sábado, janeiro 30, 2010

Quando toca às 17:45, as crianças querem todas a lua, não no sentido em que Calígula a queria, mas a liberdade de correr uns contra os outros, uns pelos outros, pelo recreio até aos pais e avós.

O meu neto Vasco, veio e disse-me:-Avô, hoje fizemos uma poesia. Que as pedras cantam. Sabes, avô, uma poesia é uma imaginação.

Parei, respondi-lhe a perguntas seguintes que também eu fazia poesias e que sabia que as pedras podem clamar, cantar e chorar lágrimas, sobretudo quando chove.

Mas pensei: ando a ler há quatro décadas pelo menos, Aristóteles, Horácio, Shelley, Johannes Pfeiffer, Todorov, Jean Cohen, Rainer Maria Rilke, e até Marcuse, para saber o que é a Poesia. Ouço cursos de Poética, Estética de Plotino, até o "Carteiro de Pablo Neruda" sobre a metáfora.

E o meu neto, Vasco Parreira, 7 anos, disse-o de uma penada: - Avô, é uma Imaginação. A poesia é uma imaginação.

(Inédito inicialmente editado no Facebook)

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A ave aflita do meu beijo

Chagall, Paisagem Azul

Quando a minha mão
contém a tua mão
quando os meus olhos contêm
os teus olhos
Quando a minha língua
desagua em tua boca
para levar para dentro de ti
o meu desejo
Eu sei como te amo
quando os teus lábios andam longe
e não te encontra
a ave aflita do meu beijo.

27/1/2010

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Lisbon Revisited ( II )

Outro inédito para revisitar Lisboa, do Poeta Brissos Lino


Aguarela de Carlos Botelho

LISBOA

“Lisboa, que não é mais, teve ela mais víciosQue Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris."
(Voltaire, Poème sur le désastre de Lisbonne, 1755)



Lisboa não disse nada em 1755
resguardou-se no silêncio
sofreu o dano e calou
renasceu depois, como a Fénix,
de quase todas as ruínas
enterrou os mortos
cuidou dos vivos
reorganizou a sua luz
como nunca

Pela mão férrea do Marquês
voltou a dançar
mas não a valsa
- Lisboa, não sejas francesa -
uma dança mais popular
diferente dos nobres salões
dourados e frívolos
de Paris.


20/1/10

(Brissos Lino)

Lisbon Revisited ( I )

O POETA FOI À ESCOLA
(Inédito do meu Amigo Brissos Lino)
(Na descoberta casual de que o meu velho amigo e mestre na Poesia, J.T.Parreira, frequentou a mesma escola do Ciclo Preparatório que eu, a Nuno Gonçalves e a mesma Escola Primária do Vale Escuro, em Lisboa.)


O poeta foi à escola
procurar a luz no Vale Escuro
aprendeu letras que falam
e números que contam
aprendeu os truques admiráveis
do lápis criador
fez borboletas que voam
e cães que ladram
no papel

descobriu que há lá muitos meninos
alvos como a neve
pontilham o pátio do recreio
saltam como os filhos da corça
roem um pedaço de pão com marmelada
mas são soldados alinhados na porta
à hora da aula

batem-se contra uma ardósia gigante
- com espadas de giz branco -
sentem o horror do vazio
face ao quadro negro

o poeta voltou a casa
à hora do almoço
a sorrir para dentro
na ruminação das aventuras
e novas descobertas
do dia.

20/1/10

(Brissos Lino)





quinta-feira, janeiro 21, 2010

A Crónica

Escreve uma crónica sobre
esta cadeira
que está à tua frente
as quatro pernas exaltando
o assento humilde
fazem um mundo
o único onde descansa o corpo

Escreve que o corpo
por vezes é ingrato, despreza
as mãos, que entre beijos
e asperezas, criaram e subiram
a cadeira
para os cansados, os mais
pobres, à condição de trono

Escreve
escreve que a madeira foi salva
da terrível mão do fogo.

2010

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Luís de Camões, o Navegador

O poeta Brissos Lino, num inédito para o Salutor, e uma releitura de Os Lusíadas com base em interessante interpelação:

O MAR NUNCA COMEÇA

“Onde a terra acaba e o mar começa.”
(Camões, Lusíadas, Canto III, 20)


Sabes, Camões,
o mar nunca começa
sempre esteve lá
muda de cor e de entranhas
correntes, temperatura,
fauna e flora

a terra não termina
transforma-se como uma mulher
da planície à montanha
do deserto à floresta
do planalto ao vale

e há terra no mar e mar na terra.

Sabes, Camões,
tudo o resto é pura ilusão
quinhentista.

16/1/10

(Brissos Lino)

sexta-feira, janeiro 15, 2010

terça-feira, janeiro 12, 2010

O Melhor: Rui Miguel e Píndaro

“O melhor é a água; o ouro, qual fogo abrasador
que se distingue na noite, sobrepuja a soberba riqueza humana”
Píndaro, I Ode Olímpica


Não há melhor
do que a água
a sua ausência faz brotar o deserto
seco e abrasador
tão seco e abrasador
que as aranhas nele tecem teias de pó

Preciosa e excelente é a água
seiva do meu corpo
substância do rio do meu pensamento
que permeia a concha da minha mão
e guia a minha boca
no leito da língua

Fogo abrasador é o ouro
não é riqueza feita por homens
mas a substância pura
salpicada do sol
na nervura da terra
cada pedra seca e abrasadora
é afinal uma pepita
esfolada e purificada
pela mão de Deus
até lhe conferir
o perpétuo esplendor

A água e o ouro
são o sangue
e os labirintos transparentes
do coração
o suor e a glória
do vencedor

9/01/10

(Rui Migul Duarte)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

A Rapariga à Janela

Olhos
que devem estar a caminho da outra margem
riem do espelho amarrotado das águas?
Choram algum diminuto amor
distante? Que fere
o seu rosto para o esconder do passado
e dar-lhe apenas o volume do seu corpo?
Enquanto olha
o que pode ser a quieta eternidade
de uma vela
olha com que olhos, rosto
lábios, entreabrindo o silêncio?
apoiando os cotovelos na janela.

11/01/2010

sábado, janeiro 09, 2010

Os Olhos de Galileu, inédito de Brissos Lino

Em 8 de Janeiro de 1642 morreu em Florença, fez 368 anos, e articulistas e poetas moveram-se por essa efeméride.

Os olhos de Galileu iluminam
o espírito dos homens
remetem-nos para os terrenos do pensamento
um lugar sem protecções
à volta
os olhos de Galileu inquirem os astros
mas sem magias
querem entender a mecânica
da coisa
os olhos de Galileu dialogam
com as evidências
desviam-se por momentos do dogma
estabelecido
os olhos de Galileu despejam-lhe
uma sensação de paz
na alma
mesmo perante a iminência
da morte
os olhos de Galileu fazem-no sorrir
discretamente.

9/1/10
(Brissos Lino)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Endlösung Der Judenfrage (Solução Final)


Agora juntas o teu peso/tudo o que é leve
Paul Celan


Agora juntas ao teu peso
a cinza
A leveza da nossa morte

Agora as nuvens te salpicam
com pequenas gotas de sol
As cidades estão escuras
sobre elas os cavalos da guerra
e o ódio do centauro

Fumo é o teu corpo
depois de te aprisionar a chaminé
e a cinza que pára
às portas
vigilantes do céu.

31/12/2009

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Uma rosa às 9:45

A tua rosa poderia apaziguar o mundo
este tumulto do coração
nos olhos, nas minhas mãos
que se abrem como as pétalas
para receber a rosa
pontual

Poderia apaziguar o mundo
de toda a beleza
esta rosa às 9:45, vermelha
é uma estrela dos ventos
um brinco
febril que caiu da tua orelha

Recebida como o brilho da manhã
choca no meu sangue
o lume contra as trevas.

4-01-2010

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Eu não queria Paris

(Janeiro de 1994)

Eu não queria Paris com aguaceiros
nessa noite de luzes
Ofuscavam as pedras da rua
de Montmartre
Eu não queria
para passear os versos
que levava sob o braço

A neblina sobre o Sena
esboçava os barcos
onde vive gente
debruçada sobre óleos
espalhando a água e rosas em vias
de extinção

Eu não queria Paris com cortinados
de chuva, nessa noite
de inverno para subir
nos meus olhos
ao topo da Eiffel.

26/12/2009

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Inédito de Brissos Lino num Turner de tempestade

Turner: Snow Storm


Naquela tarde tempestuosa

Naquela tarde tempestuosa
olhei o céu
na excitação das gaivotas
debaixo de nuvens em viagem acelerada
para o interior
desde a orla do mar revolto

naquela tarde escura
senti o Éolo frio
persistentemente no rosto
e nos cabelos
a empurrar as naus cinzentas
peregrinas no espaço superior

naquela tarde o céptico viu a aproximação
de uma tempestade
e o crente uma teofania celeste
(aquela nuvem parecia uma águia ou um anjo?)

Naquela tarde lavei os olhos
e percebi-me companheiro das nuvens
amigo de Deus.

28/12/09
(Brissos Lino)

segunda-feira, dezembro 28, 2009

2 Poemas de Nic Klecker

Poema 1

« ... tu chauffes la paume / de ma main / comme jadis le pain rond / dont la croûte craquait »

… tu aqueces a palma
da minha mão
como outrora o pão redondo
de crosta estaladiça.

Poema 2

«... Tes racines / sont nos années / enfuies dans le sable du temps // L’espoir s’est raréfié / dans l’air de ton absence […] Tes mains se joignent encore / et prennent le sable fin / que tes yeux laisseront glisser / entre tes doigts / Sablier du bonheur / Sablier de ma peine »

As tuas raízes
são os nossos anos
fugidos na areia do tempo

A esperança rarefez-se
no ar da tua ausência […]
As tuas mãos juntam-se ainda
e agarram a areia fina
que os teus olhos deixarão deslizar
entre os teus dedos
Ampulheta da felicidade
Ampulheta da minha dor.

(Tradução de Rui Miguel Duarte)

sábado, dezembro 26, 2009

Titanic

O barco inclina o seu dorso
frio
contemplam as estrelas
o seu rasgão mortal
não há ondas em fúria
o mar está um chão
com luar gelado
os últimos sons da orquestra
começam
a passar para o lado do silêncio.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Nic Klecker (1928-2009), Poeta do Luxemburgo

La mort sait bien
qu'elle va gagner le duel
en attendant

la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret

(Seleccionado e editado por Florbela Ribeiro, no Facebook)
...................................

A morte sabe bem
que vai ganhar o duelo
enquanto espera

a vida
executa hábeis paradas
e o amor
guia o seu florete

(Tradução de Rui Miguel Duarte)


domingo, dezembro 20, 2009

Uma estória ao fundo - poemas


Uma estória ao fundo - conjunto de estórias com alguns poemas


Lolita depois de Nakokov (I)

Escapou de um delírio de autor
Mãe seria de filhos na classe
operária, casa pobre
no vale sombrio
entre os seus seios a cor pálida
da fome, escapou da prisão
da luxúria, era agora
dona de casa, passava a ferro
corações disformes
estampados no vestido
escapara de um delírio
de um livro.

20-12-2009



Na Grande Estação Central (II)

Un hombre está mirando a una mujer
César Vallejo


Na Grande Estação Central
um homem está olhando uma mulher
Por uma janela do comboio
um olhar de vidro
para uma mulher que espera
enquanto molha uma revista
em lágrimas

Na Grande Estação Central a plenitude
entre uns olhos e a mulher olhada
pela tristeza defendida
por detrás da silenciosa água
que lhe corre pela cara

Uma mulher que chora
uma mulher interminável
olhada através do frio
do vidro
que começa a partir para um destino.

19/12/2009


sábado, dezembro 19, 2009

A Desconhecida do Sena


Ninguém te quis
sereia seduzida pelas águas
Uma vida que termina com a maré
numa margem de tela
no óleo do rio Sena
Nenhum impressionismo
na beleza pálida do rosto
um sorriso beijado
pelos lábios frios
da morte
de todas as jovens afogadas
a quem o rio tomou a vida
é a mais bela.

19/12/2009