terça-feira, outubro 18, 2011

CONVITE



Dias 27 de Outubro 2011 em Vigo e 28 em Pontevedra, às 20:00, na Sala Versus de La Fundacíon Cuña- Casasbellas.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Olhos Suspensos




“olhos pretos parados pela fome”
(José Lins do Rego)


Olhos suspensos por fios invisíveis
feitos de esperas longas
que lançam a noite ao meio-dia
em todas as direcções
o que verão eles? São azeitonas a aguardar
o lagar do sacrifício
uma espécie de altar ao deus que já foi
do desespero
e agora é só da resignação. Como a folha
que sabe que vai cair
porque é Outono.


10/17/11

Inédito de Brissos Lino

sexta-feira, outubro 07, 2011

Olhares: Uma Intertextualidade


OLHARES ITALIANOS

Vem à superfície das ondas
cinzentas
o branco da sereia

Como uma linha perfeita
de um caule amanhecido
ou uma linha de horizonte
vertical
para onde os olhos nas órbitas
rodam em cardume

É uma estátua sem sombras
passa, como a aurora
sem deixar provas, só indícios
de um perfume.

4/10/2011

A propósito deste poema, o meu amigo e poeta (residente do Blog), Brissos Lino, propôs o seu olhar, numa intertextualidade mais crua, com uma prosopopeia quiçá mais "erótica", num poema inédito.


OS CÃES OBSERVAM A PRESA

os cães observam os meneios da presa
atentamente
estranham a sua falta de cuidado
com os predadores
aprenderam cedo que os animais selvagens
emboscam a caça
esta nunca vem ter com eles de passo firme
no alto da sua alvura
e de cabeça erguida como provocação
a abrir caminho mesmo no meio da matilha

confundidos nem sabem o que fazer às mãos
e aos piropos do costume
escondem-se atrás de um cigarro
de boca cerrada
num ensaio de sorriso estranho
e num silêncio incómodo
sem acção para nada.

6/10/11

Brissos Lino



quinta-feira, outubro 06, 2011

Os Ossos do Poeta


Federico Garcia Lorca não pôde morrer como desejava. “Cuando yo me muera, / enterradme com mi guitarra / bajo la arena.”

A percepção da morte próxima no Poeta granadino acompanhava-o, sobretudo no início da década que viria a ser a do Grande Crime da Espanha franquista. Saberia ele que o pressentimento “é a sonda da alma no mistério”, nariz do coração e bengala de cego, “que explora en la tiniebla del tiempo”.

La muerte me está mirando

desde las torres de Córdoba

Ay que la muerte me espera,

antes de llegar a Córdoba.

Não obstante esse desejo e este olhar poético, diria um olhar muçulmano da morte sobre ele, Lorca escreveu que “um morto em Espanha está muito mais vivo enquanto morto que em qualquer outra parte do mundo: o seu perfil fere como lâmina de uma navalha de barba”.

É o caso de Lorca, apesar do seu rosto, desenhado por Salvador Dali, ferir, não tanto como lâmina, mas como um tumulto.

Desde logo, a partir das Canciones e do Romancero Gitano (traduzido e apresentado em finais de Setembro passado em Londres sob o título Gypsy Ballads) ao teatro, com duas peças que são lâminas: Yerma e Bodas de Sangre,duas peças de culto, míticas no que recuperam da tragédia grega para o século XX, tanto quanto A Casa de Bernarda Alba repleta da paixão que a solidão colectiva produz.

O caso de Lorca, passados 75 anos do seu assassinato, está cada vez mais no domínio do inefável, do que não pode ser dito, está no âmbito do Mito incontornável.

A verdade é que nos resta o mito, quando não se encontram os ossos do poeta. O próprio Garcia Lorca o criou, duma forma profética num poema de “Poeta en Nueva York”.

Fábula y rueda de los tres amigos” contém 6 versos, num conjunto de toada repetitiva de 70 versos, que são o registo da premonição sobre a própria morte, numa tensão que se revelaria, apesar do seu lirismo surrealista, profundamente profética.

São paradigmáticos, estes versos: por mi muerte desierta con un solo paseante equivocado”, o Poeta, de madrugada, fuzilado diante de um muro, sem companhia na sua morte; “ comprendí que me habían asesinado.”

Recorrieron los cafés y los cementerios y las iglesias.

Abrieron los toneles y los armarios.

Destrozaron tres esqueletos para arrancar sus dientes de oro.

Ya no me encontraron.

É, no entanto, distante do objecto da composição lorquiana o aparente sentido do seu título: “Fábula e rueda de los tres amigos”; referem os analistas da obra de Lorca que o primeiro título era o mais adequado: “Primera fábula para los muertos”. A descrição surrealista do mundo da morte e o sentimnto de dor do poeta perante a sua própria morte e a da cidade de Nova Iorque – creio que aqui não nos devemos esquecer da data 1929-1930, da queda Wall Street, da Grande Depressão. Há também o motivo -diz-se nas biografias do poeta granadino- da perda de um amor, que o terá levado por um ano à Universidade de Columbia e a Cuba, e o acento do poema ( como um canto dançante) em torno de três amigos:

Enrique,

Emilio,

Lorenzo.

Estabam los tres enterrados

Estes aparecem numa foto, junto do poema no próprio livro (*), como travestis (“estudiantes bailando, vestidos de mujer”), o que nos pode levar a pensar na orientação do amor perdido de Lorca. Mas isso é outra história.

(*) Poeta en Nueva York, Catedra Letras Hispánicas, 5ª Edicion, Madrid, 1992.


© 5/10/2011

quarta-feira, outubro 05, 2011

A Língua Solta de Einstein


Dizia o velho sábio que
o mais importante em Einstein
não era o cérebro
nem a arte de tocar violino
era a língua
aquela língua atrevidamente solta
a saltar fora da boca
direita às sanguessugas mecânicas
providas de flash
uma provocação que lhe ligava o génio
ao imaginário infantil
a parte mais humana de si
e não fosse a língua solta de Einstein
quase ninguém saberia do génio
da teoria da relatividade
do violino
e de tudo o mais.
4/10/2011

Poema inédito de Brissos Lino



domingo, outubro 02, 2011

O rapaz do pijama às riscas


O rapaz do pijama às riscas
senta-se num banco de cimento
numa casa hermética
no cimento
e sela com a sua mão a mão
de outro rapaz
ambos livres do pijama às riscas
agora no silêncio da nudez.

1/10/2011

terça-feira, setembro 27, 2011

Pequeno Monólogo de César Vallejo

Digo como disse no Café
de la Regencia quando entro, é o pó
imóvel que fica de pé, entre meus lábios
um cigarro ligado a um fio
de fumo, “importa que el otoño
se injerte en los otoños”,
e que chova em Paris para torcer
eu César Vallejo a chuva
entre meus dedos, esta água que cai
cor de cinza como o céu sobre a cidade:
e digo “Me moriré en París com aguacero”.
Volto a mergulhar nas ruas húmidas
que aguardam poças, como estrelas
que fumegam pelo chão, enquanto
nos olhos uma água arde.

26/9/2011




segunda-feira, setembro 26, 2011

O Marroquino


(depois de ler Tahar ben Jelloun )

Dizia que tudo estava ali, e abria
o livro com delicadeza, Alcorão
contra os lábios, contra o coração
nos lábios, dizia que tudo estava ali
envolto num pano branco, limpo
das poeiras e do ar
frio que cai pelas paredes
todos os dias
lhe limpava o pó e o silêncio.

25/9/2011

segunda-feira, setembro 05, 2011

Cambridge, Primeiras Impressões, Gregory Corso




5


Cansado de andar
cansado de ver nada
olho por uma janela
pertencente a alguém
bastante amável para me deixar olhar

E de uma janela Cambridge não é assim tão má
É uma grande sensação saber
que a partir de uma janela

posso ir aos livros a um amor antigo e às latas de cerveja
E de tudo reunir o sonho suficiente
para me esgueirar pela porta das traseiras



Trad. J.T.Parreira

sexta-feira, agosto 26, 2011

O Sino Solene


O sino solene navegou como nuvem
à tona das casas
o som cavo arrastou-se indolente
pelos telhados da aldeia xistosa
escorreu pelas paredes
como a pachorra das vacas
nas horas de calma
(ao longe parecia até o urro de um animal ferido
possante e persistente)


foi então que o povo devolveu o eco
como murmúrio de vizinhas.
Tinha morrido o senhor abade.


26/8/11
Inédito de Brissos Lino

segunda-feira, agosto 15, 2011

O Último Cavalete de Rembrandt

Um espelho sem moldura
guarda entre a prata e o vidro
um silêncio

uma cama simples
para começar
as surpresas do sonho

um lugar vazio
de uma cadeira partida, uma mesa
magra, rústica, vítima da fome

o último quadro
de onde os olhos de Rembrandt
jamais regressam.

15/8/2011

sábado, agosto 13, 2011

Testamento do pintor Van Rijn


Algumas roupas de linho
ou lã, minhas coisas de pintor
lições de anatomia
para chegar
dos tendões às artérias
da alma, alguns quadros
que riscarão para sempre
a mediocridade
da história da pintura.

13/8/2011

quinta-feira, agosto 04, 2011

Árvores São Estandartes

Poema inédito de Brissos Lino

árvores são estandartes na planície
espetados na linha do horizonte
como se a terra ali morresse
ensaiam custosa subida aos céus
num tempo sem tempo
seduzem-nos a trepar também
como Éolo
a soprar uma nuvem branca

de caminho olhamos os ninhos
como se fôssemos pássaros
e em baixo os homens
feitos formigas dispersas
desordenadas
à toa.

2/8/11

sábado, julho 30, 2011

A Máquina de Escrever Azul

A máquina ao escrever azul, escreve
também estrelas, quando é preciso
salientar qualquer verdade
em rodapé, no limiar
dos dedos a máquina espera
para escrever um pássaro
enquanto o poeta passa
os seus olhos pelas cores
também escreve barcos
de quilhas rasuradas pelo mar
a máquina de escrever
tanto azul
é quase um universo.

30/7/2011

quarta-feira, julho 27, 2011

Mulher de Azul lendo uma carta

The painter's vision is not a lens, It trembles to caress the light
Robert Lowell

Diziam
que a visão do pintor
não é uma lente, que tremia
ao roçar pela luz, pelo corpo
vestindo-o
de um céu azul

Vermeer pincelou o sol
na parede, cobriu
os olhos
da sólida mulher
que atravessam para longe
cada palavra que lê.

26/7/2011

quinta-feira, julho 21, 2011

A minha pequena Siamesa


As manhãs não entrarão mais
na sonolência dos teus pequenos olhos
os insectos agora
na casa estarão tranquilos
os saltos
que davas na plenitude
do teu corpo, precocemente parados
não envelhecerás como o tapete
da cozinha, azul
sob o qual logravas te esconder
Eu olho para o silêncio
que deixaste por trás dos móveis.

21/7/2011

domingo, julho 17, 2011

A Guerra

Quando as botas se gastaram
a guerra
acabou, era o tempo
para lembrar a casa
destruída, sem quarto
para o pranto, os filhos
sem sapatos, sem um
nome
quando as botas se gastaram
nossos pés nus não
se distinguiram das pedras.

17/7/2011

terça-feira, julho 12, 2011

Jacob e o Anjo

(Gauguin, 1888, A luta de Jacob e o Anjo)


A interminável luta, mãos
entre mãos, a voz
nos olhos de ambos, quando os lábios
estão calados
Jacob e Anjo, a luta
recomeçam golpe a golpe
anjos sem armas
no bálsamo da noite, na íntima
tessitura
da música da água.

11/7/2011

quarta-feira, julho 06, 2011

Os Meninos Judeus

por su extrema delgadez y la expresión de sus rostros parecieran ancianos.
Yad be Yad


Os meninos judeus levantam as mãos
desde o fundo do poço
magros de carinho
secos por dentro
acondicionados no incompreensível
persistem ainda em agarrar
uma estrela qualquer
mas só lhes resta uma
baça
de pano amarelo
cozida na roupa.

6/7/11


Inédito de Brissos Lino

domingo, julho 03, 2011

O último sorriso de Sylvia Plath

O que vejo é um sorriso aberto
como uma ave que plana
sobre as ondas
que o vento levanta no deserto
como um animal que recebe a brisa
de olhos fechados
como um dia rasgado, quando se abre
a claridade nas cortinas
O que vejo
é um rosto claro
como um campo de Cnossos
onde o Minotauro fecha o labirinto.

2/7/2011

sexta-feira, julho 01, 2011

Gosto de Música

gosto de música
gosto muito de música
mas não sei se
gosto de gostar de música
porque não gosto de matemática
nem de ciências exactas

gosto de sentir a música
a mexer-se-me nas tripas
a acelerar-me a pulsação
a aquecer-me a pele

gosto de fechar os olhos
e ser soprado para outros mundos
na vertigem da música
sentar-me numa nuvem
na largueza dos espaços

gosto de subir à maior montanha
sem esforço
ao colo da música
e relativizar daí as minudências
da vida rasteira

gosto de ver a dança dos pássaros
e o bailar das ondas
na música

a criança que chora
o velho que tem medo
o jovem que pula
a mulher que ri
e as folhas que se soltam da mãe árvore
no Outono

gosto de ver a Lua branca
as águas calmas do lago
a noiva no altar
e o bezerro no prado

gosto de ti, musa
mulher
a minha música.

29/6/11

Poema inédito de Brissos Lino



sexta-feira, junho 24, 2011

Escrito na véspera do meu 32º aniversário



Poema de Gregory Corso

Eu amo poesia, porque me faz amar
e apresenta-me a vida
E de todos os incêndios que morrem em mim,
há um que lavra como o sol;
pode não ser toda a minha vida
minha relação com as pessoas
ou meu comportamento perante a sociedade,
mas ela diz à minha alma que tem uma sombra

Tradução de J.T.Parreira


“Write on the Eve of My 32nd Birthday”:


 I love poetry because it makes me love
and presents me life
And of all the fires that die in me,
there’s one burns like the sun;
it might not make day my personal life
my association with people
or my behavior toward society,
but it does tell me my soul has a shadow

quinta-feira, junho 23, 2011

Fazer Poesia Social com lirismo

Manuel Bandeira acabou por ensinar a fazê-la, mas não correu riscos de fazer a poesia social cair no execrável panfletarismo a que muitos poetas cedem. O exemplo é o poema “O Bicho”.

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

(1947, Belo Belo)

Aqui, ainda que pareça, não é metáfora, nestes versos de matiz social, a personagem que desde o primeiro verso percorre o poema, como uma entidade que paira supra poema ( o poeta viu “ontem”, a memória a doer), é factual.
Existe até final do breve poema a desconstrução da ideia que poderia ter-se, talvez na obscuridade, talvez na névoa da manhã cedo, de que quem procura no lixo é um animal vadio, e também a desrealização da narrativa poética para uma narrativa social sobre o último limiar da pobreza.

A frase do desvendamento é uma exclamação do espanto do poeta. Manuel Bandeira, que através do seu forte lirismo de acento modernista, já havia feito incursões belíssimas no verso social, com expressões de solidariedade pelo elemento dos desvalidos, dos pobres, dos suburbanos, das pobres mulheres da rua, em versos como: “Beco...fôste rua de mulheres? / Todas são filhas de Deus!”, “Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça”, “Pálidas meninas/Sem olhar de pai”, “Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas”.

Agora é absolutamente declarativo: “O bicho, meu Deus, era um homem”, sem sinal de exclamação, uma vez que esta é interior, faz parte da diegese, digamos assim, poética; é o próprio verso toda uma exclamação.

Houve exegetas da poesia bandeireana, designadamente deste poema, que concordaram em que o sofrimento aqui não é do homem que procura comida nos restos, da civilização e do consumismo, do desperdício e da riqueza, que não cheira, não examina o que encontra, ao contrário, engole “com voracidade”, dizem esses intérpretes que o sofrimento é do próprio poeta.

22/6/2011

quarta-feira, junho 15, 2011

O Banho (no Miño)


Poema de Francisco X.Fernández Naval

Tomávamos banho nele
mas sempre lhe tivemos medo
que havia lodo no fundo
e os pés resvalavam nos seixos
e no escuro
e tinha charcos e água a borbulhar
e entre as pontes
remoinhos do mistério.

Dizíamos cantigas populares
porém tremíamos
e regressávamos de autobus vermelho
cheirando a lama fresca, a urzes e saibro

Tínhamos medo
de nos vermos meninos
nos olhos velhos do rio,
no silencioso sangue
das poças,
evitávamos o seu abraço de estío e de sargaço,
de poço,
de remoinho escuro.

(Tradução de J.T.Parreira)

sexta-feira, junho 10, 2011

Os Olhos do Medo

“O medo teria olhos” (J.T.Parreira)

Os olhos do medo brilham na noite escura
desconstroem silêncios
afiam arestas vivas
param o sangue nas veias
raspam as paredes da alma
com garras afiadas
os olhos do medo provocam um som cavo
e raro
anunciam um futuro às arrecuas
são olhos ofídios que nos sugam
o ar
mas eu sei de pálpebras que tapam
os olhos do medo.

10/6/11


Inédito de Brissos Lino


Lasar Segall, introdutor do Expressionismo no Brasil

quinta-feira, junho 02, 2011

Banho de Mar


Começam por entrar as pernas
nuas hesitantes
e fincam-se como Rodes sobre o Egeu
a cintura depois
de inundados os calções
por fim o próprio umbigo
cordão que sempre nos ligou à vida
os braços nus abraçam
o que do sal começa a fervilhar na onda
como um feixe de dedos nossas mãos
vão abrindo sulcos na imaginação
até ao horizonte.

2/6/2011

sábado, maio 28, 2011

Palavras ferozes

.
“Há palavras impossíveis de escrever”
Cesariny



Há palavras impossíveis de escrever
fazem ranger
nos ossos a realidade
sujam os olhos
como um mau cheiro
corrompem os ouvidos
Morte é uma dessas
impossível
se disser, a morte da criança
abala como um tremor de terra
o coração
terrível a palavra Abismo
que às vezes sentimos nos joelhos
ou a Queda que fez a solidão
no Paraíso.

Poema publicado ineditamente in  A Ovelha Perdida

quarta-feira, maio 25, 2011

Exposição de Pintura

Um pássaro fractal
sai da parede
um campo de algodão enche
os nossos ouvidos de silêncio
ao lado o rio parte
o estado dos olhos e da alma
do Narciso
a olharem de través
dois olhos num umbigo
e num espelho uma mulher que ocupa
os quatro cantos
Magritte se esfuma num cachimbo
e um trapézio
num corpo de ave.
que esvoaça de fugida.

24/5/2011

Publicado ineditamente em A Ovelha Perdida

sábado, maio 21, 2011

O que o Quixote vê

Quem carrega contra os moinhos
e tece armaduras gigantes
e não vê asas nas velas
à volta
dos olhos de Quixote

Quem investe com que lança
com seu coração nos olhos
quem tange o sonho dentro
de um túnel de vento
no vento que circula nos moinhos

Seria assombroso
assustá-los com uma pena
um cavalo rocinante , com flancos
de bronze.

5/5/2011

quarta-feira, maio 11, 2011

Livros são como vinhos

Aquilino Ribeiro, sobre os livros que escreveu: “ foram como vinhas que plantasse.”


Bons livros são como vinhos
vintage
que escorrem pela imaginação abaixo
em breves momentos
de prazer e glória
laboriosamente formados
com o dedos da alma
durante meses de afecto
são bibliotecas de Baco
que elevam os olhos
à loucura breve.

7/5/11

Poema inédito de Brissos Lino

sábado, maio 07, 2011

O Salmo


Quem vem por cima do vento
tangendo uma harpa
quem vem tangendo nuvens
na harpa, como na sua casa
quem vem
tangendo a harpa como se derramasse
sobre a terra um vaso de água de cristal
quem vem a tanger a sua harpa
espalhando asas pelo ar
e a excitar o gineceu das rosas.

3/5/2011

quinta-feira, abril 28, 2011

A Porta de Samaria

Cristo e a mulher de Samaria de Juan de Flandes, Sec. XV



À porta de Samaria recolhia ele
despojos antigos
alguns traumas assírios
ódios de estimação
e anunciava o reino aberto


à beira do poço
contava ele
formigas no carreiro
ao cantar das águas
como quem escreve
no chão do templo


aos pés da Samaritana
colava ele
inúmeros cacos de vida breve
quebrados na esquina
das incompreensões
e colava as sandálias da paz
nuns pés doridos
de mulher.

26/4/11



Inédito de Brissos Lino

segunda-feira, abril 25, 2011

A Pedra


Muito pouco tem sido dito
sobre a pedra, uma
fronteira do sepulcro
uma forma densa do não
muito pouco
perante as circunstâncias
se tem dito sobre a pedra
surda e um olho cego no dia
da ressurreição
não se entrava nem saía
dessa pedra, e no entanto
foi uma gota de água
como uma folha branda
um cristal tocado pela imensa
Mão, uma claridade
no primeiro dia da semana.


24/4/2011

domingo, abril 17, 2011

Almofada

Almofada


De dia subimos os nossos montes
cada distância mais longe
depois de deitada a nossa cabeça
num novelo de nuvens
por dentro e por fora
um sonho bordado.

16/4/2011

segunda-feira, abril 04, 2011


NOTA DE SUICÍDIO DE CESARE PAVESE
(No livro Dialoghi con Leucò)

Perdoo todos e a todos
peço perdão. Está bem?
Não façam demasiados mexericos.
Deixo e assino, assim
como uma estela
num buraco negro dos meus olhos
nesta página de um livro
que ficará como diálogo da tristeza
com o fim.

segunda-feira, março 28, 2011

Ondas Alterosas


Ondas alterosas são altas montanhas
prenhes de neve e mistério
guardam no bojo segredos
e ressoam como os canhões
de Neptuno
sem fogo nem espuma
enrolam o momento
como uma torta de algas
e brincam às escondidas com o sol
e os peixes.

25/3/11

Poema inédito de Brissos Lino

sábado, março 19, 2011

Mulher sentada entre flores

Mulher sentada entre flores
O teu rosto entrega-me a paz
redonda doçura entre cabelos
quando cerras os olhos
fico fechado dentro deles
nas tuas mãos
cruzadas mãos trabalhadoras
tropeça a minha ternura
sozinha
tens o sol do teu lado
como um muro de ouro
por onde o sonho se atravessa
e fico em silêncio contigo.

18/3/2011

terça-feira, março 15, 2011

O Pincel de Picasso

Vejo no pincel de Velázquez
a luz branca que penteia
os cabelos das Meninas

como vejo no pincel de Picasso
como vivem
Les Demoiselles d' Avignon

Não como no pincel de Van Gogh
onde nem sempre os amarelos
são alegrias puras

No pincel de Arles vejo
a dança do vento
na anatomia dos trigos

e o sol que se estende
nas pétalas dos girassóis
e a morte que parte o céu

vejo no pincel de Van Gogh
os corvos e auto-retratos
despenteando o silêncio.

15/3/2011

domingo, março 13, 2011

Aquário

Posso ver o silêncio dentro
através do vidro, vai apertando as vozes
até ao murmúrio
no silêncio bóiam dentro da luz
nocturnos rostos
com mais uma noite às costas
eu acho que sei o que é o silêncio
nos olhares à espera do sono
nas mãos que, por vezes, compõem
o sorriso que pende da flor dos lábios.

8/3/2011

Sobre "Nighthawks", de Edward Hopper

terça-feira, março 08, 2011

Noite

é redonda a face larga da noite
e as suas asas
porque tem asas,
ou ela não escaparia
à apreensão à estreiteza dos abraços

resistente aos meus olhos
como o mar aos penhascos
e sobre a areia desenhando sulcos

a noite está só e tem só
o que o silêncio lhe empresta
como fome voraz que tudo devorou
tudo menos
o espanto hirsuto do poeta

5/03/11

Inédito de Rui Miguel Duarte

sábado, março 05, 2011

Silêncio, poema de Billy Collins


Há o súbito silêncio da multidão
sobre o jogador imóvel no estádio,
e o silêncio da orquídea.

O silêncio do jarrão caindo
antes de se dividir no solo,
o silêncio do cinto enquanto não bate no menino.

O sossego do copo e da água dentro dele,
o silêncio da lua
e a quietude do dia longe do estrondo do sol.

O silêncio quando estou contigo no meu peito,
o silêncio da janela que pode espreitar-nos,
e o silêncio quando te levantas e te afastas.

E eis o silêncio desta manhã
que parti com a minha esferográfica,
um silêncio acumulado toda a noite

como a neve que cai na sombra da casa -
o silêncio antes de ter escrito uma palavra
e agora o mais pobre dos silêncios.

Trad. J.T.Parreira

quarta-feira, março 02, 2011

O Palhaço

“O palhaço é um poeta em acção.”
(Henry Miller, O sorriso aos pés da escada)

Ar de menino desajeitado
pernas frouxas
pés que caminham para sítios diferentes
a perguntar emoções
assim vai o poeta da flor amarela
no chapéu minúsculo
pendura um sorriso rasgado
no rosto triste
quer fazer feliz a criança que nos habita
desde sempre
mesmo quando no fim do espectáculo
ressoam palmas
e murmúrios de troça.

1/3/11

Brissos Lino

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Granada

(foto Paco Ayala)


De barco vou a Granada
no rio de músculos de um cavalo

figueiras e girassóis
curvam o vento em viagem

Vou de barco para Granada
vou pela água
dos meus olhos, ver um poeta e a sombra
do seu corpo na mortalha
de um muro de cobre e de cristal
e a sua cara
na fresca manhã da morte.

(do livro inédito, a ser escrito, "À porta das Cidades" )


sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Folhas Letras & Outros Ofícios, nº 13

Apresentação do nº 13 da revista do Grupo Poético de Aveiro, dia 19 de Fevereiro, pelas 17:3o no CUFC-Centro Universitário Fé e Cultura, Campus Universitário, Aveiro

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Desconstrução


Ferro, aço, vigas e betão
vidro, madeira
torre de babel
à maneira
alta abóbada de novo mestre
Afonso Domingos
desconstruindo o sagrado
em nome de um deus
mas não dos antigos
para bênção dos novos crentes
do consumo.

14/2/11

Inédito de Brissos Lino

(foto de Susete Lino)

domingo, fevereiro 13, 2011

Um Domicílio em Paris

A água do Sena como um domicílio
o rio imóvel é um espelho
sujo, até às luzes
que lhe dão o colorido das estrelas
e os barcos
desenham pequenas paisagens na água
um acordeão nas águas
quando uma barcaça passa
e outro ao longe o som enreda
na noite a música inefável.

(do livro em preparo "À Porta das Cidades" ou "Partida para Tróia")

A Ponte dos Suspiros


Veneza se desmorona e desnuda
cai na luz escura
dos canais, castelos de areia
a porta dos velhos Doges
A Ponte dos Suspiros corre
em pedaços, cada pedra
um ai, vinte milhões
de olhos por ano a consomem
num mar de imagens serenas.

(do livro em preparo "À porta das Cidades" ou "Partida para Tróia" (provisórios)

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Nem sempre os pés desistem

Nem sempre os pés desistem de caminhar
para ficar de frente aos outros
a convergir
nem sempre param
para escutar dores e estórias
de outros andarilhos da vida
e aventura
esquecem-se muito de partilhar a jornada
deixam escapar as alegrias
da comunhão
mas acabam por concluir que o chão
que pisam homens e cavalos
é duro para todos.

2/2/11

Inédito do poeta residente Brissos Lino

sexta-feira, janeiro 28, 2011

A Mãe


Era a morte envergonhada
escondida nestes rostos
tão próximos do chão
pequenos corpos, um dia saberemos
como a morte com sapatos precários
caminhou nestes corpos infantis
como a morte se vergou
nestas costas ao peso
do inverno
Era a morte já tão arruinada
nestas roupas, um dia saberemos
como foram lentos os seus passos
a querer retardar a pressa
dos relógios.

27-1-2011

domingo, janeiro 23, 2011

Não estou a chorar, Mãe

Não estou a chorar, Mãe
é a minha alma que cai pelas faces
Sabes, Mãe? Os meus olhos são teimosos
não se fecham com facilidade
nem quando gotas salgadas
se desprendem do vento
ou quando as árvores
rompem em gorjeios
As lágrimas, Mãe, não são o que parecem
são o amor da alma por esse corpo
que se limita a morrer
Não, não estou a chorar, Mãe
é o silêncio que se torna sólido
este teimoso silêncio
da lágrima.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Almoço na Relva

Sentados sobre a relva
dependentes do chão, presos
da flor que mal nasce
morre, na brisa das árvores
pousados como pássaros
dádiva do alto cume azul
enchem os olhos da fragrância
de um corpo desnudado
eles discretos senhores
que conversam
e esperam que o crepúsculo caia
como véu da tarde.

18-1-2011

segunda-feira, janeiro 10, 2011

O Beijo no Bosque

Fecharam os olhos
os duendes do bosque, o beijo
floriu nos arbustos, nos ramos
do sol, no perfume do vento
crepitou nos lábios
um segredo profundo
lançando raízes
o incêndio no bosque
fecharam os olhos
esquilos e aves
recuperam o canto
à volta do lume.

8-1-2011

domingo, janeiro 09, 2011

O Anjo Indispensável

“I am the necessary angel of earth”
Wallace Stevens

“O anjo necessário/entende a voz do chão”
Cassiano Nunes


O anjo indispensável
estendeu a sua voz no chão
como um almoço sobre a relva
e dos pequenos animais ao espírito
do homem, se entendia a frase
porque era colírio, alfazema, a sua voz
porque ela embalava estrelas pueris
nos nossos olhos, desfazia
os gestos trágicos que trazemos
o anjo indispensável
também cantava, como canta o mar
alto ao lançar de si pequenas ondas
e ao cantar, para o ouvir, a noite
se inclinava ao anjo indispensável
com suas palavras lavadas.

3/1/2010

sábado, janeiro 01, 2011

Os Gatos do Hemingway à chuva e ao sol

A bem dizer, visitar a Casa de Hemingway em Key West, é visitar móveis espanhóis do Séc.XVII, mármores de Murano, a máquina de escrever, da qual -dizem- saiu cerca de 70% da obra do escritor, livros, fotografias, autógrafos do criador de "O Velho e o Mar", espaços que contêm memórias e, sobretudo, os gatos.

Os gatos do Escritor, melhor, a descendência ininterrupta dos gatos do Escritor. Dezenas, com vida própria e cemitério, e tudo.
Gatos com nomes: "Spencer Tracy", "Catherine Hepburn", gatos -actores que sabem estar sob a admiração dos olhares dos visitantes, gatos sobre as camas e os sofás, desinteressados de quem os olha, gatos com poses.

Como este gato do "post-card", que bebe a quase cristalina água de mármore que escorre em mil fios, desde sempre.
Há uma presença, a do Escritor, nesta Casa, há... mas é o nosso imaginário que a vai reconstruindo. O eco do tiro de caçadeira fica muito longe, em Idaho, aqui é a Florida, a derradeira ilha com vista para Cuba.