sexta-feira, setembro 28, 2012

Vi a tua sombra na calçada

(Foto do poeta tirada num jardim em Vila Viçosa)


Vi a tua sombra na calçada e era um rio

com o teu preciso recorte

pressenti a respiração ofegante que queria ouvir

mas apenas a brisa me beijou o pescoço

como que a pedir desculpa

talvez fosse apenas uma árvore

no seu jogo da tarde com os pássaros

ou uma nuvem debruçada no céu

a fazer das suas.

27/9/12

Poema inédito de Brissos Lino

domingo, setembro 23, 2012

HAMLET







 

 “Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos”
 
Yorgos Seferis


Acordo com esta cabeça
com estes buracos no lugar dos olhos
e o seu silêncio pesa-me nas mãos
acordo todas as manhãs
e o dilema e as perguntas
pesam-me no espírito
Será mais nobre sofrer na alma, não
pegar em armas
ou sofrer os dentes do destino?
A cada palavra um eco vem
que se perde a caminho de nada
dentro desta caveira, sem servidão
indomável, ninguém.


22/9/2012

domingo, setembro 16, 2012

Para Bailar un Tango






Un tango se danza con un cuchillo
en la mirada
y zapatos acolchados de silencio
Un tango rompe
todo lo que está cerca
el aire donde el cuerpo se contonea
donde las manos ahogan
manos o en la cintura
navegan como si fuese
un río de plata

Tradução de Adriana F.Lagoa

sexta-feira, setembro 14, 2012

Do que quer falar o poeta



Por vezes da alegria. Num dia triste
que começa a quebrar-se
com as vozes aos pulos, contentes
das crianças. Tantas vezes
do mar, não exactamente do mar que se vê
mas daquele que banha de lume turquesa
as ilhas mais distantes
Outras vezes da morte, não explícita
mas dos cristais que se partem nos olhos
de quem morre
Quase sempre a encher-se de silêncio
para encontrar uma palavra, aquela
mesma, pequenina, amedrontada
caída da árvore
no meio de palavras enormes.

13/9/2012

sexta-feira, setembro 07, 2012

NAUFRÁGIO





Desabitado, o convés
ao largo aguarda a visita das marés
e dos olhos
que vêm à praia, rasos de água
ninguém
espera mais nada
senão os apetrechos do barco
lentamente repartidos.

 
 
7/9/2012

sábado, setembro 01, 2012

VIVER EM ÍTACA

quinta-feira, agosto 23, 2012

As estórias em acrílico de Duy Huynh



Duy Huynh (pronuncia-se Yee Wun) é vietnamita radicado nos Estados Unidos da América desde os anos 80.

A sua pintura em acrílico é poética e contemplativa, assume-se em todos os formatos como a obra pictórica de um contador de estórias. As imagens repetem-se, saem do mundo físico para o onírico. E esta mistura confere beleza – que é a primeira palavra que me ocorre – a quase tudo que o pintor narra nas suas telas.

Não sei, contudo, se Duy Huynh é um seguidor consciente de René Magritte, mas as estórias que conta na sua pintura, suscitam-me esse criador belga.

Pelo onirismo de cada proposta, pela diegese da sua poesia pictórica, pela escrita de uma poesia pura nas formas e cores. É uma pintura que seria quase tangível – pelos materiais que usa, a tinta acrílica é mais rugosa, saliente – não fora tratar-se de Sonho.

Se a poesia é estar dentro da realidade e escrever a imagem, a pintura deste artista vietnamita estrutura-se do mesmo modo: ele pinta a imagem da realidade dentro da realidade.

Tão surrealista quando trata de referentes que poderiam ser dos contos de fadas ou dos mitos, como Magritte. Tão realista quando dá forma onírica ao que nos revela, sendo que pela sua própria natureza, um sonho é íntimo.



sexta-feira, agosto 17, 2012

OS BARCOS DE INHAMBANE






Velas arriadas, remos
descansando o gume

os barcos ao sol a secar as águas
e o peixe
é um cheiro sem a cor
nas redes

Então o pôr-do-sol
derrama mel na noite.

17/8/2012

terça-feira, agosto 14, 2012

terça-feira, agosto 07, 2012

JAZZ NA RUA 52


Depois tudo
depois do fumo, iria subir
os degraus dos clubes da Rua 52
gente desfolhando-se ao vento
folhas dos ramos de uma velha árvore

A Rua 52
tem o silêncio próprio das ruas
com trânsito, em porta alguma há
hoje o cheiro
da música de Parker, a sua pressa
contida no saxe alto.

7/8/2012

segunda-feira, julho 30, 2012

REGRESSO A CASA


Les Sirens, Leon Belly, Séc XIX, França

E se eu implorar (...) que me liberteis,
devereis amarrar-me com mais cordas ainda”
Odisseia


O doce canto desnudando o coração

o desejo nu, bem amarrado ao mastro

Ulisses não podia

atirar às ondas de Sereias

os seus braços.

30/7/2012

segunda-feira, julho 16, 2012

Encontro com James Joyce em Zurique


Perdoa-me, Ezra Pound, que imperturbável
te receba
o meu jardim estiola sobre um epitáfio
lavrado no chão e estou cansado
desta morte
na forma de liga de metal
perdoa-me que olhe para ti
pela cegueira do infinito
Vieste visitar-me, meu velho poeta
meu filho crescido
no bolso do sobretudo é bom que tragas
para desvendar os Cantos de Pisa
os instrumentos para o meu Leopold Bloom
esse homem vacilante do Ulysses
aprender a tua firme sabedoria
Perdoa-me Ezra, que não me levante
mesmo que os meus olhos não consigam
apanhar o teu tão alto tamanho.

16/7/2012

sábado, julho 14, 2012

CONVERSA NOS JOELHOS

Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos.— E encontrei-a amarga. — E insultei-a
Rimbaud


Sentei nos joelhos a suposta inspiração
esperei décadas pelo seu talento
pelo leve sopro de flauta imaginada
por uma asa num verso de poesia
um tigre
que me dá a pata com ternura
uma pomba ornando um telhado
ou uma estrela fugida do tumulto
das galáxias, conversamos:
por que demorou tanto
agora que estou quase a acabar
por que vinha com roupas
impronunciáveis
disse: mas sempre me encontraste
nos silêncios.


13/7/2012

sexta-feira, julho 06, 2012

Vou-me Embora



Há por acaso alguma nova Tróia para incendiar?
É preciso movermo-nos na imaginação
que, tal como as pernas, está a ficar mármore
Haverá alguma coluna ainda ou algum arco a abater
para o futuro, para render o olhar
abismado sobre Roma?
Então nada a fazer
vou-me embora
para a pequena aldeia onde o vento
passe plácido como um regato verde
no pináculo dos pinheiros.

5/7/2012

quinta-feira, julho 05, 2012

O Caminho




 Desde sempre caminhamos para o nevoeiro
com a morte, invisível
às costas
desde sempre à sua maneira
a morte vai penetrando
e num domingo que se apaga cedo
ou numa terça-feira de sol
aperta o vértice do ângulo

-Não
 e não temos letras suficientes
para um tão ínfimo vocábulo.


4/7/2012


Foto de Flor Garduño, México, 1957 -
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terça-feira, junho 26, 2012

AS BARCAS DE CARONTE



 “navegam em mim barcos assustados”
Julio Saraiva

Algum dia
queimaremos as naves de Caronte
Por agora prossegue a obstinada morte
no alfabeto a letra com que vai
começar o nosso nome
Mas ainda o sangue se renova
nos ramos que partem do nosso coração
Algum dia estaremos sentados a ouvir
os anjos a tirar das suas harpas
os silêncios celestiais
Por agora, como Ulisses amarrados
ao mastro do navio, deixamos que as ondas
nos falem ao ouvido.

24/6/2012

segunda-feira, junho 18, 2012

Observar Vagalumes



Da janela defronte da noite
vejo pirilampos
que se movem e param
renovam
e o negrume está carregado de luzes
de pequenos barcos de pesca
na faina nocturna
nas correntes do ar.


18/6/2012

sábado, junho 16, 2012

ENTRE O MADEIRO E A LANÇA

Entre o madeiro e a lança
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.


15/6/2012

terça-feira, junho 12, 2012

A Tentação


Sobre a aridez sem referências
do deserto, o Filho do homem
falou com o frio da noite, espesso
frio como a escuridão sem lugares
onde encostar os olhos, falou
com o sol sem sombras
como o próprio Deus depois de plantar
o jardim, falou sozinho
até que Satan – não o de Dante
lhe pôs pedras no meio do caminho.

12/6/2012
 

terça-feira, junho 05, 2012

SANCHO



Sancho é um corpo universal”
Nélida Piñon


Sancho é largo, quase rente
ao chão, Sancho
avoluma-se na magreza do Quixote

É um gigante, largo
em trânsito no chão manchego
é, por vezes, os olhos do Quixote

O ritmo de Sancho é lento
a realidade vai atrás do brilho
da armadura do Quixote

O moinhos são os panos do vento
Sancho, vestido de pele
e coração, como os conhece de perto.

5/6/2012