quarta-feira, maio 13, 2009

A lição de banjo


Henry Ossawa Tanner

Onde entra a luz quente de uma lareira
e se adivinha o azul que vem do fundo
do universo, um horizonte em branco
que se atravessa na parede

Aí estava o esquecimento
do resto do mundo, dos poucos haveres
e uma natureza-morta sobre a mesa
num velho soalho de madeira
o ranger dos pobres

Velho e menino estão num ar azul
presos às mãos que vão tirando
do banjo o finíssimo silêncio
da poeira.

terça-feira, maio 12, 2009

Contos curtos

Picasso, Mulher com livro

ROUPA DE SAÍDA

A noite
Engomava
Minha roupa de saída
No ferro frio de cada dia.

(Galope noturno (Fortaleza, Banco do Nordeste do Brasil, 2007). Antônio Mário de Brito Nogueira nasceu em Viçosa do Ceará, em 1950. Eis um dos poemas daquele livro).


DECOTE

Dois quartos lunares
saem da blusa
O roxo do algodão
era um pôr do sol desusado
uma planície com horizonte
a perder-se dos olhares.

11/5/2009


(editado em http://poetasalutor2.wordpress.com/ )

segunda-feira, maio 11, 2009

A poesia como pintura


Jeune Fille Avec un Chat (1880)
Renoir

SONHO LEVE

A menina adormece a cadeira
berrante
repousa nela
com cuidada gentileza
a graça inocente
que o cansaço não roubou
à hora da ceia

de braços despojados
voa entre nuvens efémeras
de algodão
feliz.

8/5/09

(Brissos Lino)


domingo, maio 10, 2009

Três Lorcas, Edição Especial

(Barcelona, 1997)



Livro adquirido em Janeiro de 1998 em Sevilha, edição especial contendo 3 Lorcas distintos na sua poética.

sábado, maio 09, 2009

ode a lorca

Samuca Santos:

ode a lorca

não, federico
os estudantes ainda não foram à praça
enfrentar os milicos
com meus poemas
e flores atiradas ao ar
(nem sei se algum dia)

não passei um happy xmas
sob a neve de manhattan
muito menos vi cordoba
lejana y sola
com a morte me mirando
desde suas torres

também não sei se algum dia
lembrarão dos meus poemas
com o fervor
que o mundo venera os teus

(cabogato, px, olinda 19.04.09)

sexta-feira, maio 08, 2009

Rei de Copas: Federico García Lorca


Mataron en Granada a Federico García.
No sabemos aún qué sacaron con ello.
No escuchamos el llanto del viento.
Enmudecimos con aquellos viles disparos.
Nada respondo acerca
de lo que estaban hilando
con las Parcas.
En el ataud
yacemos con hermosa frescura.


Erregeko Kopa: Federico Garcia Lorca

Federiko García Granadan hil zuten
Ez dakigu oraindik zer atera duten
Haizearen negarrik eztugu entzuten
Tiro doilor haiekin mututu ginduten
Eztut erantzuten
Zetzaz ziharduten
Parkekin iruten!
Eta katabuten
Freskura galantean ginaden etzuten.


( Gabriel Aresti, Bilbao -1933-1975 )

quarta-feira, maio 06, 2009

Tu

Estive contigo todo o dia no meu ouvido
à volta do meu pescoço
o teu perfume, de gotas brilhantes
invisíveis, na dupla palma
das minhas mãos o vento
trazia o minúsculo instante da poeira
Estive com os meus cabelos
sonhando com as tuas mãos
estive a respirar o ar
que deixaste para trás
guardei na minha retina a soma
do abrir e fechar dos teus olhos
o teu silêncio agora toca-se
em cada coisa que ficou
cuja textura é inquebrável
como uma lágrima.

A bebedora de Absinto, Lautrec

terça-feira, maio 05, 2009

Autógrafos (7)

(Brissos Lino)
####################
À IMENSA MAIORIA

Aquí tenéis, en canto y alma, al hombre
Blas de Otero

Se não conheceis um coração
na boca de um homem
que errou,
aqui o tendes.

Uma parte
morreu em mim. A outra
entre o coração e a boca
ainda se espanta como um menino
que vê o perdão
como sorriso de Deus.

Saio à rua para todos os olhos
que me cruzam,
como se atravessa à névoa,
muito abertos
porém sem ninguém.

sábado, maio 02, 2009

Pessoa Drummondiano

No meio da paisagem tem um poeta.
Graça Graúna.


No meio da calçada tem um poeta
tem uma mesa no meio da calçada
no meio da mesa
tem a mão cheia do orvalho da tarde

Na ponta de um braço tem outra mão
indicando o caminho
ao lado da mesa no meio da calçada
Ninguém se esquecerá que tem um poeta
que está em fogo
quando toma o sol no corpo.


sexta-feira, maio 01, 2009

Carol Ann Duffy, a 1ª em 341 anos

Britain Picks First Female Poet Laureate
By SARAH LYALL
With the choice of Carol Ann Duffy, the post held by such poets as Dryden, Tennyson and Ted Hughes went to a woman for the first time in its 341-year history.
Ler in The New York Times

Carol Duffy, 53, é conhecida por ter uma escrita poética acessível. Com frequência os seus poemas contêm ditos de espírito e tratam das minúcias da vida de cada dia.
Sendo a poesia acima de tudo uma sucessão de momentos intensos, «eu não trato com factos, trato com emoções.»-Disse.
"You
Uninvited the thought of you stayed too late in my head"

quinta-feira, abril 30, 2009

O mensageiro

As rugas do teu rosto são as linhas
visíveis da mensagem
lê-se em cada linha
as ruínas da vitória

Com sandálias molhadas pelos rios
com os pés febris, vens do longe
com os olhos, como espelhos
da mensagem

e tocas outras distâncias com o olhar
o coração desocupado, só
a mensagem que carregas
de Maratona é o que importa

Chegas ao teu reino e a tua calma
virá depois da morte.
poema editado, primeira vez, em A Ovelha Perdida

terça-feira, abril 28, 2009

Stephen Crane

A man said to the universe:
"Sir I exist!"
"However," replied the universe,
"The fact has not created in me
A sense of obligation."


Um homem disse ao universo:
"senhor eu existo!"
"Todavia", respondeu o universo,
“o facto não tem criado em mim
um sentimento de obrigação."

(Trad. J.T.Parreira)

Neve em Varadero? Ver aqui


Um poema inédito no Poeta Salutor 2

domingo, abril 26, 2009

Namoro

Depois do violino arrebatar o público
começaram a tocar
os dedos um ao outro
até ao fundo das mãos

A mão esquerda dela disse sim
e a direita dele aprisionou-se
parecia
para sempre.

25/4/2009

sábado, abril 25, 2009

Entrada na lata

7 perguntas que o Samucablogsantos, do Recife, me lançou à queima-roupa, todas ficaram lá com as respostas.




sexta-feira, abril 24, 2009

Leste de Angola (1968-70)

para MC

Lembro-me que lhe escrevia cartas
verdadeiras, as palavras
não eram transparentes
eram como o coração no corpo
sentido em sinais ininterruptos
Veias e artérias
gravadas nas palavras
Recordo que invejava
as cartas que iam tocar a pele
dos seus dedos
Eram cartas verdadeiras
da dor obscura
iriam voar no éter
numa liga de alumínio
A única palavra que recordo
é o amor.

quarta-feira, abril 22, 2009

O tricô de Penélope

Carlo Carrà, L'attesa

Os deuses e os ventos fazem e desfazem
o tricô de Penélope

Escuta o vento
e sabe que ao contrário o barco
de Odisseu
enfuna as velas

Os deuses
vão fechando porta atrás
de porta no Olimpo
assobiam para o lado
e lançam seus olhos
ensonados para o leito
vago de Penélope.

21/4/2009

segunda-feira, abril 20, 2009

1961, variante aqui, no Poeta Salutor 2

Poema 1961, alternativa no Blog Poeta Salutor 2. Ver lá.
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No Samucablog , do amigo poeta pernanbucano, Samuel Santos, a minha tradução de um poema de Ungaretti: O porto submerso. Ler aqui http://samucablogsantos.blogspot.com/2009/04/o-porto-submerso.html#comment-form

Autógrafos (6)




(Fernando Luis Pérez Poza)


sexta-feira, abril 17, 2009

Picasso: "Mosqueteros" - os últimos trabalhos


A última etapa de Picasso pisa pela primeira vez o solo nova iorquino

"An exhibition at the Gagosian Gallery in Chelsea (New York City) features works painted by Picasso in the decade before his death in 1973, including four from 1967."
in The New York Times, de hoje

PICASSO
Picasso dá-nos Coisas
que nos desorganizam os olhos
as linhas correm paralelas, e depois
separam-se, os rostos
ficam de repente de perfil
Les Demoiselles velhas
uma forma hoje
não é amanhã
Picasso deixa a cabeça
a nossa, irrequieta.

Apócrifo de Ésquilo

(Haiku)

"Os turbilhões da neve de brancas asas"
in Prometeu Agrilhoado


O Inverno serve
à neve suas brancas asas:
o invísivel vento.

quinta-feira, abril 16, 2009

quarta-feira, abril 15, 2009

O Tempo que passou

Livraria Civilização, Porto, 1945

Nesta colectânea de narrativas, está Ténebra, que viria a ser conhecida, editorialmente, mais tarde como O Coração das Trevas, e mais tarde ainda em filme: Apocalipse Now, de Coppola.

«A Nellie, uma chalupa de recreio, rodou sôbre o ferro sem o mais pequeno panejar das velas, e ficou em repouso.»
O elemento surpresa, que Conrad soube inserir nas trevas desta novela através da poética dos sentidos, começa aqui: o rio não está em África, é o Tâmisa de onde parte para o mar aberto. Só depois o rio se dilata na rota marítima até ao Continente Negro onde a procura de Kurtz começa.

terça-feira, abril 14, 2009

À imensa maioria

Aquí tenéis, en canto y alma, al hombre
Blas de Otero
Sob esta epígrafe do poeta basco Blas de Otero, um poema inédito publicado no Ovelha Perdida.

segunda-feira, abril 13, 2009

sábado, abril 11, 2009

Na terra de meu pai há leões


Na terra de meu pai há leões

Iluminam
o ar da noite e erguem
dentro dos olhos enormes
o seu poder

Quando os leões atravessam a terra
de meu pai, é um silêncio fundo
como um rio
que avassala amarelo-fulvo

Os leões da terra de meu pai sobem
no espaço como barcos
compridos egípcios, sabem
no alto das ondas do vento
enviar os seus sinais
A savana abre os seus ouvidos
para os leões da terra virgem de meu pai.

quinta-feira, abril 09, 2009

O Poeta

Inédito do meu caro colega de trabalho de poesia, há 37 anos.


Coração que vê
o silêncio
olhos que sentem
um fogo aceso
mãos que escutam
o improvável
ouvidos que afagam
horas de solidão
alma sensível
a lágrimas alheias

sempre atento a esta condição
nua e humana
a este chão incerto
que não pára de se mover
doloroso e aflito.

9/4/09

(Brissos Lino)

Autógrafos (4)

Virna Teixeira (2006)

segunda-feira, abril 06, 2009

A menina do casaco vermelho


Ninguém baixou os olhos, todos
olham a linha de um horizonte
de lenços, bonés, capacetes
de aço, quase tropeçam
na ave que desliza no chão
com plumagem vermelha.


Tão perto de botas e sapatos
que já pisaram o risco da morte
a menina leva no bolso um mistério
ninguém sabe mas a inocência
da vida desliza como uma menina
de casaco vermelho.

6/4/2009

sexta-feira, abril 03, 2009

HAIKU (4)



1.

Nas folhas do livro
Que se abre no Outono
Reaprende a cidade.

(J.T.Parreira)


3.

A mão nos olhos
protege o coração
do vento do sul.

(Brissos Lino)


quinta-feira, abril 02, 2009

Dia do Livro Infantil, com um poema


CRIANÇAS QUE OLHAM OS DRAGÕES

Como as crianças que olham os dragões
os meus olhos ainda se espantam
quando as nuvens passam
num retrato de família
as cores umas às outras
e são algodão
doce e carrosséis

como as crianças que olham
para os dragões, ainda me surpreendo
com nenúfares que põem a mesa
nos rios

Como as crianças que olham
os dragões, os meus olhos
prendem-se aos gestos
das netas e dos netos, e o tenso coração
é uma sombra do que foi
até isso me admira
por causa das Tuas maravilhas.

2-4-2009

HAIKU (3)

O silêncio pousa
sob a pedra da montanha
onde uma águia morre.

(J.C.Brandão)

§§§§§§§§§§§§§

Haiku inédito em http://poetasalutor2.wordpress.com/

quarta-feira, abril 01, 2009

HAIKU (2)

1.

A janela filtra
a colmeia humana
solta na rua.

(Brissos Lino)

2.

O silêncio voa:
Águias por cima dos vales
Onde as presas tremem

(J.T.Parreira)

terça-feira, março 31, 2009

segunda-feira, março 30, 2009

Limpeza feita na Primavera

Quadro de Magritte


Spring is like a perhaps hand

arranging a window,
into which people look

e.e.cummings


Primavera é como a mão
que termina onde começam as flores
(que vêm cuidadosamente
de lado nenhum) e manda
numa janela, antes fechada
e agora espirra sol e pólen
em que as pessoas mudam
os seus olhos e modos
de falar sobre as coisas.

sábado, março 28, 2009

Se a depressão é hereditária ou não, como sabê-lo?


A poeta e o filho Nicholas, em 1962

Se a depressão é hereditária ou não, como sabê-lo? O que é possível, sim, é lamentar o suicídio de Nicholas Hughes, filho dos poetas Ted Hughes e Sylvia Plath que, como recordamos, deprimida pelo rompimento com seu marido tomou a decisão de se suicidar, com gaz, na sua sua casa de Londres.
Nicholas Hughes era um conhecido ambientalista e investigador da fauna marinha no Alaska. Diz-se que durante muitos anos foi injuriado – sobretudo por organizações feministas- por ter alegadamente contribuido com as suas infidelidades para o suicídio de sua mulher.

Quando Sylvia Plath se suicidou tomou a precaução de tapar com toalhas molhadas as frinchas da porta da cozinha, para não afectar os seus pequenos filhos Nicholas e Frieda, de um e dois anos de idade, respectivamente, os quais deixou aconchegados e a dormir no quarto ao lado, com bolachas e um copo de leite para cada um. Apesar de toda a atenção mediática que o caso recebeu, o marido Ted Hughes manteve oculta a verdade aos seus filhos até à adolescência de ambos.
Seis anos depois de Fevereiro de 1963, como se se tratasse de um pesadelo recorrente, a companheira do escritor, Assia Wevill, também se matou da mesma forma que Sylvia: intoxicando-se com gaz, só que nessa ocasião também morreu a filha de Ted e Assia, Shura.

Por causa do dramatismo desta história familiar – que foi inclusivamente transportada para o cinema, com o filme Sylvia, interpretada pela actriz Gwyneth Paltrow -, muitos dos comentários giram mais em torno dos suicídios do que em volta do talento literário de Sylvia e de Ted, que morreu de cancro em 1998.

( Magda Díaz Morales, in Blog Apostillas Literarias)
Trad. de Poeta Salutor

quinta-feira, março 26, 2009

Vincent

Vincent, procuras salvar
a cadeira do seu destino do fogo
fazes rodopiar pincéis
nos campos de trigo e nos ângulos
da noite do teu coração
arde Arles na tua casa amarela
Tu logras sempre capturar a luz
espalhada em qualquer coisa
No vento, nas lâminas do sol
dos girassóis, nos teus cabelos fulvos
Na paleta as cores expulsam
a solidão das tuas planícies
como arrepiam nos teus olhos
os dias de verão e as noites estreladas.

quarta-feira, março 25, 2009

Haiku, no Porosidade Etérea

Nenúfares no lago:
uma mesa que Deus põe
a flutuar no vidro.

(a participação de Poeta Salutor)

A Inês Ramos escolheu apenas um haiku por participante para ser gravado em áudio pelo diseur Luís Gaspar.






terça-feira, março 24, 2009

Excerto do poema Tulips, Sylvia Plath

(...)
Perdi-me de mim e estou farta da minha bagagem-
Minha mala de couro aberta toda a noite como caixa de pílulas,
O marido e os filhos sorrindo no retrato de família;
Os seus sorrisos entram na minha pele, pequenos anzóis risonhos.

(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, março 23, 2009

A poesia do desespero

Via A Ovelha Perdida, o destaque para o suicídio do filho de Sylvia Plath

Now I have lost myself I am sick of baggage-
My patent leather overnight case like a black pillbox,
My husband and child smiling out of the family photo;
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

(Sylvia Plath)

domingo, março 22, 2009

sábado, março 21, 2009

Dia Mundial da Poesia

Num dia assim


Num dia assim
Iria para a rua com os bolsos
Preparados para receber as mãos
Sem destinatários da minha simpatia

Num dia assim, iria para a rua
Para estar comigo nos outros, com os dedos
Resolvidos a fazer grandes coisas

Tocar o cabelo das crianças, se isso
Não fosse pedofilia, amar
O próximo como a mim mesmo

Entrar com o jornal do dia
Um bilhete de comboio
Numa Ópera, pisar o chão de uma livraria
Onde toda a gente se acha doutorada

Num dia assim
Talvez passe por entre as esplanadas
Que estendem a primavera
Na cidade.


21-3-2009

Dia Mundial da Poesia

Iremos publicando, ao longo do dia, poemas nossos, inéditos, construídos no momento e inspirados em imagens. Eis o segundo ( escreve no Ovelha Perdida, o poeta Brissos Lino):


O cachimbo de Neruda

O cachimbo de Neruda conhece
por dentro
a voz muda que percorre
o peito do poeta
quando sente a terra e as gentes

conhece o sabor
das palavras que sabem a mar
e sofrimento
conhece até os pensamentos alados
e calmos
de quem vê para lá
das águas.

(Brissos Lino , 21/3/09)

sexta-feira, março 20, 2009

Nécrologie




Van Gogh morreu no outro dia
um tiro
em Auvers estoirou a luz
ondulante das searas, um tiro
na cabeça de Van Gogh
as asas dos corvos
espantaram o azul.




quarta-feira, março 18, 2009

jack kerouac, haikais ocidentais

quatro haikais ocidentais


A chuva pesada
afunda-se no mar
Inútil, inútil.
*

Um imenso floco
de neve
Que desce sozinho.
*

Meio-dia,
as portas da garagem
Crescem sobre os cadeados
*

Aqueles pássaros empoleirados
sobre aquela paliçada
foram todos morrer.
*

(Trad. por Anderson Fonseca)


in Revista Confraria do Vento, nº 24
ver link no título

segunda-feira, março 16, 2009

Ezra Pound na jaula

Only shadows enter my tent
As men pass between me and the sunset
Ezra Pound, Canto 80


O poeta atrás da rede
num cubo de zinco e aço
aperta os seus passos

Conta os passos
e as tiras de metal
contra o céu azul
e a lâmpada ferindo os olhos
e a noite

O poeta tira os seus papéis
do canto da penumbra
na jaula improvisada
o poeta estende em Pisa
os seus Cantos

Entram somente sombras
na sua cela, à volta a erva
cresce golpeando o vento.

2/2009

domingo, março 15, 2009

Escribir, segundo Juan Manuel Bonet

Escribir-como se nada fuera importante-
el sencillo irse de las horas
sentado en la terraza de un café
de una provincia española.
Escribir, como si estuviera escrito
que el ruido de esas tazas sobre el mármol
tuviera que pasar el arroyo claro
de unos versos.
Escribir, como si nada fuera.

(Juan Manuel Bonet)

Escrever

Escreva - como se nada fosse importante -
o simples deslizar das horas
sentado no terraço de um café
provinciano.
Escreva, como se estivesse escrito
que o ruído das chávenas sobre o mármore
passa o regato claro
de uns versos.
Escreva, como se nada fora.

(Trad. J.T.Parreira)

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POEMA INÉDITO ( SALA DE LEITURA)
Aqui: http://poetasalutor2.wordpress.com/

sexta-feira, março 13, 2009

Jacob


Um anjo forçou-lhe as coxas
no ribeiro, prendeu nas mãos
num dédalo perfeito
sem saída, o corpo de Jacob

Buscavam-se os dois
olhos nos corpos
à procura de uma porta para o céu
anjo e homem, sentidos em vigília

Buscavam-se os dois
certamente em círculo
espiaram a aurora
na água que corria.

quinta-feira, março 12, 2009

A noite fez das suas

“A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos.”
(António Ramos Rosa, Poema dum funcionário cansado)

A noite fez das suas
baralhou de novo os dados
da situação
comprometeu a clareza lógica
do excesso solar
os sonhos arredondaram-me as mãos
e o rosto
a noite fez-me ver para lá
do espelho
das vaidades.

11/3/09

(Brissos Lino)

terça-feira, março 10, 2009

Waltz



“Não há muito a dizer de uma valsa”
Maria Pragana


Não há muito a dizer sobre uma valsa
e tanta coisa se liga
a um corpo dançando com o outro

Os dançarinos passeiam por campos vazios
na sua cabeça, mãos nas mãos
atirando para longe o frio

No vento
o vestido é uma chama
queimando.

8/3/2009

segunda-feira, março 09, 2009

Poeta Salutor 2

Iniciei em Word Press nova aventura na publicação de poemas inéditos, datados a partir de 2009. Também inserirei textos de crítica literária e traduções.

Ver aqui http://poetasalutor2.wordpress.com/

domingo, março 08, 2009

Os Limites

hay un espejo que me ha visto por última vez
Jorge Luis Borges

Há um espelho que não sabe
onde estará teu rosto
há a lâmpada com que feriste
pela última vez teus olhos
há a música que não tardará
a encontrar outros ouvidos
há uma última noite em que os sonhos
ficarão nas galerias, solitários
Pela última vez
há um pássaro que parte
o silêncio que há no ar
Há um dia que se fecha na morte.

1985

quinta-feira, março 05, 2009

Ambigüedad de la catástrofe: Ángel González

Lo había perdido todo:
amor, familia, bienes, esperanza.
Y se decía casi sin tristeza:
?no es hermoso, por fin, vivir sin miedo?

(Ángel González, "Nada Grave", livro póstumo, 2008)


Ele havia perdido tudo:
amor, família, haveres, esperança.
E ele disse quase sem tristeza:
não é bonito, por fim, viver sem medo?

(Trad. J.T.Parreira)

quarta-feira, março 04, 2009

O Grupo Poético de Aveiro e José Régio

Parte do GPA, sob os olhares da máquina fotográfica e do Régio. Alguns intérpretes e poetas, Rosa Maria Oliveira, Aida Viegas, Orlando Figueiredo e o editor do Poeta Salutor.

terça-feira, março 03, 2009

Mostrar o coração

I showed my heart to the doctor: he said I just have to quit.
Leonard Cohen


Abri o meu coração para o médico, gráficos
atropelando as batidas do sangue- o médico disse
que embora os exames
não mostrassem indícios
havia solidão, ele mostrou o perigo
de se ter um amor maior do que a idade
a que podemos chegar Por fim
mostrou-me como trabalha
ainda o sopro divino.

segunda-feira, março 02, 2009

The Desolate Field /Vasto e Cinzento, o céu

Vast and grey, the sky
is a simulacrum
to all but him whose days
are vast and grey and --
In the tall, dried grasses
a goat stirs with nozzle searching the ground.
My head is in the air
but who am I . . . ?
-- and my heart stops amazed
at the thought of love
vast and grey
yearning silently over me.
(William Carlos Williams)


Vasto e cinzento, o céu
é uma imagem
para todos menos para ele cujos dias
são vastos e cinzentos e –
Nas ervas altas, ressequidas
uma cabra agita-se
com o focinho procurando o chão.
Minha cabeça está no ar
mas quem sou eu...?
-- e meu coração maravilhado pára
num pensamento de amor
vasto e cinzento
saudoso em silêncio sobre mim.

(Tradução de J.T.Parreira)

sábado, fevereiro 28, 2009

Despertar precoce no campo

All wished to leave this drying crust
Robert Lowell


Desejam todos deixar esta crosta terrestre
ressequida, nas asas delicadas
como de abelha, como um dardo de mel
lançar um voo sensual
capaz de haurir o doce
infinito de uma flor.

28/2/2009