quinta-feira, novembro 29, 2012

PODIAS TER SIDO UM OUTRO ASTRO, WOODY ALLEN






Poema inédito de Brissos Lino


Podias ter sido um outro astro no azul
da comédia americana
Woddy Allen
um Charlot em Nova Iorque
ou uma estrela de jazz
a soprar um clarinete em New Orleans
mas a cabeça fértil nunca deixou
ia-te exigindo a criação de novos mundos
no escuro do cinema
pela virtude de saberes desnudar
o coração dos homens
mas a rir.


28/11/2012

© Brissos Lino

domingo, novembro 18, 2012

CARTA DE AMOR




Adeus a todos...” (Ofélia, de Hamlet)

 
Já tens água de mais, ó pobre Ofélia
as tuas lágrimas
temo que no regato, à beira do salgueiro
os cristais dos teus olhos estejam baços
temo que no ribeiro as flores iludam
o leito profundo da morte, a água
enleando de sedas os teus pés
a tua boca
afogada no encalço da última palavra
senão já com amor, com o lodo
do silêncio.

© 18/11/2012 

segunda-feira, novembro 12, 2012

JACOB






Essa pedra a que o sonho deu
a gravidade zero, testemunha
que nos degraus da noite, a escada
era leve para o céu, a porta
eram os anjos, e estes que desciam
a reunir vestígios do mundo
e voltavam a subir, nessa pedra
onde encostou Jacob o sono, só
por fora a dormir.

6/11/2012

terça-feira, novembro 06, 2012

PARQUE INFANTIL



Nos meus olhos, alguma vez
recordo
a baloiçar quase no céu
a loucura sã de uma criança.

6/11/2012

segunda-feira, novembro 05, 2012

HOMENS DE PEDRA








Homens de pedra que custam a dobrar joelhos

corações de pedra insensíveis ao lençol

de lágrimas do outro lado da janela

cabeças de pedra

duras como ideias fora de prazo

mas que se contém dentro dos finos limites

do aço da realidade. Bonecos que só se vergam

perante a inocência

de uma criança inquiridora.

2/11/ 2012

Poema inédito de Brissos Lino

 

terça-feira, outubro 30, 2012

TRÂNSITO







todos nascemos com um rio pelas mãos
e aloendro batendo nos lábios
com a noite em busca de si mesma
imaginando ter ela um avesso
uma face oculta clara
que nos esclareça os sonhos que vamos
deixando germinar
quando nascemos canta o céu
e chora a terra, porque logo
nos esquecemos
que só a lama é o poiso dos pés
e se batemos asas nem às copas
das árvores subimos, não temos
envergadura nem ternura na voz
que cheguem para a majestade
quando nascemos somos duros,
dói-nos o ferro da pele, não sabemos nada
nem que o rio a cada um de nós dado
é vidro polido nas nossas mãos
e nos mergulha, solitários, não na placenta materna
mas na água limpa das novas madrugadas
onde não se vê noite, nem o dia tem rosto
mas só a corrente tem sentido

29/10/12
 
Inédito de Rui Miguel Duarte

    sábado, outubro 27, 2012

    MOBY DICK- UM ENSAIO DO PRINCÍPIO


     
     
    "A meditação e a água encontram-se para sempre
    intimamente ligadas"
    Herman Melville



    O meu nome é Ismael. Catão lançou seu corpo
    sobre a ponta da espada, eu
    tranquilamente vou para o mar. Nenhum amor
    me prende à terra firme, a parte aquática do mundo
    é que me chama. Chega ao meu coração
    como um aroma. É o modo
    que tenho de fugir ao suicídio, sempre
    que a alma é um nevoeiro espesso
    e se fecha como um Novembro brumoso
    Chega a altura de voltar
    com pressa para o mar. Antes que dê
    por mim a seguir o rasto aos funerais, a arrancar
    na cidade os chapéus aos transeuntes, a cair
    no tédio de já nem conseguir rir-me do espelho
    Preciso de um espelho marinho, onde lance os olhos
    do topo de um mastro. Uma só gota de mar
    é colírio para evitar a noite nos meus olhos.

    27/10/2012

    quarta-feira, outubro 24, 2012

    HÁ LIVROS QUE MERECEM SORRISOS

     



    Sorriu para dentro do livro aberto.
    (Rohinton Mistry)

    Há livros que merecem sorrisos e lágrimas
    cascatas de gargalhadas francas
    levam-nos pela mão a outros mundos
    em viagens fascinantes
    ao interior
    desenham rostos e dramas
    insinuam corpos e medos ancestrais
    reinventam as paisagens do desejo
    deflagram sentimentos que nos invadem
    os olhos
    e a alma à espera
    livros que vivem unindo passados
    e possibilidades remotas
    entre o chão e o sonho
    numa nuvem de prazeres.


    20/10/12
     
    Brissos Lino
     
     
     

    sábado, outubro 20, 2012

    O ANJO SENTADO NA CADEIRA DE VAN GOGH





    “Uma vez um anjo apaixonou-se por van gogh e veio vê-lo
    van gogh pintou-o naquela cadeira”
     
    Manuel António Pina (1943-2012)

     Sentado na cadeira de Van Gogh
    um anjo calça as botas de camponês
    insubstancial, o seu corpo
    atravessou o cansaço das galaxias
    uma sombra branca, chega
    o olhar de Van Gogh para o ver
    com as terrenas cores
    com que sonhamos, nunca
    pinta o anjo mas o silêncio do seu corpo.

    20/10/2012
     


    terça-feira, outubro 16, 2012

    Do outro lado do ribeiro de Cedrom




    Preciso das vossas mãos para velarem comigo
    porque tenho o peso do mundo
    no meu coração, as mãos que trabalharam as redes
    as vossas mãos rudes que amaram o mar
    para segurarem o cálice, e dos vossos olhos
    para desvelarem comigo a cortina da noite
    a minha alma está pronta, o corpo
    não, é uma rosa triste, madura
    uma rosa de terra perante a morte.


    12/10/2012

    segunda-feira, outubro 08, 2012

    Desembarque



     
    Alguns
    morreram, muitos
    morreram, quase todos
    como um poema rasgado
    que não viu a luz ao fundo
    da última palavra.

    20/9/2012

    sábado, outubro 06, 2012

    Feira do Livro e de Poesia e BD

    Organizada pela Inês Ramos

    A Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada realiza-se todos os sábados, das 10H00 às 18H00, no espaço Guilherme Cossoul de Campolide: Rua Professor Sousa da Câmara, 156 – Campolide (às Amoreiras).

    http://feiradolivrodepoesia.blogspot.pt/2012/10/novidades-da-proxima-feira.html

    terça-feira, outubro 02, 2012

    MARYLIN



    A sua nudez não foi suficiente

    não surpreendeu

    a morte, os seus olhos

    não penetraram nada

    adormeceu, ou foi

    adormecendo.



    30/9/2012

    sexta-feira, setembro 28, 2012

    Vi a tua sombra na calçada

    (Foto do poeta tirada num jardim em Vila Viçosa)


    Vi a tua sombra na calçada e era um rio

    com o teu preciso recorte

    pressenti a respiração ofegante que queria ouvir

    mas apenas a brisa me beijou o pescoço

    como que a pedir desculpa

    talvez fosse apenas uma árvore

    no seu jogo da tarde com os pássaros

    ou uma nuvem debruçada no céu

    a fazer das suas.

    27/9/12

    Poema inédito de Brissos Lino

    domingo, setembro 23, 2012

    HAMLET







     

     “Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos”
     
    Yorgos Seferis


    Acordo com esta cabeça
    com estes buracos no lugar dos olhos
    e o seu silêncio pesa-me nas mãos
    acordo todas as manhãs
    e o dilema e as perguntas
    pesam-me no espírito
    Será mais nobre sofrer na alma, não
    pegar em armas
    ou sofrer os dentes do destino?
    A cada palavra um eco vem
    que se perde a caminho de nada
    dentro desta caveira, sem servidão
    indomável, ninguém.


    22/9/2012

    domingo, setembro 16, 2012

    Para Bailar un Tango






    Un tango se danza con un cuchillo
    en la mirada
    y zapatos acolchados de silencio
    Un tango rompe
    todo lo que está cerca
    el aire donde el cuerpo se contonea
    donde las manos ahogan
    manos o en la cintura
    navegan como si fuese
    un río de plata

    Tradução de Adriana F.Lagoa

    sexta-feira, setembro 14, 2012

    Do que quer falar o poeta



    Por vezes da alegria. Num dia triste
    que começa a quebrar-se
    com as vozes aos pulos, contentes
    das crianças. Tantas vezes
    do mar, não exactamente do mar que se vê
    mas daquele que banha de lume turquesa
    as ilhas mais distantes
    Outras vezes da morte, não explícita
    mas dos cristais que se partem nos olhos
    de quem morre
    Quase sempre a encher-se de silêncio
    para encontrar uma palavra, aquela
    mesma, pequenina, amedrontada
    caída da árvore
    no meio de palavras enormes.

    13/9/2012

    sexta-feira, setembro 07, 2012

    NAUFRÁGIO





    Desabitado, o convés
    ao largo aguarda a visita das marés
    e dos olhos
    que vêm à praia, rasos de água
    ninguém
    espera mais nada
    senão os apetrechos do barco
    lentamente repartidos.

     
     
    7/9/2012