A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
domingo, setembro 23, 2012
HAMLET
“Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos”
Yorgos Seferis
Acordo com esta cabeça
com estes buracos no lugar dos olhos
e o seu silêncio pesa-me nas mãos
acordo todas as manhãs
e o dilema e as perguntas
pesam-me no espírito
Será mais nobre sofrer na alma, não
pegar em armas
ou sofrer os dentes do destino?
A cada palavra um eco vem
que se perde a caminho de nada
dentro desta caveira, sem servidão
indomável, ninguém.
22/9/2012
domingo, setembro 16, 2012
Para Bailar un Tango
Un tango se danza con un cuchillo
en la mirada
y zapatos acolchados de silencio
Un tango rompe
todo lo que está cerca
el aire donde el cuerpo se contonea
donde las manos ahogan
manos o en la cintura
navegan como si fuese
un río de plata
Tradução de Adriana F.Lagoa
sexta-feira, setembro 14, 2012
Do que quer falar o poeta
Por vezes da alegria. Num dia triste
que começa a quebrar-se
com as vozes aos pulos, contentes
das crianças. Tantas vezes
do mar, não exactamente do mar que se vê
mas daquele que banha de lume turquesa
as ilhas mais distantes
Outras vezes da morte, não explícita
mas dos cristais que se partem nos olhos
de quem morre
Quase sempre a encher-se de silêncio
para encontrar uma palavra, aquela
mesma, pequenina, amedrontada
caída da árvore
no meio de palavras enormes.
13/9/2012
sexta-feira, setembro 07, 2012
NAUFRÁGIO
Desabitado, o convés
ao largo aguarda a visita das marés
e dos olhos
que vêm à praia, rasos de água
ninguém
espera mais nada
senão os apetrechos do barco
lentamente repartidos.
7/9/2012
sábado, setembro 01, 2012
VIVER EM ÍTACA
Vivo em Ítaca ausente
Octávio Mora
Com a memória nos olhos em fuga
por mundos claros, viver em Ítaca
depois de Tróia
na noite por demais conhecida
e nos gestos da manhã, os mesmos
passos pela casa, o mesmo galo
a lançar ao sol os agudos do seu cântico
começo agora a viajar pela Ásia
corro atrás da minha gata
siamesa, é assim
viver em Ítaca depois de regressar
com o mar calado em meus ouvidos.
30/8/2012
quinta-feira, agosto 23, 2012
As estórias em acrílico de Duy Huynh
Duy Huynh (pronuncia-se Yee Wun) é vietnamita radicado nos Estados Unidos da América desde os anos 80.
A sua pintura em acrílico
é poética e contemplativa, assume-se em todos os formatos como a
obra pictórica de um contador de estórias. As imagens repetem-se,
saem do mundo físico para o onírico. E esta mistura confere beleza
– que é a primeira palavra que me ocorre – a quase tudo que o
pintor narra nas suas telas.
Não sei, contudo, se Duy
Huynh é um seguidor consciente de René Magritte, mas as estórias
que conta na sua pintura, suscitam-me esse criador belga.
Pelo onirismo de cada
proposta, pela diegese da sua poesia pictórica, pela escrita de uma
poesia pura nas formas e cores. É uma pintura que seria quase
tangível – pelos materiais que usa, a tinta acrílica é mais
rugosa, saliente – não fora tratar-se de Sonho.
Se a poesia é estar
dentro da realidade e escrever a imagem, a pintura deste artista
vietnamita estrutura-se do mesmo modo: ele pinta a imagem da
realidade dentro da realidade.
Tão surrealista quando
trata de referentes que poderiam ser dos contos de fadas ou dos
mitos, como Magritte. Tão realista quando dá forma onírica ao que
nos revela, sendo que pela sua própria natureza, um sonho é íntimo.
sexta-feira, agosto 17, 2012
OS BARCOS DE INHAMBANE
Velas arriadas, remos
descansando o gume
os barcos ao sol a secar as águas
e o peixe
é um cheiro sem a cor
nas redes
Então o pôr-do-sol
derrama mel na noite.
17/8/2012
é um cheiro sem a cor
nas redes
Então o pôr-do-sol
derrama mel na noite.
17/8/2012
terça-feira, agosto 14, 2012
terça-feira, agosto 07, 2012
JAZZ NA RUA 52
Depois tudo
depois do fumo, iria subir
os degraus dos clubes da Rua 52
gente desfolhando-se ao vento
folhas dos ramos de uma velha árvore
A Rua 52
tem o silêncio próprio das ruas
com trânsito, em porta alguma há
hoje o cheiro
da música de Parker, a sua pressa
contida no saxe alto.
7/8/2012
segunda-feira, julho 30, 2012
REGRESSO A CASA
Les Sirens, Leon Belly, Séc XIX, França
“E se eu implorar (...) que me liberteis,
Odisseia
O doce canto desnudando o
coração
o desejo nu, bem amarrado
ao mastro
Ulisses não podia
atirar às ondas de
Sereias
os
seus braços.
30/7/2012
segunda-feira, julho 16, 2012
Encontro com James Joyce em Zurique
Perdoa-me, Ezra Pound, que imperturbável
te receba
o meu jardim estiola sobre um epitáfio
lavrado no chão e estou cansado
desta morte
na forma de liga de metal
perdoa-me que olhe para ti
pela cegueira do infinito
Vieste visitar-me, meu velho poeta
meu filho crescido
no bolso do sobretudo é bom que tragas
para desvendar os Cantos de Pisa
os instrumentos para o meu Leopold Bloom
esse homem vacilante do Ulysses
aprender a tua firme sabedoria
Perdoa-me Ezra, que não me levante
mesmo que os meus olhos não consigam
apanhar o teu tão alto tamanho.
16/7/2012
sábado, julho 14, 2012
CONVERSA NOS JOELHOS
Uma noite, sentei a Beleza em meus
joelhos.— E encontrei-a amarga. — E insultei-a
Rimbaud
pelo leve sopro de flauta imaginada
por uma asa num verso de poesia
um tigre
que me dá a pata com ternura
uma pomba ornando um telhado
ou uma estrela fugida do tumulto
das galáxias, conversamos:
por que demorou tanto
agora que estou quase a acabar
por que vinha com roupas
impronunciáveis
disse: mas sempre me encontraste
Rimbaud
Sentei
nos joelhos a suposta inspiração
esperei
décadas pelo seu talentopelo leve sopro de flauta imaginada
por uma asa num verso de poesia
um tigre
que me dá a pata com ternura
uma pomba ornando um telhado
ou uma estrela fugida do tumulto
das galáxias, conversamos:
por que demorou tanto
agora que estou quase a acabar
por que vinha com roupas
impronunciáveis
disse: mas sempre me encontraste
nos
silêncios.
13/7/2012
sexta-feira, julho 06, 2012
Vou-me Embora
Há por acaso alguma
nova Tróia para incendiar?
É
preciso movermo-nos na imaginaçãoque, tal como as pernas, está a ficar mármore
Haverá alguma coluna ainda ou algum arco a abater
para o futuro, para render o olhar
abismado sobre Roma?
Então nada a fazer
vou-me embora
para a pequena aldeia onde o vento
passe plácido como um regato verde
no pináculo dos pinheiros.
5/7/2012
quinta-feira, julho 05, 2012
O Caminho
Desde sempre caminhamos para o nevoeiro
com a morte, invisível
às costas
desde sempre à sua maneira
a morte vai penetrando
e num domingo que se apaga cedo
ou numa terça-feira de sol
aperta o vértice do ângulo
-Não
e não temos letras suficientes
para um tão ínfimo vocábulo.
4/7/2012
Foto de Flor Garduño, México, 1957 -Ver mais
terça-feira, junho 26, 2012
AS BARCAS DE CARONTE
“navegam em mim barcos assustados”
Julio Saraiva
Algum dia
queimaremos as naves de Caronte
Por agora prossegue a obstinada morte
no alfabeto a letra com que vai
começar o nosso nome
Mas ainda o sangue se renova
nos ramos que partem do nosso coração
Algum dia estaremos sentados a ouvir
os anjos a tirar das suas harpas
os silêncios celestiais
Por agora, como Ulisses amarrados
ao mastro do navio, deixamos que as ondas
nos falem ao ouvido.
24/6/2012
segunda-feira, junho 18, 2012
Observar Vagalumes
Da janela defronte da noite
vejo pirilampos
que se movem e param
renovam
e o negrume está carregado de luzes
de pequenos barcos de pesca
na faina nocturna
nas correntes do ar.
18/6/2012
sábado, junho 16, 2012
ENTRE O MADEIRO E A LANÇA
Entre o madeiro e a
lança
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.
15/6/2012
terça-feira, junho 12, 2012
A Tentação
Sobre a aridez sem referências
do deserto, o Filho do homem
falou com o frio da noite, espesso
frio como a escuridão sem lugares
onde encostar os olhos, falou
com o sol sem sombras
como o próprio Deus depois de plantar
o jardim, falou sozinho
até que Satan – não o de Dante
lhe pôs pedras no meio do caminho.
12/6/2012
terça-feira, junho 05, 2012
SANCHO
“Sancho é um corpo universal”
Sancho é largo, quase rente
avoluma-se na magreza do Quixote
É um
gigante, largo
em
trânsito no chão manchegoé, por vezes, os olhos do Quixote
O
ritmo de Sancho é lento
a
realidade vai atrás do brilhoda armadura do Quixote
O
moinhos são os panos do vento
Sancho,
vestido de pele
e coração, como os conhece de perto.
5/6/2012
segunda-feira, maio 28, 2012
O CINEMA
“llega la oscuridad y después las / caras gigantescas”
Charles Bukowski
Às vezes, no cinema
enterrados até ao pescoço
na cadeira, à procura no negrume
da vida real
contam-se as pipocas com dedos infantis
os lábios molham-se
admirados num refresco
os rostos maiores que o nosso no ecrã
corpos gigantes
partem o escuro, falam
e nós passivos
na nossa vida banal.
28/5/2012
enterrados até ao pescoço
na cadeira, à procura no negrume
da vida real
contam-se as pipocas com dedos infantis
os lábios molham-se
admirados num refresco
os rostos maiores que o nosso no ecrã
corpos gigantes
partem o escuro, falam
e nós passivos
na nossa vida banal.
28/5/2012
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