sábado, outubro 30, 2010

Hiroshima, Meu Amor


Não, tu não viste nada em Hiroshima
o sol explodindo nos olhos, dentro
da tua cabeça sombras
Tu não viste nada a acontecer
o nada de Hiroshima, nem a fissão
do Amor
Nada viste em Hiroshima
Dez mil sóis de temperatura
a cobrir a morte
como um lençol de cinza.

29/10/2010

Cinco poetas de entre os rios

"Tenho pousado o ouvido sobre o coração/ da terra. /Falava de amor, do seu amor/pela chuva,/ a terra." - Sherko Bekas, poeta da resistência curda.

Ouvintes das línguas árabes, tanto a língua dos média, como a do Corão, não consideramos que as mesmas sejam muito felizes para a fala poética.
O idioma árabe, de um modo geral, é áspero e gutural, mas a significação e a intimidade das palavras podem ser preciosas e então, como diria o poeta William Carlos Williams, ouve-se o sentido, quer seja em tradução para o português, inglês ou o italiano.
Os versos com os quais abrimos este artigo, sugerem-nos essa dimensão em que o sentido se transforma em sentimento da pátria, embora nos apareçam numa terceira língua de chegada (foram traduzidos do italiano).
A forma expressiva, até a irregularidade da sua métrica, seja como for propiciam o cântico, e, sobretudo, não se distanciam dos recursos da poética moderna. O seu autor, Sherko Bekas, nascido em 1940, ministro da Cultura da Região autónoma do Curdistão iraquiano em 1992, reúne na sua actividade poética o lirismo e a luta da resistência curda, o som telúrico de alguma da sua poesia não evidencia nenhum desusado bucolismo, é mais poesia para preparar a terra para um combate pela identidade.
Ibrahim Ahmad, considerado o maior romancista curdo contemporâneo, ao definir a poesia da nação curda e iraquiana, stricto sensu, abriu-lhe um amplo leque de abrangência de géneros que radicam na poesia mística, apologética, satírica, na poesia de amor, nos cânticos do matrimónio, das festividades e do luto. Uma poesia de liberdade também, que vem já de antes do império otomano e seguiu depois da dissolução deste e do Curdistão nos últimos 80 anos, com os vários géneros poéticos disseminados no Iraque, principalmente.
Também esse escritor, enquanto poeta elabora sobre uma poética de identificação com a terra - "Juro sobre este Curdistão de mil cores/sobre esta terra que é o meu paraíso", estabelecendo a identidade de um Pesh merga que resiste aos invasores da sua pátria. Os "resistentes" curdos, como a própria expressão Pesh merga indica, estão sempre de fronte erguida para a morte.

Não vou viver como servo
pleno de vergonha e ira.
Salvarei o meu país, o meu povo
com a vida pagarei a liberdade.
Não ferirei,nem usarei armas.

Vencerei ou morrerei.

Mas na sua língua poética, a poesia curda comunica entre si outro género de preocupações de origem filosófica, quando não mesmo radicadas num sentido histórico religioso.
De facto, preocupações ontológicas e metafísicas aliadas às raízes da ancestralidade. Por exemplo, sobre o bíblico Jardim do Éden, verde, num vale escondido do rio Tigre, rico em água, plantas e animais, na que foi a Alta Mesopotâmia onde esteve a primeira aldeia do mundo, e que se transformou num deserto por culpa de sistemáticos etnocídios – segundo a opinião de Laura Schrader, jornalista que desde 1975 denuncia as trágicas condições do povo curdo e tem dado a conhecer a sua cultura e os seus trabalhos poéticos.
"Somos roseiras nos vinhedos do paraíso do Oriente/ somos o sol que arde na escuridão da noite/ (…) somos o Eufrates, que brota de remotos milénios" - Sheikhmus Husayn, um dos poetas já falecido e mais amado no Curdistão Setentrional, autor de 7 volumes de poesia, que assinava com o pseudónimo de Gegherxuin (Coração Destroçado).

"Súplicas, salmos, ex-votos brindámos nessa hora
Pão, vinho e tâmaras da Babel embriagante
E de rosa o encanto
Logo aos teus olhos orando, oferenda imolámos
Da lágrima ardente em dilúvio as gotas juntámos
–Um rosário de pranto." – Cânticos à Dor, de Nazik Al-Malaika

Desta poetisa, nascida em Bagdade em 1923, a poesia tomou o rumo dos caminhos da introspecção ontológica, levando o pessimismo poético quase ao limite de uma linguagem filosoficamente estóica, de suporte de uma dor intensa, mas também intensamente lírica.
Nazik é a poetisa da tragédia da vida. No entanto, quando publicou a sua primeira antologia há mais de 50 anos, ao utilizar o vocábulo "noite", tornou-o símbolo de poesia, imaginação, sonho, beleza das estrelas, do prodígio do luar sobre o bruxuleante Tigre.

Outros poetas do Iraque, a maioria vivendo no exílio – diz-se que na década de 90 ficaram apenas cinco a residir no país – contudo escrevem uma poesia que caracterizou o estilo poético iraquiano, o qual é classificado desde o tradicional ao moderno, passando pelos limites do experimental, com temas que cobrem territórios comunicacionais como o amor, a guerra, as antigas sanções da ONU, o fascismo, a tortura, a prisão, o exílio, etc.
De resto, desde 1960, que os poetas iraquianos mais conhecidos (aqueles dos quais procuramos aqui dar notícia) introduziram na sua poética um novo imagismo, novas métricas e sensibilidades, como os poetas de todo o mundo.
Sempre visível, porém, a intertextualidade e uma espécie de vasos comunicantes, nos poemas comprometidos, nos cânticos populares e na poesia chamada de autor, alimentando no fundo uma poética com a marca da identidade de quem luta para manter intacta essa mesma identificação com uma cultura, património da humanidade.
A poesia de Latif Hamet, outro poeta Pesh merga, testemunha esse sentido de uma luta que nos parece ancestral, telúrica e, nem por isso, desprovida de lirismo universal, ainda que seja uma poética datada e muito regional:

Eu vou mãe.
Se não regressar,
serei flor desta montanha
torrão de terra
para um mundo
maior do que este
(…)
Eu vou mãe.

Se não regressar,
a minha alma será palavra
para todos os poetas.

quarta-feira, outubro 20, 2010

As mãos de Lascaux

As mãos de Lascaux estendem-se
até aqui, pequenas
marcas deixadas para trás
desde o fundo da terra
as mãos de Lascaux
não vemos, mas repartem o silêncio
que a pedra não fechou
Não se chamam mãos
chamam-se vento, amor e água
e medo
também penso em universo
embutido na parede.

16/10/2010

terça-feira, outubro 19, 2010

A Rosa de Milton

“E a rosa sem espinhos”
John Milton, (in Paraíso Perdido)
A rosa de Milton que passou
o veludo pelo rosto
tocando à vez o rosto e a noite
do Poeta, branco no branco, a flor
silenciosa
inundou de odor por fora
as demais coisas
que só a alma de Milton tocou.
16/10/2010

quarta-feira, outubro 13, 2010

As Luzes ao Fundo

Estaria perdido se ao longe
não visse
as luzes da costa, lanço
os meus olhos na corrente da noite
os meus olhos como âncoras
e da noite furto o seu instinto
do equívoco

Prouvera a Deus que a distância
entre a minha janela e a costa
não seja ilusória e não perca
o momento de encolher a saudade
e nas areias erguer um padrão
e pôr nos lábios
o meu coração como um tambor.

12/10/2010

segunda-feira, outubro 11, 2010

A poética da Expulsão (do Paraíso)

NO PARAÍSO

Poema inédito do poeta residente Rui Miguel Duarte

“no Paraíso, estive à beira de todas as cores
quando as manhãs acordaram nos meus olhos”
J. T. Parreira, “Expulsão do Paraíso”

Percorridos todos os limiares
e arestas negras, as artérias de granito
em vez da ondulação dos teus cabelos
trocadas as tuas carícias por um grito

culpados de todas as traições
de nos acolhermos ao colo de um pai estranho
extraviados da sabedoria de todas as cores
que falavam das manhãs acordadas de antanho

esquecidos das brisas lentas
das conversas sob as árvores ao fundo
da tarde, restou-nos a sombra do teu vulto
projectada como noite sobre o mundo

Mas na tua carne e no teu sangue
rasgaste para sempre a distância a frio
depusemos então as saudades à soleira da porta
reaprendemos então a alegria da Tua voz de rio

7/10/10

quinta-feira, outubro 07, 2010

Mario Vargas Llosa, Nobel da Literatura


A Academia Sueca, apesar de surpreender sempre, umas vezes pela negativa, desta feita redimiu-se e, contra todos os prognósticos e profecias da Sibila, escolheu a Língua de Cervantes.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Nos cantos onde o poeta escreve

Poetas Brissos Lino e JTP, e o Maestro Pedro Duarte.
Poema a quatro mãos:

Nos cantos onde o poeta sofre
caminheiro de estranhos mundos
prenhes de perfumadas vibrações
sente-se a ressonância dessa ternura
doce e leda
nos cantos onde se escondem silenciosos
olhos infantis que esperam
a construção das horas
por aí se observam inesperados
interstícios do coração
e se acoberta a fantasia breve
dos homens livres
quando o vale de ossos secos
de papel
uma simples folha branca se agita e revolve
como súbito canavial
por entre sombras impolutas
e gritos de dar à luz
então o poema nasce
formoso
e não seguro.

22/9/10
(Brissos Lino)

No recanto sob a palidez da luz
em que as palavras no papel navegam
os cantos do poeta
são o mundo, numa folha
há conversas
que são frutos dos lábios, mas vêm
de raízes profundas e longínquas
os olhos do poeta, pacientes
retinas vão abrindo, vê-se
nos seus olhos, nos cantos
é onde não parece
mas o poeta é livre, enquanto
escreve é como a flor silenciosa
os cantos do poeta, salvam-no
do olvido.
As paredes não prendem o olhar
aos cantos do poeta, voa
quando menos se espera o poeta
não está lá.

23/9/2010

terça-feira, setembro 28, 2010

Dança

Nunca conseguiremos ser perfeitos
uma ave
como um desenho de vento
um corpo a saltar
de estrela em estrela, um pas de deux
onde roda o universo, duas pernas
como ponteiros de um relógio
nunca conseguiremos o ângulo raso
da beleza.

24/9/2010

domingo, setembro 26, 2010

Esquecimento, Hart Crane

Esquecimento é como a canção
Que, livre de ritmo e medida, flutua
Esquecimento é como a ave cujas asas se encontram,
Distendidas e imóveis, --
Uma ave que rodeia o vento infatigável.
Esquecimento é chuva nocturna
Ou uma velha casa na floresta, -- ou uma criança.
Esquecimento é branco, -- pálido como a árvore desolada
E pode enganar as profecias da Sibila
Ou sepultar os deuses.
Eu posso lembrar muito esquecimento.

(Trad. de J.T.Parreira)

segunda-feira, setembro 20, 2010

Com o poder da mímica

Com o poder da mímica
inventarei um outro
que do lado de fora da prisão
dos dedos
encherá a minha solidão
O seu silêncio alegre
em círculos
caminhando, será o vento
que veste as minhas mãos
será um cavalo ou uma estrela
uma mulher num rio
será um outro
que corre de mim
e cresce, move e reina
num sorriso de menino.

16/9/2010

sábado, setembro 11, 2010

Poemas sobre as Crianças do Holocausto

POEMAS SOBRE FOTOS DAS CRIANÇAS DO HOLOCAUSTO,
para ler AQUI



A Marcha

A morte não deveria ser obrigatória
em marcha
nestes pequenos pés
Uma fila de olhos sem regresso
pequenas dimensões
onde só deveria estar a alegria
vão
sem reparar que é enganosa
a sua infância tranquila.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Tu sabes? (pergunta sobre o holocausto das crianças)

Poema inédito de Clélia Inácio Mendes

Tu sabes onde foram as crianças, Sabes onde estão?
Sabes porque se ouvem notas musicais de flautas
E ninguém dança…
Sabes porque há ainda marcas de anjos
No chão frio da tarde e delas nem traço?
Sabes das crianças, João aquelas crianças que espreitavam
Pelo arame pingado de sal de olhos
Debaixo do céu sem cor e trapos de silêncio
Por onde foram?
Senta-te um pouco na soleira da alma com a poesia na mão nua e a tinta
Do sangue nos caminhos por onde elas não passarão.
Aquelas por quem pergunto e não vejo, nem a sombra, nem o riso partido
Do espelho a que falta pedaços.
Eu fico também aqui sentada nesta pedra suja e gasta
Espreitando agora pelo arame pingado de sal, com os dedos crispados
E a boca despida de gritos.

quarta-feira, setembro 08, 2010

quinta-feira, setembro 02, 2010

Receita para fazer uma rosa

Uma abelha ou duas(...)
E a sépala, a pétala, e um espinho (...)
Eu tenho uma Rosa!


Emily Dickinson


Como se faz uma rosa, a rosa
imensa, com pequenos pólenes
salpicando o ar
A serenidade da pétala
com outra pétala, o amor
do estame vertendo
Dois saltos de abelha entre dois lábios
E toda a seda
que vem ao colo do vento.

18/7/2010

segunda-feira, agosto 30, 2010

Há fogo na Aldeia!



poema inédito do poeta Brissos Lino


Há fogo na aldeia!
debitam velhos urubus
de boca desdentada
atirando os olhos para longe
olha, olha! gritam os gaiatos
que brincam na rua
valha-nos Deus!
cospem os velhos sentados
à porta da taberna
na mornidão da tarde
enquanto os bombeiros correm
contra o tempo
e a dor. Nada que não se resolva
exclama o presidente
da Junta
cansados desta agitação soalheira
os velhos bebem mais um copo
os gaiatos voltam ao jogo da bola
os urubus tornam a baixar os olhos
ao tricot
e os bombeiros continuam
a correr contra o tempo
e a dor.

27/8/10

sábado, agosto 28, 2010

O Castanheiro de Ana Frank

Foto: El País.

Ana seguia as estações pelas folhas
do castanheiro, um detalhe
sem ruído
podia ver-se das janelas
vigiadas
o castanheiro de Ana Frank
o vento preso aos ramos
a primavera e o outono
o triste voo das folhas, podiam
ver-se desde a casa
de onde os olhos de Ana
na floresta, se evadiam.

25/8/2010
Publicado ineditamente no blogue do poeta Brissos Lino

segunda-feira, agosto 23, 2010

O suicídio do Poeta

"Fugido de alguma vigia de metro, cave ou sótão,
Um lunático precipita-se para os teus parapeitos"
Hart Crane, The Bridge of Brooklyn, trad. de João de Mancelos


Atraído pelas águas lavradas
pelo rasto de prata do navio
Hart Crane brilhou
no ar
Os bicos berrantes
das gaivotas ensaiavam
No Golfo do México
cortaram o espaço
entre as nuvens e a espuma
O dia derradeiro
Crane tomou-o nos seus braços.

28/7/2010

segunda-feira, agosto 16, 2010

Poesia para a Música: Schubert

Poema inédito oferecido pela Autora, minha amiga de infância.

A voz que ouvi não era o ramo que tombava breve
Na floresta
Era o suave toque de uma asa repentina ou mesmo um pássaro
Assustado que se escondia
A voz não era o ondular do piano mansamente
Na imensa sala dos meus olhos
Era um cheiro de terra e orvalho
Um sopro morno que abraçava e enlaçava o corpo
Lá nesse lugar onde a alma estremece.
Depois parou.
(Clélia Inácio Mendes)