terça-feira, setembro 08, 2009

Casa na costa

Numa casa em frente do mar
a fazer
e a desfazer névoas

Com gaivotas
sopradas desde as rochas

Uma casa com um quintal
debruçado para o coração
do oceano
onde um grito, que saia
pela noite, um grito
repercuta
todos os silêncios
que guardei

Pouca coisa poria numa casa assim
defronte do mar
para fazer
e desfazer os lentos
nevoeiros.

5/9/2009

segunda-feira, setembro 07, 2009

Ritos

Nicanor Parra, Chile, 1914-

Sempre que regresso
Ao meu país
Depois de uma viagem longa
A primeira coisa a fazer
É perguntar pelos que morreram:
Todo o homem é um herói
Pelo facto simples de morrer
E os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar
Pelos feridos.

Só depois
Não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Considero-me com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancores
Uma canção do início de século.

Trad. J.T.Parreira

sábado, setembro 05, 2009

Nicanor Parra, quase um século


Conheci Nicanor Parra em 1976 e quando procurava estruturar minha poesia nas várias poiéticas e aprender, li «nós conversamos / na linguagem de todos os dias /não cremos em signos cabalísticos».

Em 2009, enclausurado em sua casa em Valparaíso, Chile, mas ainda activo na sua poesia neo-simbolista desde 1967, até aí cultivando os seus anti-poemas desde a década de 30, Nicanor Parra faz hoje 95 anos.

No início da década de 70 tomou chá na Casa Branca, a convite da mulher de Richard Nixon - a esquerda rompeu com ele.

Um dos maiores poetas da literatura hispânica, segundo o crítico Harold Bloom é um dos melhores poetas do Ocidente. Este qualificativo tomará forma em Março próximo, quando o criador da anti-poesia for homenageado no V Congreso Internacional de la Lengua Española , que se vai celebrar justamente em Valparaíso.

Amanhã, tentaremos a tradução de um poema seu, Ritos.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Proletariado

O pai é um homem revoltado

Quando chega a casa apanhamos
sempre os cacos do partido
que tem razões que Marx desconhece

O pai é um homem
centrado nos mapas
das revoluções

Está perdido
como as cores que caem
dos retratos de Guevara .

22/8/2009

Publicado como inédito em A Ovelha Perdida e transcrito em Samucablog

quarta-feira, setembro 02, 2009

Cidade, poema de Ángel Gonzaléz

Brilham as coisas. Os telhados crescem
Sobre as copas das árvores.
Prestes a partirem-se, tensas,
As ruas elásticas.
Aí estás tu: sob o emaranhado
De cabos metálicos,
Nos quais coalha o sol como um nimbo
que completa a tua imagem.
Andorinhas rápidas ameaçam
Fachadas impassíveis. As vidraças
Transmitem luminosas e secretas
Mensagens.
Tudo são gestos breves, invisíveis
Para os olhos rotineiros.
E de repente, não estás. Adeus, amor, adeus.
Partiste.
Nada fica de ti. A cidade circula:
Moinho em que tudo se desfaz.

(Trad. J.T.Parreira)

sábado, agosto 29, 2009

Bianca

Eu não sei ler, mas leio com as palavras
Que eu quiser.
Invento
tudo o que leio.



(Baseado nas palavras da minha neta Bianca Tomaz, 4 anos)

quinta-feira, agosto 27, 2009

Clandestino

Clandestino no porão do meu sonho
Viajo sem saber para onde vou.
Sei que ele não me levará até ao fim
Porque eu nunca lhe disse onde fica.
Mas não o vou abandonar agora
Deixo-me levar até onde ele quiser.

(Rui Serodio)

Via A Ovelha Perdida

Pela mesma via o poema Logo Hoje, do poeta autor do Blog

quarta-feira, agosto 26, 2009

A velha rua revisitada

Como um cão fiel, fico na escura parede
encostado à própria sombra

Olho para todos os matizes
olho para entrar nas memórias
da janela, lancei os meus olhos
para cima e vi-me aos cinco anos
a olhar a rua carvalho araújo

Outro povo que andou lá
que mundo novo
foi para mim esse olhar.

(inédito publicado no Samucablog)

segunda-feira, agosto 24, 2009

Vasto mundo

O meu mundo é vasto
e os meus amigos moram longe

Outros tiram férias
em Acapulco, sem correio
telefone ou facebook

Mas os meus amigos, esses
quando pensam em mim
ficam felizes onde estão, no mundo
dos amigos não há trevas
e guardam-se com tranquilidade
no coração

O mundo é vasto
e terei amigos do outro lado
do sol.

23/8/2009

sábado, agosto 22, 2009

Poesia na rede

"La diversidad estética y temática de la poesía más reciente tiene, también, un reflejo plural en el uso de cauces innovadores, impensables hace sólo una década. Internet, el blog, las redes sociales, las revistas digitales y los libros electrónicos son realidades emergentes que están ofreciendo oportunidades diversas para que sus autores se den a conocer. Sin embargo, ese nuevo ecosistema, pese a las más apocalípticas teorías post, afecta poco a la materia poesía. Y a su edición en papel. Es más: no hay poeta joven, que, pese a mostrar su obra en la red y casi en tiempo real, no aspire a ver su libro editado. Es como si en ello se albergara la legitimidad literaria. Sus referentes siguen siendo nuestros clásicos, los poetas españoles del 27 o del 50, Machado o Juan Ramón, los poetas anglosajones (incluyendo a Bukowski o a Carver) y europeos, sin desdeñar, en algunos casos, los más experimentales del pasado siglo."

Continuar a ler
in Babelia, suplemento literário de El Pais de hoje

quarta-feira, agosto 19, 2009

Memória descritiva para ajudar Ulisses

As sereias de Ulisses, Marc Chagall

A sereia monta o cavalo das águas
fica sentada
a abrir os olhos de quem passa

Pendura as suas liras
nos ramos do mar
na água intacta

Na arquitectura dos sonhos
do homem
as sereias são tristes, em grupo
gemem, partem os ouvidos
de Ulisses

As sereias têm grossas escamas
como os vulcões.

18/8/2009

domingo, agosto 16, 2009

Pastor de ventos: Ángel González

Pastor de ventos, desde
os infinitos horizontes
refugiam-se rebanhos em tuas mãos.
Certo o futuro, vês a larga
paisagem de colinas, esperando
a brisa que te traga
aquele odor suave do tomilho
ou o fundo aroma a bosque de inverno.
A chuva logo vem, infatigável,
e deita-se a teus pés fazendo charcos
que emigram para o céu no verão.
E descem pelo ar
pássaros e perfumes, folhas secas,
mil coisas
que deixas ou reténs com olhos penetrantes.
Cada dia traz uma surpresa,
e tu cantas,
pastor,
cantas ou assobias
às estrelas altas também tuas.


Trad. J.T.Parreira

sexta-feira, agosto 14, 2009

Saint-Exupéry segue invisível

Saint-Exupéry segue invisível
continua nas nuvens
a pratear de cinzento a luz
das nuvens, em vão
em baixo se procuram sinais
uma exclamação, um polegar
erguido, uma verdade
própria do deserto
o poeta já deve ter descido
numa via-láctea
como um menino que varria a lava
de vulcões e cuidava de uma rosa
impermeável.
(publicado inicialmente em A Ovelha Perdida

quinta-feira, agosto 13, 2009

eu e o beberibe

Rio Capibaribe

sou um rio solto na enchente
na correnteza de ausências
rio sem peixe
me falta planta
e é como se me tivessem tirado
o leito
mero ribeiro, agora
dependendo de afluentes
esperando chuva farta
e maré alta
rio solto na correnteza
numa enchente de carências

cabo gato, px, olinda
12.08.09

(samuca santos)

quarta-feira, agosto 12, 2009

terça-feira, agosto 11, 2009

Isso foi amor

Comentei-lhe:
-Entusiasmam-me teus olhos.
E ela disse:
-Gostas deles sós ou com rímel?
-Grandes,
respondi sem hesitar.
E também sem hesitações
deixou-mos num prato e foi tacteante.


(Ángel González)
do livro Breves acotaciones para una biografia, 1969
Trad. J.T.Parreira

segunda-feira, agosto 10, 2009

Haiku nº 17, inédito

Aqui, no Poeta Salutor 2, um haiku inédito. O número 17 é aleatório, 5+7+5

Excerto da realidade: poema de WCW

William Carlos Williams:

Alguém morre cada quatro minutos
No Estado de Nova York
Caramba para ti e tua poesia
Tu apodrecerás e serás fumo
No próximo sistema solar
Junto com outros gases
Que raio sabes tu a esse respeito?!

(Tradução de J.T.Parreira)

Do livro Spring and All (1923)

domingo, agosto 09, 2009

Ode para uns amigos judeus

os judeus são tristes
vestem grossos sobretudos
pretos e falsificam
seu sangue e sua carne

mas dormem com o nome
de um país e morrem
na terra, com a boca
na terra

os judeus com o fogo
de um nome na língua
não morrem com a boca
vazia

(poema de 1975, reconstruído)