segunda-feira, julho 27, 2009

A propósito de Giuseppe Ungaretti

Perdidos & Achados

A propósito do poeta italiano Giuseppe Ungaretti e de algumas traduções da sua poesia que trabalhei e publiquei, vai para 2/3 anos, vim a descobrir Aqui o que o autor do Blog Dona-Redonda descobriu.
Também aqui mesmo no pesquisar no Blog «Giuseppe Ungaretti», podemos reverler textos, traduções e referências.

A Primeira Guerra

Publicado ineditamente Aqui, pela mão do poeta Brissos Lino, meu amigo

Deitar tudo fora, espingarda
baioneta, granadas, a faca
dissimulada na cintura

Despir a farda, ficar ao vento
com o luar pelos ombros,
no cabelo.

Com o mesmo medo,
a mesma nudez da morte.
Seremos apenas homens.

sexta-feira, julho 24, 2009

Escala em Nairobi

É o barulho do aeroporto, vozes
subindo as escadas, metais
onde o sol passa sobre rodas

Pedaços de céu imóvel
de alumínio, vêem-se pequenas
cabeças quase redondas
atrás de janelas

O mover de lábios na placa
de estacionamento, os gestos
que carregam
malas, começam a mover-se
numa dança africana.
Não há leões na pista.

quarta-feira, julho 22, 2009

Drama Clássico

Há Orestes por todo o lado
como moscas, Édipos completos
dos pés à cabeça, cegos
adolescências longínquas
sem lar, a vingança igual
a respirar, Muito poucas Antígonas
-que sepultam no corpo
um amor perdido- muito poucas
Antígonas, porque a fraternidade
interior deixou um buraco
onde apenas há um músculo cardíaco
Há também algumas Ismenas
sem memória
à espera de um programa
de uma fuga, Há muita gente
que apesar de tudo é vulgar.

terça-feira, julho 21, 2009

Antologia de Poesia Evangélica, em E-book

Nova Antologia da Poesia Evangélica, coordenada por Sammis Reachers. Aqui

"ÁGUAS VIVAS é um e-book gratuito, uma antologia reunindo textos de 10 poetas evangélicos contemporâneos, apresentando autores relativamente pouco conhecidos ao lado de outros já consagrados, como o Pr. Israel Belo de Azevedo, Pr. Josué Ebenézer e o Prof. Noélio Duarte, membros Academia Evangélica de Letras do Brasil, e os portuguêses Brissos Lino e João Tomaz Parreira, entre outros."

segunda-feira, julho 20, 2009

(In)contornável, a Lua

Escolhemos tomar a lua
plataforma de sonhos, praça redonda
para os olhos

A lua deixava-nos
uma desolação branca
depois vimos
que era cinzenta
tristeza sem gravidade

Quando Apolo nos trouxe
da lua, foi um momento longo
a lua ficou sozinha
no céu tão humano.


20-7-2009

domingo, julho 19, 2009

A Teia


Original Art by Fermin Salinas


A aranha
em filigrana
sobe na fragilidade invisível
dos fios
Tem feito toda a manhã, uma forma
de ginástica.

sexta-feira, julho 17, 2009

Espelhos

Quadro de Magritte


Para além do espelho
você
olha para um rosto
atraído pelo vácuo
no interior do espelho
gestos
imitando a vida.


15/7/2009

quinta-feira, julho 16, 2009

O Chevrolet de Álvaro de Campos

“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra”
Álvaro de Campos


Cortando o luar, a cabeça
ao vento, pela estrada
de Sintra, o Chevrolet
é um grande ruído

Atento
ao volante sigo
à direita e à esquerda.

O carro de empréstimo
conduzo fechado
por dentro,

à janela do sonho
- espelho transparente
da paisagem, corto
com o motor
um silêncio modesto.

13-7-2009

terça-feira, julho 14, 2009

Partidas

A minha amiga Virna Teixeira teve a gentileza de corresponder à solicitação do Blog, e com novo livro Trânsitos a sair, enviou-mo na sua última versão, como uma dactilografia. Escolhi os dois poemas abaixo:


DEPARTURE

três horas presa, janelas de vidro
no aeroporto em las vegas
procuro cents
nos bolsos

letreiro do cassino
tokens, puxar a alavanca
os caça-níqueis
tilintam

as barras se alinham
ganho
vinte doláres

lá fora, o sol
brilha nas turbinas
vermelho e prata

aeronaves
alçam vôo

TARIFA

Um mar de inverno, gaivotas
na inquietude da costa
o vento – poniente
forma ondas

entre o Atlântico e o
Mediterrâneo

Hoje não há barco
que atravesse
até Tangier

Ao longe, o relevo
das montanhas
na África

(Virna Teixeira)

domingo, julho 12, 2009

Urbanos

2 poemas:

LIMPEZA A SECO

Era uma coisa limpa, sem água
a sujidade
a desaparecer sem rasto
no vazio
a roupa às voltas
num tambor de vento.


O BARBEIRO

O coração o parou
a meio de um corte raso
um cabelo que se bastava
a si próprio, como arame farpado.

2009

quarta-feira, julho 08, 2009

Theme for English B, Langston Hughes

Tema para composição na Disciplina de Língua Inglesa

Disse o professor,
vai para casa e escreve
uma redacção esta noite.
E deixa que a composição venha do teu interior-
Então, será verdade.
Pergunto-me se é assim tão simples?
Tenho vinte e dois anos, sou negro, nasci em Winston-Salém.
Andei na escola local, depois em Durham, e aqui
na Faculdade erguida na colina sobre o Harlem.
Sou o único estudante negro da aula.
Os passos desde a colina conduzem-me para o Harlem,
através do parque, atravesso São Nicolau,
a Oitava Avenida, a Sétima, e vou até Y,
a bifurcação do Harlem, onde apanho o elevador
para o meu quarto, sento-me e escrevo esta redacção:

Não é fácil conhecer o que é verdade para ti ou para mim
aos vinte e dois anos, a minha idade. Mas suponho que sou
o que eu sinto e vejo e ouço, Harlem, eu ouço-te:
ouço-te, ouço-nos, dois em um, eu, falo nesta página.
(Ouço Nova Iorque, também). Eu-quem?
Bem, eu gosto de comer, dormir, beber, e de apaixonar-me.
Eu gosto de trabalhar, ler, aprender, e compreender a vida.
Gosto de cachimbos como presentes de Natal,
e discos da Bessie, e do Bop, ou de Bach.
E desconfio que ser preto não me faz não gostar
das mesmas coisas de que gostam outras pessoas de outras raças.
Então será acerca de um negro o que estou a escrever?
Sou o que sou, e isso não será ser branco.
Mas uma parte de si,
professor.
O senhor é branco-
ainda que uma parte de mim, como eu sou parte de si.
Isto é ser Americano. Aqui está um Americano.
De vez em quando talvez o senhor não queira ser parte de mim.
Nem eu muitas vezes quero ser parte de si.
Mas somos, essa é que a verdade!
Como eu aprendo de si,
pressumo que o senhor aprende de mim-
embora o senhor seja mais velho - e branco-
e um pouco mais livre.

Esta é a composição que escrevi.

(Trad.J.T.Parreira)



domingo, julho 05, 2009

Edith Piaf

As suas pernas tristes
elevam-se sobre as rosas

as suas mãos fecham
e abrem sobre o silêncio

abre-se para a voz
o microfone que é um lírio
de prata

conhece o peso da tristeza
de um gesto, o que vale
a água de um olhar

envelheceu até deixar
o corpo jovial.

quinta-feira, julho 02, 2009

Modernidade

Mulher deitada e cachorro, 1954 - Di Cavalcanti.

Atenas não abriga já o espírito
nas pedras do Pártenon, nem
nos perfumes de Jerusalém existe
a deliciosa incoerência
das rosas do Jardim

Vê-se-lhes nas casas
erguidas uma não presente
marca de velhos triunfos
praças, fontes, ruas, cães
vogando no ar
poluído do crepúsculo

onde como antes a solidão
confinava com as estrelas
nestas cidades como noutras
agora o silêncio
é uma ruína.

15-4-2008

quarta-feira, julho 01, 2009

A árvore que entristece

Piet Mondrian, Árvore

A árvore batida a vento
entristece a tarde

mas um som longínquo
uma flauta de pastor
acende uma luz serena
nas horas
antes que o manto negro
insista em abafar a vida
com o silêncio da noite.

30-6-2009

(Brissos Lino)



Poema tirado de Aqui

terça-feira, junho 30, 2009

"Não Gosto de Plágios

Acompanhe aqui os últimos plágios:

as edições fraudadas que temos apresentado aqui no blog surripiam traduções, notas, introduções de: adolfo casais monteiro, etc.etc.

segunda-feira, junho 29, 2009

A Visitação

Chegas todos os dias na prata
do ar, por tua causa os jardins
movimentam-se de abelhas
o estame das flores
vai tecer raízes em novos lugares

Chegas e fazes saltar os pássaros
das linhas da noite
És poderoso e todavia
mesmo a mão de uma criança
te fecha

As transparências são a tua água
navegável ainda pelo mais fundo
a que os olhos chegam
Chegas todas as manhãs e fecundas
na palidez dos frutos a tua cor
E cada fruto acorda sem precisar de espelhos

Chegas e endireitas o arco
das nossas costas e a nossa alma
foge para ti

26/6/2009

sexta-feira, junho 26, 2009

Segredo da Matéria


Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.

(Rosa Alice Branco)

quinta-feira, junho 25, 2009

Um poeta da paisagem paulistana

Poesia 2

São anônimas e puras as meninas
Que brincam nas praças. Inspiradas
No dinamismo inocente
De estarem possuídas pelo sol.
Ainda existe
No fundo de todas as praças-parques
Um tempo piedoso gotejando o futuro
Através de tranças e sorrisos.

Somente meninas que brincam nas praças
Sabem colher a vida e retê-la
No coração das rosas.

Só elas sabem a profecia
Que palpita velada
No mistério dos lagos.

E há um instante
No fundo olhar dos meninos
Que só elas adivinham
E eternizam

São brancas e meigas
Como trapos de nuvens
As meninas que brincam nas praças
Quando fecundadas pela ingênua
Dádiva de luz
Que as adora.

Mas eis que a primeira estrela
Surpreende o adeus do sol
E um momento imóvel
Afugente as meninas
Que brincam nas praças.

(E as praças ficam vazias
como a vida)

(Roberto Piva, 1937-, S.Paulo)