domingo, setembro 27, 2009

Diálogo sobre a Guerra Civil espanhola

Cartaz de Valencia, 1936


SOY UN CRISTIANO BUENO

A pedra ferida supõe o massacre
brutal
a morte corneou milhares
com as baionetas
da “cara al sol”
aqueceu o sangue nas multidões
como na faena

agora há um generalíssimo em posição
de espanto
na estranheza do inferno:
“Soy un Cristiano bueno, así
por qué estoy sufriendo tanto,
Señor?”

25/9/2009

(Brissos Lino)


COMO BURACOS NA HISTÓRIA

Como buracos na História
(Brissos Lino)

A luz do dia cresce nos buracos
nasce do mármore
a memória dos velhos
A família ali gastou-se e agora
do passado reunida, na parede
que ficou
atrás da vida

A morte rendilhou a pedra
e todo o silêncio de Espanha
detonou ali.

24/9/2009

sexta-feira, setembro 25, 2009

Correio

vem do trabalho às sete
na caixa do correio
as mãos cheirando a rosas
e o pensamento molhado de mensagens
recolhe contas
comunicados bancários e alguns volantes
publicitários

(Adelaide Amorim, Rio de Janeiro)

Via Verso&Prosa

quinta-feira, setembro 24, 2009

Los Fusilados

O poeta Brissos Lino em Barcelona, junto à parede da Igreja de Santa Maria del Pi, onde o catolicíssimo Franco assassinou republicanos.


PEDRA DILACERADA

O som ríspido dos tiros martela ainda
o esquecimento
na pequena praça catalã

a chuva das décadas lavou
o sangue dos rojos
fuzilados
e as consciências
mas a parede da igreja de Santa Maria del Pi
guardou as feridas
até hoje
como buracos na História

a pedra dilacerada não se recompôs
ainda
nem a memória
dos homens.

Palmela, Janeiro de 2008

(© Brissos Lino)

segunda-feira, setembro 21, 2009

Desfile de Haute Couture

O corpo está zangado
com o mundo

Ossos, pernas
sob a transparência do vestido
o corpo desmorona-se
perante o nosso olhar

passeiam luzes nos olhos
nos cabelos, o esplendor
dos nervos
submetidos no limite.

21/9/2009

sábado, setembro 19, 2009

O Prado

Para ver Las Meninas dobramos
as esquinas, atravessamos os séculos
e o silêncio pendurado
nas paredes do museu do Prado.
Cruzamo-nos com olhos
e os corpos que vão obedientes
atrás dos pensamentos,
cruzamos quadros com os nossos olhos
como Abraão sem nenhuma aritmética
diante das estrelas,
estamos nus sob o frio de mármore
do museu do Prado.
O nosso coração dá o alarme,
todos os quadros estão ali, e confiamos
voltar atrás nos séculos
do que foi o hemisfério norte.
Nunca entrámos numa tumba
Onde tanto esplende a morte.

terça-feira, setembro 15, 2009

A espera de Bukowski



Robinson Crusoe a gastar garrafas
e garrafas para se salvar
do imenso oceano
desolado da palavra morte

A olhar para o lado, com os pés em terra
um passo nas coisas reais e outro
bêbedo nas estrelas
Atado a coisas banais
como esperar o metro

Ou o resgate da máquina de escrever
da casa de penhores.

14/9/2009

segunda-feira, setembro 14, 2009

Poética

Comentário sobre o poema "Casa na costa"

Tranquilidade demorada, apenas a casa, o nevoeiro e o oceano. Lugar de resguardo e continência, de balanços, e ao mesmo tempo de desejo de se expressar, daí o grito. As gaivotas sopradas são prosopopeia feliz. Na passiva, sem agente de passiva, parece implícita a presença do vento, em ausência. Pois pode ser o vento a fazer ou desfazer névoas. Ou o "eu" que se converte em agente desse fazer e desfazer. Fica como que a "pictura", que é o que é dado ver. As gaivotas, ao elevarem-se e voltearem no ar (vão no vento), para quem olha da casa, ou de outra perspectiva, parecem sopradas.

(Rui Miguel Duarte)

sábado, setembro 12, 2009

O regresso dos restos de Jorge de Sena


«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha»


Toda a gente está feliz pelo «regresso de um dos grandes homens de cultura do século XX».
Jorge de Sena regressou, mas já não pode dizer isso em poema, como o fez, datando os versos de 21/4/74. Agora regressou para tornar feliz a consciência de alguns hipócritas, mais felizes do que ele porque ainda estão vivos.


«...O povo, como pode
sobrevive, entre futebol e emigração. O resto
lê, com esperança, com raiva, ou com desânimo,
o livro do general que, silencioso, não comenta
dos jovens centuriões que se precipitaram.»

A minha geração e aqueles com mais de 40 anos entendem estes versos, na sua prosopopeia poética.
Também a referência a dois aspectos cruciais da história contemporânea no poema (*)
Ou este aviso, muito significativo com data de 4/6/74, «Liberdade, liberdade, / tem cuidado que te matam».


(*)
o livro 'Portugal e o Futuro', do Gen. António de Spínola e o Golpe das Caldas, de 16/3/74


quinta-feira, setembro 10, 2009

Haiku bíblicos


Nº 1 ( a Parábola da ovelha perdida)

A ovelha perdida
tem jubiloso redil:
o olhar do pastor.

terça-feira, setembro 08, 2009

Casa na costa

Numa casa em frente do mar
a fazer
e a desfazer névoas

Com gaivotas
sopradas desde as rochas

Uma casa com um quintal
debruçado para o coração
do oceano
onde um grito, que saia
pela noite, um grito
repercuta
todos os silêncios
que guardei

Pouca coisa poria numa casa assim
defronte do mar
para fazer
e desfazer os lentos
nevoeiros.

5/9/2009

segunda-feira, setembro 07, 2009

Ritos

Nicanor Parra, Chile, 1914-

Sempre que regresso
Ao meu país
Depois de uma viagem longa
A primeira coisa a fazer
É perguntar pelos que morreram:
Todo o homem é um herói
Pelo facto simples de morrer
E os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar
Pelos feridos.

Só depois
Não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Considero-me com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancores
Uma canção do início de século.

Trad. J.T.Parreira

sábado, setembro 05, 2009

Nicanor Parra, quase um século


Conheci Nicanor Parra em 1976 e quando procurava estruturar minha poesia nas várias poiéticas e aprender, li «nós conversamos / na linguagem de todos os dias /não cremos em signos cabalísticos».

Em 2009, enclausurado em sua casa em Valparaíso, Chile, mas ainda activo na sua poesia neo-simbolista desde 1967, até aí cultivando os seus anti-poemas desde a década de 30, Nicanor Parra faz hoje 95 anos.

No início da década de 70 tomou chá na Casa Branca, a convite da mulher de Richard Nixon - a esquerda rompeu com ele.

Um dos maiores poetas da literatura hispânica, segundo o crítico Harold Bloom é um dos melhores poetas do Ocidente. Este qualificativo tomará forma em Março próximo, quando o criador da anti-poesia for homenageado no V Congreso Internacional de la Lengua Española , que se vai celebrar justamente em Valparaíso.

Amanhã, tentaremos a tradução de um poema seu, Ritos.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Proletariado

O pai é um homem revoltado

Quando chega a casa apanhamos
sempre os cacos do partido
que tem razões que Marx desconhece

O pai é um homem
centrado nos mapas
das revoluções

Está perdido
como as cores que caem
dos retratos de Guevara .

22/8/2009

Publicado como inédito em A Ovelha Perdida e transcrito em Samucablog

quarta-feira, setembro 02, 2009

Cidade, poema de Ángel Gonzaléz

Brilham as coisas. Os telhados crescem
Sobre as copas das árvores.
Prestes a partirem-se, tensas,
As ruas elásticas.
Aí estás tu: sob o emaranhado
De cabos metálicos,
Nos quais coalha o sol como um nimbo
que completa a tua imagem.
Andorinhas rápidas ameaçam
Fachadas impassíveis. As vidraças
Transmitem luminosas e secretas
Mensagens.
Tudo são gestos breves, invisíveis
Para os olhos rotineiros.
E de repente, não estás. Adeus, amor, adeus.
Partiste.
Nada fica de ti. A cidade circula:
Moinho em que tudo se desfaz.

(Trad. J.T.Parreira)

sábado, agosto 29, 2009

Bianca

Eu não sei ler, mas leio com as palavras
Que eu quiser.
Invento
tudo o que leio.



(Baseado nas palavras da minha neta Bianca Tomaz, 4 anos)

quinta-feira, agosto 27, 2009

Clandestino

Clandestino no porão do meu sonho
Viajo sem saber para onde vou.
Sei que ele não me levará até ao fim
Porque eu nunca lhe disse onde fica.
Mas não o vou abandonar agora
Deixo-me levar até onde ele quiser.

(Rui Serodio)

Via A Ovelha Perdida

Pela mesma via o poema Logo Hoje, do poeta autor do Blog

quarta-feira, agosto 26, 2009

A velha rua revisitada

Como um cão fiel, fico na escura parede
encostado à própria sombra

Olho para todos os matizes
olho para entrar nas memórias
da janela, lancei os meus olhos
para cima e vi-me aos cinco anos
a olhar a rua carvalho araújo

Outro povo que andou lá
que mundo novo
foi para mim esse olhar.

(inédito publicado no Samucablog)

segunda-feira, agosto 24, 2009

Vasto mundo

O meu mundo é vasto
e os meus amigos moram longe

Outros tiram férias
em Acapulco, sem correio
telefone ou facebook

Mas os meus amigos, esses
quando pensam em mim
ficam felizes onde estão, no mundo
dos amigos não há trevas
e guardam-se com tranquilidade
no coração

O mundo é vasto
e terei amigos do outro lado
do sol.

23/8/2009

sábado, agosto 22, 2009

Poesia na rede

"La diversidad estética y temática de la poesía más reciente tiene, también, un reflejo plural en el uso de cauces innovadores, impensables hace sólo una década. Internet, el blog, las redes sociales, las revistas digitales y los libros electrónicos son realidades emergentes que están ofreciendo oportunidades diversas para que sus autores se den a conocer. Sin embargo, ese nuevo ecosistema, pese a las más apocalípticas teorías post, afecta poco a la materia poesía. Y a su edición en papel. Es más: no hay poeta joven, que, pese a mostrar su obra en la red y casi en tiempo real, no aspire a ver su libro editado. Es como si en ello se albergara la legitimidad literaria. Sus referentes siguen siendo nuestros clásicos, los poetas españoles del 27 o del 50, Machado o Juan Ramón, los poetas anglosajones (incluyendo a Bukowski o a Carver) y europeos, sin desdeñar, en algunos casos, los más experimentales del pasado siglo."

Continuar a ler
in Babelia, suplemento literário de El Pais de hoje

quarta-feira, agosto 19, 2009

Memória descritiva para ajudar Ulisses

As sereias de Ulisses, Marc Chagall

A sereia monta o cavalo das águas
fica sentada
a abrir os olhos de quem passa

Pendura as suas liras
nos ramos do mar
na água intacta

Na arquitectura dos sonhos
do homem
as sereias são tristes, em grupo
gemem, partem os ouvidos
de Ulisses

As sereias têm grossas escamas
como os vulcões.

18/8/2009

domingo, agosto 16, 2009

Pastor de ventos: Ángel González

Pastor de ventos, desde
os infinitos horizontes
refugiam-se rebanhos em tuas mãos.
Certo o futuro, vês a larga
paisagem de colinas, esperando
a brisa que te traga
aquele odor suave do tomilho
ou o fundo aroma a bosque de inverno.
A chuva logo vem, infatigável,
e deita-se a teus pés fazendo charcos
que emigram para o céu no verão.
E descem pelo ar
pássaros e perfumes, folhas secas,
mil coisas
que deixas ou reténs com olhos penetrantes.
Cada dia traz uma surpresa,
e tu cantas,
pastor,
cantas ou assobias
às estrelas altas também tuas.


Trad. J.T.Parreira

sexta-feira, agosto 14, 2009

Saint-Exupéry segue invisível

Saint-Exupéry segue invisível
continua nas nuvens
a pratear de cinzento a luz
das nuvens, em vão
em baixo se procuram sinais
uma exclamação, um polegar
erguido, uma verdade
própria do deserto
o poeta já deve ter descido
numa via-láctea
como um menino que varria a lava
de vulcões e cuidava de uma rosa
impermeável.
(publicado inicialmente em A Ovelha Perdida

quinta-feira, agosto 13, 2009

eu e o beberibe

Rio Capibaribe

sou um rio solto na enchente
na correnteza de ausências
rio sem peixe
me falta planta
e é como se me tivessem tirado
o leito
mero ribeiro, agora
dependendo de afluentes
esperando chuva farta
e maré alta
rio solto na correnteza
numa enchente de carências

cabo gato, px, olinda
12.08.09

(samuca santos)

quarta-feira, agosto 12, 2009

terça-feira, agosto 11, 2009

Isso foi amor

Comentei-lhe:
-Entusiasmam-me teus olhos.
E ela disse:
-Gostas deles sós ou com rímel?
-Grandes,
respondi sem hesitar.
E também sem hesitações
deixou-mos num prato e foi tacteante.


(Ángel González)
do livro Breves acotaciones para una biografia, 1969
Trad. J.T.Parreira

segunda-feira, agosto 10, 2009

Haiku nº 17, inédito

Aqui, no Poeta Salutor 2, um haiku inédito. O número 17 é aleatório, 5+7+5

Excerto da realidade: poema de WCW

William Carlos Williams:

Alguém morre cada quatro minutos
No Estado de Nova York
Caramba para ti e tua poesia
Tu apodrecerás e serás fumo
No próximo sistema solar
Junto com outros gases
Que raio sabes tu a esse respeito?!

(Tradução de J.T.Parreira)

Do livro Spring and All (1923)

domingo, agosto 09, 2009

Ode para uns amigos judeus

os judeus são tristes
vestem grossos sobretudos
pretos e falsificam
seu sangue e sua carne

mas dormem com o nome
de um país e morrem
na terra, com a boca
na terra

os judeus com o fogo
de um nome na língua
não morrem com a boca
vazia

(poema de 1975, reconstruído)

sábado, agosto 08, 2009

Come Together, há 40 anos


Com os pés descalços em Abbey Road, 8 de Agosto de 1969.



diário de buk

página dedicada ao genial louco charles bukowski

>traduções (principalmente dos poemas, raros em língua portuguesa)
>textos autorais/referentes ao buk
>curiosidades
>comentários publicados em outros livros
>obras de referênciaquem quiser colaborar direto no blog, basta solicitar pelo:samucafsantos@gmail.com

Aqui,

com lançamento oficial no dia 16. Charles Bukowski nasceu em Adernach, Alemanha, a 16 de agosto de 1920. Morreu em 1994.


quarta-feira, agosto 05, 2009

Email com inédito dentro

De: Brissos Lino
Quarta-feira, 5 de agosto de 2009 13:41:41
Enviada:
Para:
João Tomaz Parreira
1 anexo

Cara de v...doc (19,1 KB)

Querido amigo,
Aqui vai um poema meu, inédito, que ainda está quente, acabado de confeccionar.
Grande abraço,
Brissos

CARA DE VELHO

O campo lavrado no rosto
pelo arado dos anos
e os ais de muitas noites
dois olhos distantes
ao fundo
a equilibrar o medo e a esperança
num arame sem rede

um mapa da vida
feito de sulcos irregulares
que conduz a um destino certo
e único
chamado Saudade.


(Brissos Lino)
5/8/09








terça-feira, agosto 04, 2009

Ensaio sobre o Grande Gatsby




Acesa a casa toda a noite no outro lado da baía
farol guiando os olhos
Os olhos frescos de Jay Gatsby, presos
toda a noite a uma luz verde
trémula do outro lado da baía
Enquanto houve festas extravagantes
Entre os brilhos
do verão e os prenúncios cinzentos
do Outono, do outro lado da noite
alguém a cabeça levantava
e invocava o fantasma do amor
nos cristais das luzes
nas teias de silêncios da baía.

2-8-2009
(Extraído de Sinalefa)

domingo, agosto 02, 2009

As vacas de Chaucer

No filme Sylvia (Gwyneth Paltrow) declama Chaucer às vacas.

As vacas do prado
sonolento, ouvem Chaucer
Afastam as moscas
a chicote, com o rabo

E olham para nós
desde a borda do abismo
dos seus olhos

No seu quadrado de terra
as vacas são apenas pontos
branco e preto
e não dão grande importância
à sua sombra, descansam
mesmo sobre ela.

1/8/2009

sábado, agosto 01, 2009

Lição de Ted Hughes:

"É por isso que, enquanto poeta, cada um deve certificar-se de que todas as componentes sobre as quais se pode exercer controlo, as palavras, as imagens, os ritmos, existem como coisas vivas." (in O Fazer da Poesia)

Blog em Mi Literaturas

Um Blog do autor (Mi Blog) em Mi Literaturas, consultar Aqui.

sexta-feira, julho 31, 2009

Sibila - Revista de Poesia e Cultura

Um ensaio sobre a x de Mário de Andrade e Álvaro de Campos, e 6 poemas, na revista Sibila, editada, hoje, em S.Paulo. Aqui.

quinta-feira, julho 30, 2009

As pinturas de Zimmerman, dito Dylan

"lançada no último dia 25, a coleção 2009 das pinturas de bob dylan, intitulada the drawn blank series, pode ser vista e (pra quem pode) adquirida aqui. lembrando que estão à venda cópias gráficas, limitadas ao número de 295.se o seu negócio é apenas a música do bardo (e concordo com você...), acesse o sítio oficial de mister zimmerman."

Notícia de Aqui, do Samucablog

quarta-feira, julho 29, 2009

ted hughes, poemas de animales

-Onde descobriu isto?- perguntou a empregada comercial. «Isto» é o livro da gravura, uma tradução de poesia de Ted Hughes. A colecção é da Mitos Poesia, o preço (ainda) 395 ptas.
A livraria é a Leitura, no Porto, onde há mais de 20 anos tenho o «hábito» de descobrir nas estantes certas preciosidades. Ao fim da tarde de ontem, com o carro em 2ª fila e a minha mulher ao sol.


TORDOS
(um fragmento, pág.14)

Espantosos são os tordos pulcros e atentos sobre
a erva.
Não parecem seres vivos, mas aço retorcido. Seu olhar
negro e letal está à espera. Suas patas débeis
fazem movimentos circenses. Dão um
respingo, um salto e uma bicada
raspam da terra algo que treme no seu bico.
Nada de pausas indolentes nem olhares de sono.
Nada de coçar a cabeça nem suspirar. Nada mais
que um salto e uma bicada
e um instante de voracidade.

(Trad. JTP)

terça-feira, julho 28, 2009

As Mulheres Azuis

Conversam com as mãos
num gesto fútil.

O pensamento feminil
vê-se no frisado dos cabelos.

Tranquilas
as mulheres azuis frisam

as paredes de Cnossos.


28/7/2009

segunda-feira, julho 27, 2009

A propósito de Giuseppe Ungaretti

Perdidos & Achados

A propósito do poeta italiano Giuseppe Ungaretti e de algumas traduções da sua poesia que trabalhei e publiquei, vai para 2/3 anos, vim a descobrir Aqui o que o autor do Blog Dona-Redonda descobriu.
Também aqui mesmo no pesquisar no Blog «Giuseppe Ungaretti», podemos reverler textos, traduções e referências.

A Primeira Guerra

Publicado ineditamente Aqui, pela mão do poeta Brissos Lino, meu amigo

Deitar tudo fora, espingarda
baioneta, granadas, a faca
dissimulada na cintura

Despir a farda, ficar ao vento
com o luar pelos ombros,
no cabelo.

Com o mesmo medo,
a mesma nudez da morte.
Seremos apenas homens.

sexta-feira, julho 24, 2009

Escala em Nairobi

É o barulho do aeroporto, vozes
subindo as escadas, metais
onde o sol passa sobre rodas

Pedaços de céu imóvel
de alumínio, vêem-se pequenas
cabeças quase redondas
atrás de janelas

O mover de lábios na placa
de estacionamento, os gestos
que carregam
malas, começam a mover-se
numa dança africana.
Não há leões na pista.

quarta-feira, julho 22, 2009

Drama Clássico

Há Orestes por todo o lado
como moscas, Édipos completos
dos pés à cabeça, cegos
adolescências longínquas
sem lar, a vingança igual
a respirar, Muito poucas Antígonas
-que sepultam no corpo
um amor perdido- muito poucas
Antígonas, porque a fraternidade
interior deixou um buraco
onde apenas há um músculo cardíaco
Há também algumas Ismenas
sem memória
à espera de um programa
de uma fuga, Há muita gente
que apesar de tudo é vulgar.

terça-feira, julho 21, 2009

Antologia de Poesia Evangélica, em E-book

Nova Antologia da Poesia Evangélica, coordenada por Sammis Reachers. Aqui

"ÁGUAS VIVAS é um e-book gratuito, uma antologia reunindo textos de 10 poetas evangélicos contemporâneos, apresentando autores relativamente pouco conhecidos ao lado de outros já consagrados, como o Pr. Israel Belo de Azevedo, Pr. Josué Ebenézer e o Prof. Noélio Duarte, membros Academia Evangélica de Letras do Brasil, e os portuguêses Brissos Lino e João Tomaz Parreira, entre outros."

segunda-feira, julho 20, 2009

(In)contornável, a Lua

Escolhemos tomar a lua
plataforma de sonhos, praça redonda
para os olhos

A lua deixava-nos
uma desolação branca
depois vimos
que era cinzenta
tristeza sem gravidade

Quando Apolo nos trouxe
da lua, foi um momento longo
a lua ficou sozinha
no céu tão humano.


20-7-2009

domingo, julho 19, 2009

A Teia


Original Art by Fermin Salinas


A aranha
em filigrana
sobe na fragilidade invisível
dos fios
Tem feito toda a manhã, uma forma
de ginástica.

sexta-feira, julho 17, 2009

Espelhos

Quadro de Magritte


Para além do espelho
você
olha para um rosto
atraído pelo vácuo
no interior do espelho
gestos
imitando a vida.


15/7/2009

quinta-feira, julho 16, 2009

O Chevrolet de Álvaro de Campos

“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra”
Álvaro de Campos


Cortando o luar, a cabeça
ao vento, pela estrada
de Sintra, o Chevrolet
é um grande ruído

Atento
ao volante sigo
à direita e à esquerda.

O carro de empréstimo
conduzo fechado
por dentro,

à janela do sonho
- espelho transparente
da paisagem, corto
com o motor
um silêncio modesto.

13-7-2009

terça-feira, julho 14, 2009

Partidas

A minha amiga Virna Teixeira teve a gentileza de corresponder à solicitação do Blog, e com novo livro Trânsitos a sair, enviou-mo na sua última versão, como uma dactilografia. Escolhi os dois poemas abaixo:


DEPARTURE

três horas presa, janelas de vidro
no aeroporto em las vegas
procuro cents
nos bolsos

letreiro do cassino
tokens, puxar a alavanca
os caça-níqueis
tilintam

as barras se alinham
ganho
vinte doláres

lá fora, o sol
brilha nas turbinas
vermelho e prata

aeronaves
alçam vôo

TARIFA

Um mar de inverno, gaivotas
na inquietude da costa
o vento – poniente
forma ondas

entre o Atlântico e o
Mediterrâneo

Hoje não há barco
que atravesse
até Tangier

Ao longe, o relevo
das montanhas
na África

(Virna Teixeira)

domingo, julho 12, 2009

Urbanos

2 poemas:

LIMPEZA A SECO

Era uma coisa limpa, sem água
a sujidade
a desaparecer sem rasto
no vazio
a roupa às voltas
num tambor de vento.


O BARBEIRO

O coração o parou
a meio de um corte raso
um cabelo que se bastava
a si próprio, como arame farpado.

2009

quarta-feira, julho 08, 2009

Theme for English B, Langston Hughes

Tema para composição na Disciplina de Língua Inglesa

Disse o professor,
vai para casa e escreve
uma redacção esta noite.
E deixa que a composição venha do teu interior-
Então, será verdade.
Pergunto-me se é assim tão simples?
Tenho vinte e dois anos, sou negro, nasci em Winston-Salém.
Andei na escola local, depois em Durham, e aqui
na Faculdade erguida na colina sobre o Harlem.
Sou o único estudante negro da aula.
Os passos desde a colina conduzem-me para o Harlem,
através do parque, atravesso São Nicolau,
a Oitava Avenida, a Sétima, e vou até Y,
a bifurcação do Harlem, onde apanho o elevador
para o meu quarto, sento-me e escrevo esta redacção:

Não é fácil conhecer o que é verdade para ti ou para mim
aos vinte e dois anos, a minha idade. Mas suponho que sou
o que eu sinto e vejo e ouço, Harlem, eu ouço-te:
ouço-te, ouço-nos, dois em um, eu, falo nesta página.
(Ouço Nova Iorque, também). Eu-quem?
Bem, eu gosto de comer, dormir, beber, e de apaixonar-me.
Eu gosto de trabalhar, ler, aprender, e compreender a vida.
Gosto de cachimbos como presentes de Natal,
e discos da Bessie, e do Bop, ou de Bach.
E desconfio que ser preto não me faz não gostar
das mesmas coisas de que gostam outras pessoas de outras raças.
Então será acerca de um negro o que estou a escrever?
Sou o que sou, e isso não será ser branco.
Mas uma parte de si,
professor.
O senhor é branco-
ainda que uma parte de mim, como eu sou parte de si.
Isto é ser Americano. Aqui está um Americano.
De vez em quando talvez o senhor não queira ser parte de mim.
Nem eu muitas vezes quero ser parte de si.
Mas somos, essa é que a verdade!
Como eu aprendo de si,
pressumo que o senhor aprende de mim-
embora o senhor seja mais velho - e branco-
e um pouco mais livre.

Esta é a composição que escrevi.

(Trad.J.T.Parreira)



domingo, julho 05, 2009

Edith Piaf

As suas pernas tristes
elevam-se sobre as rosas

as suas mãos fecham
e abrem sobre o silêncio

abre-se para a voz
o microfone que é um lírio
de prata

conhece o peso da tristeza
de um gesto, o que vale
a água de um olhar

envelheceu até deixar
o corpo jovial.

quinta-feira, julho 02, 2009

Modernidade

Mulher deitada e cachorro, 1954 - Di Cavalcanti.

Atenas não abriga já o espírito
nas pedras do Pártenon, nem
nos perfumes de Jerusalém existe
a deliciosa incoerência
das rosas do Jardim

Vê-se-lhes nas casas
erguidas uma não presente
marca de velhos triunfos
praças, fontes, ruas, cães
vogando no ar
poluído do crepúsculo

onde como antes a solidão
confinava com as estrelas
nestas cidades como noutras
agora o silêncio
é uma ruína.

15-4-2008

quarta-feira, julho 01, 2009

A árvore que entristece

Piet Mondrian, Árvore

A árvore batida a vento
entristece a tarde

mas um som longínquo
uma flauta de pastor
acende uma luz serena
nas horas
antes que o manto negro
insista em abafar a vida
com o silêncio da noite.

30-6-2009

(Brissos Lino)



Poema tirado de Aqui

terça-feira, junho 30, 2009

"Não Gosto de Plágios

Acompanhe aqui os últimos plágios:

as edições fraudadas que temos apresentado aqui no blog surripiam traduções, notas, introduções de: adolfo casais monteiro, etc.etc.

segunda-feira, junho 29, 2009

A Visitação

Chegas todos os dias na prata
do ar, por tua causa os jardins
movimentam-se de abelhas
o estame das flores
vai tecer raízes em novos lugares

Chegas e fazes saltar os pássaros
das linhas da noite
És poderoso e todavia
mesmo a mão de uma criança
te fecha

As transparências são a tua água
navegável ainda pelo mais fundo
a que os olhos chegam
Chegas todas as manhãs e fecundas
na palidez dos frutos a tua cor
E cada fruto acorda sem precisar de espelhos

Chegas e endireitas o arco
das nossas costas e a nossa alma
foge para ti

26/6/2009

sexta-feira, junho 26, 2009

Segredo da Matéria


Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.

(Rosa Alice Branco)

quinta-feira, junho 25, 2009

Um poeta da paisagem paulistana

Poesia 2

São anônimas e puras as meninas
Que brincam nas praças. Inspiradas
No dinamismo inocente
De estarem possuídas pelo sol.
Ainda existe
No fundo de todas as praças-parques
Um tempo piedoso gotejando o futuro
Através de tranças e sorrisos.

Somente meninas que brincam nas praças
Sabem colher a vida e retê-la
No coração das rosas.

Só elas sabem a profecia
Que palpita velada
No mistério dos lagos.

E há um instante
No fundo olhar dos meninos
Que só elas adivinham
E eternizam

São brancas e meigas
Como trapos de nuvens
As meninas que brincam nas praças
Quando fecundadas pela ingênua
Dádiva de luz
Que as adora.

Mas eis que a primeira estrela
Surpreende o adeus do sol
E um momento imóvel
Afugente as meninas
Que brincam nas praças.

(E as praças ficam vazias
como a vida)

(Roberto Piva, 1937-, S.Paulo)

terça-feira, junho 23, 2009

Os Meninos da sua Mãe

Os meninos de Saurimo/Henrique de Carvalho, 1969, foto tirada pelo autor durante a Guerra Colonial em Angola.

Ocorreu-me nesse dia gastar a eternidade
na cara dos meninos, manter o tamanho
das suas cabeças, os seus panos
feridos de África, era o que tinham
um olhar
mantiveram-no fundo e sem sonhar
Os olhos, o ranho, a paz na cara que era deles
não sabiam
como iriam iluminar a câmara escura
do futuro.

22/6/2009



domingo, junho 21, 2009

ars poetica 3

onde bate
o coração do poema
lá está minh'alma

e se invento
musas em profusão
é pra fugir da sedução

se procuro rimas
é pra acompanhar teu compasso
enquanto remas
pra longe do poema


(Samuca Santos)

cabogato, px, olinda
29.05.09

sexta-feira, junho 19, 2009

Voumemborismo (3)

Toada para se ir a Brasília

(fragmento)

Vou-me embora pra Brasília,
sol nascido em chão agreste.
Como quem vai para uma ilha.
A esperança mora a oeste.

Vou-me embora pra Brasília,
por determinação celeste.
Pouco me importa a distância,
lá encontrarei minha infância.

Vou-me embora pra Brasília
porque neste azul marítimo
a paisagem me faz mal.
Por excesso de azul e sal.

Vou-me embora, vou sem mágoa.
O coração do Brasil
deve estar mas em seu peito,
não aqui, à beira d'água.

( Cassiano Ricardo)

quarta-feira, junho 17, 2009

Voumemborismo (2)

XIV

Vou-me embora vou-me embora
Vou-me embora pra Belém
Vou colhêr cravos e rosas
Volto a semana que vem

Vou-me embora paz da terra
Paz da terra repartida
Uns têm terra muita terra
Outros nem pra uma dormida

Não tenho onde cair morto
Fiz gorar a inteligência
Vou reentrar no meu povo
Reprincipiar minha ciência

Vou-me embora vou-me embora
Volto a semana que vem
Quando eu voltar minha terra
Será dela ou de ninguém.

(Mário de Andrade)

segunda-feira, junho 15, 2009

Voumemborismo (1)

Na Poesia brasileira dos anos 30, segundo Mário de Andrade, a partir do poema de Bandeira, da obra-prima de um «estado de espírito», generalizou-se entre os intelectuais o «Vou-me embora para...», incapazes de achar salvação, surgiu a vontade amarga, o dar de ombros, no fundo, a sensação do fracasso total.

Quero ir-me embora daqui!

Quero ir-me embora daqui!
-de mágoa e impossíveis morro.
Irei para a Ilha do Corvo?
Para as praias de Taiti?

Oh! dize, dize-me, tu
que me conheces e sabes
que quero portas sem chaves,
ventos em lábios de bambu,

música da solidão,
largueza de amor eterno,
e, como um pêndulo certo,
sobre o céu meu coração.

Deixo a memória no mar.
E insônias de fina areia
medirão a vida aceita
pela que não pude achar.

(Cecília Meireles)

sábado, junho 13, 2009

A Curva


(Ando Hiroshige, 1797-1858)

Algum sapato há-de aparecer
naquela curva, um braço depois
da sua sombra,
a desfazer o ângulo
a incerteza e o ôco
do silêncio, Alguém
tem de aparecer naquela curva,
talvez depois do vento
agitar a melancolia
das folhas sem outono.

sexta-feira, junho 12, 2009

Cuando los niños juegan a la guerra

Cuando los niños juegan a la guerra,
qué tristeza.
Cuando apuntan su arma a nuestro pecho
y es inútil decir que no jugamos,
pues ellos la disparan
e insisten que caigamos por el suelo,
para hacer más real el triste juego.
Cuando los niños crecen, se hacen hombres
y no olvidan el juego de la guerra;
cuando los hombres mueren,
cuando los hombres matan,
qué tristeza.
Niños, no juguéis a la guerra,
que los ombres
lo aprenden todo de los niños.
Cuando los niños juegan a la guerra,
qué tristeza.

(Jose Luis Pernas, 1943- )






quarta-feira, junho 10, 2009

Apócrifo camoniano

Inova, edição de 1972
Sentados sob o fresco dos salgueiros
a ver passar Babilónia
em sombras sobre o rio
os nossos olhos
nunca repetem a mesma água
Amanhã debaixo dos salgueiros
com os ombros leves
os olhos levam-nos
para longe.

sábado, junho 06, 2009

Homage to Pessoa


O sino da minha aldeia
doi na tarde calma.

Toca na aldeia o bronze do sino
como a noite toca
e o tédio é pesado.

Do ar desce dolente
e bate à porta dos velhos, treme
em cada retrato estiolado na parede.

E estranha a alma os ecos e as sombras.

Pesa como uma noite em branco.
O sino da minha aldeia pesa
um silêncio parado.

5/6/2009

sexta-feira, junho 05, 2009

Número 12 - Revista Folhas - Letras & Outros Ofícios


O Grupo Poético de Aveiro vai apresentar a sua revista no próximo sábado, dia 6 de Junho, na Feira do Livro de Aveiro, no Rossio, pelas 18:30. A entrada é livre.

quinta-feira, junho 04, 2009

Las Meninas

Olha o ponto onde estamos
e nossa água de silêncios
é o quadro que nos vê

Pintor e espelho
desencontram os olhares
as meninas enviezam

Nem sequer o cão
olha, pensa no vazio
sonolenta
majestade.
04/6/09

terça-feira, junho 02, 2009

Visitas, poema de Octavio Paz

Através da noite urbana de pedra e estio
entra o campo no meu quarto.
Alonga braços verdes com pulseiras de pássaros,
com pulseiras de folhas.
Traz um rio pela mão.
O céu do campo também entra,
com o seu cesto de jóias frescas.
E o mar senta-se ao meu lado,
estendendo seu rasto alvíssimo no solo.
Do silêncio rebenta uma árvore.
Da árvore pendem palavras belas
que brilham, amadurecem e caem.
À minha frente, caverna habitada por um relâmpago...
Porém tudo se povoou de asas.

(Tradução de J.T.Parreira)

sábado, maio 30, 2009

isaar: é uma artista afro-pernambucana muito boa.


dança a negona
ritmando a noite
e a pele
da noite em mim

arrepia e explicita
prazer em notas e climas
e trilhas de percussão

dança, negona
que tua voz acalente
os perdidos
os insones
os paranóicos
os dementes
os inócuos
e os mais perigosos
na linha de evolução

canta, negona
me faz esquecer

samuca santos
cabogato, px, olinda
27.05.09

quinta-feira, maio 28, 2009

Emigrantes

Os barcos chegavam carregados
de lamentos
esquecidos, com sonhos à altura
dos mastros
dormiram na aurora boreal
subiram e desceram os olhos
em icebergs quietos na linha azul
na tábua rasa do Ártico
os barcos cavalgaram o oceano
de cascos alisados
por toneladas de água
Os barcos chegavam e acostavam
as malas atadas por fora
com esperança.

28/5/2009

terça-feira, maio 26, 2009

Macchu Picchu

Del aire al aire, como una red vacía
iba yo entre las calles y la atmósfera
Pablo Neruda

No silêncio agudo dos condores
o azul plana, as casas pousam
Nas correntes de ar
pousam sobre o planeta
As pedras pousadas
como pássaros
Tudo recomeça verde
a cada dia, só as sombras
trepam trémulas
pela noite.