domingo, maio 02, 2010

O poeta diz o poema

O poeta dirige os ritmos cardíacos
dos ouvidos
onde entra seu poema
Com os cinco dedos da mão direita
modela o silêncio, é um Cícero
na majestosa mão erguida
O poeta segura a cascata
de águas limpas do livro
não tem pressa, é preciso
que as palavras se respirem.

29/4/2010

(inicialmente publicado no Facebook)

quinta-feira, abril 29, 2010

O poeta: «Quero dizer um piano»

Poema inédito do colaborador/poeta residente Brissos LinoQuero dizer um piano
na tua boca
aconchegar-te uma intenção de amor
sobre o peito
sussurrar-te aos ouvidos
uma bela canção napolitana
até chegar a ver uma flor amarela
envergonhada
a boiar nos teus cabelos

quero depositar-te o Sol no regaço

e depois esperar toda a sinfonia
que escorrerá
dos teus olhos.

21/4/10


(Brissos Lino)

sábado, abril 24, 2010

Abri o livro


Abri o livro e afundei-me nele
(bem que me tinham avisado
que era objecto perigoso)
só na última página consegui
vir à tona
e os que me esperavam ansiosamente
admiraram-se
com o meu sorriso enigmático
de peregrino
de outros mundos.
23/4/10

(Brissos Lino)

quinta-feira, abril 22, 2010

terça-feira, abril 20, 2010

EYJAFJALLAJOKULL


poema inédito do poeta Brissos Lino

Rugem demónios de fogo
na ilha gelada
a revolta telúrica brada
aos céus
recorrentes indignações

e essa tosse cavernosa e doente
das entranhas
esse cuspir insistente
de braço dado com Éolo
perturba o voo das aves
e dos pássaros de ferro
no mundo dos homens.

20/4/10

(Brissos Lino)

domingo, abril 18, 2010

A beleza a descer a rua

Foto Lisete Model, via papel de rascunho

Dança Pavlova quando passa
Seus pés como lírios do campo
ondulam ao vento, alparcas
aladas de outro tempo

Bebem seus olhos o bulício
das manhãs nas ruas

A rapariga anónima
que estende pelo ar
a sua pressa
e um perfume

Nenhum relógio pára
ou desconta esse momento
da gaia-beleza.
9-4-2010

Inédito originalmente publicado em A Ovelha Perdida

segunda-feira, abril 12, 2010

As ovelhas de Wales

Repousam as bocas na erva
parece um segredo
aos ouvidos da terra
as ovelhas de Wales conhecem
o veludo verde
que estão a respirar
onde o vento deposita
o cheiro
íntimo do mar.

11/4/2010
(fotografia de Jónatas Moutinho)

segunda-feira, abril 05, 2010

A ode chamada marítima


«Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!»
Álvaro Campos


Dispondo do vento sobre o papel
e do cheiro a oceano que vem
do meio da multidão
das águas, sozinho, em pé
no baloiço do meu próprio corpo
escrevo como outrora o hebreu
à beira do Eufrates
e o que choro é um
choro nítido a meu modo
ao cair das tardes
no cais molhado de gaivotas
deserto, pequeno e sem viagens.

2-4-2010

sábado, abril 03, 2010

Revista: trimestrale di conversazioni poetiche

Annelisa Addolorato, Fabiano Alborghetti, Andrea Amoroso, Natasha Bondarenko, Barbara Cannetti, Giampaolo De Pietro, Valeria Di Clemente, Alessandro Ghignoli, Claudio Pagelli, Marina Pizzi, Gabriele Quartero, Silvia Redente, Alessandra Sciacca Banti, Maeba Sciutti, Anna Velieri, voci sul numero
di Aprile 2009
di “π -trimestrale di conversazioni poetiche”.
Revista com poemas de Alessandra Sciacca Banti, poeta e docente universitária em Pisa, e tradutora do meu livro inédito O Regador/ L'Innaffiatoio, para a língua italiana.

sexta-feira, abril 02, 2010

Farol da Barra como espada que corta a noite

Farol da Barra, postal década de 70


“Faróis? São os gumes
da espada
que corta a noite”
J. T. Parreira, in “O que disse p poeta a propósito de faróis”

Uma noite após outra
cadente em gomos
das gavetas do breu
observamos como
a espada de luz
do farol
corta e disseca

longe lá longe
emergindo na distância
sobre a côdea
escura do mar
a ponta da espada
resvala a passagem
dos navios

e nós,
como gotas aspergidas
de espuma do mar
ou como pingos
de noite
à sombra da altura
do farol
sentados na praia

30/03/10

(Rui Miguel Duarte)

domingo, março 28, 2010

Para onde voa um pardal encalhado

Créditos da foto:olhares.com, by Dolly

Poema inédito para o Salutor, do poeta Brissos Lino


“(…) é um simples
pardal encalhado.”(J.T.Parreira)

Para onde voa um pardal encalhado
na seara urbana de telhas sujas
avermelhadas
e chaminés ausentes?
que cores vivas lhe poderão magnetizar
o bico delicado
por entre a floresta de antenas
metálicas

se um musgo aqui e ali
ou uma flor selvagem nos beirais
podem esconder felinos perigos
na primeira esquina
de um terraço.

27/3/10

(Brissos Lino)

quinta-feira, março 18, 2010

Poema do suicida cansado

A árvore estreitou-lhe a sombra
os braços
confundiram o corpo
e agarram a vida

Muita coisa se adivinha
como o sol amplo
no mar ocidental
a pura imagem da luz
no rosto
que se esconde
inebriado pelo azul ainda

do avesso a carta
dá uma razão
envergonhada.
Publicado ineditamente no blog A Ovelha Perdida

segunda-feira, março 15, 2010

A Morte não me encontrou

Poema inédito de Brissos Lino


“a morte não me encontrou” (Mia Couto)

Nunca andei fugido
nem escondido
nem dissimulado na paisagem
mas consta que a morte passou por mim
sem me reconhecer

talvez queira jogar comigo
uma partida de xadrez
como num filme de Bergman

não a percebi, talvez
porque não a temo
estou sem tempo para a acolher
no sótão
das minhas cogitações.

15/3/10

(Brissos Lino)

sexta-feira, março 12, 2010

Irena Sendler

Salvas por uma pequena mão
maior que o corpo
a mão
que escondia
as crianças judias

esperavam brincar
na palma azul
da mão infinita

espreitavam em buracos
dentro de malas, ao lado
do sol
em caixas do lixo
pequenos cordeiros calados
na sua inocência.

12/03/2010

quinta-feira, março 11, 2010

As mesmas teclas de Eugénio de Andrade



Tu já tinhas um nome e eu não sei

se eras fonte ou brisa ou mar ou flor

nos meus versos chamar-te-ei Amor


Este madrigal de apenas três versos de Eugénio de Andrade reflecte o que a sua poética possui, entre múltiplos achados, de lirismo da repetição como um acto criador.
A meu ver, uma das características marcantes da poesia do autor de «Obscuro Domínio» é esse andar de palavra em palavra, sugando-lhes o tutano ( ou melhor, para o estado lírico da palavra poética, sugando-lhes o mel), repetindo-as desde 1942, para desencantar o cerne da Poesia.
Esta é, na verdade, a tarefa em que o poeta se reedita, com feliz pertinácia, como ele próprio declarou, em 1971, na obra acima referida: «Recomeço no coração da pedra a juntar palavras».
Ciente da dureza da pedra, nela trabalha para arrancar formas onde o sol da poesia possa estender-se, trabalho de mineiro ou de escultor, é, curiosamente, noutro coração que o poeta repousa, no coração do lume: «Amo o repouso no coração do lume», embora aqui esteja a designar um fruto, a romã.
Esta é também uma das características da poesia de Eugénio, sublinhada há duas dezenas de anos por outro grande poeta, Ramos Rosa, a qual consiste na procura da génese ou núcleo do universo «que seja ao mesmo tempo matriz orgânica e linguagem viva.»
Assim, o descanso do poeta é procurar a palavra, trabalhar a palavra, repetir a palavra. Desta maneira, com o seu segundo livro «As Mãos e os Frutos» - de resto, o primeiro fundamental de uma vastíssima bibliografia - até ao mais recente ( no momento em que escrevo, será «Os Sulcos da Sede», de 2001, o último que li), o poeta insiste em percorrer os seus vocábulos de textura material, para desta se libertar até a palavra ser signo puro, sempre sob o impulso de um vocábulo de acção que é recorrente na linguagem do poeta: recomeço.
E as palavras, que se repetem, começaram por vir de longe, porquanto na obra de Andrade predomina a visão e a memória. Os vocábulos eugenianos vêm da matéria e do que é imaterial, vêm dos elementos da natureza e do universo, da sua mecânica celeste.
Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada.
Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de Ostinato Rigore é também recorrente ao termo «longe» ou à palavra «fundo».
Em «Obscuro Domínio», obra já muito distante, escrevia o poeta: «Vejo ao longe os meus dóceis animais», noutro livro muitíssimo mais perto, no tempo, escreve: «Veio de longe, e mal chegou
partiu para mais longe ainda» («Os Sulcos da Sede»)
Por vezes sentimos na sua poesia que existe como que um apelo, uma exigência das palavras para figurarem exactamente no poema. Um dos maiores críticos literários portugueses, e especialmente da obra do nosso poeta, Óscar Lopes, certificou essa recorrência ao escrever «que às vezes, e de repente, sentimos que, pelo contrário, estão as frases, as palavras, a utilizarem-nos como se fôssemos nós, e não elas, a servir de veículos para certo sentido». (prefácio à velhinha Antologia Breve, Colecção Duas Horas de Leitura, 13, da extinta Inova, 1972).
O exercício da leitura da poesia de Eugénio de Andrade é igual hoje, em 2005, ao que foi, com certeza, em 1942, um percurso musical sobre as mesmas teclas.
2005

sexta-feira, março 05, 2010

Os que se amam


Écfrase para o quadro «Os Amantes» de Rene Magritte
ineditamente publicada aqui n'A Ovelha Perdida



Tinham o rosto aberto a quem passava(Eugénio de Andrade)

Já lhes tiraram o rosto e os seus nomes
são um veludo que soa
só aos ouvidos dos amantes
Já lhes vendaram os olhos
e assim o universo
passou para dentro do seu peito
e os dois corações
são o único horizonte.

3/3/2010

domingo, fevereiro 28, 2010

O pássaro descasca o silêncio


«Para dar imagens ao silêncio
pede ao céu
um bater de asas
tirado da essência
de um pássaro»
Rui Miguel Duarte


A essência de um pássaro
está no voo
é o silêncio que se move
e voa para todos os lados
da esfera
no silêncio onde mergulha
e depois emerge
e respira
e faz equílibrio nos fios do sol

Quando o céu se estende
nas aves
um pássaro apenas
quando voa
descasca o silêncio.





sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Para dar imagens ao silêncio


Poema inédito de Rui Miguel Duarte, glosando a frase «dar imagens ao silêncio» de JTP no Facebook
Para dar imagens ao silêncio
pede ao céu
um bater de asas
tirado da essência
de um pássaro

pede a uma árvore
que te ceda
um sopro de vento
que silve os arcos
dos teus cabelos

pede à praia
que te grave
nas dunas
o estrugido
da espuma
que lhes bate nos joelhos

pede à noite
que não transtorne
a memória
de um só segundo
do corrupio
no coração dos
espaços vagos de gentes

Para dar imagens ao silêncio
pede à criança
que após o temporal
quando nada mais resta
senão a pátina
à superfície do cristal
te pinte o arco-íris

24/02/10

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Um par de botas

Há botas velhas tão limpas
como rosas

De pétalas dobradas, tristes
canos que adornaram
tíbias orgulhosas

Botas à volta das quais
o vento e a poeira
rodopiam, rosas
que esperam a calma
das mãos que as depositem
num canto da sala

Há botas tão interessantes
como rosas
como o veludo das rosas
para nos adoçar os dedos

Botas velhas para o secreto
movimento dos pés.

25/2/2010

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Concerto Vozes pelo Haiti (2)

O Poeta lê «Os Limites», no Concerto do dia 14 de Fevereiro em Lisboa, ao piano o Maestro Pedro Duarte.
« OS LIMITES
hay un espejo que me ha visto por última vez
Jorge Luis Borges
Há um espelho que não sabe
onde estará teu rosto
há a lâmpada com que feriste
pela última vez teus olhos
há a música que não tardará
a encontrar outros ouvidos
há uma última noite em que os sonhos
ficarão nas galerias, solitários
Pela última vez
há um pássaro que parte
o silêncio que há no ar
Há um dia que se fecha na morte. »
1985

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Vozes pelo Haiti

Concerto Vozes pelo Haiti, música e poesia de inspiração religiosa, evangélica. A notícia aqui.
Na foto, o maestro Pedro Duarte, os poetas Brissos Lino e J.T.P, ontem em Lisboa.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

O Arqueiro

O arco retesa-se para trás
retém o impulso da flecha

Um silêncio aguarda
da haste florida
o silvo agudo

Nas mãos do arqueiro
o dom
de dar ao vento a frecha
que o perfure

Das mãos do arqueiro
o equilíbrio
entre o presente e o futuro.

8-2-2010

poema inicialmente editado como inédito em A Ovelha Perdida

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Quando se parte

Poema inédito do poeta Brissos Lino

Se te meteres a caminho
com o bilhete de volta na algibeira
então nunca terás partido.
(Rui Miguel Duarte, Viagem de ida)


Quando se parte, olha-se em frente
pergunta-se ao mar o sal
que as ondas lambem
pede-se ao céu
um vislumbre do destino

quando se parte, o coração é um mastro
levantado como o sol
com velas brancas felizes

quando se parte, o rosto arredonda-se
e a brisa marítima promete
um mar amigo

quando se parte, a música das águas
acalma o espírito
afasta as nuvens do medo

quando se parte, enche-se o peito todo
de ar e afirmação
à saída da barra

quando se parte, esticam-se mãos
de longos dedos
ao esperançoso fio do horizonte

quando se parte, é perigoso
olhar para trás.

8/2/2010

(Brissos Lino)

domingo, fevereiro 07, 2010

Espelho Partido

O espelho partiu/a moldura ficou
Ana Hatherly


O espelho divide-nos
Bocados
nossos pelo chão
enquanto os dedos
sangram pela fúria
do vidro

Um espelho partido
ramos
do mesmo inteiro rosto
disperso na prata

A cerejeira
da moldura está intacta.

12/1/2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Entre passos


Há um compasso no passo
Que aguarda outro passo
A sequência imediata
No equilíbrio latente
Quer do corpo
Quer da mente.
Mas entre o passo dado
E o passo a dar
Há um compasso
E uma espera
Um destino a venerar.

5/2/2010

Poema inédito de Florbela Ribeiro

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

amtrak haiku


proud trenton
cheeseburger
trees, river shores, trees
by asheresque
in Action Poetry / Literary Kicks

A orgulhosa Trenton
cheeseburger
árvores, nas margens do Delaware, árvores

(Trad. J.T.Parreira)

sábado, janeiro 30, 2010

Quando toca às 17:45, as crianças querem todas a lua, não no sentido em que Calígula a queria, mas a liberdade de correr uns contra os outros, uns pelos outros, pelo recreio até aos pais e avós.

O meu neto Vasco, veio e disse-me:-Avô, hoje fizemos uma poesia. Que as pedras cantam. Sabes, avô, uma poesia é uma imaginação.

Parei, respondi-lhe a perguntas seguintes que também eu fazia poesias e que sabia que as pedras podem clamar, cantar e chorar lágrimas, sobretudo quando chove.

Mas pensei: ando a ler há quatro décadas pelo menos, Aristóteles, Horácio, Shelley, Johannes Pfeiffer, Todorov, Jean Cohen, Rainer Maria Rilke, e até Marcuse, para saber o que é a Poesia. Ouço cursos de Poética, Estética de Plotino, até o "Carteiro de Pablo Neruda" sobre a metáfora.

E o meu neto, Vasco Parreira, 7 anos, disse-o de uma penada: - Avô, é uma Imaginação. A poesia é uma imaginação.

(Inédito inicialmente editado no Facebook)

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A ave aflita do meu beijo

Chagall, Paisagem Azul

Quando a minha mão
contém a tua mão
quando os meus olhos contêm
os teus olhos
Quando a minha língua
desagua em tua boca
para levar para dentro de ti
o meu desejo
Eu sei como te amo
quando os teus lábios andam longe
e não te encontra
a ave aflita do meu beijo.

27/1/2010

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Lisbon Revisited ( II )

Outro inédito para revisitar Lisboa, do Poeta Brissos Lino


Aguarela de Carlos Botelho

LISBOA

“Lisboa, que não é mais, teve ela mais víciosQue Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris."
(Voltaire, Poème sur le désastre de Lisbonne, 1755)



Lisboa não disse nada em 1755
resguardou-se no silêncio
sofreu o dano e calou
renasceu depois, como a Fénix,
de quase todas as ruínas
enterrou os mortos
cuidou dos vivos
reorganizou a sua luz
como nunca

Pela mão férrea do Marquês
voltou a dançar
mas não a valsa
- Lisboa, não sejas francesa -
uma dança mais popular
diferente dos nobres salões
dourados e frívolos
de Paris.


20/1/10

(Brissos Lino)

Lisbon Revisited ( I )

O POETA FOI À ESCOLA
(Inédito do meu Amigo Brissos Lino)
(Na descoberta casual de que o meu velho amigo e mestre na Poesia, J.T.Parreira, frequentou a mesma escola do Ciclo Preparatório que eu, a Nuno Gonçalves e a mesma Escola Primária do Vale Escuro, em Lisboa.)


O poeta foi à escola
procurar a luz no Vale Escuro
aprendeu letras que falam
e números que contam
aprendeu os truques admiráveis
do lápis criador
fez borboletas que voam
e cães que ladram
no papel

descobriu que há lá muitos meninos
alvos como a neve
pontilham o pátio do recreio
saltam como os filhos da corça
roem um pedaço de pão com marmelada
mas são soldados alinhados na porta
à hora da aula

batem-se contra uma ardósia gigante
- com espadas de giz branco -
sentem o horror do vazio
face ao quadro negro

o poeta voltou a casa
à hora do almoço
a sorrir para dentro
na ruminação das aventuras
e novas descobertas
do dia.

20/1/10

(Brissos Lino)





quinta-feira, janeiro 21, 2010

A Crónica

Escreve uma crónica sobre
esta cadeira
que está à tua frente
as quatro pernas exaltando
o assento humilde
fazem um mundo
o único onde descansa o corpo

Escreve que o corpo
por vezes é ingrato, despreza
as mãos, que entre beijos
e asperezas, criaram e subiram
a cadeira
para os cansados, os mais
pobres, à condição de trono

Escreve
escreve que a madeira foi salva
da terrível mão do fogo.

2010

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Luís de Camões, o Navegador

O poeta Brissos Lino, num inédito para o Salutor, e uma releitura de Os Lusíadas com base em interessante interpelação:

O MAR NUNCA COMEÇA

“Onde a terra acaba e o mar começa.”
(Camões, Lusíadas, Canto III, 20)


Sabes, Camões,
o mar nunca começa
sempre esteve lá
muda de cor e de entranhas
correntes, temperatura,
fauna e flora

a terra não termina
transforma-se como uma mulher
da planície à montanha
do deserto à floresta
do planalto ao vale

e há terra no mar e mar na terra.

Sabes, Camões,
tudo o resto é pura ilusão
quinhentista.

16/1/10

(Brissos Lino)

sexta-feira, janeiro 15, 2010

terça-feira, janeiro 12, 2010

O Melhor: Rui Miguel e Píndaro

“O melhor é a água; o ouro, qual fogo abrasador
que se distingue na noite, sobrepuja a soberba riqueza humana”
Píndaro, I Ode Olímpica


Não há melhor
do que a água
a sua ausência faz brotar o deserto
seco e abrasador
tão seco e abrasador
que as aranhas nele tecem teias de pó

Preciosa e excelente é a água
seiva do meu corpo
substância do rio do meu pensamento
que permeia a concha da minha mão
e guia a minha boca
no leito da língua

Fogo abrasador é o ouro
não é riqueza feita por homens
mas a substância pura
salpicada do sol
na nervura da terra
cada pedra seca e abrasadora
é afinal uma pepita
esfolada e purificada
pela mão de Deus
até lhe conferir
o perpétuo esplendor

A água e o ouro
são o sangue
e os labirintos transparentes
do coração
o suor e a glória
do vencedor

9/01/10

(Rui Migul Duarte)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

A Rapariga à Janela

Olhos
que devem estar a caminho da outra margem
riem do espelho amarrotado das águas?
Choram algum diminuto amor
distante? Que fere
o seu rosto para o esconder do passado
e dar-lhe apenas o volume do seu corpo?
Enquanto olha
o que pode ser a quieta eternidade
de uma vela
olha com que olhos, rosto
lábios, entreabrindo o silêncio?
apoiando os cotovelos na janela.

11/01/2010

sábado, janeiro 09, 2010

Os Olhos de Galileu, inédito de Brissos Lino

Em 8 de Janeiro de 1642 morreu em Florença, fez 368 anos, e articulistas e poetas moveram-se por essa efeméride.

Os olhos de Galileu iluminam
o espírito dos homens
remetem-nos para os terrenos do pensamento
um lugar sem protecções
à volta
os olhos de Galileu inquirem os astros
mas sem magias
querem entender a mecânica
da coisa
os olhos de Galileu dialogam
com as evidências
desviam-se por momentos do dogma
estabelecido
os olhos de Galileu despejam-lhe
uma sensação de paz
na alma
mesmo perante a iminência
da morte
os olhos de Galileu fazem-no sorrir
discretamente.

9/1/10
(Brissos Lino)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Endlösung Der Judenfrage (Solução Final)


Agora juntas o teu peso/tudo o que é leve
Paul Celan


Agora juntas ao teu peso
a cinza
A leveza da nossa morte

Agora as nuvens te salpicam
com pequenas gotas de sol
As cidades estão escuras
sobre elas os cavalos da guerra
e o ódio do centauro

Fumo é o teu corpo
depois de te aprisionar a chaminé
e a cinza que pára
às portas
vigilantes do céu.

31/12/2009

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Uma rosa às 9:45

A tua rosa poderia apaziguar o mundo
este tumulto do coração
nos olhos, nas minhas mãos
que se abrem como as pétalas
para receber a rosa
pontual

Poderia apaziguar o mundo
de toda a beleza
esta rosa às 9:45, vermelha
é uma estrela dos ventos
um brinco
febril que caiu da tua orelha

Recebida como o brilho da manhã
choca no meu sangue
o lume contra as trevas.

4-01-2010

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Eu não queria Paris

(Janeiro de 1994)

Eu não queria Paris com aguaceiros
nessa noite de luzes
Ofuscavam as pedras da rua
de Montmartre
Eu não queria
para passear os versos
que levava sob o braço

A neblina sobre o Sena
esboçava os barcos
onde vive gente
debruçada sobre óleos
espalhando a água e rosas em vias
de extinção

Eu não queria Paris com cortinados
de chuva, nessa noite
de inverno para subir
nos meus olhos
ao topo da Eiffel.

26/12/2009

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Inédito de Brissos Lino num Turner de tempestade

Turner: Snow Storm


Naquela tarde tempestuosa

Naquela tarde tempestuosa
olhei o céu
na excitação das gaivotas
debaixo de nuvens em viagem acelerada
para o interior
desde a orla do mar revolto

naquela tarde escura
senti o Éolo frio
persistentemente no rosto
e nos cabelos
a empurrar as naus cinzentas
peregrinas no espaço superior

naquela tarde o céptico viu a aproximação
de uma tempestade
e o crente uma teofania celeste
(aquela nuvem parecia uma águia ou um anjo?)

Naquela tarde lavei os olhos
e percebi-me companheiro das nuvens
amigo de Deus.

28/12/09
(Brissos Lino)

segunda-feira, dezembro 28, 2009

2 Poemas de Nic Klecker

Poema 1

« ... tu chauffes la paume / de ma main / comme jadis le pain rond / dont la croûte craquait »

… tu aqueces a palma
da minha mão
como outrora o pão redondo
de crosta estaladiça.

Poema 2

«... Tes racines / sont nos années / enfuies dans le sable du temps // L’espoir s’est raréfié / dans l’air de ton absence […] Tes mains se joignent encore / et prennent le sable fin / que tes yeux laisseront glisser / entre tes doigts / Sablier du bonheur / Sablier de ma peine »

As tuas raízes
são os nossos anos
fugidos na areia do tempo

A esperança rarefez-se
no ar da tua ausência […]
As tuas mãos juntam-se ainda
e agarram a areia fina
que os teus olhos deixarão deslizar
entre os teus dedos
Ampulheta da felicidade
Ampulheta da minha dor.

(Tradução de Rui Miguel Duarte)

sábado, dezembro 26, 2009

Titanic

O barco inclina o seu dorso
frio
contemplam as estrelas
o seu rasgão mortal
não há ondas em fúria
o mar está um chão
com luar gelado
os últimos sons da orquestra
começam
a passar para o lado do silêncio.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Nic Klecker (1928-2009), Poeta do Luxemburgo

La mort sait bien
qu'elle va gagner le duel
en attendant

la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret

(Seleccionado e editado por Florbela Ribeiro, no Facebook)
...................................

A morte sabe bem
que vai ganhar o duelo
enquanto espera

a vida
executa hábeis paradas
e o amor
guia o seu florete

(Tradução de Rui Miguel Duarte)


domingo, dezembro 20, 2009

Uma estória ao fundo - poemas


Uma estória ao fundo - conjunto de estórias com alguns poemas


Lolita depois de Nakokov (I)

Escapou de um delírio de autor
Mãe seria de filhos na classe
operária, casa pobre
no vale sombrio
entre os seus seios a cor pálida
da fome, escapou da prisão
da luxúria, era agora
dona de casa, passava a ferro
corações disformes
estampados no vestido
escapara de um delírio
de um livro.

20-12-2009



Na Grande Estação Central (II)

Un hombre está mirando a una mujer
César Vallejo


Na Grande Estação Central
um homem está olhando uma mulher
Por uma janela do comboio
um olhar de vidro
para uma mulher que espera
enquanto molha uma revista
em lágrimas

Na Grande Estação Central a plenitude
entre uns olhos e a mulher olhada
pela tristeza defendida
por detrás da silenciosa água
que lhe corre pela cara

Uma mulher que chora
uma mulher interminável
olhada através do frio
do vidro
que começa a partir para um destino.

19/12/2009


sábado, dezembro 19, 2009

A Desconhecida do Sena


Ninguém te quis
sereia seduzida pelas águas
Uma vida que termina com a maré
numa margem de tela
no óleo do rio Sena
Nenhum impressionismo
na beleza pálida do rosto
um sorriso beijado
pelos lábios frios
da morte
de todas as jovens afogadas
a quem o rio tomou a vida
é a mais bela.

19/12/2009

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Nas entrelinhas

Escrevo claro, por entre as linhas,
nas entrelinhas.

Escrevo pública e secretamente.

Registo em folhas brancas de papel,
a ânsia e a dor,
que sobrevoa a alma deste povo
aventureiro e lutador.

Mas dos sentimentos
que me povoam a mente,
não escrevo.
Omito-os discretamente.

(Florbela Ribeiro)

«Brilhante contraste, discreto mas luzente, entre a escrita nas linhas, explícita, e a implícita, nas entrelinhas. E uma poética que privilegia a dádiva, em vez da expressão do "eu":"Registo em folhas brancas de papel, a ânsia e a dor, que sobrevoa a alma deste povo aventureiro e lutador. Mas dos sentimentos que me povoam a mente, não escrevo. Omito-os discretamente."»

(Prof. Dr. Rui Miguel Duarte, no Facebook))