domingo, julho 19, 2009

A Teia


Original Art by Fermin Salinas


A aranha
em filigrana
sobe na fragilidade invisível
dos fios
Tem feito toda a manhã, uma forma
de ginástica.

sexta-feira, julho 17, 2009

Espelhos

Quadro de Magritte


Para além do espelho
você
olha para um rosto
atraído pelo vácuo
no interior do espelho
gestos
imitando a vida.


15/7/2009

quinta-feira, julho 16, 2009

O Chevrolet de Álvaro de Campos

“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra”
Álvaro de Campos


Cortando o luar, a cabeça
ao vento, pela estrada
de Sintra, o Chevrolet
é um grande ruído

Atento
ao volante sigo
à direita e à esquerda.

O carro de empréstimo
conduzo fechado
por dentro,

à janela do sonho
- espelho transparente
da paisagem, corto
com o motor
um silêncio modesto.

13-7-2009

terça-feira, julho 14, 2009

Partidas

A minha amiga Virna Teixeira teve a gentileza de corresponder à solicitação do Blog, e com novo livro Trânsitos a sair, enviou-mo na sua última versão, como uma dactilografia. Escolhi os dois poemas abaixo:


DEPARTURE

três horas presa, janelas de vidro
no aeroporto em las vegas
procuro cents
nos bolsos

letreiro do cassino
tokens, puxar a alavanca
os caça-níqueis
tilintam

as barras se alinham
ganho
vinte doláres

lá fora, o sol
brilha nas turbinas
vermelho e prata

aeronaves
alçam vôo

TARIFA

Um mar de inverno, gaivotas
na inquietude da costa
o vento – poniente
forma ondas

entre o Atlântico e o
Mediterrâneo

Hoje não há barco
que atravesse
até Tangier

Ao longe, o relevo
das montanhas
na África

(Virna Teixeira)

domingo, julho 12, 2009

Urbanos

2 poemas:

LIMPEZA A SECO

Era uma coisa limpa, sem água
a sujidade
a desaparecer sem rasto
no vazio
a roupa às voltas
num tambor de vento.


O BARBEIRO

O coração o parou
a meio de um corte raso
um cabelo que se bastava
a si próprio, como arame farpado.

2009

quarta-feira, julho 08, 2009

Theme for English B, Langston Hughes

Tema para composição na Disciplina de Língua Inglesa

Disse o professor,
vai para casa e escreve
uma redacção esta noite.
E deixa que a composição venha do teu interior-
Então, será verdade.
Pergunto-me se é assim tão simples?
Tenho vinte e dois anos, sou negro, nasci em Winston-Salém.
Andei na escola local, depois em Durham, e aqui
na Faculdade erguida na colina sobre o Harlem.
Sou o único estudante negro da aula.
Os passos desde a colina conduzem-me para o Harlem,
através do parque, atravesso São Nicolau,
a Oitava Avenida, a Sétima, e vou até Y,
a bifurcação do Harlem, onde apanho o elevador
para o meu quarto, sento-me e escrevo esta redacção:

Não é fácil conhecer o que é verdade para ti ou para mim
aos vinte e dois anos, a minha idade. Mas suponho que sou
o que eu sinto e vejo e ouço, Harlem, eu ouço-te:
ouço-te, ouço-nos, dois em um, eu, falo nesta página.
(Ouço Nova Iorque, também). Eu-quem?
Bem, eu gosto de comer, dormir, beber, e de apaixonar-me.
Eu gosto de trabalhar, ler, aprender, e compreender a vida.
Gosto de cachimbos como presentes de Natal,
e discos da Bessie, e do Bop, ou de Bach.
E desconfio que ser preto não me faz não gostar
das mesmas coisas de que gostam outras pessoas de outras raças.
Então será acerca de um negro o que estou a escrever?
Sou o que sou, e isso não será ser branco.
Mas uma parte de si,
professor.
O senhor é branco-
ainda que uma parte de mim, como eu sou parte de si.
Isto é ser Americano. Aqui está um Americano.
De vez em quando talvez o senhor não queira ser parte de mim.
Nem eu muitas vezes quero ser parte de si.
Mas somos, essa é que a verdade!
Como eu aprendo de si,
pressumo que o senhor aprende de mim-
embora o senhor seja mais velho - e branco-
e um pouco mais livre.

Esta é a composição que escrevi.

(Trad.J.T.Parreira)



domingo, julho 05, 2009

Edith Piaf

As suas pernas tristes
elevam-se sobre as rosas

as suas mãos fecham
e abrem sobre o silêncio

abre-se para a voz
o microfone que é um lírio
de prata

conhece o peso da tristeza
de um gesto, o que vale
a água de um olhar

envelheceu até deixar
o corpo jovial.

quinta-feira, julho 02, 2009

Modernidade

Mulher deitada e cachorro, 1954 - Di Cavalcanti.

Atenas não abriga já o espírito
nas pedras do Pártenon, nem
nos perfumes de Jerusalém existe
a deliciosa incoerência
das rosas do Jardim

Vê-se-lhes nas casas
erguidas uma não presente
marca de velhos triunfos
praças, fontes, ruas, cães
vogando no ar
poluído do crepúsculo

onde como antes a solidão
confinava com as estrelas
nestas cidades como noutras
agora o silêncio
é uma ruína.

15-4-2008

quarta-feira, julho 01, 2009

A árvore que entristece

Piet Mondrian, Árvore

A árvore batida a vento
entristece a tarde

mas um som longínquo
uma flauta de pastor
acende uma luz serena
nas horas
antes que o manto negro
insista em abafar a vida
com o silêncio da noite.

30-6-2009

(Brissos Lino)



Poema tirado de Aqui

terça-feira, junho 30, 2009

"Não Gosto de Plágios

Acompanhe aqui os últimos plágios:

as edições fraudadas que temos apresentado aqui no blog surripiam traduções, notas, introduções de: adolfo casais monteiro, etc.etc.

segunda-feira, junho 29, 2009

A Visitação

Chegas todos os dias na prata
do ar, por tua causa os jardins
movimentam-se de abelhas
o estame das flores
vai tecer raízes em novos lugares

Chegas e fazes saltar os pássaros
das linhas da noite
És poderoso e todavia
mesmo a mão de uma criança
te fecha

As transparências são a tua água
navegável ainda pelo mais fundo
a que os olhos chegam
Chegas todas as manhãs e fecundas
na palidez dos frutos a tua cor
E cada fruto acorda sem precisar de espelhos

Chegas e endireitas o arco
das nossas costas e a nossa alma
foge para ti

26/6/2009

sexta-feira, junho 26, 2009

Segredo da Matéria


Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.

(Rosa Alice Branco)

quinta-feira, junho 25, 2009

Um poeta da paisagem paulistana

Poesia 2

São anônimas e puras as meninas
Que brincam nas praças. Inspiradas
No dinamismo inocente
De estarem possuídas pelo sol.
Ainda existe
No fundo de todas as praças-parques
Um tempo piedoso gotejando o futuro
Através de tranças e sorrisos.

Somente meninas que brincam nas praças
Sabem colher a vida e retê-la
No coração das rosas.

Só elas sabem a profecia
Que palpita velada
No mistério dos lagos.

E há um instante
No fundo olhar dos meninos
Que só elas adivinham
E eternizam

São brancas e meigas
Como trapos de nuvens
As meninas que brincam nas praças
Quando fecundadas pela ingênua
Dádiva de luz
Que as adora.

Mas eis que a primeira estrela
Surpreende o adeus do sol
E um momento imóvel
Afugente as meninas
Que brincam nas praças.

(E as praças ficam vazias
como a vida)

(Roberto Piva, 1937-, S.Paulo)

terça-feira, junho 23, 2009

Os Meninos da sua Mãe

Os meninos de Saurimo/Henrique de Carvalho, 1969, foto tirada pelo autor durante a Guerra Colonial em Angola.

Ocorreu-me nesse dia gastar a eternidade
na cara dos meninos, manter o tamanho
das suas cabeças, os seus panos
feridos de África, era o que tinham
um olhar
mantiveram-no fundo e sem sonhar
Os olhos, o ranho, a paz na cara que era deles
não sabiam
como iriam iluminar a câmara escura
do futuro.

22/6/2009



domingo, junho 21, 2009

ars poetica 3

onde bate
o coração do poema
lá está minh'alma

e se invento
musas em profusão
é pra fugir da sedução

se procuro rimas
é pra acompanhar teu compasso
enquanto remas
pra longe do poema


(Samuca Santos)

cabogato, px, olinda
29.05.09

sexta-feira, junho 19, 2009

Voumemborismo (3)

Toada para se ir a Brasília

(fragmento)

Vou-me embora pra Brasília,
sol nascido em chão agreste.
Como quem vai para uma ilha.
A esperança mora a oeste.

Vou-me embora pra Brasília,
por determinação celeste.
Pouco me importa a distância,
lá encontrarei minha infância.

Vou-me embora pra Brasília
porque neste azul marítimo
a paisagem me faz mal.
Por excesso de azul e sal.

Vou-me embora, vou sem mágoa.
O coração do Brasil
deve estar mas em seu peito,
não aqui, à beira d'água.

( Cassiano Ricardo)

quarta-feira, junho 17, 2009

Voumemborismo (2)

XIV

Vou-me embora vou-me embora
Vou-me embora pra Belém
Vou colhêr cravos e rosas
Volto a semana que vem

Vou-me embora paz da terra
Paz da terra repartida
Uns têm terra muita terra
Outros nem pra uma dormida

Não tenho onde cair morto
Fiz gorar a inteligência
Vou reentrar no meu povo
Reprincipiar minha ciência

Vou-me embora vou-me embora
Volto a semana que vem
Quando eu voltar minha terra
Será dela ou de ninguém.

(Mário de Andrade)

segunda-feira, junho 15, 2009

Voumemborismo (1)

Na Poesia brasileira dos anos 30, segundo Mário de Andrade, a partir do poema de Bandeira, da obra-prima de um «estado de espírito», generalizou-se entre os intelectuais o «Vou-me embora para...», incapazes de achar salvação, surgiu a vontade amarga, o dar de ombros, no fundo, a sensação do fracasso total.

Quero ir-me embora daqui!

Quero ir-me embora daqui!
-de mágoa e impossíveis morro.
Irei para a Ilha do Corvo?
Para as praias de Taiti?

Oh! dize, dize-me, tu
que me conheces e sabes
que quero portas sem chaves,
ventos em lábios de bambu,

música da solidão,
largueza de amor eterno,
e, como um pêndulo certo,
sobre o céu meu coração.

Deixo a memória no mar.
E insônias de fina areia
medirão a vida aceita
pela que não pude achar.

(Cecília Meireles)

sábado, junho 13, 2009

A Curva


(Ando Hiroshige, 1797-1858)

Algum sapato há-de aparecer
naquela curva, um braço depois
da sua sombra,
a desfazer o ângulo
a incerteza e o ôco
do silêncio, Alguém
tem de aparecer naquela curva,
talvez depois do vento
agitar a melancolia
das folhas sem outono.

sexta-feira, junho 12, 2009

Cuando los niños juegan a la guerra

Cuando los niños juegan a la guerra,
qué tristeza.
Cuando apuntan su arma a nuestro pecho
y es inútil decir que no jugamos,
pues ellos la disparan
e insisten que caigamos por el suelo,
para hacer más real el triste juego.
Cuando los niños crecen, se hacen hombres
y no olvidan el juego de la guerra;
cuando los hombres mueren,
cuando los hombres matan,
qué tristeza.
Niños, no juguéis a la guerra,
que los ombres
lo aprenden todo de los niños.
Cuando los niños juegan a la guerra,
qué tristeza.

(Jose Luis Pernas, 1943- )






quarta-feira, junho 10, 2009

Apócrifo camoniano

Inova, edição de 1972
Sentados sob o fresco dos salgueiros
a ver passar Babilónia
em sombras sobre o rio
os nossos olhos
nunca repetem a mesma água
Amanhã debaixo dos salgueiros
com os ombros leves
os olhos levam-nos
para longe.

sábado, junho 06, 2009

Homage to Pessoa


O sino da minha aldeia
doi na tarde calma.

Toca na aldeia o bronze do sino
como a noite toca
e o tédio é pesado.

Do ar desce dolente
e bate à porta dos velhos, treme
em cada retrato estiolado na parede.

E estranha a alma os ecos e as sombras.

Pesa como uma noite em branco.
O sino da minha aldeia pesa
um silêncio parado.

5/6/2009

sexta-feira, junho 05, 2009

Número 12 - Revista Folhas - Letras & Outros Ofícios


O Grupo Poético de Aveiro vai apresentar a sua revista no próximo sábado, dia 6 de Junho, na Feira do Livro de Aveiro, no Rossio, pelas 18:30. A entrada é livre.

quinta-feira, junho 04, 2009

Las Meninas

Olha o ponto onde estamos
e nossa água de silêncios
é o quadro que nos vê

Pintor e espelho
desencontram os olhares
as meninas enviezam

Nem sequer o cão
olha, pensa no vazio
sonolenta
majestade.
04/6/09

terça-feira, junho 02, 2009

Visitas, poema de Octavio Paz

Através da noite urbana de pedra e estio
entra o campo no meu quarto.
Alonga braços verdes com pulseiras de pássaros,
com pulseiras de folhas.
Traz um rio pela mão.
O céu do campo também entra,
com o seu cesto de jóias frescas.
E o mar senta-se ao meu lado,
estendendo seu rasto alvíssimo no solo.
Do silêncio rebenta uma árvore.
Da árvore pendem palavras belas
que brilham, amadurecem e caem.
À minha frente, caverna habitada por um relâmpago...
Porém tudo se povoou de asas.

(Tradução de J.T.Parreira)

sábado, maio 30, 2009

isaar: é uma artista afro-pernambucana muito boa.


dança a negona
ritmando a noite
e a pele
da noite em mim

arrepia e explicita
prazer em notas e climas
e trilhas de percussão

dança, negona
que tua voz acalente
os perdidos
os insones
os paranóicos
os dementes
os inócuos
e os mais perigosos
na linha de evolução

canta, negona
me faz esquecer

samuca santos
cabogato, px, olinda
27.05.09

quinta-feira, maio 28, 2009

Emigrantes

Os barcos chegavam carregados
de lamentos
esquecidos, com sonhos à altura
dos mastros
dormiram na aurora boreal
subiram e desceram os olhos
em icebergs quietos na linha azul
na tábua rasa do Ártico
os barcos cavalgaram o oceano
de cascos alisados
por toneladas de água
Os barcos chegavam e acostavam
as malas atadas por fora
com esperança.

28/5/2009

terça-feira, maio 26, 2009

Macchu Picchu

Del aire al aire, como una red vacía
iba yo entre las calles y la atmósfera
Pablo Neruda

No silêncio agudo dos condores
o azul plana, as casas pousam
Nas correntes de ar
pousam sobre o planeta
As pedras pousadas
como pássaros
Tudo recomeça verde
a cada dia, só as sombras
trepam trémulas
pela noite.

segunda-feira, maio 25, 2009

Casa de judeus, Europa, Ano 1942

O vento deve entrar agora
pela porta em ruínas, pelas janelas
rasgadas na fronte da casa




Está a remexer gavetas
a redemoinhar na sala, como um gato
invisível

Duas malas não resistiram
à pressa, abriram vestidos
no soalho, segredos de alcova

Como nuvens sem forma, partiram
e apagaram-se no ar, um silêncio
dos sapatos nas pedras

sem os longos casacos pretos
em que passaram a noite
sem casa, a sós
com uma estrela.

quinta-feira, maio 21, 2009

"Depois de Cézanne", Lucien Freud

Os sentados no chão depois de Cézanne
não foram mais
os mesmos, os grandes
nudistas do fundo de casas
Os seus olhos vão ao fundo
das imagens e voltam vazios
Não têm mais o balanço
do vento nas árvores
só o silêncio de uma sala
tão nua como a carne.

quarta-feira, maio 20, 2009

Mrs. Darwin

7 April 1852
Went to the Zoo.
I said to Him--
Something about that Chimpanzee over there
reminds me of you.

(Carol Ann Duffy)


The World's Wife surge de um conceito unificador: a escrita de poemas curtos em trinta vozes de mulheres/esposas diferentes, do ponto de vista social, da ciência, da literatura e da mitologia, etc. O Humor é a tónica dominante desta recolha da Poeta Laureada do Reino Unido.

Senhora Darwin

7 de Abril de 1852
Fomos ao Zoo.
E eu disse-lhe --
Há qualquer coisa naquele Chimpanzé
que és tu.
(Trad.J.T.Parreira)

terça-feira, maio 19, 2009

El crimen fue en Granada

Machado num estilo e pose muito pessoanos

EL CRIMEN FUE EN GRANADA: A FEDERICO GARCÍA LORCA
Antonio Machado

1. O Crime

Ele foi visto caminhando entre fuzis,
por uma rua larga,
saindo ao frio do campo,
ainda com as estrelas da madrugada.
Mataram Federico
quando a luz assomava.
O pelotão de verdugos
nem ousou ver-lhe a cara.
Todos fecharam os olhos;
rezaram: nem Deus te salva!
Morto caiu Federico
-sangue no rosto e chumbo nas entranhas-
...Pois foi em Granada o crime
-Saibam – pobre Granada!- na sua Granada.

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, maio 18, 2009

A voz de Ipanema


Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Vinicius de Moraes

Quem vai a Ipanema
tem a praia cheia da voz do poeta

mesmo quando os azuis de Ipanema
desabotoam o ocaso

Nessa hora alguém que dorme na praia
com as pálpebras carregadas
do doce balanço do sono

canta a namoradinha tão bonita
escondida do sol atrás dos Prada

Eles guardam o brilho das sombras
dos seus olhos.



sexta-feira, maio 15, 2009

Autógrafos (8) / O Poeta

(Fernando Mendes Vianna, 1933-2006)

O POETA

Movendo-se em vida submarina,
soletrando palavras submarinas,
o poeta – esqualo e esquadro –
lúcido e feroz, busca o auto-quadro.

Sua meta é o fundo. O mundo
é a morte sob mil formas. Por isso
ele próprio se transforma, insubmisso.

(...)



quarta-feira, maio 13, 2009

A lição de banjo


Henry Ossawa Tanner

Onde entra a luz quente de uma lareira
e se adivinha o azul que vem do fundo
do universo, um horizonte em branco
que se atravessa na parede

Aí estava o esquecimento
do resto do mundo, dos poucos haveres
e uma natureza-morta sobre a mesa
num velho soalho de madeira
o ranger dos pobres

Velho e menino estão num ar azul
presos às mãos que vão tirando
do banjo o finíssimo silêncio
da poeira.

terça-feira, maio 12, 2009

Contos curtos

Picasso, Mulher com livro

ROUPA DE SAÍDA

A noite
Engomava
Minha roupa de saída
No ferro frio de cada dia.

(Galope noturno (Fortaleza, Banco do Nordeste do Brasil, 2007). Antônio Mário de Brito Nogueira nasceu em Viçosa do Ceará, em 1950. Eis um dos poemas daquele livro).


DECOTE

Dois quartos lunares
saem da blusa
O roxo do algodão
era um pôr do sol desusado
uma planície com horizonte
a perder-se dos olhares.

11/5/2009


(editado em http://poetasalutor2.wordpress.com/ )

segunda-feira, maio 11, 2009

A poesia como pintura


Jeune Fille Avec un Chat (1880)
Renoir

SONHO LEVE

A menina adormece a cadeira
berrante
repousa nela
com cuidada gentileza
a graça inocente
que o cansaço não roubou
à hora da ceia

de braços despojados
voa entre nuvens efémeras
de algodão
feliz.

8/5/09

(Brissos Lino)


domingo, maio 10, 2009

Três Lorcas, Edição Especial

(Barcelona, 1997)



Livro adquirido em Janeiro de 1998 em Sevilha, edição especial contendo 3 Lorcas distintos na sua poética.

sábado, maio 09, 2009

ode a lorca

Samuca Santos:

ode a lorca

não, federico
os estudantes ainda não foram à praça
enfrentar os milicos
com meus poemas
e flores atiradas ao ar
(nem sei se algum dia)

não passei um happy xmas
sob a neve de manhattan
muito menos vi cordoba
lejana y sola
com a morte me mirando
desde suas torres

também não sei se algum dia
lembrarão dos meus poemas
com o fervor
que o mundo venera os teus

(cabogato, px, olinda 19.04.09)

sexta-feira, maio 08, 2009

Rei de Copas: Federico García Lorca


Mataron en Granada a Federico García.
No sabemos aún qué sacaron con ello.
No escuchamos el llanto del viento.
Enmudecimos con aquellos viles disparos.
Nada respondo acerca
de lo que estaban hilando
con las Parcas.
En el ataud
yacemos con hermosa frescura.


Erregeko Kopa: Federico Garcia Lorca

Federiko García Granadan hil zuten
Ez dakigu oraindik zer atera duten
Haizearen negarrik eztugu entzuten
Tiro doilor haiekin mututu ginduten
Eztut erantzuten
Zetzaz ziharduten
Parkekin iruten!
Eta katabuten
Freskura galantean ginaden etzuten.


( Gabriel Aresti, Bilbao -1933-1975 )

quarta-feira, maio 06, 2009

Tu

Estive contigo todo o dia no meu ouvido
à volta do meu pescoço
o teu perfume, de gotas brilhantes
invisíveis, na dupla palma
das minhas mãos o vento
trazia o minúsculo instante da poeira
Estive com os meus cabelos
sonhando com as tuas mãos
estive a respirar o ar
que deixaste para trás
guardei na minha retina a soma
do abrir e fechar dos teus olhos
o teu silêncio agora toca-se
em cada coisa que ficou
cuja textura é inquebrável
como uma lágrima.

A bebedora de Absinto, Lautrec

terça-feira, maio 05, 2009

Autógrafos (7)

(Brissos Lino)
####################
À IMENSA MAIORIA

Aquí tenéis, en canto y alma, al hombre
Blas de Otero

Se não conheceis um coração
na boca de um homem
que errou,
aqui o tendes.

Uma parte
morreu em mim. A outra
entre o coração e a boca
ainda se espanta como um menino
que vê o perdão
como sorriso de Deus.

Saio à rua para todos os olhos
que me cruzam,
como se atravessa à névoa,
muito abertos
porém sem ninguém.

sábado, maio 02, 2009

Pessoa Drummondiano

No meio da paisagem tem um poeta.
Graça Graúna.


No meio da calçada tem um poeta
tem uma mesa no meio da calçada
no meio da mesa
tem a mão cheia do orvalho da tarde

Na ponta de um braço tem outra mão
indicando o caminho
ao lado da mesa no meio da calçada
Ninguém se esquecerá que tem um poeta
que está em fogo
quando toma o sol no corpo.


sexta-feira, maio 01, 2009

Carol Ann Duffy, a 1ª em 341 anos

Britain Picks First Female Poet Laureate
By SARAH LYALL
With the choice of Carol Ann Duffy, the post held by such poets as Dryden, Tennyson and Ted Hughes went to a woman for the first time in its 341-year history.
Ler in The New York Times

Carol Duffy, 53, é conhecida por ter uma escrita poética acessível. Com frequência os seus poemas contêm ditos de espírito e tratam das minúcias da vida de cada dia.
Sendo a poesia acima de tudo uma sucessão de momentos intensos, «eu não trato com factos, trato com emoções.»-Disse.
"You
Uninvited the thought of you stayed too late in my head"

quinta-feira, abril 30, 2009

O mensageiro

As rugas do teu rosto são as linhas
visíveis da mensagem
lê-se em cada linha
as ruínas da vitória

Com sandálias molhadas pelos rios
com os pés febris, vens do longe
com os olhos, como espelhos
da mensagem

e tocas outras distâncias com o olhar
o coração desocupado, só
a mensagem que carregas
de Maratona é o que importa

Chegas ao teu reino e a tua calma
virá depois da morte.
poema editado, primeira vez, em A Ovelha Perdida

terça-feira, abril 28, 2009

Stephen Crane

A man said to the universe:
"Sir I exist!"
"However," replied the universe,
"The fact has not created in me
A sense of obligation."


Um homem disse ao universo:
"senhor eu existo!"
"Todavia", respondeu o universo,
“o facto não tem criado em mim
um sentimento de obrigação."

(Trad. J.T.Parreira)

Neve em Varadero? Ver aqui


Um poema inédito no Poeta Salutor 2

domingo, abril 26, 2009

Namoro

Depois do violino arrebatar o público
começaram a tocar
os dedos um ao outro
até ao fundo das mãos

A mão esquerda dela disse sim
e a direita dele aprisionou-se
parecia
para sempre.

25/4/2009

sábado, abril 25, 2009

Entrada na lata

7 perguntas que o Samucablogsantos, do Recife, me lançou à queima-roupa, todas ficaram lá com as respostas.




sexta-feira, abril 24, 2009

Leste de Angola (1968-70)

para MC

Lembro-me que lhe escrevia cartas
verdadeiras, as palavras
não eram transparentes
eram como o coração no corpo
sentido em sinais ininterruptos
Veias e artérias
gravadas nas palavras
Recordo que invejava
as cartas que iam tocar a pele
dos seus dedos
Eram cartas verdadeiras
da dor obscura
iriam voar no éter
numa liga de alumínio
A única palavra que recordo
é o amor.

quarta-feira, abril 22, 2009

O tricô de Penélope

Carlo Carrà, L'attesa

Os deuses e os ventos fazem e desfazem
o tricô de Penélope

Escuta o vento
e sabe que ao contrário o barco
de Odisseu
enfuna as velas

Os deuses
vão fechando porta atrás
de porta no Olimpo
assobiam para o lado
e lançam seus olhos
ensonados para o leito
vago de Penélope.

21/4/2009

segunda-feira, abril 20, 2009

1961, variante aqui, no Poeta Salutor 2

Poema 1961, alternativa no Blog Poeta Salutor 2. Ver lá.
§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§
No Samucablog , do amigo poeta pernanbucano, Samuel Santos, a minha tradução de um poema de Ungaretti: O porto submerso. Ler aqui http://samucablogsantos.blogspot.com/2009/04/o-porto-submerso.html#comment-form

Autógrafos (6)




(Fernando Luis Pérez Poza)


sexta-feira, abril 17, 2009

Picasso: "Mosqueteros" - os últimos trabalhos


A última etapa de Picasso pisa pela primeira vez o solo nova iorquino

"An exhibition at the Gagosian Gallery in Chelsea (New York City) features works painted by Picasso in the decade before his death in 1973, including four from 1967."
in The New York Times, de hoje

PICASSO
Picasso dá-nos Coisas
que nos desorganizam os olhos
as linhas correm paralelas, e depois
separam-se, os rostos
ficam de repente de perfil
Les Demoiselles velhas
uma forma hoje
não é amanhã
Picasso deixa a cabeça
a nossa, irrequieta.

Apócrifo de Ésquilo

(Haiku)

"Os turbilhões da neve de brancas asas"
in Prometeu Agrilhoado


O Inverno serve
à neve suas brancas asas:
o invísivel vento.

quinta-feira, abril 16, 2009