segunda-feira, novembro 16, 2009

Heródoto, História e Poética


No Helesponto, Xerxes

“Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou.”
Heródoto, Histórias VII, 45


Do alto do meu trono
o meu olhar voa de mim
e entrelaça as duas margens
desta passagem
do Helesponto para a Hélade,
pequena janela que se abre imensa
para a promessa de glória

O meu olhar plana então
sobre estas plagas e campinas
atapetadas de milhões de navios cavalos e homens
que, pintados das todas as nações da Ásia e do Egipto
e estampados do brilho do aço das armas,
eriçam os estandartes em saudação à minha glória
à glória do Divino Príncipe da Pérsia

De dentro da voz de júbilo
decreto que eu, Xerxes, sou mais do que abençoado

Mas para além de até aonde pode o olhar adejar
não descortino toda a terra, nem possuo todo o mar
Há um aviso um arrepio um pio de pássaro

O meu olhar foi finalmente visto
regressar à sua morada e decantar em lágrimas
este estreito tão estreito que me aperta a traqueia

Pois não há reis
que ocasionalmente se não prostrem
à enfermidade e à dor
também eles contam a terra e as pedras
com que têm coberto os seus amados
Rompendo a janela da minha glória
o meu olhar abre a porta da vertigem
mais funestamente desejada do que todo o ouro
a vertigem altaneira
da morte

No meu espírito fala
uma voz dalém das orlas do tempo
Lê um epitáfio inscrito num mausoléu:
“Aqui jaz Xerxes da Pérsia Rei dos reis
no Olimpo anelou o Hades
foi a primeira flor nascida da Primavera
por mão ceifada em pleno Verão
conquistador da terra
hoje servo debaixo dela.”

E prossegue:
“Cem anos e destes milhões
só se contarão as areias das praias
serão meros pontilhados numa tela
tinta fresca na pena de um contador de histórias.”

12/11/09
(Rui Miguel Duarte)

sábado, novembro 14, 2009

Uma revisitação de Florbela Espanca

A Poética de uma vida trágica
As várias estéticas de Florbela, da morte, das rendas de Veneza à estética do erotismo.
Aqui em A Ovelha Perdida.








(Carlos Botelho)

quinta-feira, novembro 12, 2009

Um Kafka borgiano

Kafka borgiano, em 1938, a editorial losada de buenos aires publicou uma coletânea de kafka, chamada la metamorfosis, com prefácio e tradução de jorge luis borges.

Aqui, em "não gosto de pelágio", na íntegra, da amiga Denise Bottmann

«Durante quase quarenta anos, tomou-se a tradução da novela como se de borges realmente fora. mas, em 1974, fernando sorrentino publica Siete conversaciones con Jorge Luis Borges, onde consta o seguinte diálogo:

"F.S.: Me pareció notar en su versión de La metamorfosis, de Kafka, que usted difiere de su estilo habitual…

J.L.B.: Bueno: ello se debe al hecho de que yo no soy el autor de la traducción de ese texto. Y una prueba de ello - además de mi palabra - es que yo conozco algo de alemán, sé que la obra se titula Die Verwandlung y no Die Metamorphose, y sé que hubiera debido traducirse como La transformación. Pero, como el traductor francés* prefirió - acaso saludando desde lejos a Ovidio - La métamorphose, aquí servilmente hicimos lo mismo. Esa traducción ha de ser - me parece por algunos giros - de algún traductor español. Lo que yo sí traduje fueron los otros cuentos de Kafka que están en el mismo volumen publicado por la editorial Losada. Pero, para simplificar - quizá por razones meramente tipográficas -, se prefirió atribuirme a mí la traducción de todo el volumen, y se usó una traducción acaso anónima que andaba por ahí."

* referindo-se a vialatte, cuja tradução fora publicada pela gallimard em 1928.».

quarta-feira, novembro 11, 2009

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
Jorge de Sena


Uma pequenina luz ao longe
levíssima toca
a íris dos meus olhos, está lá
franca, límpida e sensível
à clara neblina
não é ainda a prata da aurora
Uma pequenina leve
luz de longe
faz um buraco na treva
Avoluma-se e vem
como o dia desejado, o chão
que nos enche sob os pés
este vazio
Não é abismo, essa luz
pequenina luz ao longe
é um pequeno resíduo
de humanidade
é uma estrela, a alva
espuma de uma praia
não é ainda o mar, nem o azul
é uma pequenina leve luz
de longe a despertar-nos.

9-11-2009


segunda-feira, novembro 09, 2009

Ich bin ein Berliner


O muro teve sempre uma brecha
tinha um buraco
à espera de um coração, só os olhos
do sonho passavam, só as palavras
murmuradas, feridas
passavam para lá do betão
armado pelos bárbaros
cairia
pela mão de um Davi
O muro sempre teve um buraco
à espera de um nome
John F.Kennedy.

9/11/2009
Editado também no blog Ab-Integro

domingo, novembro 08, 2009

Haiku


Grupo de Câmara
a suavidade da água:
cordas, sem metais.
8/11/2009

Carta do Canadá sobre um certo Nobel português

Via A Ovelha Perdida

Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado, no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto atelier passou a ser, também, meu poiso habitual. Meu de muitas outras pessoas.
Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.
A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato, inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio. Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.
Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei nada quando o vi director do Diário de Notícias, a mando do Partido Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas, dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a condizer com a figura.
Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes. Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.
E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o fez por golpe publicitário. Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais. No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito medo. E adiantou: “tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso crítico”. Está tudo dito. É mais um como há tantos anciãos de tino perdido em Portugal. É deixá-lo andar. A mim tanto se me dá.
Fernanda Leitão

(Colaboração de Rui Serodio)

sábado, novembro 07, 2009

Vergílio Canta Eneias

“Tão difícil empresa era fundar o povo romano.”
(Vergílio, Eneida, I)



Na esteira dos Gregos
que acabam por invadir a cidade
em sonho e vinho sepultada
repelido pelos Fados
e as insídias dos Dánaos
Vergílio canta Eneias
e dá à luz os latinos
por vontade dos deuses supernos

depois de Tróia
violada por um cavalo
semelhante a uma montanha
prenhe de Aqueus
já só resta partir
e refundar o sonho
enquanto o céu der pasto
aos astros.

2/11/09


Inédito do meu amigo poeta Brissos Lino para este Blog.



quarta-feira, novembro 04, 2009

Nos campos do holocausto


Havia no ar chaminés
que demoravam a deitar fora
o fogo das cinzas, fumos
que não tocavam as narinas com incenso
Eram sonhos, inocências
plumas da alma
Havia chaminés que se erguiam
no azul sobre os campos, elevavam
como chaminés de fábrica
as suas próprias nuvens
Por entre florestas
de abetos ou salgueiros
chaminés ao fundo de portões
que prometiam asas.


Outubro 2009



terça-feira, novembro 03, 2009

GPA e Jorge de Sena

Homenagem a Jorge de Sena


O Grupo Poético de Aveiro e Buchholz Aveiro convidam todas as pessoas a participar nesta tertúlia. Dia 07 de Novembro, na livraria, pelas 18H. (Praça Marquês de Pombal, nº3)
Entrada Livre!

segunda-feira, novembro 02, 2009

No Éden

Poema inédito enviado por Rui Miguel Duarte

Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"

José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"


Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.

A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.

No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.

Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.

1/11/09

(Rui Miguel Duarte)

sexta-feira, outubro 30, 2009

Que luz é a luz se Ofélia


Detalhe de Millais, 1852


Que luz é a luz
se Ofélia não a pode contemplar
que riso é o riso
se Ofélia não pode ver a sua fonte
que sol é o sol
se Ofélia não lhe pode dar o rosto
a descoberto.

terça-feira, outubro 27, 2009

África

Sem sapatos, os pés na terra
descalça, sem camisa
sem a negrura
dos problemas da alma

Com o coração forte
como a corrida do antílope
com uma casa de vento
capim e barro

Sentada à porta fumando
a fogueira foge
para o rotundo silêncio
no seu mover lento

Aos seus pés insectos mortos
descem até ser pó
e a atmosfera cheira
mudando de lugar

e nas tuas mãos
a terra gretada, os teus dedos
adormecem os cabelos
dos teus filhos.

24/10/2009
Publicado como inédito no blog A Ovelha Perdida

sábado, outubro 24, 2009

Onde está a criança

Onde está a criança
que ontem se sentava
sobre a mesa, em porcelana
um galgo salta
no lento espaço da sala

Onde estão as mãos
para as pequenas coisas
as mãos ainda virgens

Onde está o espanto
que escuta no olhar
o tumulto
das futuras águas

E a claridade da sala
é hoje uma luz deixada
por um pássaro
uma seta, abrindo caminhos
na memória

Sentada ainda sobre a mesa
Oh criança serena
sossega a tua língua inquieta.

20/10/2009

quinta-feira, outubro 22, 2009

Os Poetas

“El poeta lírico está sentado cómodamente en casa
El poeta épico recorre las colinas.”
(Peter Handke)


O poeta lírico está comodamente
sentado em casa e na metáfora
constrói o vento da cortina
inquieta, o poeta olha a janela
Enquanto isso
o poeta épico percorre as colinas
de Atenas, molha os pés no fogo
que as sereias ateiam
no Egeu.

Publicado originalmente em A Ovelha Perdida

segunda-feira, outubro 19, 2009

Saramago, amargoso

Saramago, amargoso
Grita a todos ser ateu
E proclama ser perigoso
O cristão como o judeu

Torna-se deus a si mesmo
Do alto do Nobel ganho
Dispara asneiras a esmo
Mas sempre a franzir o cenho

Só não entendo um enigma
Digo eu com os meus botões
Enquanto o ouço falar

Porque raio de estigma
Trauma ou complicações
Ele luta contra o ar?

19/10/09

(Manuel Sadino)

sexta-feira, outubro 16, 2009

Penélope Destroçada


Da série de poemas que o poeta Brissos Lino, meu amigo e colaborador, está a escrever perante a sua leitura da Odisseia, de Homero.


“A mim deu o Olímpio mais dores do que a qualquer das mulheres.”
(Homero, Odisseia, Canto IV)



Sem fome e já sem lágrimas
Penélope adormeceu
e junto às portas dos sonhos
resistiu a acalmar
as nuvens negras
que persistiam
suspensas
sobre o coração e o espírito
em forma de pranto

Telémaco se foi
como palavras apetrechadas de asas
o filho amado se foi às escondidas
a saber novas do pai
desaparecido algures no mar
nunca antes vindimado

o mancebo insensato
desconhece tantas coisas
e também que os pretendentes da mãe
lhe congeminam a morte
entre dois festins.
14/10/09

(Brissos Lino)

quarta-feira, outubro 14, 2009

José Emilio Pacheco, poeta do México


Há uma voz que emociona os jovens mexicanos. É a de um homem de 70 anos que conheceu Octavio Paz, Luis Cernuda, Vicente Aleixandre, Jorge Luis Borges, etc., e não quis conhecer pessoalmente Pablo Neruda - segundo disse numa entrevista.
Há um poema de 1967 que emociona todas as gerações de mexicanos. Chama-se Alta Traición e está no El Pais, no suplemento Babelia, e diz assim:


No amo mi patria.
Su fulgor abstracto
es inasible.
Pero (aunque suene mal)
daría la vida
por diez lugares suyos,
cierta gente,
puertos, bosques de pinos, fortalezas,
una ciudad deshecha, gris, monstruosa,
varias figuras de su historia, montañas
-y tres o cuatro ríos.


Não amo minha pátria.
Seu fulgor abstracto
é inalcançável.
Todavia (ainda que mal soe)
daria a vida
por dez das suas vilas,
certa gente,
portos, pinhais e fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história, montanhas
-e três ou quatro rios.

(Trad.J.T.Parreira)

Trânsitos, Virna Teixeira


Depois do dactiloescrito (em Word, claro), que a poeta me enviou, eis o livro: «Para o João Tomaz Parreira, estes poemas em Trânsito. Um abraço, Virna».

terça-feira, outubro 13, 2009

o Último Inverno de Sylvia Plath

Após longo assédio
do inverno, ajustou contas com a lua
arrumou a perfeição
dos símbolos nos poemas, do corpo
e das toalhas
molhadas que vedaram a porta e as janelas

O quarto das crianças seria uma redoma
conservando a infância

Descansada quanto às lides da casa
soçobrava
a cabeça no interior do forno
com o gás ligado
compôs a fria lâmina da morte.

9/10/2009

Publicado originalmente em A Ovelha Perdida