quarta-feira, dezembro 30, 2009

Inédito de Brissos Lino num Turner de tempestade

Turner: Snow Storm


Naquela tarde tempestuosa

Naquela tarde tempestuosa
olhei o céu
na excitação das gaivotas
debaixo de nuvens em viagem acelerada
para o interior
desde a orla do mar revolto

naquela tarde escura
senti o Éolo frio
persistentemente no rosto
e nos cabelos
a empurrar as naus cinzentas
peregrinas no espaço superior

naquela tarde o céptico viu a aproximação
de uma tempestade
e o crente uma teofania celeste
(aquela nuvem parecia uma águia ou um anjo?)

Naquela tarde lavei os olhos
e percebi-me companheiro das nuvens
amigo de Deus.

28/12/09
(Brissos Lino)

segunda-feira, dezembro 28, 2009

2 Poemas de Nic Klecker

Poema 1

« ... tu chauffes la paume / de ma main / comme jadis le pain rond / dont la croûte craquait »

… tu aqueces a palma
da minha mão
como outrora o pão redondo
de crosta estaladiça.

Poema 2

«... Tes racines / sont nos années / enfuies dans le sable du temps // L’espoir s’est raréfié / dans l’air de ton absence […] Tes mains se joignent encore / et prennent le sable fin / que tes yeux laisseront glisser / entre tes doigts / Sablier du bonheur / Sablier de ma peine »

As tuas raízes
são os nossos anos
fugidos na areia do tempo

A esperança rarefez-se
no ar da tua ausência […]
As tuas mãos juntam-se ainda
e agarram a areia fina
que os teus olhos deixarão deslizar
entre os teus dedos
Ampulheta da felicidade
Ampulheta da minha dor.

(Tradução de Rui Miguel Duarte)

sábado, dezembro 26, 2009

Titanic

O barco inclina o seu dorso
frio
contemplam as estrelas
o seu rasgão mortal
não há ondas em fúria
o mar está um chão
com luar gelado
os últimos sons da orquestra
começam
a passar para o lado do silêncio.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Nic Klecker (1928-2009), Poeta do Luxemburgo

La mort sait bien
qu'elle va gagner le duel
en attendant

la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret

(Seleccionado e editado por Florbela Ribeiro, no Facebook)
...................................

A morte sabe bem
que vai ganhar o duelo
enquanto espera

a vida
executa hábeis paradas
e o amor
guia o seu florete

(Tradução de Rui Miguel Duarte)


domingo, dezembro 20, 2009

Uma estória ao fundo - poemas


Uma estória ao fundo - conjunto de estórias com alguns poemas


Lolita depois de Nakokov (I)

Escapou de um delírio de autor
Mãe seria de filhos na classe
operária, casa pobre
no vale sombrio
entre os seus seios a cor pálida
da fome, escapou da prisão
da luxúria, era agora
dona de casa, passava a ferro
corações disformes
estampados no vestido
escapara de um delírio
de um livro.

20-12-2009



Na Grande Estação Central (II)

Un hombre está mirando a una mujer
César Vallejo


Na Grande Estação Central
um homem está olhando uma mulher
Por uma janela do comboio
um olhar de vidro
para uma mulher que espera
enquanto molha uma revista
em lágrimas

Na Grande Estação Central a plenitude
entre uns olhos e a mulher olhada
pela tristeza defendida
por detrás da silenciosa água
que lhe corre pela cara

Uma mulher que chora
uma mulher interminável
olhada através do frio
do vidro
que começa a partir para um destino.

19/12/2009


sábado, dezembro 19, 2009

A Desconhecida do Sena


Ninguém te quis
sereia seduzida pelas águas
Uma vida que termina com a maré
numa margem de tela
no óleo do rio Sena
Nenhum impressionismo
na beleza pálida do rosto
um sorriso beijado
pelos lábios frios
da morte
de todas as jovens afogadas
a quem o rio tomou a vida
é a mais bela.

19/12/2009

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Nas entrelinhas

Escrevo claro, por entre as linhas,
nas entrelinhas.

Escrevo pública e secretamente.

Registo em folhas brancas de papel,
a ânsia e a dor,
que sobrevoa a alma deste povo
aventureiro e lutador.

Mas dos sentimentos
que me povoam a mente,
não escrevo.
Omito-os discretamente.

(Florbela Ribeiro)

«Brilhante contraste, discreto mas luzente, entre a escrita nas linhas, explícita, e a implícita, nas entrelinhas. E uma poética que privilegia a dádiva, em vez da expressão do "eu":"Registo em folhas brancas de papel, a ânsia e a dor, que sobrevoa a alma deste povo aventureiro e lutador. Mas dos sentimentos que me povoam a mente, não escrevo. Omito-os discretamente."»

(Prof. Dr. Rui Miguel Duarte, no Facebook))


terça-feira, dezembro 15, 2009

Menina


Leste de Angola, 1969


Ah quanto tempo parou
nesses teus olhos o branco
e o negro
de umas asas que não sei
aonde voam
Pomba imaculada
sentada no chão
Velam o sonho
que faz companhia
ao redemoinho dos anjos
Velam o sono com as mãos
Tocará ainda o coração
cheio de manhãs?
Ou a morte veio e roubou
o fundo
dos teus olhos?

13/12/2009

domingo, dezembro 13, 2009

Gaivota sobre candeeiro público

O grito da gaivota
marca o território e ilumina
sobre o candeeiro
os olhos
do público que passa
um grito agudo
de gaivota, salgado
fundeia em meus ouvidos
olhar a gaivota
enquanto o ocaso arde
-foi ontem
é encher a alma de esperança
do fundo do abismo.

11-12-09

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Os Escritos

Inédito do poeta Brissos Lino no qual se lê uma homenagem, sem dúvida dedicada à escrita imorredoira do nosso comum Amigo Joanyr de Oliveira.

“Littera scripta manet.”
(A palavra escrita é duradoura)

Os escritos agarram-nos ao chão
dos homens
não seguem com o vento para Sul
nem se despenham no mar
do esquecimento

os escritos não morrem com a morte
do presente
ficam sementes
enfeitam a História
sustentam um nome
superam o fio do horizonte

são centelhas de vida
e eternidade
a resistir
na espuma dos dias breves
como um grito que alcança
o outro lado do vale.

1/12/09

(Brissos Lino)

segunda-feira, dezembro 07, 2009

"Quand il est mort le Poete"

Inesperadamente, como chegam sempre as notícias por e-mail, veio, pela mão da secretária do escritor, a nota da morte do meu Amigo querido, Mestre e Companheiro na Poesia Evangélica contemporânea, Joanyr de Oliveira. Completaria dia 6, 76 anos.

"Prezados (a),

Tenho a triste missão de comunicar-lhe que o escritor pioneiro de Brasília, Joanyr de Oliveira, faleceu na manhã do dia 05, no Hospital Santa Helena em Brasília e será sepultado, no dia 06 (data em que completaria 76 anos), no Cemitério Campo da Esperança em Brasília.O corpo será velado na capela nº 3 do referido cemitério, a partir das 14 horas, e sepultamente às 17 h.

Atenciosamente,

Rosângela Trindade"

Um Obituário que pode ser lido aqui


Haicai


Sempre a olhar os céus,
errei. Bem mais errarei
contemplando a terra.


Mãos contempladas

As mãos tecem o poema.
O roteiro ignoram
de sua tessitura.
As mãos sempre insones
em conchas misteriosas.

A humildade é a sua glória.
Podem os olhos rutilar
navegando no papel;
pode o sorriso vir
luminoso, à doçura
do cantante estribilho.

As mãos se limitam
ao silêncio e ao labor,
à mudez de um oficio.
Eis o seu ministério:
a penosa colheita.

As mãos transitam
entre as margens e a sede:
o papel as contempla.
Os conceitos e sonhos
seguirão os astros
e os caminhos da terra.
As mãos desconhecem
o sabor perenal
de suas muitas palavras.

(Lisboa / São Paulo, 13.7.98)

Uma breve antologia do Poeta Aqui


sexta-feira, dezembro 04, 2009

Só o teu nome sobrevive


Zé Fernando, à esquerda, mãe e tia Fernanda, e JTP, 1949



para o meu primo Zé Fernando

Só o teu nome sobrevive
ao coração
a notícia
desatou os empecilhos da manhã
morreste
Morreste tantas vezes no telefone
que tocou
nas casas dos amigos
Um destes dias passarei
pela nossa infância em Santiago:

O céu põe o perfume
das estevas
e acordaremos como dantes
com os ruídos de uma rua de azulejos
Alentejo salpicado de sobreiros

Embora saibamos tudo
agora
que só as tuas laranjeiras sobrevivem
ao sangue
que parou teu coração.

1/12/2009




domingo, novembro 29, 2009

O Intruso

Penetrar sem ruído numa fresta
da janela
e incendiar os olhos de uma
mulher adormecida

Numa rosa fogo
que arde numa jarra
os olhos do intruso
pulverizam os espinhos

Estranhos ao quarto
penetram os seus raios
e tocam e tropeçam
diante do amor
como frágeis pernas de ternura.

28-11-2009

sábado, novembro 28, 2009

terça-feira, novembro 24, 2009

Barcos contra a corrente

E assim continuamos barcos
contra a corrente
gaivotas nas pégadas
da margem
que alçam o voo

Uma onda abre o vão
e engole a proa
que volta depois ao seu lugar
à superfície

Aqui está como vamos
barco em luta na corrente
pégada à espera
da gaivota
que não volta.

23-11-2009

segunda-feira, novembro 23, 2009

Há escuridões, um inédito

José Rodrigues, Cego Rabequista


Há escuridões
pontilhadas de estrelas
abóbadas negras que reflectem
uma luz incontida
prenhe de vida
formas sonoras
com cores por dentro
há escuridões que pressentem
a beleza mais pura
despojada de sombras
há escuridões que desafiam
uma retina triste
mal habituada
há escuridões mais claras
que o Sol do meio dia.

20/11/09
(Brissos Lino)

sábado, novembro 21, 2009

Miss Daisy

"Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de..."
Álvaro de Campos

Daisy, quando for a hora do chá
Tu hás-de erguer a chávena
À altura dos lábios, dizer
Um sopro leve, ciciado
Mas agreste como as
Rugas que persegues no espelho
Tu hás-de ir
Lentamente sorvendo o silêncio
Desse chá, enquanto olhas
Quem entra no salão
Pé ante pé com passos de milord
Daisy tu hás-de querer
Desesperadamente que ele olhe
E que diga palavras de outrora
Antigas, que te disseram outros lordes.

21-11-2009

quarta-feira, novembro 18, 2009

Os salgueiros inclinados



The sky's as deep as it can be
Bend down the branches
Tom Waits

Eles dirigem os seus ramos para o chão
Também fomos feitos para dobrar
E o céu é tão profundo como poderá ser
o nosso olhar, mesmo fechado
O olhar vê os ramos inclinados
e então por eles subimos
pelos olhos até ao mais
longínquo céu, mas curvemos
nossos ramos, deixemos as gotas
do rio baloiçar no vento
que canta a altivez
humilde dos salgueiros.

25-10-2009

segunda-feira, novembro 16, 2009

Heródoto, História e Poética


No Helesponto, Xerxes

“Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou.”
Heródoto, Histórias VII, 45


Do alto do meu trono
o meu olhar voa de mim
e entrelaça as duas margens
desta passagem
do Helesponto para a Hélade,
pequena janela que se abre imensa
para a promessa de glória

O meu olhar plana então
sobre estas plagas e campinas
atapetadas de milhões de navios cavalos e homens
que, pintados das todas as nações da Ásia e do Egipto
e estampados do brilho do aço das armas,
eriçam os estandartes em saudação à minha glória
à glória do Divino Príncipe da Pérsia

De dentro da voz de júbilo
decreto que eu, Xerxes, sou mais do que abençoado

Mas para além de até aonde pode o olhar adejar
não descortino toda a terra, nem possuo todo o mar
Há um aviso um arrepio um pio de pássaro

O meu olhar foi finalmente visto
regressar à sua morada e decantar em lágrimas
este estreito tão estreito que me aperta a traqueia

Pois não há reis
que ocasionalmente se não prostrem
à enfermidade e à dor
também eles contam a terra e as pedras
com que têm coberto os seus amados
Rompendo a janela da minha glória
o meu olhar abre a porta da vertigem
mais funestamente desejada do que todo o ouro
a vertigem altaneira
da morte

No meu espírito fala
uma voz dalém das orlas do tempo
Lê um epitáfio inscrito num mausoléu:
“Aqui jaz Xerxes da Pérsia Rei dos reis
no Olimpo anelou o Hades
foi a primeira flor nascida da Primavera
por mão ceifada em pleno Verão
conquistador da terra
hoje servo debaixo dela.”

E prossegue:
“Cem anos e destes milhões
só se contarão as areias das praias
serão meros pontilhados numa tela
tinta fresca na pena de um contador de histórias.”

12/11/09
(Rui Miguel Duarte)