segunda-feira, novembro 09, 2009

Ich bin ein Berliner


O muro teve sempre uma brecha
tinha um buraco
à espera de um coração, só os olhos
do sonho passavam, só as palavras
murmuradas, feridas
passavam para lá do betão
armado pelos bárbaros
cairia
pela mão de um Davi
O muro sempre teve um buraco
à espera de um nome
John F.Kennedy.

9/11/2009
Editado também no blog Ab-Integro

domingo, novembro 08, 2009

Haiku


Grupo de Câmara
a suavidade da água:
cordas, sem metais.
8/11/2009

Carta do Canadá sobre um certo Nobel português

Via A Ovelha Perdida

Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado, no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto atelier passou a ser, também, meu poiso habitual. Meu de muitas outras pessoas.
Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.
A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato, inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio. Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.
Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei nada quando o vi director do Diário de Notícias, a mando do Partido Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas, dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a condizer com a figura.
Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes. Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.
E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o fez por golpe publicitário. Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais. No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito medo. E adiantou: “tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso crítico”. Está tudo dito. É mais um como há tantos anciãos de tino perdido em Portugal. É deixá-lo andar. A mim tanto se me dá.
Fernanda Leitão

(Colaboração de Rui Serodio)

sábado, novembro 07, 2009

Vergílio Canta Eneias

“Tão difícil empresa era fundar o povo romano.”
(Vergílio, Eneida, I)



Na esteira dos Gregos
que acabam por invadir a cidade
em sonho e vinho sepultada
repelido pelos Fados
e as insídias dos Dánaos
Vergílio canta Eneias
e dá à luz os latinos
por vontade dos deuses supernos

depois de Tróia
violada por um cavalo
semelhante a uma montanha
prenhe de Aqueus
já só resta partir
e refundar o sonho
enquanto o céu der pasto
aos astros.

2/11/09


Inédito do meu amigo poeta Brissos Lino para este Blog.



quarta-feira, novembro 04, 2009

Nos campos do holocausto


Havia no ar chaminés
que demoravam a deitar fora
o fogo das cinzas, fumos
que não tocavam as narinas com incenso
Eram sonhos, inocências
plumas da alma
Havia chaminés que se erguiam
no azul sobre os campos, elevavam
como chaminés de fábrica
as suas próprias nuvens
Por entre florestas
de abetos ou salgueiros
chaminés ao fundo de portões
que prometiam asas.


Outubro 2009



terça-feira, novembro 03, 2009

GPA e Jorge de Sena

Homenagem a Jorge de Sena


O Grupo Poético de Aveiro e Buchholz Aveiro convidam todas as pessoas a participar nesta tertúlia. Dia 07 de Novembro, na livraria, pelas 18H. (Praça Marquês de Pombal, nº3)
Entrada Livre!

segunda-feira, novembro 02, 2009

No Éden

Poema inédito enviado por Rui Miguel Duarte

Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"

José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"


Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.

A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.

No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.

Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.

1/11/09

(Rui Miguel Duarte)

sexta-feira, outubro 30, 2009

Que luz é a luz se Ofélia


Detalhe de Millais, 1852


Que luz é a luz
se Ofélia não a pode contemplar
que riso é o riso
se Ofélia não pode ver a sua fonte
que sol é o sol
se Ofélia não lhe pode dar o rosto
a descoberto.

terça-feira, outubro 27, 2009

África

Sem sapatos, os pés na terra
descalça, sem camisa
sem a negrura
dos problemas da alma

Com o coração forte
como a corrida do antílope
com uma casa de vento
capim e barro

Sentada à porta fumando
a fogueira foge
para o rotundo silêncio
no seu mover lento

Aos seus pés insectos mortos
descem até ser pó
e a atmosfera cheira
mudando de lugar

e nas tuas mãos
a terra gretada, os teus dedos
adormecem os cabelos
dos teus filhos.

24/10/2009
Publicado como inédito no blog A Ovelha Perdida

sábado, outubro 24, 2009

Onde está a criança

Onde está a criança
que ontem se sentava
sobre a mesa, em porcelana
um galgo salta
no lento espaço da sala

Onde estão as mãos
para as pequenas coisas
as mãos ainda virgens

Onde está o espanto
que escuta no olhar
o tumulto
das futuras águas

E a claridade da sala
é hoje uma luz deixada
por um pássaro
uma seta, abrindo caminhos
na memória

Sentada ainda sobre a mesa
Oh criança serena
sossega a tua língua inquieta.

20/10/2009

quinta-feira, outubro 22, 2009

Os Poetas

“El poeta lírico está sentado cómodamente en casa
El poeta épico recorre las colinas.”
(Peter Handke)


O poeta lírico está comodamente
sentado em casa e na metáfora
constrói o vento da cortina
inquieta, o poeta olha a janela
Enquanto isso
o poeta épico percorre as colinas
de Atenas, molha os pés no fogo
que as sereias ateiam
no Egeu.

Publicado originalmente em A Ovelha Perdida

segunda-feira, outubro 19, 2009

Saramago, amargoso

Saramago, amargoso
Grita a todos ser ateu
E proclama ser perigoso
O cristão como o judeu

Torna-se deus a si mesmo
Do alto do Nobel ganho
Dispara asneiras a esmo
Mas sempre a franzir o cenho

Só não entendo um enigma
Digo eu com os meus botões
Enquanto o ouço falar

Porque raio de estigma
Trauma ou complicações
Ele luta contra o ar?

19/10/09

(Manuel Sadino)

sexta-feira, outubro 16, 2009

Penélope Destroçada


Da série de poemas que o poeta Brissos Lino, meu amigo e colaborador, está a escrever perante a sua leitura da Odisseia, de Homero.


“A mim deu o Olímpio mais dores do que a qualquer das mulheres.”
(Homero, Odisseia, Canto IV)



Sem fome e já sem lágrimas
Penélope adormeceu
e junto às portas dos sonhos
resistiu a acalmar
as nuvens negras
que persistiam
suspensas
sobre o coração e o espírito
em forma de pranto

Telémaco se foi
como palavras apetrechadas de asas
o filho amado se foi às escondidas
a saber novas do pai
desaparecido algures no mar
nunca antes vindimado

o mancebo insensato
desconhece tantas coisas
e também que os pretendentes da mãe
lhe congeminam a morte
entre dois festins.
14/10/09

(Brissos Lino)

quarta-feira, outubro 14, 2009

José Emilio Pacheco, poeta do México


Há uma voz que emociona os jovens mexicanos. É a de um homem de 70 anos que conheceu Octavio Paz, Luis Cernuda, Vicente Aleixandre, Jorge Luis Borges, etc., e não quis conhecer pessoalmente Pablo Neruda - segundo disse numa entrevista.
Há um poema de 1967 que emociona todas as gerações de mexicanos. Chama-se Alta Traición e está no El Pais, no suplemento Babelia, e diz assim:


No amo mi patria.
Su fulgor abstracto
es inasible.
Pero (aunque suene mal)
daría la vida
por diez lugares suyos,
cierta gente,
puertos, bosques de pinos, fortalezas,
una ciudad deshecha, gris, monstruosa,
varias figuras de su historia, montañas
-y tres o cuatro ríos.


Não amo minha pátria.
Seu fulgor abstracto
é inalcançável.
Todavia (ainda que mal soe)
daria a vida
por dez das suas vilas,
certa gente,
portos, pinhais e fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história, montanhas
-e três ou quatro rios.

(Trad.J.T.Parreira)

Trânsitos, Virna Teixeira


Depois do dactiloescrito (em Word, claro), que a poeta me enviou, eis o livro: «Para o João Tomaz Parreira, estes poemas em Trânsito. Um abraço, Virna».

terça-feira, outubro 13, 2009

o Último Inverno de Sylvia Plath

Após longo assédio
do inverno, ajustou contas com a lua
arrumou a perfeição
dos símbolos nos poemas, do corpo
e das toalhas
molhadas que vedaram a porta e as janelas

O quarto das crianças seria uma redoma
conservando a infância

Descansada quanto às lides da casa
soçobrava
a cabeça no interior do forno
com o gás ligado
compôs a fria lâmina da morte.

9/10/2009

Publicado originalmente em A Ovelha Perdida

segunda-feira, outubro 12, 2009

A propósito da vala comum de Alfacar

A polémica: exumar ou não os restos mortais de Federico Garcia Lorca

«Hola Joâo :
En el tema que tocan de Lorca (mi padre lo conocio), se cuenta en Granada que el poeta no está enterrado en el lugar que se dice. Que días despues de su muerte, mediante un dinero pagado por su padre, fué trasladado a la huerta se San Vicente, residencia de la familia en verano, hoy parque publico.
Motivo por el cual, la familia se opone a la exumación. Parece que esto es cierto.
De cualquier manera lo importante es su obra.
Hasta pronto»
(Yola Corrochano, Granada)

sexta-feira, outubro 09, 2009

quinta-feira, outubro 08, 2009

A Canção de Marchar: Herta Müller

Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papai.

Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.
Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.

Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.

Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.

Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. as mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papai seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: "E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim".

Quando estava anoitecendo, papai se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos úmidos.
Na terceira estrofe papai se curvou de dor.

Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papai e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.

Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitva sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.

Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.
No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmã de papai e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que seu marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.

Quando estava anoitecendo as mulheres se levantaram e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papai cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhava como se fossem medalhas.

Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papai estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.
O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.


Via Zero Hora

Herta Müller: Nobel da Literatura 2009

A poeta alemã/romena HERTA MÜLLER:


«Pela concentração da sua poesia e a franqueza da sua prosa, que retratam a paisagem dos espoliados.»

Herta Muller, romancista, poeta e ensaísta, cujo trabalho incidiu essencialmente sobre a ditadura de Ceaucescu, os romenos e os exílios.
Nasceu em 1953.

quarta-feira, outubro 07, 2009

A vala comum de Alfacar

Que não se removam os restos do poeta
os ossos de Lorca
serão os nossos ossos

Nem os ossos
que Franco escondeu ao mundo
podem penetrar hoje
os recessos da luz

Deixem que repousem no chão
granadino
enganando os relógios
deitados na terra num branco silêncio

Não há mármores, nem palavras
nem metáforas que possam
subir da argila
que ainda bate nas raízes
sob a terra.

Publicado originalmente em Criatividad Internacional

terça-feira, outubro 06, 2009

segunda-feira, outubro 05, 2009

Os restos de Lorca ou o desassossego

Los Lorca se oponen a "remover" los restos y se reservan derecho a identificarlos.

Los familiares de Federico García Lorca han pedido a la Junta de Andalucía que los restos del poeta no se "remuevan" de la fosa común de Alfacar (Granada) donde supuestamente se encuentran.

En las alegaciones presentadas a la Consejería de Justicia y Administración Pública ante la solicitud de apertura de la fosa, los sobrinos apuntan además que se considere la posibilidad de declarar los terrenos donde se encuentra como lugar "legalmente autorizado para el enterramiento".



Via Creatividad Internacional

O Embate de Titãs

Poema inédito, enviado para o Poeta Salutor pelo meu amigo Brissos Lino:

Virado para a imensidão
estranho a animosidade
entre oceanos
um mais acima que outro
armam o prelúdio vistoso
duma luta titânica a dois

quem é mais forte? o céu ou o mar?

o abismo superior ameaça
com negros porta-aviões carregados
de águas superiores
fingindo serenidade, o outro
já se revolta nas profundezas
prestes a explodir à superfície

mas uma luz fugidia em forma de paz
consegue ainda escapar
pelas frestas
talvez a querer evitar
o embate de titãs
in extremis
como se fosse o olhar de Deus.

5/10/09

(Brissos Lino)

sexta-feira, outubro 02, 2009

Splendore a Parigi-Orly

Il taxi correva nelle strade, un fiume in piena, chi a piedi, chi in auto, di fretta, evitava gli argini, in lotta contro il tempo, tutti gli orologi contro il suo. Arrivarono a Parigi Orly.
Ancora in tempo per quel fuoco dentro,amaro il caffè, come un falò in un campo di sogni. Quando una voce chiamò per l’ultima volta i viaggiatori, addii e baci morirono sulle labbra, ricordarono sempre la mezza luna finale prima di diventare uccelli.

(Trad. da Alessandra S. Banti)

quinta-feira, outubro 01, 2009

O Comboio

Os viajantes falam e a conversa
rola ao ritmo dos carris
Contam vidas
Oferecem olhares
e sandes para o lado
Pode até surgir o amor
numa carruagem de comboio
Há tantos segredos tão próximos
O movimento provoca
coincidências com outros corpos.

26/9/2009
Publicado ineditamente em A Ovelha Perdida

terça-feira, setembro 29, 2009

Rotinas

Vai para o emprego às oito
dentro de um perfume e do corpo
do vestido com o cheiro do café

Todos os dias
a boca do fogão
conhece o mesmo lume

Senta-se na frescura da manhã .
que entra pelas janelas do transporte

Conduz o sangue e a adrenalina
que começam como uma força
no trânsito, sempre o mesmo
o emprego e alguns sonhos.

28/9/2009


Nota crítica in bbde.org:
"Como de costume, belo e certeiro nas palavras escolhidas. Em poucas frases resume cirurgicamente o que significa a repetição dos mesmos gestos todos os dias, ao acordar."

domingo, setembro 27, 2009

Diálogo sobre a Guerra Civil espanhola

Cartaz de Valencia, 1936


SOY UN CRISTIANO BUENO

A pedra ferida supõe o massacre
brutal
a morte corneou milhares
com as baionetas
da “cara al sol”
aqueceu o sangue nas multidões
como na faena

agora há um generalíssimo em posição
de espanto
na estranheza do inferno:
“Soy un Cristiano bueno, así
por qué estoy sufriendo tanto,
Señor?”

25/9/2009

(Brissos Lino)


COMO BURACOS NA HISTÓRIA

Como buracos na História
(Brissos Lino)

A luz do dia cresce nos buracos
nasce do mármore
a memória dos velhos
A família ali gastou-se e agora
do passado reunida, na parede
que ficou
atrás da vida

A morte rendilhou a pedra
e todo o silêncio de Espanha
detonou ali.

24/9/2009

sexta-feira, setembro 25, 2009

Correio

vem do trabalho às sete
na caixa do correio
as mãos cheirando a rosas
e o pensamento molhado de mensagens
recolhe contas
comunicados bancários e alguns volantes
publicitários

(Adelaide Amorim, Rio de Janeiro)

Via Verso&Prosa

quinta-feira, setembro 24, 2009

Los Fusilados

O poeta Brissos Lino em Barcelona, junto à parede da Igreja de Santa Maria del Pi, onde o catolicíssimo Franco assassinou republicanos.


PEDRA DILACERADA

O som ríspido dos tiros martela ainda
o esquecimento
na pequena praça catalã

a chuva das décadas lavou
o sangue dos rojos
fuzilados
e as consciências
mas a parede da igreja de Santa Maria del Pi
guardou as feridas
até hoje
como buracos na História

a pedra dilacerada não se recompôs
ainda
nem a memória
dos homens.

Palmela, Janeiro de 2008

(© Brissos Lino)

segunda-feira, setembro 21, 2009

Desfile de Haute Couture

O corpo está zangado
com o mundo

Ossos, pernas
sob a transparência do vestido
o corpo desmorona-se
perante o nosso olhar

passeiam luzes nos olhos
nos cabelos, o esplendor
dos nervos
submetidos no limite.

21/9/2009

sábado, setembro 19, 2009

O Prado

Para ver Las Meninas dobramos
as esquinas, atravessamos os séculos
e o silêncio pendurado
nas paredes do museu do Prado.
Cruzamo-nos com olhos
e os corpos que vão obedientes
atrás dos pensamentos,
cruzamos quadros com os nossos olhos
como Abraão sem nenhuma aritmética
diante das estrelas,
estamos nus sob o frio de mármore
do museu do Prado.
O nosso coração dá o alarme,
todos os quadros estão ali, e confiamos
voltar atrás nos séculos
do que foi o hemisfério norte.
Nunca entrámos numa tumba
Onde tanto esplende a morte.

terça-feira, setembro 15, 2009

A espera de Bukowski



Robinson Crusoe a gastar garrafas
e garrafas para se salvar
do imenso oceano
desolado da palavra morte

A olhar para o lado, com os pés em terra
um passo nas coisas reais e outro
bêbedo nas estrelas
Atado a coisas banais
como esperar o metro

Ou o resgate da máquina de escrever
da casa de penhores.

14/9/2009

segunda-feira, setembro 14, 2009

Poética

Comentário sobre o poema "Casa na costa"

Tranquilidade demorada, apenas a casa, o nevoeiro e o oceano. Lugar de resguardo e continência, de balanços, e ao mesmo tempo de desejo de se expressar, daí o grito. As gaivotas sopradas são prosopopeia feliz. Na passiva, sem agente de passiva, parece implícita a presença do vento, em ausência. Pois pode ser o vento a fazer ou desfazer névoas. Ou o "eu" que se converte em agente desse fazer e desfazer. Fica como que a "pictura", que é o que é dado ver. As gaivotas, ao elevarem-se e voltearem no ar (vão no vento), para quem olha da casa, ou de outra perspectiva, parecem sopradas.

(Rui Miguel Duarte)

sábado, setembro 12, 2009

O regresso dos restos de Jorge de Sena


«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha»


Toda a gente está feliz pelo «regresso de um dos grandes homens de cultura do século XX».
Jorge de Sena regressou, mas já não pode dizer isso em poema, como o fez, datando os versos de 21/4/74. Agora regressou para tornar feliz a consciência de alguns hipócritas, mais felizes do que ele porque ainda estão vivos.


«...O povo, como pode
sobrevive, entre futebol e emigração. O resto
lê, com esperança, com raiva, ou com desânimo,
o livro do general que, silencioso, não comenta
dos jovens centuriões que se precipitaram.»

A minha geração e aqueles com mais de 40 anos entendem estes versos, na sua prosopopeia poética.
Também a referência a dois aspectos cruciais da história contemporânea no poema (*)
Ou este aviso, muito significativo com data de 4/6/74, «Liberdade, liberdade, / tem cuidado que te matam».


(*)
o livro 'Portugal e o Futuro', do Gen. António de Spínola e o Golpe das Caldas, de 16/3/74


quinta-feira, setembro 10, 2009

Haiku bíblicos


Nº 1 ( a Parábola da ovelha perdida)

A ovelha perdida
tem jubiloso redil:
o olhar do pastor.

terça-feira, setembro 08, 2009

Casa na costa

Numa casa em frente do mar
a fazer
e a desfazer névoas

Com gaivotas
sopradas desde as rochas

Uma casa com um quintal
debruçado para o coração
do oceano
onde um grito, que saia
pela noite, um grito
repercuta
todos os silêncios
que guardei

Pouca coisa poria numa casa assim
defronte do mar
para fazer
e desfazer os lentos
nevoeiros.

5/9/2009

segunda-feira, setembro 07, 2009

Ritos

Nicanor Parra, Chile, 1914-

Sempre que regresso
Ao meu país
Depois de uma viagem longa
A primeira coisa a fazer
É perguntar pelos que morreram:
Todo o homem é um herói
Pelo facto simples de morrer
E os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar
Pelos feridos.

Só depois
Não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Considero-me com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancores
Uma canção do início de século.

Trad. J.T.Parreira

sábado, setembro 05, 2009

Nicanor Parra, quase um século


Conheci Nicanor Parra em 1976 e quando procurava estruturar minha poesia nas várias poiéticas e aprender, li «nós conversamos / na linguagem de todos os dias /não cremos em signos cabalísticos».

Em 2009, enclausurado em sua casa em Valparaíso, Chile, mas ainda activo na sua poesia neo-simbolista desde 1967, até aí cultivando os seus anti-poemas desde a década de 30, Nicanor Parra faz hoje 95 anos.

No início da década de 70 tomou chá na Casa Branca, a convite da mulher de Richard Nixon - a esquerda rompeu com ele.

Um dos maiores poetas da literatura hispânica, segundo o crítico Harold Bloom é um dos melhores poetas do Ocidente. Este qualificativo tomará forma em Março próximo, quando o criador da anti-poesia for homenageado no V Congreso Internacional de la Lengua Española , que se vai celebrar justamente em Valparaíso.

Amanhã, tentaremos a tradução de um poema seu, Ritos.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Proletariado

O pai é um homem revoltado

Quando chega a casa apanhamos
sempre os cacos do partido
que tem razões que Marx desconhece

O pai é um homem
centrado nos mapas
das revoluções

Está perdido
como as cores que caem
dos retratos de Guevara .

22/8/2009

Publicado como inédito em A Ovelha Perdida e transcrito em Samucablog

quarta-feira, setembro 02, 2009

Cidade, poema de Ángel Gonzaléz

Brilham as coisas. Os telhados crescem
Sobre as copas das árvores.
Prestes a partirem-se, tensas,
As ruas elásticas.
Aí estás tu: sob o emaranhado
De cabos metálicos,
Nos quais coalha o sol como um nimbo
que completa a tua imagem.
Andorinhas rápidas ameaçam
Fachadas impassíveis. As vidraças
Transmitem luminosas e secretas
Mensagens.
Tudo são gestos breves, invisíveis
Para os olhos rotineiros.
E de repente, não estás. Adeus, amor, adeus.
Partiste.
Nada fica de ti. A cidade circula:
Moinho em que tudo se desfaz.

(Trad. J.T.Parreira)

sábado, agosto 29, 2009

Bianca

Eu não sei ler, mas leio com as palavras
Que eu quiser.
Invento
tudo o que leio.



(Baseado nas palavras da minha neta Bianca Tomaz, 4 anos)

quinta-feira, agosto 27, 2009

Clandestino

Clandestino no porão do meu sonho
Viajo sem saber para onde vou.
Sei que ele não me levará até ao fim
Porque eu nunca lhe disse onde fica.
Mas não o vou abandonar agora
Deixo-me levar até onde ele quiser.

(Rui Serodio)

Via A Ovelha Perdida

Pela mesma via o poema Logo Hoje, do poeta autor do Blog

quarta-feira, agosto 26, 2009

A velha rua revisitada

Como um cão fiel, fico na escura parede
encostado à própria sombra

Olho para todos os matizes
olho para entrar nas memórias
da janela, lancei os meus olhos
para cima e vi-me aos cinco anos
a olhar a rua carvalho araújo

Outro povo que andou lá
que mundo novo
foi para mim esse olhar.

(inédito publicado no Samucablog)

segunda-feira, agosto 24, 2009

Vasto mundo

O meu mundo é vasto
e os meus amigos moram longe

Outros tiram férias
em Acapulco, sem correio
telefone ou facebook

Mas os meus amigos, esses
quando pensam em mim
ficam felizes onde estão, no mundo
dos amigos não há trevas
e guardam-se com tranquilidade
no coração

O mundo é vasto
e terei amigos do outro lado
do sol.

23/8/2009

sábado, agosto 22, 2009

Poesia na rede

"La diversidad estética y temática de la poesía más reciente tiene, también, un reflejo plural en el uso de cauces innovadores, impensables hace sólo una década. Internet, el blog, las redes sociales, las revistas digitales y los libros electrónicos son realidades emergentes que están ofreciendo oportunidades diversas para que sus autores se den a conocer. Sin embargo, ese nuevo ecosistema, pese a las más apocalípticas teorías post, afecta poco a la materia poesía. Y a su edición en papel. Es más: no hay poeta joven, que, pese a mostrar su obra en la red y casi en tiempo real, no aspire a ver su libro editado. Es como si en ello se albergara la legitimidad literaria. Sus referentes siguen siendo nuestros clásicos, los poetas españoles del 27 o del 50, Machado o Juan Ramón, los poetas anglosajones (incluyendo a Bukowski o a Carver) y europeos, sin desdeñar, en algunos casos, los más experimentales del pasado siglo."

Continuar a ler
in Babelia, suplemento literário de El Pais de hoje

quarta-feira, agosto 19, 2009

Memória descritiva para ajudar Ulisses

As sereias de Ulisses, Marc Chagall

A sereia monta o cavalo das águas
fica sentada
a abrir os olhos de quem passa

Pendura as suas liras
nos ramos do mar
na água intacta

Na arquitectura dos sonhos
do homem
as sereias são tristes, em grupo
gemem, partem os ouvidos
de Ulisses

As sereias têm grossas escamas
como os vulcões.

18/8/2009

domingo, agosto 16, 2009

Pastor de ventos: Ángel González

Pastor de ventos, desde
os infinitos horizontes
refugiam-se rebanhos em tuas mãos.
Certo o futuro, vês a larga
paisagem de colinas, esperando
a brisa que te traga
aquele odor suave do tomilho
ou o fundo aroma a bosque de inverno.
A chuva logo vem, infatigável,
e deita-se a teus pés fazendo charcos
que emigram para o céu no verão.
E descem pelo ar
pássaros e perfumes, folhas secas,
mil coisas
que deixas ou reténs com olhos penetrantes.
Cada dia traz uma surpresa,
e tu cantas,
pastor,
cantas ou assobias
às estrelas altas também tuas.


Trad. J.T.Parreira

sexta-feira, agosto 14, 2009

Saint-Exupéry segue invisível

Saint-Exupéry segue invisível
continua nas nuvens
a pratear de cinzento a luz
das nuvens, em vão
em baixo se procuram sinais
uma exclamação, um polegar
erguido, uma verdade
própria do deserto
o poeta já deve ter descido
numa via-láctea
como um menino que varria a lava
de vulcões e cuidava de uma rosa
impermeável.
(publicado inicialmente em A Ovelha Perdida

quinta-feira, agosto 13, 2009

eu e o beberibe

Rio Capibaribe

sou um rio solto na enchente
na correnteza de ausências
rio sem peixe
me falta planta
e é como se me tivessem tirado
o leito
mero ribeiro, agora
dependendo de afluentes
esperando chuva farta
e maré alta
rio solto na correnteza
numa enchente de carências

cabo gato, px, olinda
12.08.09

(samuca santos)

quarta-feira, agosto 12, 2009

terça-feira, agosto 11, 2009

Isso foi amor

Comentei-lhe:
-Entusiasmam-me teus olhos.
E ela disse:
-Gostas deles sós ou com rímel?
-Grandes,
respondi sem hesitar.
E também sem hesitações
deixou-mos num prato e foi tacteante.


(Ángel González)
do livro Breves acotaciones para una biografia, 1969
Trad. J.T.Parreira

segunda-feira, agosto 10, 2009

Haiku nº 17, inédito

Aqui, no Poeta Salutor 2, um haiku inédito. O número 17 é aleatório, 5+7+5

Excerto da realidade: poema de WCW

William Carlos Williams:

Alguém morre cada quatro minutos
No Estado de Nova York
Caramba para ti e tua poesia
Tu apodrecerás e serás fumo
No próximo sistema solar
Junto com outros gases
Que raio sabes tu a esse respeito?!

(Tradução de J.T.Parreira)

Do livro Spring and All (1923)

domingo, agosto 09, 2009

Ode para uns amigos judeus

os judeus são tristes
vestem grossos sobretudos
pretos e falsificam
seu sangue e sua carne

mas dormem com o nome
de um país e morrem
na terra, com a boca
na terra

os judeus com o fogo
de um nome na língua
não morrem com a boca
vazia

(poema de 1975, reconstruído)

sábado, agosto 08, 2009

Come Together, há 40 anos


Com os pés descalços em Abbey Road, 8 de Agosto de 1969.



diário de buk

página dedicada ao genial louco charles bukowski

>traduções (principalmente dos poemas, raros em língua portuguesa)
>textos autorais/referentes ao buk
>curiosidades
>comentários publicados em outros livros
>obras de referênciaquem quiser colaborar direto no blog, basta solicitar pelo:samucafsantos@gmail.com

Aqui,

com lançamento oficial no dia 16. Charles Bukowski nasceu em Adernach, Alemanha, a 16 de agosto de 1920. Morreu em 1994.


quarta-feira, agosto 05, 2009

Email com inédito dentro

De: Brissos Lino
Quarta-feira, 5 de agosto de 2009 13:41:41
Enviada:
Para:
João Tomaz Parreira
1 anexo

Cara de v...doc (19,1 KB)

Querido amigo,
Aqui vai um poema meu, inédito, que ainda está quente, acabado de confeccionar.
Grande abraço,
Brissos

CARA DE VELHO

O campo lavrado no rosto
pelo arado dos anos
e os ais de muitas noites
dois olhos distantes
ao fundo
a equilibrar o medo e a esperança
num arame sem rede

um mapa da vida
feito de sulcos irregulares
que conduz a um destino certo
e único
chamado Saudade.


(Brissos Lino)
5/8/09








terça-feira, agosto 04, 2009

Ensaio sobre o Grande Gatsby




Acesa a casa toda a noite no outro lado da baía
farol guiando os olhos
Os olhos frescos de Jay Gatsby, presos
toda a noite a uma luz verde
trémula do outro lado da baía
Enquanto houve festas extravagantes
Entre os brilhos
do verão e os prenúncios cinzentos
do Outono, do outro lado da noite
alguém a cabeça levantava
e invocava o fantasma do amor
nos cristais das luzes
nas teias de silêncios da baía.

2-8-2009
(Extraído de Sinalefa)

domingo, agosto 02, 2009

As vacas de Chaucer

No filme Sylvia (Gwyneth Paltrow) declama Chaucer às vacas.

As vacas do prado
sonolento, ouvem Chaucer
Afastam as moscas
a chicote, com o rabo

E olham para nós
desde a borda do abismo
dos seus olhos

No seu quadrado de terra
as vacas são apenas pontos
branco e preto
e não dão grande importância
à sua sombra, descansam
mesmo sobre ela.

1/8/2009

sábado, agosto 01, 2009

Lição de Ted Hughes:

"É por isso que, enquanto poeta, cada um deve certificar-se de que todas as componentes sobre as quais se pode exercer controlo, as palavras, as imagens, os ritmos, existem como coisas vivas." (in O Fazer da Poesia)

Blog em Mi Literaturas

Um Blog do autor (Mi Blog) em Mi Literaturas, consultar Aqui.

sexta-feira, julho 31, 2009

Sibila - Revista de Poesia e Cultura

Um ensaio sobre a x de Mário de Andrade e Álvaro de Campos, e 6 poemas, na revista Sibila, editada, hoje, em S.Paulo. Aqui.

quinta-feira, julho 30, 2009

As pinturas de Zimmerman, dito Dylan

"lançada no último dia 25, a coleção 2009 das pinturas de bob dylan, intitulada the drawn blank series, pode ser vista e (pra quem pode) adquirida aqui. lembrando que estão à venda cópias gráficas, limitadas ao número de 295.se o seu negócio é apenas a música do bardo (e concordo com você...), acesse o sítio oficial de mister zimmerman."

Notícia de Aqui, do Samucablog

quarta-feira, julho 29, 2009

ted hughes, poemas de animales

-Onde descobriu isto?- perguntou a empregada comercial. «Isto» é o livro da gravura, uma tradução de poesia de Ted Hughes. A colecção é da Mitos Poesia, o preço (ainda) 395 ptas.
A livraria é a Leitura, no Porto, onde há mais de 20 anos tenho o «hábito» de descobrir nas estantes certas preciosidades. Ao fim da tarde de ontem, com o carro em 2ª fila e a minha mulher ao sol.


TORDOS
(um fragmento, pág.14)

Espantosos são os tordos pulcros e atentos sobre
a erva.
Não parecem seres vivos, mas aço retorcido. Seu olhar
negro e letal está à espera. Suas patas débeis
fazem movimentos circenses. Dão um
respingo, um salto e uma bicada
raspam da terra algo que treme no seu bico.
Nada de pausas indolentes nem olhares de sono.
Nada de coçar a cabeça nem suspirar. Nada mais
que um salto e uma bicada
e um instante de voracidade.

(Trad. JTP)

terça-feira, julho 28, 2009

As Mulheres Azuis

Conversam com as mãos
num gesto fútil.

O pensamento feminil
vê-se no frisado dos cabelos.

Tranquilas
as mulheres azuis frisam

as paredes de Cnossos.


28/7/2009

segunda-feira, julho 27, 2009

A propósito de Giuseppe Ungaretti

Perdidos & Achados

A propósito do poeta italiano Giuseppe Ungaretti e de algumas traduções da sua poesia que trabalhei e publiquei, vai para 2/3 anos, vim a descobrir Aqui o que o autor do Blog Dona-Redonda descobriu.
Também aqui mesmo no pesquisar no Blog «Giuseppe Ungaretti», podemos reverler textos, traduções e referências.

A Primeira Guerra

Publicado ineditamente Aqui, pela mão do poeta Brissos Lino, meu amigo

Deitar tudo fora, espingarda
baioneta, granadas, a faca
dissimulada na cintura

Despir a farda, ficar ao vento
com o luar pelos ombros,
no cabelo.

Com o mesmo medo,
a mesma nudez da morte.
Seremos apenas homens.

sexta-feira, julho 24, 2009

Escala em Nairobi

É o barulho do aeroporto, vozes
subindo as escadas, metais
onde o sol passa sobre rodas

Pedaços de céu imóvel
de alumínio, vêem-se pequenas
cabeças quase redondas
atrás de janelas

O mover de lábios na placa
de estacionamento, os gestos
que carregam
malas, começam a mover-se
numa dança africana.
Não há leões na pista.