segunda-feira, abril 04, 2011


NOTA DE SUICÍDIO DE CESARE PAVESE
(No livro Dialoghi con Leucò)

Perdoo todos e a todos
peço perdão. Está bem?
Não façam demasiados mexericos.
Deixo e assino, assim
como uma estela
num buraco negro dos meus olhos
nesta página de um livro
que ficará como diálogo da tristeza
com o fim.

segunda-feira, março 28, 2011

Ondas Alterosas


Ondas alterosas são altas montanhas
prenhes de neve e mistério
guardam no bojo segredos
e ressoam como os canhões
de Neptuno
sem fogo nem espuma
enrolam o momento
como uma torta de algas
e brincam às escondidas com o sol
e os peixes.

25/3/11

Poema inédito de Brissos Lino

sábado, março 19, 2011

Mulher sentada entre flores

Mulher sentada entre flores
O teu rosto entrega-me a paz
redonda doçura entre cabelos
quando cerras os olhos
fico fechado dentro deles
nas tuas mãos
cruzadas mãos trabalhadoras
tropeça a minha ternura
sozinha
tens o sol do teu lado
como um muro de ouro
por onde o sonho se atravessa
e fico em silêncio contigo.

18/3/2011

terça-feira, março 15, 2011

O Pincel de Picasso

Vejo no pincel de Velázquez
a luz branca que penteia
os cabelos das Meninas

como vejo no pincel de Picasso
como vivem
Les Demoiselles d' Avignon

Não como no pincel de Van Gogh
onde nem sempre os amarelos
são alegrias puras

No pincel de Arles vejo
a dança do vento
na anatomia dos trigos

e o sol que se estende
nas pétalas dos girassóis
e a morte que parte o céu

vejo no pincel de Van Gogh
os corvos e auto-retratos
despenteando o silêncio.

15/3/2011

domingo, março 13, 2011

Aquário

Posso ver o silêncio dentro
através do vidro, vai apertando as vozes
até ao murmúrio
no silêncio bóiam dentro da luz
nocturnos rostos
com mais uma noite às costas
eu acho que sei o que é o silêncio
nos olhares à espera do sono
nas mãos que, por vezes, compõem
o sorriso que pende da flor dos lábios.

8/3/2011

Sobre "Nighthawks", de Edward Hopper

terça-feira, março 08, 2011

Noite

é redonda a face larga da noite
e as suas asas
porque tem asas,
ou ela não escaparia
à apreensão à estreiteza dos abraços

resistente aos meus olhos
como o mar aos penhascos
e sobre a areia desenhando sulcos

a noite está só e tem só
o que o silêncio lhe empresta
como fome voraz que tudo devorou
tudo menos
o espanto hirsuto do poeta

5/03/11

Inédito de Rui Miguel Duarte

sábado, março 05, 2011

Silêncio, poema de Billy Collins


Há o súbito silêncio da multidão
sobre o jogador imóvel no estádio,
e o silêncio da orquídea.

O silêncio do jarrão caindo
antes de se dividir no solo,
o silêncio do cinto enquanto não bate no menino.

O sossego do copo e da água dentro dele,
o silêncio da lua
e a quietude do dia longe do estrondo do sol.

O silêncio quando estou contigo no meu peito,
o silêncio da janela que pode espreitar-nos,
e o silêncio quando te levantas e te afastas.

E eis o silêncio desta manhã
que parti com a minha esferográfica,
um silêncio acumulado toda a noite

como a neve que cai na sombra da casa -
o silêncio antes de ter escrito uma palavra
e agora o mais pobre dos silêncios.

Trad. J.T.Parreira

quarta-feira, março 02, 2011

O Palhaço

“O palhaço é um poeta em acção.”
(Henry Miller, O sorriso aos pés da escada)

Ar de menino desajeitado
pernas frouxas
pés que caminham para sítios diferentes
a perguntar emoções
assim vai o poeta da flor amarela
no chapéu minúsculo
pendura um sorriso rasgado
no rosto triste
quer fazer feliz a criança que nos habita
desde sempre
mesmo quando no fim do espectáculo
ressoam palmas
e murmúrios de troça.

1/3/11

Brissos Lino

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Granada

(foto Paco Ayala)


De barco vou a Granada
no rio de músculos de um cavalo

figueiras e girassóis
curvam o vento em viagem

Vou de barco para Granada
vou pela água
dos meus olhos, ver um poeta e a sombra
do seu corpo na mortalha
de um muro de cobre e de cristal
e a sua cara
na fresca manhã da morte.

(do livro inédito, a ser escrito, "À porta das Cidades" )


sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Folhas Letras & Outros Ofícios, nº 13

Apresentação do nº 13 da revista do Grupo Poético de Aveiro, dia 19 de Fevereiro, pelas 17:3o no CUFC-Centro Universitário Fé e Cultura, Campus Universitário, Aveiro

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Desconstrução


Ferro, aço, vigas e betão
vidro, madeira
torre de babel
à maneira
alta abóbada de novo mestre
Afonso Domingos
desconstruindo o sagrado
em nome de um deus
mas não dos antigos
para bênção dos novos crentes
do consumo.

14/2/11

Inédito de Brissos Lino

(foto de Susete Lino)

domingo, fevereiro 13, 2011

Um Domicílio em Paris

A água do Sena como um domicílio
o rio imóvel é um espelho
sujo, até às luzes
que lhe dão o colorido das estrelas
e os barcos
desenham pequenas paisagens na água
um acordeão nas águas
quando uma barcaça passa
e outro ao longe o som enreda
na noite a música inefável.

(do livro em preparo "À Porta das Cidades" ou "Partida para Tróia")

A Ponte dos Suspiros


Veneza se desmorona e desnuda
cai na luz escura
dos canais, castelos de areia
a porta dos velhos Doges
A Ponte dos Suspiros corre
em pedaços, cada pedra
um ai, vinte milhões
de olhos por ano a consomem
num mar de imagens serenas.

(do livro em preparo "À porta das Cidades" ou "Partida para Tróia" (provisórios)

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Nem sempre os pés desistem

Nem sempre os pés desistem de caminhar
para ficar de frente aos outros
a convergir
nem sempre param
para escutar dores e estórias
de outros andarilhos da vida
e aventura
esquecem-se muito de partilhar a jornada
deixam escapar as alegrias
da comunhão
mas acabam por concluir que o chão
que pisam homens e cavalos
é duro para todos.

2/2/11

Inédito do poeta residente Brissos Lino

sexta-feira, janeiro 28, 2011

A Mãe


Era a morte envergonhada
escondida nestes rostos
tão próximos do chão
pequenos corpos, um dia saberemos
como a morte com sapatos precários
caminhou nestes corpos infantis
como a morte se vergou
nestas costas ao peso
do inverno
Era a morte já tão arruinada
nestas roupas, um dia saberemos
como foram lentos os seus passos
a querer retardar a pressa
dos relógios.

27-1-2011

domingo, janeiro 23, 2011

Não estou a chorar, Mãe

Não estou a chorar, Mãe
é a minha alma que cai pelas faces
Sabes, Mãe? Os meus olhos são teimosos
não se fecham com facilidade
nem quando gotas salgadas
se desprendem do vento
ou quando as árvores
rompem em gorjeios
As lágrimas, Mãe, não são o que parecem
são o amor da alma por esse corpo
que se limita a morrer
Não, não estou a chorar, Mãe
é o silêncio que se torna sólido
este teimoso silêncio
da lágrima.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Almoço na Relva

Sentados sobre a relva
dependentes do chão, presos
da flor que mal nasce
morre, na brisa das árvores
pousados como pássaros
dádiva do alto cume azul
enchem os olhos da fragrância
de um corpo desnudado
eles discretos senhores
que conversam
e esperam que o crepúsculo caia
como véu da tarde.

18-1-2011

segunda-feira, janeiro 10, 2011

O Beijo no Bosque

Fecharam os olhos
os duendes do bosque, o beijo
floriu nos arbustos, nos ramos
do sol, no perfume do vento
crepitou nos lábios
um segredo profundo
lançando raízes
o incêndio no bosque
fecharam os olhos
esquilos e aves
recuperam o canto
à volta do lume.

8-1-2011

domingo, janeiro 09, 2011

O Anjo Indispensável

“I am the necessary angel of earth”
Wallace Stevens

“O anjo necessário/entende a voz do chão”
Cassiano Nunes


O anjo indispensável
estendeu a sua voz no chão
como um almoço sobre a relva
e dos pequenos animais ao espírito
do homem, se entendia a frase
porque era colírio, alfazema, a sua voz
porque ela embalava estrelas pueris
nos nossos olhos, desfazia
os gestos trágicos que trazemos
o anjo indispensável
também cantava, como canta o mar
alto ao lançar de si pequenas ondas
e ao cantar, para o ouvir, a noite
se inclinava ao anjo indispensável
com suas palavras lavadas.

3/1/2010

sábado, janeiro 01, 2011

Os Gatos do Hemingway à chuva e ao sol

A bem dizer, visitar a Casa de Hemingway em Key West, é visitar móveis espanhóis do Séc.XVII, mármores de Murano, a máquina de escrever, da qual -dizem- saiu cerca de 70% da obra do escritor, livros, fotografias, autógrafos do criador de "O Velho e o Mar", espaços que contêm memórias e, sobretudo, os gatos.

Os gatos do Escritor, melhor, a descendência ininterrupta dos gatos do Escritor. Dezenas, com vida própria e cemitério, e tudo.
Gatos com nomes: "Spencer Tracy", "Catherine Hepburn", gatos -actores que sabem estar sob a admiração dos olhares dos visitantes, gatos sobre as camas e os sofás, desinteressados de quem os olha, gatos com poses.

Como este gato do "post-card", que bebe a quase cristalina água de mármore que escorre em mil fios, desde sempre.
Há uma presença, a do Escritor, nesta Casa, há... mas é o nosso imaginário que a vai reconstruindo. O eco do tiro de caçadeira fica muito longe, em Idaho, aqui é a Florida, a derradeira ilha com vista para Cuba.

sábado, dezembro 18, 2010

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Viagem às Origens do Ser

De Ulisses a Garcia Marquez, passando por Ricardo Reis e Jorge Luis Borges, uma viagem de Retorno. Excerto de texto para ler Aqui, no Babelia, El País

domingo, novembro 21, 2010

Conselhos de Circe a Ulisses

Depois que estejam longe
as sereias
perdidas na névoa dos seus cantos
alonga os remos da tua nau
a direcção do teu caminho
terás de decidir, voltar
aos liames de seda das sereias
nunca mais, prefere
as rochas azuis onde o mar brada
mesmo que no tecto liso
do céu não se desenhem pombas.

11/2010

terça-feira, novembro 16, 2010

Play

Poema de Adriana Fernandez Lagoa

Juguemos a que el mundo se despierta
y nadie sabe adónde fue la muerte,
todos sucumben a la estruendosa vida
que aguarda en los estanques
donde ahogarse fue imposible.
Juguemos a que los insensatos sueños son factibles,
y a que la lluvia no cesó ni el sol se puso.
Juguemos a este juego ...

(Escrito em Madrid, 15/11/2010)

PLAY

Brinquemos ao jogo do mundo que desperta
e ninguém sabe aonde foi a morte,
todos sucumbem ao estrépito da vida
que aguarda em charcos
onde o afogamento é impossível.
Joguemos a que os sonhos insensatos são viáveis,
e que a chuva não cessou nem o sol caiu.
Joguemos a este jogo...

(Traduzido por J.T.Parreira)

quinta-feira, novembro 11, 2010

Os olhos de um neto

Com estes olhos
já vi uma estrela com medo das alturas,
já andei pelo arco-íris e já
estive com estes olhos no futuro.

10-11-2010

quarta-feira, novembro 10, 2010

Dá-me os teus olhos

Esses olhos do profundo coração
tomaram-me descuidado, olhos
maiores que o meu olhar
desprevenido, como tão
silencioso entraste no meu peito
Como posso agora
que estou preso a ti por limos
verdes, invisíveis, desprender-me?
O teu olhar continuará
a prender-me a esta matéria branda
que sai da minha boca
e que se chama vida.

9/11/2010

sábado, outubro 30, 2010

Hiroshima, Meu Amor


Não, tu não viste nada em Hiroshima
o sol explodindo nos olhos, dentro
da tua cabeça sombras
Tu não viste nada a acontecer
o nada de Hiroshima, nem a fissão
do Amor
Nada viste em Hiroshima
Dez mil sóis de temperatura
a cobrir a morte
como um lençol de cinza.

29/10/2010

Cinco poetas de entre os rios

"Tenho pousado o ouvido sobre o coração/ da terra. /Falava de amor, do seu amor/pela chuva,/ a terra." - Sherko Bekas, poeta da resistência curda.

Ouvintes das línguas árabes, tanto a língua dos média, como a do Corão, não consideramos que as mesmas sejam muito felizes para a fala poética.
O idioma árabe, de um modo geral, é áspero e gutural, mas a significação e a intimidade das palavras podem ser preciosas e então, como diria o poeta William Carlos Williams, ouve-se o sentido, quer seja em tradução para o português, inglês ou o italiano.
Os versos com os quais abrimos este artigo, sugerem-nos essa dimensão em que o sentido se transforma em sentimento da pátria, embora nos apareçam numa terceira língua de chegada (foram traduzidos do italiano).
A forma expressiva, até a irregularidade da sua métrica, seja como for propiciam o cântico, e, sobretudo, não se distanciam dos recursos da poética moderna. O seu autor, Sherko Bekas, nascido em 1940, ministro da Cultura da Região autónoma do Curdistão iraquiano em 1992, reúne na sua actividade poética o lirismo e a luta da resistência curda, o som telúrico de alguma da sua poesia não evidencia nenhum desusado bucolismo, é mais poesia para preparar a terra para um combate pela identidade.
Ibrahim Ahmad, considerado o maior romancista curdo contemporâneo, ao definir a poesia da nação curda e iraquiana, stricto sensu, abriu-lhe um amplo leque de abrangência de géneros que radicam na poesia mística, apologética, satírica, na poesia de amor, nos cânticos do matrimónio, das festividades e do luto. Uma poesia de liberdade também, que vem já de antes do império otomano e seguiu depois da dissolução deste e do Curdistão nos últimos 80 anos, com os vários géneros poéticos disseminados no Iraque, principalmente.
Também esse escritor, enquanto poeta elabora sobre uma poética de identificação com a terra - "Juro sobre este Curdistão de mil cores/sobre esta terra que é o meu paraíso", estabelecendo a identidade de um Pesh merga que resiste aos invasores da sua pátria. Os "resistentes" curdos, como a própria expressão Pesh merga indica, estão sempre de fronte erguida para a morte.

Não vou viver como servo
pleno de vergonha e ira.
Salvarei o meu país, o meu povo
com a vida pagarei a liberdade.
Não ferirei,nem usarei armas.

Vencerei ou morrerei.

Mas na sua língua poética, a poesia curda comunica entre si outro género de preocupações de origem filosófica, quando não mesmo radicadas num sentido histórico religioso.
De facto, preocupações ontológicas e metafísicas aliadas às raízes da ancestralidade. Por exemplo, sobre o bíblico Jardim do Éden, verde, num vale escondido do rio Tigre, rico em água, plantas e animais, na que foi a Alta Mesopotâmia onde esteve a primeira aldeia do mundo, e que se transformou num deserto por culpa de sistemáticos etnocídios – segundo a opinião de Laura Schrader, jornalista que desde 1975 denuncia as trágicas condições do povo curdo e tem dado a conhecer a sua cultura e os seus trabalhos poéticos.
"Somos roseiras nos vinhedos do paraíso do Oriente/ somos o sol que arde na escuridão da noite/ (…) somos o Eufrates, que brota de remotos milénios" - Sheikhmus Husayn, um dos poetas já falecido e mais amado no Curdistão Setentrional, autor de 7 volumes de poesia, que assinava com o pseudónimo de Gegherxuin (Coração Destroçado).

"Súplicas, salmos, ex-votos brindámos nessa hora
Pão, vinho e tâmaras da Babel embriagante
E de rosa o encanto
Logo aos teus olhos orando, oferenda imolámos
Da lágrima ardente em dilúvio as gotas juntámos
–Um rosário de pranto." – Cânticos à Dor, de Nazik Al-Malaika

Desta poetisa, nascida em Bagdade em 1923, a poesia tomou o rumo dos caminhos da introspecção ontológica, levando o pessimismo poético quase ao limite de uma linguagem filosoficamente estóica, de suporte de uma dor intensa, mas também intensamente lírica.
Nazik é a poetisa da tragédia da vida. No entanto, quando publicou a sua primeira antologia há mais de 50 anos, ao utilizar o vocábulo "noite", tornou-o símbolo de poesia, imaginação, sonho, beleza das estrelas, do prodígio do luar sobre o bruxuleante Tigre.

Outros poetas do Iraque, a maioria vivendo no exílio – diz-se que na década de 90 ficaram apenas cinco a residir no país – contudo escrevem uma poesia que caracterizou o estilo poético iraquiano, o qual é classificado desde o tradicional ao moderno, passando pelos limites do experimental, com temas que cobrem territórios comunicacionais como o amor, a guerra, as antigas sanções da ONU, o fascismo, a tortura, a prisão, o exílio, etc.
De resto, desde 1960, que os poetas iraquianos mais conhecidos (aqueles dos quais procuramos aqui dar notícia) introduziram na sua poética um novo imagismo, novas métricas e sensibilidades, como os poetas de todo o mundo.
Sempre visível, porém, a intertextualidade e uma espécie de vasos comunicantes, nos poemas comprometidos, nos cânticos populares e na poesia chamada de autor, alimentando no fundo uma poética com a marca da identidade de quem luta para manter intacta essa mesma identificação com uma cultura, património da humanidade.
A poesia de Latif Hamet, outro poeta Pesh merga, testemunha esse sentido de uma luta que nos parece ancestral, telúrica e, nem por isso, desprovida de lirismo universal, ainda que seja uma poética datada e muito regional:

Eu vou mãe.
Se não regressar,
serei flor desta montanha
torrão de terra
para um mundo
maior do que este
(…)
Eu vou mãe.

Se não regressar,
a minha alma será palavra
para todos os poetas.

quarta-feira, outubro 20, 2010

As mãos de Lascaux

As mãos de Lascaux estendem-se
até aqui, pequenas
marcas deixadas para trás
desde o fundo da terra
as mãos de Lascaux
não vemos, mas repartem o silêncio
que a pedra não fechou
Não se chamam mãos
chamam-se vento, amor e água
e medo
também penso em universo
embutido na parede.

16/10/2010

terça-feira, outubro 19, 2010

A Rosa de Milton

“E a rosa sem espinhos”
John Milton, (in Paraíso Perdido)
A rosa de Milton que passou
o veludo pelo rosto
tocando à vez o rosto e a noite
do Poeta, branco no branco, a flor
silenciosa
inundou de odor por fora
as demais coisas
que só a alma de Milton tocou.
16/10/2010

quarta-feira, outubro 13, 2010

As Luzes ao Fundo

Estaria perdido se ao longe
não visse
as luzes da costa, lanço
os meus olhos na corrente da noite
os meus olhos como âncoras
e da noite furto o seu instinto
do equívoco

Prouvera a Deus que a distância
entre a minha janela e a costa
não seja ilusória e não perca
o momento de encolher a saudade
e nas areias erguer um padrão
e pôr nos lábios
o meu coração como um tambor.

12/10/2010

segunda-feira, outubro 11, 2010

A poética da Expulsão (do Paraíso)

NO PARAÍSO

Poema inédito do poeta residente Rui Miguel Duarte

“no Paraíso, estive à beira de todas as cores
quando as manhãs acordaram nos meus olhos”
J. T. Parreira, “Expulsão do Paraíso”

Percorridos todos os limiares
e arestas negras, as artérias de granito
em vez da ondulação dos teus cabelos
trocadas as tuas carícias por um grito

culpados de todas as traições
de nos acolhermos ao colo de um pai estranho
extraviados da sabedoria de todas as cores
que falavam das manhãs acordadas de antanho

esquecidos das brisas lentas
das conversas sob as árvores ao fundo
da tarde, restou-nos a sombra do teu vulto
projectada como noite sobre o mundo

Mas na tua carne e no teu sangue
rasgaste para sempre a distância a frio
depusemos então as saudades à soleira da porta
reaprendemos então a alegria da Tua voz de rio

7/10/10

quinta-feira, outubro 07, 2010

Mario Vargas Llosa, Nobel da Literatura


A Academia Sueca, apesar de surpreender sempre, umas vezes pela negativa, desta feita redimiu-se e, contra todos os prognósticos e profecias da Sibila, escolheu a Língua de Cervantes.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Nos cantos onde o poeta escreve

Poetas Brissos Lino e JTP, e o Maestro Pedro Duarte.
Poema a quatro mãos:

Nos cantos onde o poeta sofre
caminheiro de estranhos mundos
prenhes de perfumadas vibrações
sente-se a ressonância dessa ternura
doce e leda
nos cantos onde se escondem silenciosos
olhos infantis que esperam
a construção das horas
por aí se observam inesperados
interstícios do coração
e se acoberta a fantasia breve
dos homens livres
quando o vale de ossos secos
de papel
uma simples folha branca se agita e revolve
como súbito canavial
por entre sombras impolutas
e gritos de dar à luz
então o poema nasce
formoso
e não seguro.

22/9/10
(Brissos Lino)

No recanto sob a palidez da luz
em que as palavras no papel navegam
os cantos do poeta
são o mundo, numa folha
há conversas
que são frutos dos lábios, mas vêm
de raízes profundas e longínquas
os olhos do poeta, pacientes
retinas vão abrindo, vê-se
nos seus olhos, nos cantos
é onde não parece
mas o poeta é livre, enquanto
escreve é como a flor silenciosa
os cantos do poeta, salvam-no
do olvido.
As paredes não prendem o olhar
aos cantos do poeta, voa
quando menos se espera o poeta
não está lá.

23/9/2010

terça-feira, setembro 28, 2010

Dança

Nunca conseguiremos ser perfeitos
uma ave
como um desenho de vento
um corpo a saltar
de estrela em estrela, um pas de deux
onde roda o universo, duas pernas
como ponteiros de um relógio
nunca conseguiremos o ângulo raso
da beleza.

24/9/2010

domingo, setembro 26, 2010

Esquecimento, Hart Crane

Esquecimento é como a canção
Que, livre de ritmo e medida, flutua
Esquecimento é como a ave cujas asas se encontram,
Distendidas e imóveis, --
Uma ave que rodeia o vento infatigável.
Esquecimento é chuva nocturna
Ou uma velha casa na floresta, -- ou uma criança.
Esquecimento é branco, -- pálido como a árvore desolada
E pode enganar as profecias da Sibila
Ou sepultar os deuses.
Eu posso lembrar muito esquecimento.

(Trad. de J.T.Parreira)

segunda-feira, setembro 20, 2010

Com o poder da mímica

Com o poder da mímica
inventarei um outro
que do lado de fora da prisão
dos dedos
encherá a minha solidão
O seu silêncio alegre
em círculos
caminhando, será o vento
que veste as minhas mãos
será um cavalo ou uma estrela
uma mulher num rio
será um outro
que corre de mim
e cresce, move e reina
num sorriso de menino.

16/9/2010

sábado, setembro 11, 2010

Poemas sobre as Crianças do Holocausto

POEMAS SOBRE FOTOS DAS CRIANÇAS DO HOLOCAUSTO,
para ler AQUI



A Marcha

A morte não deveria ser obrigatória
em marcha
nestes pequenos pés
Uma fila de olhos sem regresso
pequenas dimensões
onde só deveria estar a alegria
vão
sem reparar que é enganosa
a sua infância tranquila.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Tu sabes? (pergunta sobre o holocausto das crianças)

Poema inédito de Clélia Inácio Mendes

Tu sabes onde foram as crianças, Sabes onde estão?
Sabes porque se ouvem notas musicais de flautas
E ninguém dança…
Sabes porque há ainda marcas de anjos
No chão frio da tarde e delas nem traço?
Sabes das crianças, João aquelas crianças que espreitavam
Pelo arame pingado de sal de olhos
Debaixo do céu sem cor e trapos de silêncio
Por onde foram?
Senta-te um pouco na soleira da alma com a poesia na mão nua e a tinta
Do sangue nos caminhos por onde elas não passarão.
Aquelas por quem pergunto e não vejo, nem a sombra, nem o riso partido
Do espelho a que falta pedaços.
Eu fico também aqui sentada nesta pedra suja e gasta
Espreitando agora pelo arame pingado de sal, com os dedos crispados
E a boca despida de gritos.

quarta-feira, setembro 08, 2010

quinta-feira, setembro 02, 2010

Receita para fazer uma rosa

Uma abelha ou duas(...)
E a sépala, a pétala, e um espinho (...)
Eu tenho uma Rosa!


Emily Dickinson


Como se faz uma rosa, a rosa
imensa, com pequenos pólenes
salpicando o ar
A serenidade da pétala
com outra pétala, o amor
do estame vertendo
Dois saltos de abelha entre dois lábios
E toda a seda
que vem ao colo do vento.

18/7/2010

segunda-feira, agosto 30, 2010

Há fogo na Aldeia!



poema inédito do poeta Brissos Lino


Há fogo na aldeia!
debitam velhos urubus
de boca desdentada
atirando os olhos para longe
olha, olha! gritam os gaiatos
que brincam na rua
valha-nos Deus!
cospem os velhos sentados
à porta da taberna
na mornidão da tarde
enquanto os bombeiros correm
contra o tempo
e a dor. Nada que não se resolva
exclama o presidente
da Junta
cansados desta agitação soalheira
os velhos bebem mais um copo
os gaiatos voltam ao jogo da bola
os urubus tornam a baixar os olhos
ao tricot
e os bombeiros continuam
a correr contra o tempo
e a dor.

27/8/10

sábado, agosto 28, 2010

O Castanheiro de Ana Frank

Foto: El País.

Ana seguia as estações pelas folhas
do castanheiro, um detalhe
sem ruído
podia ver-se das janelas
vigiadas
o castanheiro de Ana Frank
o vento preso aos ramos
a primavera e o outono
o triste voo das folhas, podiam
ver-se desde a casa
de onde os olhos de Ana
na floresta, se evadiam.

25/8/2010
Publicado ineditamente no blogue do poeta Brissos Lino

segunda-feira, agosto 23, 2010

O suicídio do Poeta

"Fugido de alguma vigia de metro, cave ou sótão,
Um lunático precipita-se para os teus parapeitos"
Hart Crane, The Bridge of Brooklyn, trad. de João de Mancelos


Atraído pelas águas lavradas
pelo rasto de prata do navio
Hart Crane brilhou
no ar
Os bicos berrantes
das gaivotas ensaiavam
No Golfo do México
cortaram o espaço
entre as nuvens e a espuma
O dia derradeiro
Crane tomou-o nos seus braços.

28/7/2010

segunda-feira, agosto 16, 2010

Poesia para a Música: Schubert

Poema inédito oferecido pela Autora, minha amiga de infância.

A voz que ouvi não era o ramo que tombava breve
Na floresta
Era o suave toque de uma asa repentina ou mesmo um pássaro
Assustado que se escondia
A voz não era o ondular do piano mansamente
Na imensa sala dos meus olhos
Era um cheiro de terra e orvalho
Um sopro morno que abraçava e enlaçava o corpo
Lá nesse lugar onde a alma estremece.
Depois parou.
(Clélia Inácio Mendes)

sexta-feira, agosto 13, 2010

Uma bela viagem para Ítaca


Uma bela viagem deu-te Ítaca.
(Kaváfis)

Se pensas regressar a Ítaca
escolhe o amplo mar
não te percas nas esquinas
da tua mente, nos espelhos
que mostram o teu rosto
Vai como estás, tu apenas
és a única equipagem
Se partires um dia rumo a Ítaca
não penses
que o sal e o orvalho das manhãs
impedirão as cãs no teu cabelo

Não há Penélope nem Telémaco
que te esperem
nem cão, porque chegas contra o vento.

7/8/2010

Poema publicado originalmente (inédito) em A Ovelha Perdida

quarta-feira, agosto 11, 2010

Finalmente a Guerra

“E a guerra acabou sem chegar cá.”
(Manuel Alegre, Alma)


Finalmente a guerra
frenesim inusitado
quando mil sóis explodem
num tempo esconso
e o rasto dos cometas é vermelho
e fogo
o negrume passeia pelas caras
dos mancebos
o medo pendurado nos olhos
de mulheres e velhos
crianças que constroem castelos de lama
e faz de conta
na neve suja
entre estampidos e sorrisos
Era uma vez uma guerra anunciada
dizia-se que andava para lá
daqueles montes
mas morreu antes de chegar à aldeia
deste lado do mundo
a este cu de judas
nem uma guerra chega.

4/8/10
Inédito do poeta Brissos Lino

segunda-feira, agosto 09, 2010

Lição sobre como acabar um poema

ATÉ AO FIM

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

(Nuno Judíce)

terça-feira, agosto 03, 2010

O que disse o silêncio das pedras de Jericó


JERICÓ

Buzinas quebraram grossas muralhas
feitas de silêncio e soberba
nem os vigias cananitas conseguiram
saber a tempo o som telúrico
lançado contra as pedras
e evitar a destruição
as pedras de Jericó disseram
que passado um revolto Jordão
tudo é possível.

23/7/10


(Brissos Lino)

segunda-feira, agosto 02, 2010

Duas poiéticas que levam a obra a Abril



Se na poesia contemporânea portuguesa há dois poetas distintos no seu discurso poético e na sua poiética (o modo de construir seus poemas), são, sem dúvida, José Gomes Ferreira e António Ramos Rosa.

Aquele trabalhava a metáfora lírica, grande parte dos poemas inserindo-se mesmo no que poderíamos dizer proximidade do surrealismo, mesmo nos seus poemas cujos referentes eram Memórias, «Na infância da janela do primeiro andar/ aquela rapariga de corcel nos cabelos» ou «O sol corria/ nos bibes do vento»;

Ramos Rosa, por seu turno, está integralmente dedicado à poesia pura, e não encontro melhor exemplo do que o conteúdo do seu livro “Ocupação do Espaço”, e o das suas mais recentes obras. Poeta da linguagem, talvez o Saussure ou o Roman Jakobson das relações entre linguística poética e a ciência dos homens, uma antropologia no poema: «Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.» ou «tenho o coração confundido e a rua é estreita», «soletro velhas palavras generosas» «Não posso adiar o amor para outro século»
É interessante pois notar um pequeno poema de ARR cujos referentes são dois: Abril e o próprio Ferreira, o autor de Memória das Palavras. O gosto de falar de um poeta, fazendo-o crescer por detrás do sol, evocando-o profeticamente, sem a prisão cristalina e rochosa da Sibila (que não tem lugar na Poesia), como “homem de Abril”.
O mês de Abril sempre surgiu nos poetas com a força das suas próprias raízes, que despontam, ancestrais. Desde Chaucer ( When April with his showers sweet with fruit) a Withman, até ao definitivo “Abril é o mais cruel dos meses, gerando / Lilases na terra morta).

sexta-feira, julho 30, 2010

Ser herói no Alentejo

Ler Aqui

"Acaba de ser lançado o livro que inspirou José Saramago a escrever a obra «Levantado do Chão». Trata-se de um livro escrito por um camponês, analfabeto, mas que aprendeu a escrever para contar a vida enquanto trabalhador rural e relatar o sofrimento no campo alentejano. O manuscrito de João Domingos Serra foi parar às mãos de José Saramago quando este foi para Lavre, Montemor-o-Novo com a intenção de escrever um romance."

quinta-feira, julho 29, 2010

A Mosca


“no seu peito insuflou a coragem da mosca”
Ilíada 17.570

A águia não apanha moscas
— pois não, nem a poesia
não sabias? não haverá método mais prosaico?
mais indolor?
a mosca, cuja coragem foi outrora clonada no peito de Menelau
ah se tivesse aqui o Luciano — não o meu pai,
o outro, o de Samósata,
pedia-lhe ao menos um discurso
um arrebatado elogio
e um culto e rebuscado encómio
talvez conseguisse comover a sua inteligência
e apelar ao seu bom senso
mas o bicho danado, estúpida filha
de uma… mosca parideira
não deixa de importunar o condutor
de lhe zumbir o ângulo de visão
e lhe volitar à roda da cabeça, penetrar nos ouvidos
e na esfera dos olhos,
de lhe debicar a pele
e o condutor lá tem de descolar as mãos do volante
para atender às solicitações da fulana
pária da vida, invasora dos habitáculos alheios

— Bem, se não temos o Luciano,
temos o Parreira — intervém a Cristina
como é belo o senso prático das mulheres quando é preciso —
se não vai lá com discursos de prosa
dá-se outra estética,
a da mão que brande os versos e mede o livro
uma pancada de metáforas bem escandidas
e já era!
28/07/10
(Rui Miguel Duarte)

segunda-feira, julho 26, 2010

O Cão de Ulisses como outra Penélope


O VELHO CÃO DE ULISSES

o velho cão de Ulisses é outra Penélope
mas com olhos que enxergam
dentro dos olhos de quem olham
olhos que sabem descansar
numa almofada de serenidade
debruada a fidelidade
olhos gastos
que já viram tudo
mas recusam fechar-se
na desistência e não confundem
a casca com o fruto

aguardam com paciência
as alegrias do reencontro.


24/7/10
(Brissos Lino)

segunda-feira, julho 19, 2010

Frederic Chopin-Nocturne In E Flat Major, Op.9 Nº 2

Longo título que afasta no vento
uma pequena pena
Sobre as cores de um jardim voa
Branco excessivo
Desliza como se fosse
o próprio ar, a própria água
num silêncio rumoroso no ouvido.

17/7/2010

sábado, julho 17, 2010

António Ramos Rosa

O rejeitado do Prémio Nobel

António Ramos Rosa - A rejeição consciente de um lirismo

A arte literária encontrou no Século XVIII e IX a lírica como a mais poética forma de poesia, uma forma descentrada do mundo exterior, conhecido por fora pelos homens, para o mundo interior do próprio poeta. Este passaria a expressar-se perante o mundo com o lirismo da sua observação. O lirismo seria o que transformava as pedras em rosas, e estas em pães. Seria necessário um equilíbrio. Uma tensão entre o que se cantava e o objecto do próprio canto.

António Ramos Rosa, não apenas como grande poeta da língua, mas também grande pensador sobre o fenómeno da poiética e antologiador da valorização da nova poesia portuguesa (anos 60), apontou o lirismo nesta poesia ao escrever sobre poetas (Incisões Oblíquas, A poesia moderna e a interrogação do real I e II.), mas objectivamente e, como tal, conscientemente rejeitou-o, salvo melhor opinião.

O padrão das palavras que ARR emprega não é normativamente lírico, embora esteja nele a expressão pessoal do poeta. Estilo e expressão próprios do poeta. António Ramos Rosa interrogou o real de outro modo. Com uma Poética e uma Poiética pensada e elaborada. A sua palavra não era tributária do lirismo, mas era, segundo o seu próprio pensamento, uma palavra poética. “A verdadeira poesia ignora a afirmação fácil”, escreveu, por vezes a facilidade na poesia reveste-se da superfície do lirismo, este às vezes cega.

Poeta sempre na chamada, por ele próprio, “linha da sombra”, à partida da qual a claridade poética surge, “com a sua margem de indecisão, de interrogação, de acaso, de aleatório”. Exemplos de não submissão ao padrão do lírico? E de uma integração da plena verdade, nua e crua, poética?

“Não trago lâmpadas nem armas/Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte / é um dia baço como um pão”

“Escrevo versos ao meio-dia /e amorte ao sol é uma cabeleira/(...)/Estou vivo e escrevo sol”

No entanto, em um dos seus primeiros e mais conhecidos poemas inserto em o Grito Claro, de 1958, (poemas imagísticos no seu todo, mas não líricos), ligados ainda a um condicionalismo lírico-social, o poeta tem estes versos deliciosos em “O Funcionário Cansado”:

“o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
E debitou-me na minha conta de empregado”

E estoutro, de 1990, do livro O Sim e o Não, Um deus adormecido num jardim ( só o título do poema já carregado de lirismo):

“Eu vi o seu sorriso sob a sombra das folhas
E vi-o adormecer. Senti que mergulhava
em plácidas águas.Um tesouro
fulgurava entre as pedras e os limos”

Não ousaria dizê-lo, para terminar, mas sempre digo que a poética de ARR tem na sua magistral e única Poesia a presentificação da disciplina da Filosofia, hegeliana por suposto( basta ler Ocupação do Espaço). Perdoem-me este ensaio.

(Escrito em 17/7/2010, para o Grupo Leitores da Poesia de ARR, no Facebook)

sexta-feira, julho 09, 2010

As paisagens dramáticas de Turner

Uma breve écfrase à poética da sua pintura
***
Diz-se que Turner interpretou na tela todos os temas de uma forma épica. Diz-se que começou como pintor topográfico e pouco a pouco foi se inclinando para as paisagens, principalmente as marinhas. Escreveu-se dom de transfiguração poética, liberdade de composição, violência tonal (nos tons) para a fase final da sua obra, talvez a mais impressionante e universalmente conhecida.

A verdade é que ao transportar para as suas obras toda uma visão épica, uma minúcia dos topoi, e todo o seu ponto de vista sobre as cenas marítimas, Turner usou sobretudo a dramaticidade dos confrontos, da luz / sombras; calmaria / tempestades; céus prontos para acolher anjos ou demónios, consoante o dramatismo ou o lirismo das suas cores.

Não há estados melancólicos nos seus quadros, nem mesmo nos mais figurativos e livres do clima da aspereza e da tormenta. Paisagens carregadas de dramatismo, colorismo dramático, paisagens com um drama romântico que o próprio romantismo literário utilizou na poesia, embora estivesse a surgir o Realismo, a Revolução Industrial e o Romantismo prestes a ser sepultado.

Um realista? Sim, quando nos conduz ao cerne das tempestades marítimas, por exemplo, mas a sua paleta e a textura arrebatadora da conjugação das suas cores, sob a luz e as sombras, já prenunciava o Impressionismo; a fealdade bela de alguns dos seus quadros, porventura leva-nos um pouco mais longe, até ao expressionismo. E a aplicação da luz sobre as coisas, sejam os elementos da natureza, do céu e do mar, dos barcos ao trem a vapor, do Grand Canale calmo às tormentas, e o amálgama que disso tudo fez com a fulguração das suas cores misturadas e já sem formas definidas o colocaram sob a perspectivação do abstraccionismo avant la lettre, que, disseram críticos de arte, veio a surgir nas formas e nas cores fundidas, como nas obras de Kandinsky e de Paul Klee.

Nas telas de Turner, que nos colocam diante da rudeza dos elementos naturais, os seus redemoinhos não são de água, nem de ventos, são de luz, assim toda a teoria anterior da paisagem convencional estava subvertida. Não haveria já lugar para a mimésis aristotélica, mas para a criação pura e simples de algo novo, a que o vocábulo hebraico “bara” serviria, não fosse o exagero do seu uso neste caso. William Turner foi um intérprete das atitudes agónicas, não se pode afirmar que as suas interpretações pictóricas não sofram de passionalidade. Turner pintou a exaltação da natureza, no que ela tem de mais agreste e de mais anti-paixão.

Foi essencialmente um poeta da cor, dos confrontos entre luz e sombras (não trevas), um poeta das tempestades. Não pintava formas, mas estados de cor, atmosferas exteriores da natureza, névoas com conteúdos.


Publicado como inédito em http://ab-integro.blogspot.com/

sábado, julho 03, 2010

Acendo a boca




De gabardina, acendo a boca num cigarro.

(Gregory Corso)


Acendo a boca
num cigarro curto
como quem engatilha o revólver
numa esquina sombria

acendo a boca
num grito mudo
como quem fala para dentro de si
em grego

acendo a boca
num beijo único
alheio à paisagem urbana
mas capaz de tudo
e de nada

acendo a boca
numa gargalhada quente
inesperada
e estremeço a rua como se espirrasse
por via de uma alegria
violentamente incontida.

2/7/10

(Brissos Lino)