domingo, julho 12, 2009

Urbanos

2 poemas:

LIMPEZA A SECO

Era uma coisa limpa, sem água
a sujidade
a desaparecer sem rasto
no vazio
a roupa às voltas
num tambor de vento.


O BARBEIRO

O coração o parou
a meio de um corte raso
um cabelo que se bastava
a si próprio, como arame farpado.

2009

quarta-feira, julho 08, 2009

Theme for English B, Langston Hughes

Tema para composição na Disciplina de Língua Inglesa

Disse o professor,
vai para casa e escreve
uma redacção esta noite.
E deixa que a composição venha do teu interior-
Então, será verdade.
Pergunto-me se é assim tão simples?
Tenho vinte e dois anos, sou negro, nasci em Winston-Salém.
Andei na escola local, depois em Durham, e aqui
na Faculdade erguida na colina sobre o Harlem.
Sou o único estudante negro da aula.
Os passos desde a colina conduzem-me para o Harlem,
através do parque, atravesso São Nicolau,
a Oitava Avenida, a Sétima, e vou até Y,
a bifurcação do Harlem, onde apanho o elevador
para o meu quarto, sento-me e escrevo esta redacção:

Não é fácil conhecer o que é verdade para ti ou para mim
aos vinte e dois anos, a minha idade. Mas suponho que sou
o que eu sinto e vejo e ouço, Harlem, eu ouço-te:
ouço-te, ouço-nos, dois em um, eu, falo nesta página.
(Ouço Nova Iorque, também). Eu-quem?
Bem, eu gosto de comer, dormir, beber, e de apaixonar-me.
Eu gosto de trabalhar, ler, aprender, e compreender a vida.
Gosto de cachimbos como presentes de Natal,
e discos da Bessie, e do Bop, ou de Bach.
E desconfio que ser preto não me faz não gostar
das mesmas coisas de que gostam outras pessoas de outras raças.
Então será acerca de um negro o que estou a escrever?
Sou o que sou, e isso não será ser branco.
Mas uma parte de si,
professor.
O senhor é branco-
ainda que uma parte de mim, como eu sou parte de si.
Isto é ser Americano. Aqui está um Americano.
De vez em quando talvez o senhor não queira ser parte de mim.
Nem eu muitas vezes quero ser parte de si.
Mas somos, essa é que a verdade!
Como eu aprendo de si,
pressumo que o senhor aprende de mim-
embora o senhor seja mais velho - e branco-
e um pouco mais livre.

Esta é a composição que escrevi.

(Trad.J.T.Parreira)



domingo, julho 05, 2009

Edith Piaf

As suas pernas tristes
elevam-se sobre as rosas

as suas mãos fecham
e abrem sobre o silêncio

abre-se para a voz
o microfone que é um lírio
de prata

conhece o peso da tristeza
de um gesto, o que vale
a água de um olhar

envelheceu até deixar
o corpo jovial.

quinta-feira, julho 02, 2009

Modernidade

Mulher deitada e cachorro, 1954 - Di Cavalcanti.

Atenas não abriga já o espírito
nas pedras do Pártenon, nem
nos perfumes de Jerusalém existe
a deliciosa incoerência
das rosas do Jardim

Vê-se-lhes nas casas
erguidas uma não presente
marca de velhos triunfos
praças, fontes, ruas, cães
vogando no ar
poluído do crepúsculo

onde como antes a solidão
confinava com as estrelas
nestas cidades como noutras
agora o silêncio
é uma ruína.

15-4-2008

quarta-feira, julho 01, 2009

A árvore que entristece

Piet Mondrian, Árvore

A árvore batida a vento
entristece a tarde

mas um som longínquo
uma flauta de pastor
acende uma luz serena
nas horas
antes que o manto negro
insista em abafar a vida
com o silêncio da noite.

30-6-2009

(Brissos Lino)



Poema tirado de Aqui

terça-feira, junho 30, 2009

"Não Gosto de Plágios

Acompanhe aqui os últimos plágios:

as edições fraudadas que temos apresentado aqui no blog surripiam traduções, notas, introduções de: adolfo casais monteiro, etc.etc.

segunda-feira, junho 29, 2009

A Visitação

Chegas todos os dias na prata
do ar, por tua causa os jardins
movimentam-se de abelhas
o estame das flores
vai tecer raízes em novos lugares

Chegas e fazes saltar os pássaros
das linhas da noite
És poderoso e todavia
mesmo a mão de uma criança
te fecha

As transparências são a tua água
navegável ainda pelo mais fundo
a que os olhos chegam
Chegas todas as manhãs e fecundas
na palidez dos frutos a tua cor
E cada fruto acorda sem precisar de espelhos

Chegas e endireitas o arco
das nossas costas e a nossa alma
foge para ti

26/6/2009

sexta-feira, junho 26, 2009

Segredo da Matéria


Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.

(Rosa Alice Branco)

quinta-feira, junho 25, 2009

Um poeta da paisagem paulistana

Poesia 2

São anônimas e puras as meninas
Que brincam nas praças. Inspiradas
No dinamismo inocente
De estarem possuídas pelo sol.
Ainda existe
No fundo de todas as praças-parques
Um tempo piedoso gotejando o futuro
Através de tranças e sorrisos.

Somente meninas que brincam nas praças
Sabem colher a vida e retê-la
No coração das rosas.

Só elas sabem a profecia
Que palpita velada
No mistério dos lagos.

E há um instante
No fundo olhar dos meninos
Que só elas adivinham
E eternizam

São brancas e meigas
Como trapos de nuvens
As meninas que brincam nas praças
Quando fecundadas pela ingênua
Dádiva de luz
Que as adora.

Mas eis que a primeira estrela
Surpreende o adeus do sol
E um momento imóvel
Afugente as meninas
Que brincam nas praças.

(E as praças ficam vazias
como a vida)

(Roberto Piva, 1937-, S.Paulo)

terça-feira, junho 23, 2009

Os Meninos da sua Mãe

Os meninos de Saurimo/Henrique de Carvalho, 1969, foto tirada pelo autor durante a Guerra Colonial em Angola.

Ocorreu-me nesse dia gastar a eternidade
na cara dos meninos, manter o tamanho
das suas cabeças, os seus panos
feridos de África, era o que tinham
um olhar
mantiveram-no fundo e sem sonhar
Os olhos, o ranho, a paz na cara que era deles
não sabiam
como iriam iluminar a câmara escura
do futuro.

22/6/2009



domingo, junho 21, 2009

ars poetica 3

onde bate
o coração do poema
lá está minh'alma

e se invento
musas em profusão
é pra fugir da sedução

se procuro rimas
é pra acompanhar teu compasso
enquanto remas
pra longe do poema


(Samuca Santos)

cabogato, px, olinda
29.05.09

sexta-feira, junho 19, 2009

Voumemborismo (3)

Toada para se ir a Brasília

(fragmento)

Vou-me embora pra Brasília,
sol nascido em chão agreste.
Como quem vai para uma ilha.
A esperança mora a oeste.

Vou-me embora pra Brasília,
por determinação celeste.
Pouco me importa a distância,
lá encontrarei minha infância.

Vou-me embora pra Brasília
porque neste azul marítimo
a paisagem me faz mal.
Por excesso de azul e sal.

Vou-me embora, vou sem mágoa.
O coração do Brasil
deve estar mas em seu peito,
não aqui, à beira d'água.

( Cassiano Ricardo)

quarta-feira, junho 17, 2009

Voumemborismo (2)

XIV

Vou-me embora vou-me embora
Vou-me embora pra Belém
Vou colhêr cravos e rosas
Volto a semana que vem

Vou-me embora paz da terra
Paz da terra repartida
Uns têm terra muita terra
Outros nem pra uma dormida

Não tenho onde cair morto
Fiz gorar a inteligência
Vou reentrar no meu povo
Reprincipiar minha ciência

Vou-me embora vou-me embora
Volto a semana que vem
Quando eu voltar minha terra
Será dela ou de ninguém.

(Mário de Andrade)

segunda-feira, junho 15, 2009

Voumemborismo (1)

Na Poesia brasileira dos anos 30, segundo Mário de Andrade, a partir do poema de Bandeira, da obra-prima de um «estado de espírito», generalizou-se entre os intelectuais o «Vou-me embora para...», incapazes de achar salvação, surgiu a vontade amarga, o dar de ombros, no fundo, a sensação do fracasso total.

Quero ir-me embora daqui!

Quero ir-me embora daqui!
-de mágoa e impossíveis morro.
Irei para a Ilha do Corvo?
Para as praias de Taiti?

Oh! dize, dize-me, tu
que me conheces e sabes
que quero portas sem chaves,
ventos em lábios de bambu,

música da solidão,
largueza de amor eterno,
e, como um pêndulo certo,
sobre o céu meu coração.

Deixo a memória no mar.
E insônias de fina areia
medirão a vida aceita
pela que não pude achar.

(Cecília Meireles)

sábado, junho 13, 2009

A Curva


(Ando Hiroshige, 1797-1858)

Algum sapato há-de aparecer
naquela curva, um braço depois
da sua sombra,
a desfazer o ângulo
a incerteza e o ôco
do silêncio, Alguém
tem de aparecer naquela curva,
talvez depois do vento
agitar a melancolia
das folhas sem outono.

sexta-feira, junho 12, 2009

Cuando los niños juegan a la guerra

Cuando los niños juegan a la guerra,
qué tristeza.
Cuando apuntan su arma a nuestro pecho
y es inútil decir que no jugamos,
pues ellos la disparan
e insisten que caigamos por el suelo,
para hacer más real el triste juego.
Cuando los niños crecen, se hacen hombres
y no olvidan el juego de la guerra;
cuando los hombres mueren,
cuando los hombres matan,
qué tristeza.
Niños, no juguéis a la guerra,
que los ombres
lo aprenden todo de los niños.
Cuando los niños juegan a la guerra,
qué tristeza.

(Jose Luis Pernas, 1943- )






quarta-feira, junho 10, 2009

Apócrifo camoniano

Inova, edição de 1972
Sentados sob o fresco dos salgueiros
a ver passar Babilónia
em sombras sobre o rio
os nossos olhos
nunca repetem a mesma água
Amanhã debaixo dos salgueiros
com os ombros leves
os olhos levam-nos
para longe.