estranho não pensar no teu silêncio
enquanto guardavas a migalha do pão
para o outro dia.
2/12/2011
que Lucas te deu dez linhas
no Evangelho e deu a palma
das mãos dos anjos como esquife
agora que entraste pela porta
da morte com a túnica rasgada
e o andrajo do teu corpo
Seria estranho não pensar no teu silêncio
enquanto guardavas a migalha do pão
para o outro dia.
2/12/2011
quarta-feira, novembro 16, 2011
O Exilado
(Óleo s/tela, João António, 2001)
Mantém suas raízes no ar, nos braços
acolhe cheiros, o peso das estrelas
desde a infância, que via no fundo da janela
os vultos
invisíveis que nomeia agora tão distantes
mantém poder morrer ainda
no seu bairro
o que mantém nos olhos
no exílio, é a pedra que brilha
de que foi feita a sua casa.
16/11/2011
quinta-feira, novembro 03, 2011
Maria de Schubert
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