domingo, março 28, 2010

Para onde voa um pardal encalhado

Créditos da foto:olhares.com, by Dolly

Poema inédito para o Salutor, do poeta Brissos Lino


“(…) é um simples
pardal encalhado.”(J.T.Parreira)

Para onde voa um pardal encalhado
na seara urbana de telhas sujas
avermelhadas
e chaminés ausentes?
que cores vivas lhe poderão magnetizar
o bico delicado
por entre a floresta de antenas
metálicas

se um musgo aqui e ali
ou uma flor selvagem nos beirais
podem esconder felinos perigos
na primeira esquina
de um terraço.

27/3/10

(Brissos Lino)

quinta-feira, março 18, 2010

Poema do suicida cansado

A árvore estreitou-lhe a sombra
os braços
confundiram o corpo
e agarram a vida

Muita coisa se adivinha
como o sol amplo
no mar ocidental
a pura imagem da luz
no rosto
que se esconde
inebriado pelo azul ainda

do avesso a carta
dá uma razão
envergonhada.
Publicado ineditamente no blog A Ovelha Perdida

segunda-feira, março 15, 2010

A Morte não me encontrou

Poema inédito de Brissos Lino


“a morte não me encontrou” (Mia Couto)

Nunca andei fugido
nem escondido
nem dissimulado na paisagem
mas consta que a morte passou por mim
sem me reconhecer

talvez queira jogar comigo
uma partida de xadrez
como num filme de Bergman

não a percebi, talvez
porque não a temo
estou sem tempo para a acolher
no sótão
das minhas cogitações.

15/3/10

(Brissos Lino)

sexta-feira, março 12, 2010

Irena Sendler

Salvas por uma pequena mão
maior que o corpo
a mão
que escondia
as crianças judias

esperavam brincar
na palma azul
da mão infinita

espreitavam em buracos
dentro de malas, ao lado
do sol
em caixas do lixo
pequenos cordeiros calados
na sua inocência.

12/03/2010

quinta-feira, março 11, 2010

As mesmas teclas de Eugénio de Andrade



Tu já tinhas um nome e eu não sei

se eras fonte ou brisa ou mar ou flor

nos meus versos chamar-te-ei Amor


Este madrigal de apenas três versos de Eugénio de Andrade reflecte o que a sua poética possui, entre múltiplos achados, de lirismo da repetição como um acto criador.
A meu ver, uma das características marcantes da poesia do autor de «Obscuro Domínio» é esse andar de palavra em palavra, sugando-lhes o tutano ( ou melhor, para o estado lírico da palavra poética, sugando-lhes o mel), repetindo-as desde 1942, para desencantar o cerne da Poesia.
Esta é, na verdade, a tarefa em que o poeta se reedita, com feliz pertinácia, como ele próprio declarou, em 1971, na obra acima referida: «Recomeço no coração da pedra a juntar palavras».
Ciente da dureza da pedra, nela trabalha para arrancar formas onde o sol da poesia possa estender-se, trabalho de mineiro ou de escultor, é, curiosamente, noutro coração que o poeta repousa, no coração do lume: «Amo o repouso no coração do lume», embora aqui esteja a designar um fruto, a romã.
Esta é também uma das características da poesia de Eugénio, sublinhada há duas dezenas de anos por outro grande poeta, Ramos Rosa, a qual consiste na procura da génese ou núcleo do universo «que seja ao mesmo tempo matriz orgânica e linguagem viva.»
Assim, o descanso do poeta é procurar a palavra, trabalhar a palavra, repetir a palavra. Desta maneira, com o seu segundo livro «As Mãos e os Frutos» - de resto, o primeiro fundamental de uma vastíssima bibliografia - até ao mais recente ( no momento em que escrevo, será «Os Sulcos da Sede», de 2001, o último que li), o poeta insiste em percorrer os seus vocábulos de textura material, para desta se libertar até a palavra ser signo puro, sempre sob o impulso de um vocábulo de acção que é recorrente na linguagem do poeta: recomeço.
E as palavras, que se repetem, começaram por vir de longe, porquanto na obra de Andrade predomina a visão e a memória. Os vocábulos eugenianos vêm da matéria e do que é imaterial, vêm dos elementos da natureza e do universo, da sua mecânica celeste.
Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada.
Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de Ostinato Rigore é também recorrente ao termo «longe» ou à palavra «fundo».
Em «Obscuro Domínio», obra já muito distante, escrevia o poeta: «Vejo ao longe os meus dóceis animais», noutro livro muitíssimo mais perto, no tempo, escreve: «Veio de longe, e mal chegou
partiu para mais longe ainda» («Os Sulcos da Sede»)
Por vezes sentimos na sua poesia que existe como que um apelo, uma exigência das palavras para figurarem exactamente no poema. Um dos maiores críticos literários portugueses, e especialmente da obra do nosso poeta, Óscar Lopes, certificou essa recorrência ao escrever «que às vezes, e de repente, sentimos que, pelo contrário, estão as frases, as palavras, a utilizarem-nos como se fôssemos nós, e não elas, a servir de veículos para certo sentido». (prefácio à velhinha Antologia Breve, Colecção Duas Horas de Leitura, 13, da extinta Inova, 1972).
O exercício da leitura da poesia de Eugénio de Andrade é igual hoje, em 2005, ao que foi, com certeza, em 1942, um percurso musical sobre as mesmas teclas.
2005

sexta-feira, março 05, 2010

Os que se amam


Écfrase para o quadro «Os Amantes» de Rene Magritte
ineditamente publicada aqui n'A Ovelha Perdida



Tinham o rosto aberto a quem passava(Eugénio de Andrade)

Já lhes tiraram o rosto e os seus nomes
são um veludo que soa
só aos ouvidos dos amantes
Já lhes vendaram os olhos
e assim o universo
passou para dentro do seu peito
e os dois corações
são o único horizonte.

3/3/2010

domingo, fevereiro 28, 2010

O pássaro descasca o silêncio


«Para dar imagens ao silêncio
pede ao céu
um bater de asas
tirado da essência
de um pássaro»
Rui Miguel Duarte


A essência de um pássaro
está no voo
é o silêncio que se move
e voa para todos os lados
da esfera
no silêncio onde mergulha
e depois emerge
e respira
e faz equílibrio nos fios do sol

Quando o céu se estende
nas aves
um pássaro apenas
quando voa
descasca o silêncio.





sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Para dar imagens ao silêncio


Poema inédito de Rui Miguel Duarte, glosando a frase «dar imagens ao silêncio» de JTP no Facebook
Para dar imagens ao silêncio
pede ao céu
um bater de asas
tirado da essência
de um pássaro

pede a uma árvore
que te ceda
um sopro de vento
que silve os arcos
dos teus cabelos

pede à praia
que te grave
nas dunas
o estrugido
da espuma
que lhes bate nos joelhos

pede à noite
que não transtorne
a memória
de um só segundo
do corrupio
no coração dos
espaços vagos de gentes

Para dar imagens ao silêncio
pede à criança
que após o temporal
quando nada mais resta
senão a pátina
à superfície do cristal
te pinte o arco-íris

24/02/10

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Um par de botas

Há botas velhas tão limpas
como rosas

De pétalas dobradas, tristes
canos que adornaram
tíbias orgulhosas

Botas à volta das quais
o vento e a poeira
rodopiam, rosas
que esperam a calma
das mãos que as depositem
num canto da sala

Há botas tão interessantes
como rosas
como o veludo das rosas
para nos adoçar os dedos

Botas velhas para o secreto
movimento dos pés.

25/2/2010

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Concerto Vozes pelo Haiti (2)

O Poeta lê «Os Limites», no Concerto do dia 14 de Fevereiro em Lisboa, ao piano o Maestro Pedro Duarte.
« OS LIMITES
hay un espejo que me ha visto por última vez
Jorge Luis Borges
Há um espelho que não sabe
onde estará teu rosto
há a lâmpada com que feriste
pela última vez teus olhos
há a música que não tardará
a encontrar outros ouvidos
há uma última noite em que os sonhos
ficarão nas galerias, solitários
Pela última vez
há um pássaro que parte
o silêncio que há no ar
Há um dia que se fecha na morte. »
1985

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Vozes pelo Haiti

Concerto Vozes pelo Haiti, música e poesia de inspiração religiosa, evangélica. A notícia aqui.
Na foto, o maestro Pedro Duarte, os poetas Brissos Lino e J.T.P, ontem em Lisboa.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

O Arqueiro

O arco retesa-se para trás
retém o impulso da flecha

Um silêncio aguarda
da haste florida
o silvo agudo

Nas mãos do arqueiro
o dom
de dar ao vento a frecha
que o perfure

Das mãos do arqueiro
o equilíbrio
entre o presente e o futuro.

8-2-2010

poema inicialmente editado como inédito em A Ovelha Perdida

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Quando se parte

Poema inédito do poeta Brissos Lino

Se te meteres a caminho
com o bilhete de volta na algibeira
então nunca terás partido.
(Rui Miguel Duarte, Viagem de ida)


Quando se parte, olha-se em frente
pergunta-se ao mar o sal
que as ondas lambem
pede-se ao céu
um vislumbre do destino

quando se parte, o coração é um mastro
levantado como o sol
com velas brancas felizes

quando se parte, o rosto arredonda-se
e a brisa marítima promete
um mar amigo

quando se parte, a música das águas
acalma o espírito
afasta as nuvens do medo

quando se parte, enche-se o peito todo
de ar e afirmação
à saída da barra

quando se parte, esticam-se mãos
de longos dedos
ao esperançoso fio do horizonte

quando se parte, é perigoso
olhar para trás.

8/2/2010

(Brissos Lino)

domingo, fevereiro 07, 2010

Espelho Partido

O espelho partiu/a moldura ficou
Ana Hatherly


O espelho divide-nos
Bocados
nossos pelo chão
enquanto os dedos
sangram pela fúria
do vidro

Um espelho partido
ramos
do mesmo inteiro rosto
disperso na prata

A cerejeira
da moldura está intacta.

12/1/2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Entre passos


Há um compasso no passo
Que aguarda outro passo
A sequência imediata
No equilíbrio latente
Quer do corpo
Quer da mente.
Mas entre o passo dado
E o passo a dar
Há um compasso
E uma espera
Um destino a venerar.

5/2/2010

Poema inédito de Florbela Ribeiro

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

amtrak haiku


proud trenton
cheeseburger
trees, river shores, trees
by asheresque
in Action Poetry / Literary Kicks

A orgulhosa Trenton
cheeseburger
árvores, nas margens do Delaware, árvores

(Trad. J.T.Parreira)

sábado, janeiro 30, 2010

Quando toca às 17:45, as crianças querem todas a lua, não no sentido em que Calígula a queria, mas a liberdade de correr uns contra os outros, uns pelos outros, pelo recreio até aos pais e avós.

O meu neto Vasco, veio e disse-me:-Avô, hoje fizemos uma poesia. Que as pedras cantam. Sabes, avô, uma poesia é uma imaginação.

Parei, respondi-lhe a perguntas seguintes que também eu fazia poesias e que sabia que as pedras podem clamar, cantar e chorar lágrimas, sobretudo quando chove.

Mas pensei: ando a ler há quatro décadas pelo menos, Aristóteles, Horácio, Shelley, Johannes Pfeiffer, Todorov, Jean Cohen, Rainer Maria Rilke, e até Marcuse, para saber o que é a Poesia. Ouço cursos de Poética, Estética de Plotino, até o "Carteiro de Pablo Neruda" sobre a metáfora.

E o meu neto, Vasco Parreira, 7 anos, disse-o de uma penada: - Avô, é uma Imaginação. A poesia é uma imaginação.

(Inédito inicialmente editado no Facebook)

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A ave aflita do meu beijo

Chagall, Paisagem Azul

Quando a minha mão
contém a tua mão
quando os meus olhos contêm
os teus olhos
Quando a minha língua
desagua em tua boca
para levar para dentro de ti
o meu desejo
Eu sei como te amo
quando os teus lábios andam longe
e não te encontra
a ave aflita do meu beijo.

27/1/2010