(construída aqui por Florbela Ribeiro)A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
domingo, dezembro 27, 2009
sábado, dezembro 26, 2009
Titanic
quarta-feira, dezembro 23, 2009
Nic Klecker (1928-2009), Poeta do Luxemburgo
La mort sait bienqu'elle va gagner le duel
en attendant
la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret
(Seleccionado e editado por Florbela Ribeiro, no Facebook)
...................................
A morte sabe bem
que vai ganhar o duelo
enquanto espera
a vida
executa hábeis paradas
e o amor
guia o seu florete
(Tradução de Rui Miguel Duarte)
domingo, dezembro 20, 2009
Uma estória ao fundo - poemas

Uma estória ao fundo - conjunto de estórias com alguns poemas
Lolita depois de Nakokov (I)
Escapou de um delírio de autor
Mãe seria de filhos na classe
operária, casa pobre
no vale sombrio
entre os seus seios a cor pálida
da fome, escapou da prisão
da luxúria, era agora
dona de casa, passava a ferro
corações disformes
estampados no vestido
escapara de um delírio
de um livro.
20-12-2009
Mãe seria de filhos na classe
operária, casa pobre
no vale sombrio
entre os seus seios a cor pálida
da fome, escapou da prisão
da luxúria, era agora
dona de casa, passava a ferro
corações disformes
estampados no vestido
escapara de um delírio
de um livro.
20-12-2009
Na Grande Estação Central (II)
Un hombre está mirando a una mujer
César Vallejo
Na Grande Estação Central
um homem está olhando uma mulher
Por uma janela do comboio
um olhar de vidro
para uma mulher que espera
enquanto molha uma revista
em lágrimas
Na Grande Estação Central a plenitude
entre uns olhos e a mulher olhada
pela tristeza defendida
por detrás da silenciosa água
que lhe corre pela cara
Uma mulher que chora
uma mulher interminável
olhada através do frio
do vidro
que começa a partir para um destino.
19/12/2009
César Vallejo
Na Grande Estação Central
um homem está olhando uma mulher
Por uma janela do comboio
um olhar de vidro
para uma mulher que espera
enquanto molha uma revista
em lágrimas
Na Grande Estação Central a plenitude
entre uns olhos e a mulher olhada
pela tristeza defendida
por detrás da silenciosa água
que lhe corre pela cara
Uma mulher que chora
uma mulher interminável
olhada através do frio
do vidro
que começa a partir para um destino.
19/12/2009
sábado, dezembro 19, 2009
A Desconhecida do Sena
sexta-feira, dezembro 18, 2009
Nas entrelinhas
Escrevo claro, por entre as linhas, nas entrelinhas.
Escrevo pública e secretamente.
Registo em folhas brancas de papel,
a ânsia e a dor,
que sobrevoa a alma deste povo
aventureiro e lutador.
Mas dos sentimentos
que me povoam a mente,
não escrevo.
Omito-os discretamente.
(Florbela Ribeiro)
«Brilhante contraste, discreto mas luzente, entre a escrita nas linhas, explícita, e a implícita, nas entrelinhas. E uma poética que privilegia a dádiva, em vez da expressão do "eu":"Registo em folhas brancas de papel, a ânsia e a dor, que sobrevoa a alma deste povo aventureiro e lutador. Mas dos sentimentos que me povoam a mente, não escrevo. Omito-os discretamente."»
(Prof. Dr. Rui Miguel Duarte, no Facebook))
terça-feira, dezembro 15, 2009
Menina

Leste de Angola, 1969
Ah quanto tempo parou
nesses teus olhos o branco
e o negro
de umas asas que não sei
aonde voam
Pomba imaculada
sentada no chão
Velam o sonho
que faz companhia
ao redemoinho dos anjos
Velam o sono com as mãos
Tocará ainda o coração
cheio de manhãs?
Ou a morte veio e roubou
o fundo
dos teus olhos?
13/12/2009
domingo, dezembro 13, 2009
Gaivota sobre candeeiro público
sexta-feira, dezembro 11, 2009
Os Escritos
Inédito do poeta Brissos Lino no qual se lê uma homenagem, sem dúvida dedicada à escrita imorredoira do nosso comum Amigo Joanyr de Oliveira.“Littera scripta manet.”
(A palavra escrita é duradoura)
Os escritos agarram-nos ao chão
dos homens
não seguem com o vento para Sul
nem se despenham no mar
do esquecimento
os escritos não morrem com a morte
do presente
ficam sementes
enfeitam a História
sustentam um nome
superam o fio do horizonte
são centelhas de vida
e eternidade
a resistir
na espuma dos dias breves
como um grito que alcança
o outro lado do vale.
1/12/09
(A palavra escrita é duradoura)
Os escritos agarram-nos ao chão
dos homens
não seguem com o vento para Sul
nem se despenham no mar
do esquecimento
os escritos não morrem com a morte
do presente
ficam sementes
enfeitam a História
sustentam um nome
superam o fio do horizonte
são centelhas de vida
e eternidade
a resistir
na espuma dos dias breves
como um grito que alcança
o outro lado do vale.
1/12/09
(Brissos Lino)
segunda-feira, dezembro 07, 2009
"Quand il est mort le Poete"
Inesperadamente, como chegam sempre as notícias por e-mail, veio, pela mão da secretária do escritor, a nota da morte do meu Amigo querido, Mestre e Companheiro na Poesia Evangélica contemporânea, Joanyr de Oliveira. Completaria dia 6, 76 anos."Prezados (a),
Tenho a triste missão de comunicar-lhe que o escritor pioneiro de Brasília, Joanyr de Oliveira, faleceu na manhã do dia 05, no Hospital Santa Helena em Brasília e será sepultado, no dia 06 (data em que completaria 76 anos), no Cemitério Campo da Esperança em Brasília.O corpo será velado na capela nº 3 do referido cemitério, a partir das 14 horas, e sepultamente às 17 h.
Atenciosamente,
Rosângela Trindade"
Um Obituário que pode ser lido aqui
Haicai
Sempre a olhar os céus,
errei. Bem mais errarei
contemplando a terra.
Mãos contempladas
As mãos tecem o poema.
O roteiro ignoram
de sua tessitura.
As mãos sempre insones
em conchas misteriosas.
A humildade é a sua glória.
Podem os olhos rutilar
navegando no papel;
pode o sorriso vir
luminoso, à doçura
do cantante estribilho.
As mãos se limitam
ao silêncio e ao labor,
à mudez de um oficio.
Eis o seu ministério:
a penosa colheita.
As mãos transitam
entre as margens e a sede:
o papel as contempla.
Os conceitos e sonhos
seguirão os astros
e os caminhos da terra.
As mãos desconhecem
o sabor perenal
de suas muitas palavras.
(Lisboa / São Paulo, 13.7.98)
Uma breve antologia do Poeta Aqui
sexta-feira, dezembro 04, 2009
Só o teu nome sobrevive

Zé Fernando, à esquerda, mãe e tia Fernanda, e JTP, 1949
para o meu primo Zé Fernando
Só o teu nome sobrevive
ao coração
a notícia
desatou os empecilhos da manhã
morreste
Morreste tantas vezes no telefone
que tocou
nas casas dos amigos
Um destes dias passarei
pela nossa infância em Santiago:
O céu põe o perfume
das estevas
e acordaremos como dantes
com os ruídos de uma rua de azulejos
Alentejo salpicado de sobreiros
Embora saibamos tudo
agora
que só as tuas laranjeiras sobrevivem
ao sangue
que parou teu coração.
1/12/2009
domingo, novembro 29, 2009
O Intruso
sábado, novembro 28, 2009
El fin de la poesia: Babelia
El fin de la poesía
Historia y complicaciones de la guerrilla desde 1950 al siglo XXI.
Ler no El País, no Babelia
Historia y complicaciones de la guerrilla desde 1950 al siglo XXI.
Ler no El País, no Babelia
terça-feira, novembro 24, 2009
Barcos contra a corrente
segunda-feira, novembro 23, 2009
Há escuridões, um inédito
Há escuridões
pontilhadas de estrelas
abóbadas negras que reflectem
uma luz incontida
prenhe de vida
formas sonoras
com cores por dentro
há escuridões que pressentem
a beleza mais pura
despojada de sombras
há escuridões que desafiam
uma retina triste
mal habituada
há escuridões mais claras
que o Sol do meio dia.
20/11/09
(Brissos Lino)
sábado, novembro 21, 2009
Miss Daisy
"Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de..."
Álvaro de Campos
Daisy, quando for a hora do chá
Tu hás-de erguer a chávena
À altura dos lábios, dizer
Um sopro leve, ciciado
Mas agreste como as
Rugas que persegues no espelho
Tu hás-de ir
Lentamente sorvendo o silêncio
Desse chá, enquanto olhas
Quem entra no salão
Pé ante pé com passos de milord
Daisy tu hás-de querer
Desesperadamente que ele olhe
E que diga palavras de outrora
Antigas, que te disseram outros lordes.
21-11-2009
Álvaro de Campos
Daisy, quando for a hora do chá
Tu hás-de erguer a chávena
À altura dos lábios, dizer
Um sopro leve, ciciado
Mas agreste como as
Rugas que persegues no espelho
Tu hás-de ir
Lentamente sorvendo o silêncio
Desse chá, enquanto olhas
Quem entra no salão
Pé ante pé com passos de milord
Daisy tu hás-de querer
Desesperadamente que ele olhe
E que diga palavras de outrora
Antigas, que te disseram outros lordes.
21-11-2009
quarta-feira, novembro 18, 2009
Os salgueiros inclinados

The sky's as deep as it can be
Bend down the branches
Tom Waits
Eles dirigem os seus ramos para o chão
Também fomos feitos para dobrar
E o céu é tão profundo como poderá ser
o nosso olhar, mesmo fechado
O olhar vê os ramos inclinados
e então por eles subimos
pelos olhos até ao mais
longínquo céu, mas curvemos
nossos ramos, deixemos as gotas
do rio baloiçar no vento
que canta a altivez
humilde dos salgueiros.
25-10-2009
segunda-feira, novembro 16, 2009
Heródoto, História e Poética

No Helesponto, Xerxes
“Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou.”
Heródoto, Histórias VII, 45
Do alto do meu trono
o meu olhar voa de mim
e entrelaça as duas margens
desta passagem
do Helesponto para a Hélade,
pequena janela que se abre imensa
para a promessa de glória
O meu olhar plana então
sobre estas plagas e campinas
atapetadas de milhões de navios cavalos e homens
que, pintados das todas as nações da Ásia e do Egipto
e estampados do brilho do aço das armas,
eriçam os estandartes em saudação à minha glória
à glória do Divino Príncipe da Pérsia
De dentro da voz de júbilo
decreto que eu, Xerxes, sou mais do que abençoado
Mas para além de até aonde pode o olhar adejar
não descortino toda a terra, nem possuo todo o mar
Há um aviso um arrepio um pio de pássaro
O meu olhar foi finalmente visto
regressar à sua morada e decantar em lágrimas
este estreito tão estreito que me aperta a traqueia
Pois não há reis
que ocasionalmente se não prostrem
à enfermidade e à dor
também eles contam a terra e as pedras
com que têm coberto os seus amados
Rompendo a janela da minha glória
o meu olhar abre a porta da vertigem
mais funestamente desejada do que todo o ouro
a vertigem altaneira
da morte
No meu espírito fala
uma voz dalém das orlas do tempo
Lê um epitáfio inscrito num mausoléu:
“Aqui jaz Xerxes da Pérsia Rei dos reis
no Olimpo anelou o Hades
foi a primeira flor nascida da Primavera
por mão ceifada em pleno Verão
conquistador da terra
hoje servo debaixo dela.”
E prossegue:
“Cem anos e destes milhões
só se contarão as areias das praias
serão meros pontilhados numa tela
tinta fresca na pena de um contador de histórias.”
12/11/09
(Rui Miguel Duarte)
sábado, novembro 14, 2009
Uma revisitação de Florbela Espanca
A Poética de uma vida trágicaAs várias estéticas de Florbela, da morte, das rendas de Veneza à estética do erotismo.
Aqui em A Ovelha Perdida.
(Carlos Botelho)
quinta-feira, novembro 12, 2009
Um Kafka borgiano
Kafka borgiano, em 1938, a editorial losada de buenos aires publicou uma coletânea de kafka, chamada la metamorfosis, com prefácio e tradução de jorge luis borges.
Aqui, em "não gosto de pelágio", na íntegra, da amiga Denise Bottmann
«Durante quase quarenta anos, tomou-se a tradução da novela como se de borges realmente fora. mas, em 1974, fernando sorrentino publica Siete conversaciones con Jorge Luis Borges, onde consta o seguinte diálogo:
"F.S.: Me pareció notar en su versión de La metamorfosis, de Kafka, que usted difiere de su estilo habitual…
J.L.B.: Bueno: ello se debe al hecho de que yo no soy el autor de la traducción de ese texto. Y una prueba de ello - además de mi palabra - es que yo conozco algo de alemán, sé que la obra se titula Die Verwandlung y no Die Metamorphose, y sé que hubiera debido traducirse como La transformación. Pero, como el traductor francés* prefirió - acaso saludando desde lejos a Ovidio - La métamorphose, aquí servilmente hicimos lo mismo. Esa traducción ha de ser - me parece por algunos giros - de algún traductor español. Lo que yo sí traduje fueron los otros cuentos de Kafka que están en el mismo volumen publicado por la editorial Losada. Pero, para simplificar - quizá por razones meramente tipográficas -, se prefirió atribuirme a mí la traducción de todo el volumen, y se usó una traducción acaso anónima que andaba por ahí."
* referindo-se a vialatte, cuja tradução fora publicada pela gallimard em 1928.».
Aqui, em "não gosto de pelágio", na íntegra, da amiga Denise Bottmann
«Durante quase quarenta anos, tomou-se a tradução da novela como se de borges realmente fora. mas, em 1974, fernando sorrentino publica Siete conversaciones con Jorge Luis Borges, onde consta o seguinte diálogo:
"F.S.: Me pareció notar en su versión de La metamorfosis, de Kafka, que usted difiere de su estilo habitual…
J.L.B.: Bueno: ello se debe al hecho de que yo no soy el autor de la traducción de ese texto. Y una prueba de ello - además de mi palabra - es que yo conozco algo de alemán, sé que la obra se titula Die Verwandlung y no Die Metamorphose, y sé que hubiera debido traducirse como La transformación. Pero, como el traductor francés* prefirió - acaso saludando desde lejos a Ovidio - La métamorphose, aquí servilmente hicimos lo mismo. Esa traducción ha de ser - me parece por algunos giros - de algún traductor español. Lo que yo sí traduje fueron los otros cuentos de Kafka que están en el mismo volumen publicado por la editorial Losada. Pero, para simplificar - quizá por razones meramente tipográficas -, se prefirió atribuirme a mí la traducción de todo el volumen, y se usó una traducción acaso anónima que andaba por ahí."
* referindo-se a vialatte, cuja tradução fora publicada pela gallimard em 1928.».
quarta-feira, novembro 11, 2009
Uma pequenina luz
Uma pequenina luz bruxuleanteJorge de Sena
Uma pequenina luz ao longe
levíssima toca
a íris dos meus olhos, está lá
franca, límpida e sensível
à clara neblina
não é ainda a prata da aurora
Uma pequenina leve
luz de longe
faz um buraco na treva
Avoluma-se e vem
como o dia desejado, o chão
que nos enche sob os pés
este vazio
Não é abismo, essa luz
pequenina luz ao longe
é um pequeno resíduo
de humanidade
é uma estrela, a alva
espuma de uma praia
não é ainda o mar, nem o azul
é uma pequenina leve luz
de longe a despertar-nos.
9-11-2009
segunda-feira, novembro 09, 2009
Ich bin ein Berliner

O muro teve sempre uma brecha
tinha um buraco
à espera de um coração, só os olhos
do sonho passavam, só as palavras
murmuradas, feridas
passavam para lá do betão
armado pelos bárbaros
cairia
pela mão de um Davi
O muro sempre teve um buraco
à espera de um nome
John F.Kennedy.
9/11/2009
Editado também no blog Ab-Integro
domingo, novembro 08, 2009
Carta do Canadá sobre um certo Nobel português
Via A Ovelha Perdida
Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado, no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto atelier passou a ser, também, meu poiso habitual. Meu de muitas outras pessoas.
Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.
A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato, inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio. Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.
Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei nada quando o vi director do Diário de Notícias, a mando do Partido Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas, dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a condizer com a figura.
Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes. Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.
E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o fez por golpe publicitário. Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais. No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito medo. E adiantou: “tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso crítico”. Está tudo dito. É mais um como há tantos anciãos de tino perdido em Portugal. É deixá-lo andar. A mim tanto se me dá.
Fernanda Leitão
(Colaboração de Rui Serodio)
Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado, no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto atelier passou a ser, também, meu poiso habitual. Meu de muitas outras pessoas.
Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.
A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato, inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio. Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.
Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei nada quando o vi director do Diário de Notícias, a mando do Partido Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas, dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a condizer com a figura.
Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes. Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.
E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o fez por golpe publicitário. Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais. No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito medo. E adiantou: “tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso crítico”. Está tudo dito. É mais um como há tantos anciãos de tino perdido em Portugal. É deixá-lo andar. A mim tanto se me dá.
(Colaboração de Rui Serodio)
sábado, novembro 07, 2009
Vergílio Canta Eneias
“Tão difícil empresa era fundar o povo romano.”(Vergílio, Eneida, I)
Na esteira dos Gregos
que acabam por invadir a cidade
em sonho e vinho sepultada
repelido pelos Fados
e as insídias dos Dánaos
Vergílio canta Eneias
e dá à luz os latinos
por vontade dos deuses supernos
depois de Tróia
violada por um cavalo
semelhante a uma montanha
prenhe de Aqueus
já só resta partir
e refundar o sonho
enquanto o céu der pasto
aos astros.
2/11/09
Inédito do meu amigo poeta Brissos Lino para este Blog.
quarta-feira, novembro 04, 2009
Nos campos do holocausto
Havia no ar chaminés
que demoravam a deitar fora
o fogo das cinzas, fumos
que não tocavam as narinas com incenso
Eram sonhos, inocências
plumas da alma
Havia chaminés que se erguiam
no azul sobre os campos, elevavam
como chaminés de fábrica
as suas próprias nuvens
Por entre florestas
de abetos ou salgueiros
chaminés ao fundo de portões
que prometiam asas.
que demoravam a deitar fora
o fogo das cinzas, fumos
que não tocavam as narinas com incenso
Eram sonhos, inocências
plumas da alma
Havia chaminés que se erguiam
no azul sobre os campos, elevavam
como chaminés de fábrica
as suas próprias nuvens
Por entre florestas
de abetos ou salgueiros
chaminés ao fundo de portões
que prometiam asas.
Outubro 2009
terça-feira, novembro 03, 2009
GPA e Jorge de Sena
segunda-feira, novembro 02, 2009
No Éden
Poema inédito enviado por Rui Miguel Duarte
Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"
José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"
Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.
A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.
No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.
Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.
1/11/09
(Rui Miguel Duarte)
Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"
José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"
Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.
A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.
No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.
Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.
1/11/09
(Rui Miguel Duarte)
sexta-feira, outubro 30, 2009
Que luz é a luz se Ofélia
terça-feira, outubro 27, 2009
África
Sem sapatos, os pés na terradescalça, sem camisa
sem a negrura
dos problemas da alma
Com o coração forte
como a corrida do antílope
com uma casa de vento
capim e barro
Sentada à porta fumando
a fogueira foge
para o rotundo silêncio
no seu mover lento
Aos seus pés insectos mortos
descem até ser pó
e a atmosfera cheira
mudando de lugar
e nas tuas mãos
a terra gretada, os teus dedos
adormecem os cabelos
dos teus filhos.
24/10/2009
Publicado como inédito no blog A Ovelha Perdida
sábado, outubro 24, 2009
Onde está a criança
Onde está a criançaque ontem se sentava
sobre a mesa, em porcelana
um galgo salta
no lento espaço da sala
Onde estão as mãos
para as pequenas coisas
as mãos ainda virgens
Onde está o espanto
que escuta no olhar
o tumulto
das futuras águas
E a claridade da sala
é hoje uma luz deixada
por um pássaro
uma seta, abrindo caminhos
na memória
Sentada ainda sobre a mesa
Oh criança serena
sossega a tua língua inquieta.
20/10/2009
quinta-feira, outubro 22, 2009
Os Poetas
“El poeta lírico está sentado cómodamente en casaEl poeta épico recorre las colinas.”
(Peter Handke)
O poeta lírico está comodamente
sentado em casa e na metáfora
constrói o vento da cortina
inquieta, o poeta olha a janela
Enquanto isso
o poeta épico percorre as colinas
de Atenas, molha os pés no fogo
que as sereias ateiam
no Egeu.
Publicado originalmente em A Ovelha Perdida
segunda-feira, outubro 19, 2009
Saramago, amargoso
Saramago, amargosoGrita a todos ser ateu
E proclama ser perigoso
O cristão como o judeu
Torna-se deus a si mesmo
Do alto do Nobel ganho
Dispara asneiras a esmo
Mas sempre a franzir o cenho
Só não entendo um enigma
Digo eu com os meus botões
Enquanto o ouço falar
Porque raio de estigma
Trauma ou complicações
Ele luta contra o ar?
19/10/09
(Manuel Sadino)
sexta-feira, outubro 16, 2009
Penélope Destroçada

Da série de poemas que o poeta Brissos Lino, meu amigo e colaborador, está a escrever perante a sua leitura da Odisseia, de Homero.
“A mim deu o Olímpio mais dores do que a qualquer das mulheres.”
(Homero, Odisseia, Canto IV)
Sem fome e já sem lágrimas
Penélope adormeceu
e junto às portas dos sonhos
resistiu a acalmar
as nuvens negras
que persistiam
suspensas
sobre o coração e o espírito
em forma de pranto
Telémaco se foi
como palavras apetrechadas de asas
o filho amado se foi às escondidas
a saber novas do pai
desaparecido algures no mar
nunca antes vindimado
o mancebo insensato
desconhece tantas coisas
e também que os pretendentes da mãe
lhe congeminam a morte
entre dois festins.
(Homero, Odisseia, Canto IV)
Sem fome e já sem lágrimas
Penélope adormeceu
e junto às portas dos sonhos
resistiu a acalmar
as nuvens negras
que persistiam
suspensas
sobre o coração e o espírito
em forma de pranto
Telémaco se foi
como palavras apetrechadas de asas
o filho amado se foi às escondidas
a saber novas do pai
desaparecido algures no mar
nunca antes vindimado
o mancebo insensato
desconhece tantas coisas
e também que os pretendentes da mãe
lhe congeminam a morte
entre dois festins.
14/10/09
(Brissos Lino)
(Brissos Lino)
quarta-feira, outubro 14, 2009
José Emilio Pacheco, poeta do México

Há uma voz que emociona os jovens mexicanos. É a de um homem de 70 anos que conheceu Octavio Paz, Luis Cernuda, Vicente Aleixandre, Jorge Luis Borges, etc., e não quis conhecer pessoalmente Pablo Neruda - segundo disse numa entrevista.
Há um poema de 1967 que emociona todas as gerações de mexicanos. Chama-se Alta Traición e está no El Pais, no suplemento Babelia, e diz assim:
No amo mi patria.
Su fulgor abstracto
es inasible.
Pero (aunque suene mal)
daría la vida
por diez lugares suyos,
cierta gente,
puertos, bosques de pinos, fortalezas,
una ciudad deshecha, gris, monstruosa,
varias figuras de su historia, montañas
-y tres o cuatro ríos.
Não amo minha pátria.
Seu fulgor abstracto
é inalcançável.
Todavia (ainda que mal soe)
daria a vida
por dez das suas vilas,
certa gente,
portos, pinhais e fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história, montanhas
-e três ou quatro rios.
(Trad.J.T.Parreira)
Trânsitos, Virna Teixeira
terça-feira, outubro 13, 2009
o Último Inverno de Sylvia Plath
Após longo assédiodo inverno, ajustou contas com a lua
arrumou a perfeição
dos símbolos nos poemas, do corpo
e das toalhas
molhadas que vedaram a porta e as janelas
O quarto das crianças seria uma redoma
conservando a infância
Descansada quanto às lides da casa
soçobrava
a cabeça no interior do forno
com o gás ligado
compôs a fria lâmina da morte.
9/10/2009
Publicado originalmente em A Ovelha Perdida
segunda-feira, outubro 12, 2009
A propósito da vala comum de Alfacar
A polémica: exumar ou não os restos mortais de Federico Garcia Lorca«Hola Joâo :
En el tema que tocan de Lorca (mi padre lo conocio), se cuenta en Granada que el poeta no está enterrado en el lugar que se dice. Que días despues de su muerte, mediante un dinero pagado por su padre, fué trasladado a la huerta se San Vicente, residencia de la familia en verano, hoy parque publico.
Motivo por el cual, la familia se opone a la exumación. Parece que esto es cierto.
De cualquier manera lo importante es su obra.
Hasta pronto»
(Yola Corrochano, Granada)
sexta-feira, outubro 09, 2009
quinta-feira, outubro 08, 2009
A Canção de Marchar: Herta Müller
Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papai.Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.
Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.
Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.
Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.
Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. as mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papai seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: "E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim".
Quando estava anoitecendo, papai se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos úmidos.
Na terceira estrofe papai se curvou de dor.
Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papai e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.
Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitva sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.
Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.
No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmã de papai e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que seu marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.
Quando estava anoitecendo as mulheres se levantaram e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papai cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhava como se fossem medalhas.
Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papai estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.
O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.
Via Zero Hora
Herta Müller: Nobel da Literatura 2009
quarta-feira, outubro 07, 2009
A vala comum de Alfacar
Que não se removam os restos do poetaos ossos de Lorca
serão os nossos ossos
Nem os ossos
que Franco escondeu ao mundo
podem penetrar hoje
os recessos da luz
Deixem que repousem no chão
granadino
enganando os relógios
deitados na terra num branco silêncio
Não há mármores, nem palavras
nem metáforas que possam
subir da argila
que ainda bate nas raízes
sob a terra.
Publicado originalmente em Criatividad Internacional
terça-feira, outubro 06, 2009
segunda-feira, outubro 05, 2009
Os restos de Lorca ou o desassossego
Los Lorca se oponen a "remover" los restos y se reservan derecho a identificarlos.Los familiares de Federico García Lorca han pedido a la Junta de Andalucía que los restos del poeta no se "remuevan" de la fosa común de Alfacar (Granada) donde supuestamente se encuentran.
En las alegaciones presentadas a la Consejería de Justicia y Administración Pública ante la solicitud de apertura de la fosa, los sobrinos apuntan además que se considere la posibilidad de declarar los terrenos donde se encuentra como lugar "legalmente autorizado para el enterramiento".
Via Creatividad Internacional
O Embate de Titãs
Poema inédito, enviado para o Poeta Salutor pelo meu amigo Brissos Lino:
Virado para a imensidão
estranho a animosidade
entre oceanos
um mais acima que outro
armam o prelúdio vistoso
duma luta titânica a dois
quem é mais forte? o céu ou o mar?
o abismo superior ameaça
com negros porta-aviões carregados
de águas superiores
fingindo serenidade, o outro
já se revolta nas profundezas
prestes a explodir à superfície
mas uma luz fugidia em forma de paz
consegue ainda escapar
pelas frestas
talvez a querer evitar
o embate de titãs
in extremis
como se fosse o olhar de Deus.
5/10/09
(Brissos Lino)
estranho a animosidade
entre oceanos
um mais acima que outro
armam o prelúdio vistoso
duma luta titânica a dois
quem é mais forte? o céu ou o mar?
o abismo superior ameaça
com negros porta-aviões carregados
de águas superiores
fingindo serenidade, o outro
já se revolta nas profundezas
prestes a explodir à superfície
mas uma luz fugidia em forma de paz
consegue ainda escapar
pelas frestas
talvez a querer evitar
o embate de titãs
in extremis
como se fosse o olhar de Deus.
5/10/09
(Brissos Lino)
sexta-feira, outubro 02, 2009
Splendore a Parigi-Orly
Il taxi correva nelle strade, un fiume in piena, chi a piedi, chi in auto, di fretta, evitava gli argini, in lotta contro il tempo, tutti gli orologi contro il suo. Arrivarono a Parigi Orly.
Ancora in tempo per quel fuoco dentro,amaro il caffè, come un falò in un campo di sogni. Quando una voce chiamò per l’ultima volta i viaggiatori, addii e baci morirono sulle labbra, ricordarono sempre la mezza luna finale prima di diventare uccelli.
(Trad. da Alessandra S. Banti)
quinta-feira, outubro 01, 2009
O Comboio
Os viajantes falam e a conversarola ao ritmo dos carris
Contam vidas
Oferecem olhares
e sandes para o lado
Pode até surgir o amor
numa carruagem de comboio
Há tantos segredos tão próximos
O movimento provoca
coincidências com outros corpos.
26/9/2009
Publicado ineditamente em A Ovelha Perdida
terça-feira, setembro 29, 2009
Rotinas
Vai para o emprego às oito
dentro de um perfume e do corpo
do vestido com o cheiro do café
Todos os dias
a boca do fogão
conhece o mesmo lume
Senta-se na frescura da manhã .
que entra pelas janelas do transporte
Conduz o sangue e a adrenalina
que começam como uma força
no trânsito, sempre o mesmo
o emprego e alguns sonhos.
28/9/2009
Nota crítica in bbde.org:
"Como de costume, belo e certeiro nas palavras escolhidas. Em poucas frases resume cirurgicamente o que significa a repetição dos mesmos gestos todos os dias, ao acordar."
dentro de um perfume e do corpo
do vestido com o cheiro do café
Todos os dias
a boca do fogão
conhece o mesmo lume
Senta-se na frescura da manhã .
que entra pelas janelas do transporte
Conduz o sangue e a adrenalina
que começam como uma força
no trânsito, sempre o mesmo
o emprego e alguns sonhos.
28/9/2009
Nota crítica in bbde.org:
"Como de costume, belo e certeiro nas palavras escolhidas. Em poucas frases resume cirurgicamente o que significa a repetição dos mesmos gestos todos os dias, ao acordar."
domingo, setembro 27, 2009
Diálogo sobre a Guerra Civil espanhola
Cartaz de Valencia, 1936SOY UN CRISTIANO BUENO
A pedra ferida supõe o massacre
brutal
a morte corneou milhares
com as baionetas
da “cara al sol”
aqueceu o sangue nas multidões
como na faena
agora há um generalíssimo em posição
de espanto
na estranheza do inferno:
“Soy un Cristiano bueno, así
por qué estoy sufriendo tanto,
Señor?”
25/9/2009
(Brissos Lino)
COMO BURACOS NA HISTÓRIA
Como buracos na História
(Brissos Lino)
A luz do dia cresce nos buracos
nasce do mármore
a memória dos velhos
A família ali gastou-se e agora
do passado reunida, na parede
que ficou
atrás da vida
A morte rendilhou a pedra
e todo o silêncio de Espanha
detonou ali.
24/9/2009
sexta-feira, setembro 25, 2009
Correio
vem do trabalho às sete
na caixa do correio
as mãos cheirando a rosas
e o pensamento molhado de mensagens
recolhe contas
comunicados bancários e alguns volantes
publicitários
(Adelaide Amorim, Rio de Janeiro)
Via Verso&Prosa
na caixa do correio
as mãos cheirando a rosas
e o pensamento molhado de mensagens
recolhe contas
comunicados bancários e alguns volantes
publicitários
(Adelaide Amorim, Rio de Janeiro)
Via Verso&Prosa
quinta-feira, setembro 24, 2009
Los Fusilados
O poeta Brissos Lino em Barcelona, junto à parede da Igreja de Santa Maria del Pi, onde o catolicíssimo Franco assassinou republicanos.PEDRA DILACERADA
O som ríspido dos tiros martela ainda
o esquecimento
na pequena praça catalã
a chuva das décadas lavou
o sangue dos rojos
fuzilados
e as consciências
mas a parede da igreja de Santa Maria del Pi
guardou as feridas
até hoje
como buracos na História
a pedra dilacerada não se recompôs
ainda
nem a memória
dos homens.
Palmela, Janeiro de 2008
(© Brissos Lino)
segunda-feira, setembro 21, 2009
Desfile de Haute Couture
sábado, setembro 19, 2009
O Prado
Para ver Las Meninas dobramosas esquinas, atravessamos os séculos
e o silêncio pendurado
nas paredes do museu do Prado.
Cruzamo-nos com olhos
e os corpos que vão obedientes
atrás dos pensamentos,
cruzamos quadros com os nossos olhos
como Abraão sem nenhuma aritmética
diante das estrelas,
estamos nus sob o frio de mármore
do museu do Prado.
O nosso coração dá o alarme,
todos os quadros estão ali, e confiamos
voltar atrás nos séculos
do que foi o hemisfério norte.
Nunca entrámos numa tumba
Onde tanto esplende a morte.
terça-feira, setembro 15, 2009
A espera de Bukowski
segunda-feira, setembro 14, 2009
Poética
Comentário sobre o poema "Casa na costa"
(Rui Miguel Duarte)
Tranquilidade demorada, apenas a casa, o nevoeiro e o oceano. Lugar de resguardo e continência, de balanços, e ao mesmo tempo de desejo de se expressar, daí o grito. As gaivotas sopradas são prosopopeia feliz. Na passiva, sem agente de passiva, parece implícita a presença do vento, em ausência. Pois pode ser o vento a fazer ou desfazer névoas. Ou o "eu" que se converte em agente desse fazer e desfazer. Fica como que a "pictura", que é o que é dado ver. As gaivotas, ao elevarem-se e voltearem no ar (vão no vento), para quem olha da casa, ou de outra perspectiva, parecem sopradas.
(Rui Miguel Duarte)
sábado, setembro 12, 2009
O regresso dos restos de Jorge de Sena

«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha»
Toda a gente está feliz pelo «regresso de um dos grandes homens de cultura do século XX».
Jorge de Sena regressou, mas já não pode dizer isso em poema, como o fez, datando os versos de 21/4/74. Agora regressou para tornar feliz a consciência de alguns hipócritas, mais felizes do que ele porque ainda estão vivos.
«...O povo, como pode
sobrevive, entre futebol e emigração. O resto
lê, com esperança, com raiva, ou com desânimo,
o livro do general que, silencioso, não comenta
dos jovens centuriões que se precipitaram.»
A minha geração e aqueles com mais de 40 anos entendem estes versos, na sua prosopopeia poética.
Também a referência a dois aspectos cruciais da história contemporânea no poema (*)
Ou este aviso, muito significativo com data de 4/6/74, «Liberdade, liberdade, / tem cuidado que te matam».
(*)
o livro 'Portugal e o Futuro', do Gen. António de Spínola e o Golpe das Caldas, de 16/3/74
quinta-feira, setembro 10, 2009
terça-feira, setembro 08, 2009
Casa na costa
Numa casa em frente do mara fazer
e a desfazer névoas
Com gaivotas
sopradas desde as rochas
Uma casa com um quintal
debruçado para o coração
do oceano
onde um grito, que saia
pela noite, um grito
repercuta
todos os silêncios
que guardei
Pouca coisa poria numa casa assim
defronte do mar
para fazer
e desfazer os lentos
nevoeiros.
5/9/2009
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