
A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
terça-feira, abril 27, 2010
domingo, abril 25, 2010
sábado, abril 24, 2010
Abri o livro

Abri o livro e afundei-me nele
(bem que me tinham avisado
que era objecto perigoso)
só na última página consegui
vir à tona
e os que me esperavam ansiosamente
admiraram-se
com o meu sorriso enigmático
de peregrino
de outros mundos.
23/4/10
(Brissos Lino)
Via A Ovelha Perdida
quinta-feira, abril 22, 2010
terça-feira, abril 20, 2010
EYJAFJALLAJOKULL

poema inédito do poeta Brissos Lino
Rugem demónios de fogo
na ilha gelada
a revolta telúrica brada
aos céus
recorrentes indignações
e essa tosse cavernosa e doente
das entranhas
esse cuspir insistente
de braço dado com Éolo
perturba o voo das aves
e dos pássaros de ferro
no mundo dos homens.
20/4/10
(Brissos Lino)
domingo, abril 18, 2010
A beleza a descer a rua
Foto Lisete Model, via papel de rascunhoDança Pavlova quando passa
Seus pés como lírios do campo
ondulam ao vento, alparcas
aladas de outro tempo
Bebem seus olhos o bulício
das manhãs nas ruas
A rapariga anónima
que estende pelo ar
a sua pressa
e um perfume
Nenhum relógio pára
ou desconta esse momento
da gaia-beleza.
9-4-2010
Inédito originalmente publicado em A Ovelha Perdida
quarta-feira, abril 14, 2010
segunda-feira, abril 12, 2010
As ovelhas de Wales
terça-feira, abril 06, 2010
segunda-feira, abril 05, 2010
A ode chamada marítima

«Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!»
Álvaro Campos
Álvaro Campos
Dispondo do vento sobre o papel
e do cheiro a oceano que vem
do meio da multidão
das águas, sozinho, em pé
no baloiço do meu próprio corpo
escrevo como outrora o hebreu
à beira do Eufrates
e o que choro é um
choro nítido a meu modo
ao cair das tardes
no cais molhado de gaivotas
deserto, pequeno e sem viagens.
e do cheiro a oceano que vem
do meio da multidão
das águas, sozinho, em pé
no baloiço do meu próprio corpo
escrevo como outrora o hebreu
à beira do Eufrates
e o que choro é um
choro nítido a meu modo
ao cair das tardes
no cais molhado de gaivotas
deserto, pequeno e sem viagens.
2-4-2010
sábado, abril 03, 2010
Revista: trimestrale di conversazioni poetiche
Annelisa Addolorato, Fabiano Alborghetti, Andrea Amoroso, Natasha Bondarenko, Barbara Cannetti, Giampaolo De Pietro, Valeria Di Clemente, Alessandro Ghignoli, Claudio Pagelli, Marina Pizzi, Gabriele Quartero, Silvia Redente, Alessandra Sciacca Banti, Maeba Sciutti, Anna Velieri, voci sul numero di Aprile 2009
di “π -trimestrale di conversazioni poetiche”.
Revista com poemas de Alessandra Sciacca Banti, poeta e docente universitária em Pisa, e tradutora do meu livro inédito O Regador/ L'Innaffiatoio, para a língua italiana.
sexta-feira, abril 02, 2010
Farol da Barra como espada que corta a noite
Farol da Barra, postal década de 70 “Faróis? São os gumes
da espada
que corta a noite”
J. T. Parreira, in “O que disse p poeta a propósito de faróis”
Uma noite após outra
cadente em gomos
das gavetas do breu
observamos como
a espada de luz
do farol
corta e disseca
longe lá longe
emergindo na distância
sobre a côdea
escura do mar
a ponta da espada
resvala a passagem
dos navios
e nós,
como gotas aspergidas
de espuma do mar
ou como pingos
de noite
à sombra da altura
do farol
sentados na praia
30/03/10
(Rui Miguel Duarte)
domingo, março 28, 2010
Para onde voa um pardal encalhado
Créditos da foto:olhares.com, by DollyPoema inédito para o Salutor, do poeta Brissos Lino
“(…) é um simples
pardal encalhado.”(J.T.Parreira)
Para onde voa um pardal encalhado
na seara urbana de telhas sujas
avermelhadas
e chaminés ausentes?
que cores vivas lhe poderão magnetizar
o bico delicado
por entre a floresta de antenas
metálicas
se um musgo aqui e ali
ou uma flor selvagem nos beirais
podem esconder felinos perigos
na primeira esquina
de um terraço.
27/3/10
(Brissos Lino)
quinta-feira, março 18, 2010
Poema do suicida cansado
A árvore estreitou-lhe a sombra
os braços
confundiram o corpo
e agarram a vida
Muita coisa se adivinha
como o sol amplo
no mar ocidental
os braços
confundiram o corpo
e agarram a vida
Muita coisa se adivinha
como o sol amplo
no mar ocidental
a pura imagem da luz
no rosto
que se esconde
inebriado pelo azul ainda
do avesso a carta
dá uma razão
envergonhada.
no rosto
que se esconde
inebriado pelo azul ainda
do avesso a carta
dá uma razão
envergonhada.
Publicado ineditamente no blog A Ovelha Perdida
segunda-feira, março 15, 2010
A Morte não me encontrou
Poema inédito de Brissos Lino“a morte não me encontrou” (Mia Couto)
Nunca andei fugido
nem escondido
nem dissimulado na paisagem
mas consta que a morte passou por mim
sem me reconhecer
talvez queira jogar comigo
uma partida de xadrez
como num filme de Bergman
não a percebi, talvez
porque não a temo
estou sem tempo para a acolher
no sótão
das minhas cogitações.
15/3/10
(Brissos Lino)
sexta-feira, março 12, 2010
Irena Sendler
quinta-feira, março 11, 2010
As mesmas teclas de Eugénio de Andrade

Tu já tinhas um nome e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor
nos meus versos chamar-te-ei Amor
Este madrigal de apenas três versos de Eugénio de Andrade reflecte o que a sua poética possui, entre múltiplos achados, de lirismo da repetição como um acto criador.
A meu ver, uma das características marcantes da poesia do autor de «Obscuro Domínio» é esse andar de palavra em palavra, sugando-lhes o tutano ( ou melhor, para o estado lírico da palavra poética, sugando-lhes o mel), repetindo-as desde 1942, para desencantar o cerne da Poesia.
Esta é, na verdade, a tarefa em que o poeta se reedita, com feliz pertinácia, como ele próprio declarou, em 1971, na obra acima referida: «Recomeço no coração da pedra a juntar palavras».
Ciente da dureza da pedra, nela trabalha para arrancar formas onde o sol da poesia possa estender-se, trabalho de mineiro ou de escultor, é, curiosamente, noutro coração que o poeta repousa, no coração do lume: «Amo o repouso no coração do lume», embora aqui esteja a designar um fruto, a romã.
Ciente da dureza da pedra, nela trabalha para arrancar formas onde o sol da poesia possa estender-se, trabalho de mineiro ou de escultor, é, curiosamente, noutro coração que o poeta repousa, no coração do lume: «Amo o repouso no coração do lume», embora aqui esteja a designar um fruto, a romã.
Esta é também uma das características da poesia de Eugénio, sublinhada há duas dezenas de anos por outro grande poeta, Ramos Rosa, a qual consiste na procura da génese ou núcleo do universo «que seja ao mesmo tempo matriz orgânica e linguagem viva.»
Assim, o descanso do poeta é procurar a palavra, trabalhar a palavra, repetir a palavra. Desta maneira, com o seu segundo livro «As Mãos e os Frutos» - de resto, o primeiro fundamental de uma vastíssima bibliografia - até ao mais recente ( no momento em que escrevo, será «Os Sulcos da Sede», de 2001, o último que li), o poeta insiste em percorrer os seus vocábulos de textura material, para desta se libertar até a palavra ser signo puro, sempre sob o impulso de um vocábulo de acção que é recorrente na linguagem do poeta: recomeço.
E as palavras, que se repetem, começaram por vir de longe, porquanto na obra de Andrade predomina a visão e a memória. Os vocábulos eugenianos vêm da matéria e do que é imaterial, vêm dos elementos da natureza e do universo, da sua mecânica celeste.
Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada.
Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de Ostinato Rigore é também recorrente ao termo «longe» ou à palavra «fundo».
Em «Obscuro Domínio», obra já muito distante, escrevia o poeta: «Vejo ao longe os meus dóceis animais», noutro livro muitíssimo mais perto, no tempo, escreve: «Veio de longe, e mal chegou
partiu para mais longe ainda» («Os Sulcos da Sede»)
Por vezes sentimos na sua poesia que existe como que um apelo, uma exigência das palavras para figurarem exactamente no poema. Um dos maiores críticos literários portugueses, e especialmente da obra do nosso poeta, Óscar Lopes, certificou essa recorrência ao escrever «que às vezes, e de repente, sentimos que, pelo contrário, estão as frases, as palavras, a utilizarem-nos como se fôssemos nós, e não elas, a servir de veículos para certo sentido». (prefácio à velhinha Antologia Breve, Colecção Duas Horas de Leitura, 13, da extinta Inova, 1972).
O exercício da leitura da poesia de Eugénio de Andrade é igual hoje, em 2005, ao que foi, com certeza, em 1942, um percurso musical sobre as mesmas teclas.
2005
terça-feira, março 09, 2010
A poesia italiana inédita de uma amiga
Buio Conoscitivo, livro inédito da poeta italiana Alessandra S.Banti (alguns poemas breves).
sexta-feira, março 05, 2010
Os que se amam

Écfrase para o quadro «Os Amantes» de Rene Magritte
ineditamente publicada aqui n'A Ovelha Perdida
Tinham o rosto aberto a quem passava(Eugénio de Andrade)
Já lhes tiraram o rosto e os seus nomes
são um veludo que soa
só aos ouvidos dos amantes
Já lhes vendaram os olhos
e assim o universo
passou para dentro do seu peito
e os dois corações
são o único horizonte.
3/3/2010
domingo, fevereiro 28, 2010
O pássaro descasca o silêncio

«Para dar imagens ao silêncio
pede ao céu
um bater de asas
tirado da essência
de um pássaro»
Rui Miguel Duarte
A essência de um pássaro
está no voo
é o silêncio que se move
e voa para todos os lados
da esfera
no silêncio onde mergulha
e depois emerge
e respira
e faz equílibrio nos fios do sol
Quando o céu se estende
nas aves
um pássaro apenas
quando voa
descasca o silêncio.
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