terça-feira, fevereiro 21, 2012

Ouvir a Grécia


 “Um grego só entre os deuses se há-de achar”
Konstantinos Kaváfis


No meio dos bárbaros da Europa, a voz do teu senado
espera, em silêncio de pedra, a tua voz dos mármores
ouve-se mas é impenetrável
és um texto que teus poetas guardam
sobre a força esbelta das colunas
susténs ainda
nos frisos a sageza dos rostos das mulheres
e a provocação caindo sobre um peito
a alça de um vestido
Tu és Antígona que desautoriza o rei.

21/2/2012
 

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Manso como boi de carga




Poema inédito de Brissos Lino


(…) o Oceano Pacífico com a sua paciência semelhante à eternidade (…)
Antonio Skármeta


Manso como boi de carga
silencioso como mulher de esperanças
prenhe de baleias e mistério
desafio de navegadores e poetas
quieto como a eternidade que sabe
as coisas dos tempos
este pacífico oceano apura há milénios
a arte de ficar.

9/2/2012

© Brissos Lino

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Um gato num apartamento vazio


 Wislawa Szymborska
Morrer - isso não se faz a um gato.
Porque o que pode fazer um gato
num apartamento vazio.
Escalar paredes.
Afagar-se contra os móveis.
Parece que aqui nada mudou
contudo, as coisas estão diferentes
Que nada se moveu,
mas está tudo misturado.
E aquela lâmpada durante a noite já não arde.

Ouvem-se passos na escada,
todavia não são esses.
A mão que coloca o peixe no prato
não é já a mesma mão.

Há aqui alguma coisa que não começa
à hora do costume.
Há algo que não acontece
como deveria.
Alguém esteve aqui e esteve
e de repente desapareceu
e agora é um ausente obstinado.

 Foram revistos todos os armários
e todas as prateleiras percorridas.
Não resultou deslizar sob o tapete.
Mesmo a regra de não espalhar papéis foi violada.

Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Deixá-lo regressar,
ou pelo menos que se mostre.
Vai aprender
que não se pode tratar assim um gato.
Irá em direcção a ele fingindo relutância,
devagar,
sobre as patas ofendidas.
Sem saltar nem ronronar à primeira.

Trad. do inglês J.T.Parreira

domingo, fevereiro 05, 2012

A Orquestra do Titanic



O fox dos ahogados sin consuelo”
Joaquim Sabina y J.M.Serrat


A orquestra do Titanic inclina os sopros e as cordas
soam como um alarme os címbalos
contemplam as estrelas
o dorso do barco inclinado
o seu rasgão mortal
um flautista de Hamelin vai repetir
a dança, lá fora está o frio
no espelho partido do Atlântico
cercado
por sólidos castelos de luar.
5/2/2012

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

EXEMPLO, poema de Wislawa Szymborska

A ventania
despiu todas as folhas das árvores na última noite
excepto uma folha
deixada
para brincar na solidão de um ramo nu


Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor
tem sentido de humor de vez em quando.

(Tradução de J.T.Parreira)

EXAMPLE

A gale
stripped all the leaves from the trees last night
except for one leaf
left
to sway solo on a naked branch.

With this example
Violence demonstrates
that yes of course –
it likes its little joke from time to time.

Wislawa Szymborska, a Mozart da Poesia, morreu

Bilbao, Março de 1998, ainda em Portugal não havia nenhum livro traduzido de Wislawa Szymborska, encontrei "El Gran Número /Fin y Princípio", por 1.500 pesetas, da Prémio Nobel de Literatura de 1996. Nem o seu nome seria muito falado pelos ..."intelectuais" portugueses ( a fonética mais próxima seria com certeza "Sesimbra").

Como quase sempre, as traduções adiantam-se em Madrid ou Barcelona a Lisboa.
Parece-me que só muito mais tarde surgem "Instante" (2002), pela Relógio d'Água, e em 2004 uma Antologia "Alguns Gostam de Poesia", pela Cavalo de Ferro ( tenho ambos aqui ao lado...).
 


AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Kaddish profano para Paul Celan



Às vezes um rosto, todas as manhãs
do fundo do espelho
vem despedir-se de mim
por vezes cego, começa a abrir-se
ao acender da luz
que vem do tecto e enche o espelho
Também aparecem os meus ombros
e estremecem
sacodem os fios da noite
Algo me acusa de estar vivo
aos cinquenta anos
judeu sobrevivente
aos nomes dos meus pais.

25/1/2012

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Exercício sobre cores


Inéditos do poeta residente Brissos Lino


2

Verde

Confunde-me a tua diversidade tonal
a riqueza com que te vestes
mas o mar, sempre o mar oceano
a reinventar aquele verde imenso
imperador

se eu me chamasse Esperança seria
uma esmeralda
como tu.

14/1/12

3

Vemelho

De fogo nascida
paixão devastadora
fogueira lavrada em terra seca
dormindo no olvido
lábios que insinuam uma maçã
suculenta e breve
entre romã e rubi
fico com os olhos incendiados
de ti.


15/1/12




terça-feira, janeiro 17, 2012

Mensagem encontrada na praia


Chegou na última onda
metade corpo
de vidro metade papel
como um perfume brando
de alfazema, como um licor
de leões na sua força
vencendo os limos
e todos os navios.
14/1/2012

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Exercício sobre cores



Inéditos do poeta residente Brissos Lino


1.

Azul

Sei que me fazes doer o olhar

sempre que pintas um céu limpo

de Verão

imaculado

que me fazes deslumbrado quando assomas

nas janelas da alma

de uma mulher

que me fascinas

quando o teu nome é

safira


ah, se eu pudesse voar nesse céu

habitar esses olhos

seria como pedra preciosa. Atrairia

a fortuna.

13/1/12








domingo, janeiro 15, 2012

Cais da Rocha

          

Eu tive um rio na infância
o rio vinha aos cais de Lisboa
buscar lembranças

Por vezes à tardinha
olhava até ao fim
da altura de uma proa presa ao cais

e o meu coração subia
até à festa das gaivotas
e do marinheiro desenhado contra o azul

o rio que tive na infância
sempre ali, macio, nas suas cores cintilantes
a sustentar os navios.

15/12/2011

sábado, janeiro 14, 2012

Vocabulário

Coisas que sairam das mãos de Deus, na Criação, e que começaram a ser sem as palavras ainda: Flor, Estrela, Rio. A Criação antes da Nomeação. Só o Homem, já tinha palavra antes do Criador o moldar com Suas mãos.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Cantares de Salomão com uma gravura

(inédito)

O despertar do dia
na respiração de ambos, o odor
orvalhado do amor
Veio voando sobre as pernas o gamo
saltou sobre os outeiros
os seus olhos o alvo procuravam
o aroma da corça
para, na carícia familiar
do beijo, respirar.

12/1/2012

sábado, janeiro 07, 2012

Ezra Pound sentado em Veneza




“Um poeta está sentado na Holanda”
Herberto Helder


Embora pese a ondulação da água
do Canal Central, o poeta procura
no silêncio do bolso ruído de moedas
um papel
atravessado por palavras, um calor
para as suas velhas mãos? À sua volta
ignoram-no os olhares.  E.P.
está sentado com o rosto em pregas
em Veneza, gôndolas atravessam
as sombras dos palácios
e as casas se inclinam para o fundo
e estão fixas
no manejar das águas.

6/1/2012

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Momento

“… enquanto as estrelas da manhã cantavam… ?”
Job 38:7



dormias por certo
e quando despertaste
já havia terra e árvores
as águas medidas na régua das marés
dormias a um canto do silêncio

despertaste
como um flor nova
num jardim já vetusto
ao céu erguendo as pétalas
e só
arranhando os pés
fulvos das estrelas

03/01/12
Poema inédito de Rui Miguel Duarte

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Marilyn Monroe A Última Morte


Se fosse um filme noir, o plano
da sua morte
seria um branco lençol, silêncio
de seda sobre o corpo
A fotografia de um anjo
fugidio
se fosse um filme noir
haveria imagens por segundo
algum corte, o ângulo melhor
das repetições da morte.

22/12/2011

terça-feira, dezembro 27, 2011

Uma Sopa dos Pobres

Calçou os pés com dois buracos
sentia o veludo da chuva
ao caminhar nas ruas
levantou a gola envergonhada
do velho casaco
esperava qualquer dia adormecer
no céu, mas agora tinha de ir
sob a sombra que caía das janelas
buscar a caridade
da sopa dessa noite, buscar calor
para estar diante das estrelas.

27/12/2011

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Acontecimento


 Todo es oscuridad menos el ángel
Rafael Pérez Estrada



Tudo é escuridão menos os anjos
vestidos
por dentro com o lume das estrelas
do fundo das sombras
do estábulo, tudo é escuro
menos o brilho das faces
do Menino
Tudo é humilde como a luz de uma candeia
menos o ouro, a mirra e o incenso
das mãos que se abrem
de longínquos horizontes.

25/12/2011

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Eu Queria Ser Anjo

Inédito de Brissos Lino para o Poeta Salutor

Eu queria ser anjo
e amaciar os céus de Belém
com músicas de cima
acordar pastores dormentes
carregar toneladas de esperança
dourada. Para aspergir como chuva serôdia
o coração das gentes.
22/12/11

Brissos Lino ©

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Palavras de Caim após o Crime

 
 
Abel stand up / so that things may start afresh / between us.”
Hilde Domin

Abel, levanta-te
as minhas mãos cairam
em si, cada um dos meus dedos
queria voltar ao princípio
da infância
Abel, as nossas primeiras palavras
ainda não conheciam a morte
é estranho
que os teus olhos já não brilhem
Levanta-te, as coisas
podem recomeçar
com novo fôlego entre nós.


6-11-2011

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Lado Oriental com peixes amarelos no tanque

Bashô olha a lua
cerzida num pano de água
o luar adormece o abismo
escande com a mão cinco versos
depois sete, por fim cinco
o lago com nenúfares parece
um crepúsculo iluminado
lâmpadas abrindo
Enquanto as nuvens vão e vêm
descansando os olhos
dos espectadores da lua.

13/12/2011

sábado, dezembro 03, 2011

O Mendigo Lázaro

Seria estranho não pensar em ti, depois
que Lucas te deu dez linhas
no Evangelho e deu a palma
das mãos dos anjos como esquife
agora que entraste pela porta
da morte com a túnica rasgada
e o andrajo do teu corpo
Seria estranho não pensar no teu silêncio
enquanto guardavas a migalha do pão
para o outro dia.

2/12/2011

quarta-feira, novembro 16, 2011

O Exilado

(Óleo s/tela, João António, 2001)


Mantém suas raízes no ar, nos braços
acolhe cheiros, o peso das estrelas
desde a infância, que via no fundo da janela
os vultos
invisíveis que nomeia agora tão distantes
mantém poder morrer ainda
no seu bairro
o que mantém nos olhos
no exílio, é a pedra que brilha
de que foi feita a sua casa.

16/11/2011


quinta-feira, novembro 03, 2011

Maria de Schubert

Tem nos seus olhos um filho
a tremer de frio
sob o sólido
fogo de uma cruz, um amor
moribundo, que deixa
um tapete
macio de sangue no caminho
no seu ventre agora existe
um espaço
onde quereria guardar
o seu menino.

31-10-2011


domingo, outubro 30, 2011

Se me tirar os olhos

Se me tirar os olhos, não ficarei
no entardecer
nem me perderei no caminho
com os meus dedos irei
sob o fogo azul do sol
tocar ainda os rostos que conheço
Se me tirar os olhos
poderei sonhar para dentro
tal como a água terna das lágrimas
começa antes no fundo inominável

Se me tirar os olhos
todas as coisas
serão cores que ouvirei
nos sons que conheço, um neto
afundando a cabeça no meu peito
será uma canção
entre um pássaro e outro pássaro
sentirei o vento do seu voo
e assim o que agora não vejo
em todas as coisas tornar-se-á claro.

6/04/2011

sábado, outubro 22, 2011

quinta-feira, outubro 20, 2011

Encontro de poetas no Rio de Janeiro

Os poetas Rui Miguel Duarte e Sammis Reachers, encontraram-se no Rio de Janeiro, e trocaram livros, que levavam na bagagem, um desses livros é do autor deste blog. Ler Aqui.

terça-feira, outubro 18, 2011

CONVITE



Dias 27 de Outubro 2011 em Vigo e 28 em Pontevedra, às 20:00, na Sala Versus de La Fundacíon Cuña- Casasbellas.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Olhos Suspensos




“olhos pretos parados pela fome”
(José Lins do Rego)


Olhos suspensos por fios invisíveis
feitos de esperas longas
que lançam a noite ao meio-dia
em todas as direcções
o que verão eles? São azeitonas a aguardar
o lagar do sacrifício
uma espécie de altar ao deus que já foi
do desespero
e agora é só da resignação. Como a folha
que sabe que vai cair
porque é Outono.


10/17/11

Inédito de Brissos Lino

sexta-feira, outubro 07, 2011

Olhares: Uma Intertextualidade


OLHARES ITALIANOS

Vem à superfície das ondas
cinzentas
o branco da sereia

Como uma linha perfeita
de um caule amanhecido
ou uma linha de horizonte
vertical
para onde os olhos nas órbitas
rodam em cardume

É uma estátua sem sombras
passa, como a aurora
sem deixar provas, só indícios
de um perfume.

4/10/2011

A propósito deste poema, o meu amigo e poeta (residente do Blog), Brissos Lino, propôs o seu olhar, numa intertextualidade mais crua, com uma prosopopeia quiçá mais "erótica", num poema inédito.


OS CÃES OBSERVAM A PRESA

os cães observam os meneios da presa
atentamente
estranham a sua falta de cuidado
com os predadores
aprenderam cedo que os animais selvagens
emboscam a caça
esta nunca vem ter com eles de passo firme
no alto da sua alvura
e de cabeça erguida como provocação
a abrir caminho mesmo no meio da matilha

confundidos nem sabem o que fazer às mãos
e aos piropos do costume
escondem-se atrás de um cigarro
de boca cerrada
num ensaio de sorriso estranho
e num silêncio incómodo
sem acção para nada.

6/10/11

Brissos Lino



quinta-feira, outubro 06, 2011

Os Ossos do Poeta


Federico Garcia Lorca não pôde morrer como desejava. “Cuando yo me muera, / enterradme com mi guitarra / bajo la arena.”

A percepção da morte próxima no Poeta granadino acompanhava-o, sobretudo no início da década que viria a ser a do Grande Crime da Espanha franquista. Saberia ele que o pressentimento “é a sonda da alma no mistério”, nariz do coração e bengala de cego, “que explora en la tiniebla del tiempo”.

La muerte me está mirando

desde las torres de Córdoba

Ay que la muerte me espera,

antes de llegar a Córdoba.

Não obstante esse desejo e este olhar poético, diria um olhar muçulmano da morte sobre ele, Lorca escreveu que “um morto em Espanha está muito mais vivo enquanto morto que em qualquer outra parte do mundo: o seu perfil fere como lâmina de uma navalha de barba”.

É o caso de Lorca, apesar do seu rosto, desenhado por Salvador Dali, ferir, não tanto como lâmina, mas como um tumulto.

Desde logo, a partir das Canciones e do Romancero Gitano (traduzido e apresentado em finais de Setembro passado em Londres sob o título Gypsy Ballads) ao teatro, com duas peças que são lâminas: Yerma e Bodas de Sangre,duas peças de culto, míticas no que recuperam da tragédia grega para o século XX, tanto quanto A Casa de Bernarda Alba repleta da paixão que a solidão colectiva produz.

O caso de Lorca, passados 75 anos do seu assassinato, está cada vez mais no domínio do inefável, do que não pode ser dito, está no âmbito do Mito incontornável.

A verdade é que nos resta o mito, quando não se encontram os ossos do poeta. O próprio Garcia Lorca o criou, duma forma profética num poema de “Poeta en Nueva York”.

Fábula y rueda de los tres amigos” contém 6 versos, num conjunto de toada repetitiva de 70 versos, que são o registo da premonição sobre a própria morte, numa tensão que se revelaria, apesar do seu lirismo surrealista, profundamente profética.

São paradigmáticos, estes versos: por mi muerte desierta con un solo paseante equivocado”, o Poeta, de madrugada, fuzilado diante de um muro, sem companhia na sua morte; “ comprendí que me habían asesinado.”

Recorrieron los cafés y los cementerios y las iglesias.

Abrieron los toneles y los armarios.

Destrozaron tres esqueletos para arrancar sus dientes de oro.

Ya no me encontraron.

É, no entanto, distante do objecto da composição lorquiana o aparente sentido do seu título: “Fábula e rueda de los tres amigos”; referem os analistas da obra de Lorca que o primeiro título era o mais adequado: “Primera fábula para los muertos”. A descrição surrealista do mundo da morte e o sentimnto de dor do poeta perante a sua própria morte e a da cidade de Nova Iorque – creio que aqui não nos devemos esquecer da data 1929-1930, da queda Wall Street, da Grande Depressão. Há também o motivo -diz-se nas biografias do poeta granadino- da perda de um amor, que o terá levado por um ano à Universidade de Columbia e a Cuba, e o acento do poema ( como um canto dançante) em torno de três amigos:

Enrique,

Emilio,

Lorenzo.

Estabam los tres enterrados

Estes aparecem numa foto, junto do poema no próprio livro (*), como travestis (“estudiantes bailando, vestidos de mujer”), o que nos pode levar a pensar na orientação do amor perdido de Lorca. Mas isso é outra história.

(*) Poeta en Nueva York, Catedra Letras Hispánicas, 5ª Edicion, Madrid, 1992.


© 5/10/2011

quarta-feira, outubro 05, 2011

A Língua Solta de Einstein


Dizia o velho sábio que
o mais importante em Einstein
não era o cérebro
nem a arte de tocar violino
era a língua
aquela língua atrevidamente solta
a saltar fora da boca
direita às sanguessugas mecânicas
providas de flash
uma provocação que lhe ligava o génio
ao imaginário infantil
a parte mais humana de si
e não fosse a língua solta de Einstein
quase ninguém saberia do génio
da teoria da relatividade
do violino
e de tudo o mais.
4/10/2011

Poema inédito de Brissos Lino



domingo, outubro 02, 2011

O rapaz do pijama às riscas


O rapaz do pijama às riscas
senta-se num banco de cimento
numa casa hermética
no cimento
e sela com a sua mão a mão
de outro rapaz
ambos livres do pijama às riscas
agora no silêncio da nudez.

1/10/2011

terça-feira, setembro 27, 2011

Pequeno Monólogo de César Vallejo

Digo como disse no Café
de la Regencia quando entro, é o pó
imóvel que fica de pé, entre meus lábios
um cigarro ligado a um fio
de fumo, “importa que el otoño
se injerte en los otoños”,
e que chova em Paris para torcer
eu César Vallejo a chuva
entre meus dedos, esta água que cai
cor de cinza como o céu sobre a cidade:
e digo “Me moriré en París com aguacero”.
Volto a mergulhar nas ruas húmidas
que aguardam poças, como estrelas
que fumegam pelo chão, enquanto
nos olhos uma água arde.

26/9/2011




segunda-feira, setembro 26, 2011

O Marroquino


(depois de ler Tahar ben Jelloun )

Dizia que tudo estava ali, e abria
o livro com delicadeza, Alcorão
contra os lábios, contra o coração
nos lábios, dizia que tudo estava ali
envolto num pano branco, limpo
das poeiras e do ar
frio que cai pelas paredes
todos os dias
lhe limpava o pó e o silêncio.

25/9/2011

segunda-feira, setembro 05, 2011

Cambridge, Primeiras Impressões, Gregory Corso




5


Cansado de andar
cansado de ver nada
olho por uma janela
pertencente a alguém
bastante amável para me deixar olhar

E de uma janela Cambridge não é assim tão má
É uma grande sensação saber
que a partir de uma janela

posso ir aos livros a um amor antigo e às latas de cerveja
E de tudo reunir o sonho suficiente
para me esgueirar pela porta das traseiras



Trad. J.T.Parreira

sexta-feira, agosto 26, 2011

O Sino Solene


O sino solene navegou como nuvem
à tona das casas
o som cavo arrastou-se indolente
pelos telhados da aldeia xistosa
escorreu pelas paredes
como a pachorra das vacas
nas horas de calma
(ao longe parecia até o urro de um animal ferido
possante e persistente)


foi então que o povo devolveu o eco
como murmúrio de vizinhas.
Tinha morrido o senhor abade.


26/8/11
Inédito de Brissos Lino

segunda-feira, agosto 15, 2011

O Último Cavalete de Rembrandt

Um espelho sem moldura
guarda entre a prata e o vidro
um silêncio

uma cama simples
para começar
as surpresas do sonho

um lugar vazio
de uma cadeira partida, uma mesa
magra, rústica, vítima da fome

o último quadro
de onde os olhos de Rembrandt
jamais regressam.

15/8/2011

sábado, agosto 13, 2011

Testamento do pintor Van Rijn


Algumas roupas de linho
ou lã, minhas coisas de pintor
lições de anatomia
para chegar
dos tendões às artérias
da alma, alguns quadros
que riscarão para sempre
a mediocridade
da história da pintura.

13/8/2011

quinta-feira, agosto 04, 2011

Árvores São Estandartes

Poema inédito de Brissos Lino

árvores são estandartes na planície
espetados na linha do horizonte
como se a terra ali morresse
ensaiam custosa subida aos céus
num tempo sem tempo
seduzem-nos a trepar também
como Éolo
a soprar uma nuvem branca

de caminho olhamos os ninhos
como se fôssemos pássaros
e em baixo os homens
feitos formigas dispersas
desordenadas
à toa.

2/8/11

sábado, julho 30, 2011

A Máquina de Escrever Azul

A máquina ao escrever azul, escreve
também estrelas, quando é preciso
salientar qualquer verdade
em rodapé, no limiar
dos dedos a máquina espera
para escrever um pássaro
enquanto o poeta passa
os seus olhos pelas cores
também escreve barcos
de quilhas rasuradas pelo mar
a máquina de escrever
tanto azul
é quase um universo.

30/7/2011

quarta-feira, julho 27, 2011

Mulher de Azul lendo uma carta

The painter's vision is not a lens, It trembles to caress the light
Robert Lowell

Diziam
que a visão do pintor
não é uma lente, que tremia
ao roçar pela luz, pelo corpo
vestindo-o
de um céu azul

Vermeer pincelou o sol
na parede, cobriu
os olhos
da sólida mulher
que atravessam para longe
cada palavra que lê.

26/7/2011

quinta-feira, julho 21, 2011

A minha pequena Siamesa


As manhãs não entrarão mais
na sonolência dos teus pequenos olhos
os insectos agora
na casa estarão tranquilos
os saltos
que davas na plenitude
do teu corpo, precocemente parados
não envelhecerás como o tapete
da cozinha, azul
sob o qual logravas te esconder
Eu olho para o silêncio
que deixaste por trás dos móveis.

21/7/2011

domingo, julho 17, 2011

A Guerra

Quando as botas se gastaram
a guerra
acabou, era o tempo
para lembrar a casa
destruída, sem quarto
para o pranto, os filhos
sem sapatos, sem um
nome
quando as botas se gastaram
nossos pés nus não
se distinguiram das pedras.

17/7/2011

terça-feira, julho 12, 2011

Jacob e o Anjo

(Gauguin, 1888, A luta de Jacob e o Anjo)


A interminável luta, mãos
entre mãos, a voz
nos olhos de ambos, quando os lábios
estão calados
Jacob e Anjo, a luta
recomeçam golpe a golpe
anjos sem armas
no bálsamo da noite, na íntima
tessitura
da música da água.

11/7/2011

quarta-feira, julho 06, 2011

Os Meninos Judeus

por su extrema delgadez y la expresión de sus rostros parecieran ancianos.
Yad be Yad


Os meninos judeus levantam as mãos
desde o fundo do poço
magros de carinho
secos por dentro
acondicionados no incompreensível
persistem ainda em agarrar
uma estrela qualquer
mas só lhes resta uma
baça
de pano amarelo
cozida na roupa.

6/7/11


Inédito de Brissos Lino

domingo, julho 03, 2011

O último sorriso de Sylvia Plath

O que vejo é um sorriso aberto
como uma ave que plana
sobre as ondas
que o vento levanta no deserto
como um animal que recebe a brisa
de olhos fechados
como um dia rasgado, quando se abre
a claridade nas cortinas
O que vejo
é um rosto claro
como um campo de Cnossos
onde o Minotauro fecha o labirinto.

2/7/2011

sexta-feira, julho 01, 2011

Gosto de Música

gosto de música
gosto muito de música
mas não sei se
gosto de gostar de música
porque não gosto de matemática
nem de ciências exactas

gosto de sentir a música
a mexer-se-me nas tripas
a acelerar-me a pulsação
a aquecer-me a pele

gosto de fechar os olhos
e ser soprado para outros mundos
na vertigem da música
sentar-me numa nuvem
na largueza dos espaços

gosto de subir à maior montanha
sem esforço
ao colo da música
e relativizar daí as minudências
da vida rasteira

gosto de ver a dança dos pássaros
e o bailar das ondas
na música

a criança que chora
o velho que tem medo
o jovem que pula
a mulher que ri
e as folhas que se soltam da mãe árvore
no Outono

gosto de ver a Lua branca
as águas calmas do lago
a noiva no altar
e o bezerro no prado

gosto de ti, musa
mulher
a minha música.

29/6/11

Poema inédito de Brissos Lino



sexta-feira, junho 24, 2011

Escrito na véspera do meu 32º aniversário



Poema de Gregory Corso

Eu amo poesia, porque me faz amar
e apresenta-me a vida
E de todos os incêndios que morrem em mim,
há um que lavra como o sol;
pode não ser toda a minha vida
minha relação com as pessoas
ou meu comportamento perante a sociedade,
mas ela diz à minha alma que tem uma sombra

Tradução de J.T.Parreira


“Write on the Eve of My 32nd Birthday”:


 I love poetry because it makes me love
and presents me life
And of all the fires that die in me,
there’s one burns like the sun;
it might not make day my personal life
my association with people
or my behavior toward society,
but it does tell me my soul has a shadow

quinta-feira, junho 23, 2011

Fazer Poesia Social com lirismo

Manuel Bandeira acabou por ensinar a fazê-la, mas não correu riscos de fazer a poesia social cair no execrável panfletarismo a que muitos poetas cedem. O exemplo é o poema “O Bicho”.

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

(1947, Belo Belo)

Aqui, ainda que pareça, não é metáfora, nestes versos de matiz social, a personagem que desde o primeiro verso percorre o poema, como uma entidade que paira supra poema ( o poeta viu “ontem”, a memória a doer), é factual.
Existe até final do breve poema a desconstrução da ideia que poderia ter-se, talvez na obscuridade, talvez na névoa da manhã cedo, de que quem procura no lixo é um animal vadio, e também a desrealização da narrativa poética para uma narrativa social sobre o último limiar da pobreza.

A frase do desvendamento é uma exclamação do espanto do poeta. Manuel Bandeira, que através do seu forte lirismo de acento modernista, já havia feito incursões belíssimas no verso social, com expressões de solidariedade pelo elemento dos desvalidos, dos pobres, dos suburbanos, das pobres mulheres da rua, em versos como: “Beco...fôste rua de mulheres? / Todas são filhas de Deus!”, “Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça”, “Pálidas meninas/Sem olhar de pai”, “Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas”.

Agora é absolutamente declarativo: “O bicho, meu Deus, era um homem”, sem sinal de exclamação, uma vez que esta é interior, faz parte da diegese, digamos assim, poética; é o próprio verso toda uma exclamação.

Houve exegetas da poesia bandeireana, designadamente deste poema, que concordaram em que o sofrimento aqui não é do homem que procura comida nos restos, da civilização e do consumismo, do desperdício e da riqueza, que não cheira, não examina o que encontra, ao contrário, engole “com voracidade”, dizem esses intérpretes que o sofrimento é do próprio poeta.

22/6/2011

quarta-feira, junho 15, 2011

O Banho (no Miño)


Poema de Francisco X.Fernández Naval

Tomávamos banho nele
mas sempre lhe tivemos medo
que havia lodo no fundo
e os pés resvalavam nos seixos
e no escuro
e tinha charcos e água a borbulhar
e entre as pontes
remoinhos do mistério.

Dizíamos cantigas populares
porém tremíamos
e regressávamos de autobus vermelho
cheirando a lama fresca, a urzes e saibro

Tínhamos medo
de nos vermos meninos
nos olhos velhos do rio,
no silencioso sangue
das poças,
evitávamos o seu abraço de estío e de sargaço,
de poço,
de remoinho escuro.

(Tradução de J.T.Parreira)

sexta-feira, junho 10, 2011

Os Olhos do Medo

“O medo teria olhos” (J.T.Parreira)

Os olhos do medo brilham na noite escura
desconstroem silêncios
afiam arestas vivas
param o sangue nas veias
raspam as paredes da alma
com garras afiadas
os olhos do medo provocam um som cavo
e raro
anunciam um futuro às arrecuas
são olhos ofídios que nos sugam
o ar
mas eu sei de pálpebras que tapam
os olhos do medo.

10/6/11


Inédito de Brissos Lino


Lasar Segall, introdutor do Expressionismo no Brasil

quinta-feira, junho 02, 2011

Banho de Mar


Começam por entrar as pernas
nuas hesitantes
e fincam-se como Rodes sobre o Egeu
a cintura depois
de inundados os calções
por fim o próprio umbigo
cordão que sempre nos ligou à vida
os braços nus abraçam
o que do sal começa a fervilhar na onda
como um feixe de dedos nossas mãos
vão abrindo sulcos na imaginação
até ao horizonte.

2/6/2011