domingo, outubro 30, 2011

Se me tirar os olhos

Se me tirar os olhos, não ficarei
no entardecer
nem me perderei no caminho
com os meus dedos irei
sob o fogo azul do sol
tocar ainda os rostos que conheço
Se me tirar os olhos
poderei sonhar para dentro
tal como a água terna das lágrimas
começa antes no fundo inominável

Se me tirar os olhos
todas as coisas
serão cores que ouvirei
nos sons que conheço, um neto
afundando a cabeça no meu peito
será uma canção
entre um pássaro e outro pássaro
sentirei o vento do seu voo
e assim o que agora não vejo
em todas as coisas tornar-se-á claro.

6/04/2011

sábado, outubro 22, 2011

quinta-feira, outubro 20, 2011

Encontro de poetas no Rio de Janeiro

Os poetas Rui Miguel Duarte e Sammis Reachers, encontraram-se no Rio de Janeiro, e trocaram livros, que levavam na bagagem, um desses livros é do autor deste blog. Ler Aqui.

terça-feira, outubro 18, 2011

CONVITE



Dias 27 de Outubro 2011 em Vigo e 28 em Pontevedra, às 20:00, na Sala Versus de La Fundacíon Cuña- Casasbellas.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Olhos Suspensos




“olhos pretos parados pela fome”
(José Lins do Rego)


Olhos suspensos por fios invisíveis
feitos de esperas longas
que lançam a noite ao meio-dia
em todas as direcções
o que verão eles? São azeitonas a aguardar
o lagar do sacrifício
uma espécie de altar ao deus que já foi
do desespero
e agora é só da resignação. Como a folha
que sabe que vai cair
porque é Outono.


10/17/11

Inédito de Brissos Lino

sexta-feira, outubro 07, 2011

Olhares: Uma Intertextualidade


OLHARES ITALIANOS

Vem à superfície das ondas
cinzentas
o branco da sereia

Como uma linha perfeita
de um caule amanhecido
ou uma linha de horizonte
vertical
para onde os olhos nas órbitas
rodam em cardume

É uma estátua sem sombras
passa, como a aurora
sem deixar provas, só indícios
de um perfume.

4/10/2011

A propósito deste poema, o meu amigo e poeta (residente do Blog), Brissos Lino, propôs o seu olhar, numa intertextualidade mais crua, com uma prosopopeia quiçá mais "erótica", num poema inédito.


OS CÃES OBSERVAM A PRESA

os cães observam os meneios da presa
atentamente
estranham a sua falta de cuidado
com os predadores
aprenderam cedo que os animais selvagens
emboscam a caça
esta nunca vem ter com eles de passo firme
no alto da sua alvura
e de cabeça erguida como provocação
a abrir caminho mesmo no meio da matilha

confundidos nem sabem o que fazer às mãos
e aos piropos do costume
escondem-se atrás de um cigarro
de boca cerrada
num ensaio de sorriso estranho
e num silêncio incómodo
sem acção para nada.

6/10/11

Brissos Lino



quinta-feira, outubro 06, 2011

Os Ossos do Poeta


Federico Garcia Lorca não pôde morrer como desejava. “Cuando yo me muera, / enterradme com mi guitarra / bajo la arena.”

A percepção da morte próxima no Poeta granadino acompanhava-o, sobretudo no início da década que viria a ser a do Grande Crime da Espanha franquista. Saberia ele que o pressentimento “é a sonda da alma no mistério”, nariz do coração e bengala de cego, “que explora en la tiniebla del tiempo”.

La muerte me está mirando

desde las torres de Córdoba

Ay que la muerte me espera,

antes de llegar a Córdoba.

Não obstante esse desejo e este olhar poético, diria um olhar muçulmano da morte sobre ele, Lorca escreveu que “um morto em Espanha está muito mais vivo enquanto morto que em qualquer outra parte do mundo: o seu perfil fere como lâmina de uma navalha de barba”.

É o caso de Lorca, apesar do seu rosto, desenhado por Salvador Dali, ferir, não tanto como lâmina, mas como um tumulto.

Desde logo, a partir das Canciones e do Romancero Gitano (traduzido e apresentado em finais de Setembro passado em Londres sob o título Gypsy Ballads) ao teatro, com duas peças que são lâminas: Yerma e Bodas de Sangre,duas peças de culto, míticas no que recuperam da tragédia grega para o século XX, tanto quanto A Casa de Bernarda Alba repleta da paixão que a solidão colectiva produz.

O caso de Lorca, passados 75 anos do seu assassinato, está cada vez mais no domínio do inefável, do que não pode ser dito, está no âmbito do Mito incontornável.

A verdade é que nos resta o mito, quando não se encontram os ossos do poeta. O próprio Garcia Lorca o criou, duma forma profética num poema de “Poeta en Nueva York”.

Fábula y rueda de los tres amigos” contém 6 versos, num conjunto de toada repetitiva de 70 versos, que são o registo da premonição sobre a própria morte, numa tensão que se revelaria, apesar do seu lirismo surrealista, profundamente profética.

São paradigmáticos, estes versos: por mi muerte desierta con un solo paseante equivocado”, o Poeta, de madrugada, fuzilado diante de um muro, sem companhia na sua morte; “ comprendí que me habían asesinado.”

Recorrieron los cafés y los cementerios y las iglesias.

Abrieron los toneles y los armarios.

Destrozaron tres esqueletos para arrancar sus dientes de oro.

Ya no me encontraron.

É, no entanto, distante do objecto da composição lorquiana o aparente sentido do seu título: “Fábula e rueda de los tres amigos”; referem os analistas da obra de Lorca que o primeiro título era o mais adequado: “Primera fábula para los muertos”. A descrição surrealista do mundo da morte e o sentimnto de dor do poeta perante a sua própria morte e a da cidade de Nova Iorque – creio que aqui não nos devemos esquecer da data 1929-1930, da queda Wall Street, da Grande Depressão. Há também o motivo -diz-se nas biografias do poeta granadino- da perda de um amor, que o terá levado por um ano à Universidade de Columbia e a Cuba, e o acento do poema ( como um canto dançante) em torno de três amigos:

Enrique,

Emilio,

Lorenzo.

Estabam los tres enterrados

Estes aparecem numa foto, junto do poema no próprio livro (*), como travestis (“estudiantes bailando, vestidos de mujer”), o que nos pode levar a pensar na orientação do amor perdido de Lorca. Mas isso é outra história.

(*) Poeta en Nueva York, Catedra Letras Hispánicas, 5ª Edicion, Madrid, 1992.


© 5/10/2011

quarta-feira, outubro 05, 2011

A Língua Solta de Einstein


Dizia o velho sábio que
o mais importante em Einstein
não era o cérebro
nem a arte de tocar violino
era a língua
aquela língua atrevidamente solta
a saltar fora da boca
direita às sanguessugas mecânicas
providas de flash
uma provocação que lhe ligava o génio
ao imaginário infantil
a parte mais humana de si
e não fosse a língua solta de Einstein
quase ninguém saberia do génio
da teoria da relatividade
do violino
e de tudo o mais.
4/10/2011

Poema inédito de Brissos Lino



domingo, outubro 02, 2011

O rapaz do pijama às riscas


O rapaz do pijama às riscas
senta-se num banco de cimento
numa casa hermética
no cimento
e sela com a sua mão a mão
de outro rapaz
ambos livres do pijama às riscas
agora no silêncio da nudez.

1/10/2011

terça-feira, setembro 27, 2011

Pequeno Monólogo de César Vallejo

Digo como disse no Café
de la Regencia quando entro, é o pó
imóvel que fica de pé, entre meus lábios
um cigarro ligado a um fio
de fumo, “importa que el otoño
se injerte en los otoños”,
e que chova em Paris para torcer
eu César Vallejo a chuva
entre meus dedos, esta água que cai
cor de cinza como o céu sobre a cidade:
e digo “Me moriré en París com aguacero”.
Volto a mergulhar nas ruas húmidas
que aguardam poças, como estrelas
que fumegam pelo chão, enquanto
nos olhos uma água arde.

26/9/2011




segunda-feira, setembro 26, 2011

O Marroquino


(depois de ler Tahar ben Jelloun )

Dizia que tudo estava ali, e abria
o livro com delicadeza, Alcorão
contra os lábios, contra o coração
nos lábios, dizia que tudo estava ali
envolto num pano branco, limpo
das poeiras e do ar
frio que cai pelas paredes
todos os dias
lhe limpava o pó e o silêncio.

25/9/2011

segunda-feira, setembro 05, 2011

Cambridge, Primeiras Impressões, Gregory Corso




5


Cansado de andar
cansado de ver nada
olho por uma janela
pertencente a alguém
bastante amável para me deixar olhar

E de uma janela Cambridge não é assim tão má
É uma grande sensação saber
que a partir de uma janela

posso ir aos livros a um amor antigo e às latas de cerveja
E de tudo reunir o sonho suficiente
para me esgueirar pela porta das traseiras



Trad. J.T.Parreira

sexta-feira, agosto 26, 2011

O Sino Solene


O sino solene navegou como nuvem
à tona das casas
o som cavo arrastou-se indolente
pelos telhados da aldeia xistosa
escorreu pelas paredes
como a pachorra das vacas
nas horas de calma
(ao longe parecia até o urro de um animal ferido
possante e persistente)


foi então que o povo devolveu o eco
como murmúrio de vizinhas.
Tinha morrido o senhor abade.


26/8/11
Inédito de Brissos Lino

segunda-feira, agosto 15, 2011

O Último Cavalete de Rembrandt

Um espelho sem moldura
guarda entre a prata e o vidro
um silêncio

uma cama simples
para começar
as surpresas do sonho

um lugar vazio
de uma cadeira partida, uma mesa
magra, rústica, vítima da fome

o último quadro
de onde os olhos de Rembrandt
jamais regressam.

15/8/2011

sábado, agosto 13, 2011

Testamento do pintor Van Rijn


Algumas roupas de linho
ou lã, minhas coisas de pintor
lições de anatomia
para chegar
dos tendões às artérias
da alma, alguns quadros
que riscarão para sempre
a mediocridade
da história da pintura.

13/8/2011

quinta-feira, agosto 04, 2011

Árvores São Estandartes

Poema inédito de Brissos Lino

árvores são estandartes na planície
espetados na linha do horizonte
como se a terra ali morresse
ensaiam custosa subida aos céus
num tempo sem tempo
seduzem-nos a trepar também
como Éolo
a soprar uma nuvem branca

de caminho olhamos os ninhos
como se fôssemos pássaros
e em baixo os homens
feitos formigas dispersas
desordenadas
à toa.

2/8/11

sábado, julho 30, 2011

A Máquina de Escrever Azul

A máquina ao escrever azul, escreve
também estrelas, quando é preciso
salientar qualquer verdade
em rodapé, no limiar
dos dedos a máquina espera
para escrever um pássaro
enquanto o poeta passa
os seus olhos pelas cores
também escreve barcos
de quilhas rasuradas pelo mar
a máquina de escrever
tanto azul
é quase um universo.

30/7/2011

quarta-feira, julho 27, 2011

Mulher de Azul lendo uma carta

The painter's vision is not a lens, It trembles to caress the light
Robert Lowell

Diziam
que a visão do pintor
não é uma lente, que tremia
ao roçar pela luz, pelo corpo
vestindo-o
de um céu azul

Vermeer pincelou o sol
na parede, cobriu
os olhos
da sólida mulher
que atravessam para longe
cada palavra que lê.

26/7/2011

quinta-feira, julho 21, 2011

A minha pequena Siamesa


As manhãs não entrarão mais
na sonolência dos teus pequenos olhos
os insectos agora
na casa estarão tranquilos
os saltos
que davas na plenitude
do teu corpo, precocemente parados
não envelhecerás como o tapete
da cozinha, azul
sob o qual logravas te esconder
Eu olho para o silêncio
que deixaste por trás dos móveis.

21/7/2011

domingo, julho 17, 2011

A Guerra

Quando as botas se gastaram
a guerra
acabou, era o tempo
para lembrar a casa
destruída, sem quarto
para o pranto, os filhos
sem sapatos, sem um
nome
quando as botas se gastaram
nossos pés nus não
se distinguiram das pedras.

17/7/2011