domingo, abril 26, 2009

Namoro

Depois do violino arrebatar o público
começaram a tocar
os dedos um ao outro
até ao fundo das mãos

A mão esquerda dela disse sim
e a direita dele aprisionou-se
parecia
para sempre.

25/4/2009

sábado, abril 25, 2009

Entrada na lata

7 perguntas que o Samucablogsantos, do Recife, me lançou à queima-roupa, todas ficaram lá com as respostas.




sexta-feira, abril 24, 2009

Leste de Angola (1968-70)

para MC

Lembro-me que lhe escrevia cartas
verdadeiras, as palavras
não eram transparentes
eram como o coração no corpo
sentido em sinais ininterruptos
Veias e artérias
gravadas nas palavras
Recordo que invejava
as cartas que iam tocar a pele
dos seus dedos
Eram cartas verdadeiras
da dor obscura
iriam voar no éter
numa liga de alumínio
A única palavra que recordo
é o amor.

quarta-feira, abril 22, 2009

O tricô de Penélope

Carlo Carrà, L'attesa

Os deuses e os ventos fazem e desfazem
o tricô de Penélope

Escuta o vento
e sabe que ao contrário o barco
de Odisseu
enfuna as velas

Os deuses
vão fechando porta atrás
de porta no Olimpo
assobiam para o lado
e lançam seus olhos
ensonados para o leito
vago de Penélope.

21/4/2009

segunda-feira, abril 20, 2009

1961, variante aqui, no Poeta Salutor 2

Poema 1961, alternativa no Blog Poeta Salutor 2. Ver lá.
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No Samucablog , do amigo poeta pernanbucano, Samuel Santos, a minha tradução de um poema de Ungaretti: O porto submerso. Ler aqui http://samucablogsantos.blogspot.com/2009/04/o-porto-submerso.html#comment-form

Autógrafos (6)




(Fernando Luis Pérez Poza)


sexta-feira, abril 17, 2009

Picasso: "Mosqueteros" - os últimos trabalhos


A última etapa de Picasso pisa pela primeira vez o solo nova iorquino

"An exhibition at the Gagosian Gallery in Chelsea (New York City) features works painted by Picasso in the decade before his death in 1973, including four from 1967."
in The New York Times, de hoje

PICASSO
Picasso dá-nos Coisas
que nos desorganizam os olhos
as linhas correm paralelas, e depois
separam-se, os rostos
ficam de repente de perfil
Les Demoiselles velhas
uma forma hoje
não é amanhã
Picasso deixa a cabeça
a nossa, irrequieta.

Apócrifo de Ésquilo

(Haiku)

"Os turbilhões da neve de brancas asas"
in Prometeu Agrilhoado


O Inverno serve
à neve suas brancas asas:
o invísivel vento.

quinta-feira, abril 16, 2009

quarta-feira, abril 15, 2009

O Tempo que passou

Livraria Civilização, Porto, 1945

Nesta colectânea de narrativas, está Ténebra, que viria a ser conhecida, editorialmente, mais tarde como O Coração das Trevas, e mais tarde ainda em filme: Apocalipse Now, de Coppola.

«A Nellie, uma chalupa de recreio, rodou sôbre o ferro sem o mais pequeno panejar das velas, e ficou em repouso.»
O elemento surpresa, que Conrad soube inserir nas trevas desta novela através da poética dos sentidos, começa aqui: o rio não está em África, é o Tâmisa de onde parte para o mar aberto. Só depois o rio se dilata na rota marítima até ao Continente Negro onde a procura de Kurtz começa.

terça-feira, abril 14, 2009

À imensa maioria

Aquí tenéis, en canto y alma, al hombre
Blas de Otero
Sob esta epígrafe do poeta basco Blas de Otero, um poema inédito publicado no Ovelha Perdida.

segunda-feira, abril 13, 2009

sábado, abril 11, 2009

Na terra de meu pai há leões


Na terra de meu pai há leões

Iluminam
o ar da noite e erguem
dentro dos olhos enormes
o seu poder

Quando os leões atravessam a terra
de meu pai, é um silêncio fundo
como um rio
que avassala amarelo-fulvo

Os leões da terra de meu pai sobem
no espaço como barcos
compridos egípcios, sabem
no alto das ondas do vento
enviar os seus sinais
A savana abre os seus ouvidos
para os leões da terra virgem de meu pai.

quinta-feira, abril 09, 2009

O Poeta

Inédito do meu caro colega de trabalho de poesia, há 37 anos.


Coração que vê
o silêncio
olhos que sentem
um fogo aceso
mãos que escutam
o improvável
ouvidos que afagam
horas de solidão
alma sensível
a lágrimas alheias

sempre atento a esta condição
nua e humana
a este chão incerto
que não pára de se mover
doloroso e aflito.

9/4/09

(Brissos Lino)

Autógrafos (4)

Virna Teixeira (2006)

segunda-feira, abril 06, 2009

A menina do casaco vermelho


Ninguém baixou os olhos, todos
olham a linha de um horizonte
de lenços, bonés, capacetes
de aço, quase tropeçam
na ave que desliza no chão
com plumagem vermelha.


Tão perto de botas e sapatos
que já pisaram o risco da morte
a menina leva no bolso um mistério
ninguém sabe mas a inocência
da vida desliza como uma menina
de casaco vermelho.

6/4/2009

sexta-feira, abril 03, 2009

HAIKU (4)



1.

Nas folhas do livro
Que se abre no Outono
Reaprende a cidade.

(J.T.Parreira)


3.

A mão nos olhos
protege o coração
do vento do sul.

(Brissos Lino)


quinta-feira, abril 02, 2009

Dia do Livro Infantil, com um poema


CRIANÇAS QUE OLHAM OS DRAGÕES

Como as crianças que olham os dragões
os meus olhos ainda se espantam
quando as nuvens passam
num retrato de família
as cores umas às outras
e são algodão
doce e carrosséis

como as crianças que olham
para os dragões, ainda me surpreendo
com nenúfares que põem a mesa
nos rios

Como as crianças que olham
os dragões, os meus olhos
prendem-se aos gestos
das netas e dos netos, e o tenso coração
é uma sombra do que foi
até isso me admira
por causa das Tuas maravilhas.

2-4-2009

HAIKU (3)

O silêncio pousa
sob a pedra da montanha
onde uma águia morre.

(J.C.Brandão)

§§§§§§§§§§§§§

Haiku inédito em http://poetasalutor2.wordpress.com/

quarta-feira, abril 01, 2009

HAIKU (2)

1.

A janela filtra
a colmeia humana
solta na rua.

(Brissos Lino)

2.

O silêncio voa:
Águias por cima dos vales
Onde as presas tremem

(J.T.Parreira)

terça-feira, março 31, 2009

Haiku


Pássaros riscam os ares
transbordam alegremente
o azul celeste.

(Brissos Lino)

segunda-feira, março 30, 2009

Limpeza feita na Primavera

Quadro de Magritte


Spring is like a perhaps hand

arranging a window,
into which people look

e.e.cummings


Primavera é como a mão
que termina onde começam as flores
(que vêm cuidadosamente
de lado nenhum) e manda
numa janela, antes fechada
e agora espirra sol e pólen
em que as pessoas mudam
os seus olhos e modos
de falar sobre as coisas.

sábado, março 28, 2009

Se a depressão é hereditária ou não, como sabê-lo?


A poeta e o filho Nicholas, em 1962

Se a depressão é hereditária ou não, como sabê-lo? O que é possível, sim, é lamentar o suicídio de Nicholas Hughes, filho dos poetas Ted Hughes e Sylvia Plath que, como recordamos, deprimida pelo rompimento com seu marido tomou a decisão de se suicidar, com gaz, na sua sua casa de Londres.
Nicholas Hughes era um conhecido ambientalista e investigador da fauna marinha no Alaska. Diz-se que durante muitos anos foi injuriado – sobretudo por organizações feministas- por ter alegadamente contribuido com as suas infidelidades para o suicídio de sua mulher.

Quando Sylvia Plath se suicidou tomou a precaução de tapar com toalhas molhadas as frinchas da porta da cozinha, para não afectar os seus pequenos filhos Nicholas e Frieda, de um e dois anos de idade, respectivamente, os quais deixou aconchegados e a dormir no quarto ao lado, com bolachas e um copo de leite para cada um. Apesar de toda a atenção mediática que o caso recebeu, o marido Ted Hughes manteve oculta a verdade aos seus filhos até à adolescência de ambos.
Seis anos depois de Fevereiro de 1963, como se se tratasse de um pesadelo recorrente, a companheira do escritor, Assia Wevill, também se matou da mesma forma que Sylvia: intoxicando-se com gaz, só que nessa ocasião também morreu a filha de Ted e Assia, Shura.

Por causa do dramatismo desta história familiar – que foi inclusivamente transportada para o cinema, com o filme Sylvia, interpretada pela actriz Gwyneth Paltrow -, muitos dos comentários giram mais em torno dos suicídios do que em volta do talento literário de Sylvia e de Ted, que morreu de cancro em 1998.

( Magda Díaz Morales, in Blog Apostillas Literarias)
Trad. de Poeta Salutor

quinta-feira, março 26, 2009

Vincent

Vincent, procuras salvar
a cadeira do seu destino do fogo
fazes rodopiar pincéis
nos campos de trigo e nos ângulos
da noite do teu coração
arde Arles na tua casa amarela
Tu logras sempre capturar a luz
espalhada em qualquer coisa
No vento, nas lâminas do sol
dos girassóis, nos teus cabelos fulvos
Na paleta as cores expulsam
a solidão das tuas planícies
como arrepiam nos teus olhos
os dias de verão e as noites estreladas.

quarta-feira, março 25, 2009

Haiku, no Porosidade Etérea

Nenúfares no lago:
uma mesa que Deus põe
a flutuar no vidro.

(a participação de Poeta Salutor)

A Inês Ramos escolheu apenas um haiku por participante para ser gravado em áudio pelo diseur Luís Gaspar.






terça-feira, março 24, 2009

Excerto do poema Tulips, Sylvia Plath

(...)
Perdi-me de mim e estou farta da minha bagagem-
Minha mala de couro aberta toda a noite como caixa de pílulas,
O marido e os filhos sorrindo no retrato de família;
Os seus sorrisos entram na minha pele, pequenos anzóis risonhos.

(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, março 23, 2009

A poesia do desespero

Via A Ovelha Perdida, o destaque para o suicídio do filho de Sylvia Plath

Now I have lost myself I am sick of baggage-
My patent leather overnight case like a black pillbox,
My husband and child smiling out of the family photo;
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

(Sylvia Plath)

domingo, março 22, 2009

sábado, março 21, 2009

Dia Mundial da Poesia

Num dia assim


Num dia assim
Iria para a rua com os bolsos
Preparados para receber as mãos
Sem destinatários da minha simpatia

Num dia assim, iria para a rua
Para estar comigo nos outros, com os dedos
Resolvidos a fazer grandes coisas

Tocar o cabelo das crianças, se isso
Não fosse pedofilia, amar
O próximo como a mim mesmo

Entrar com o jornal do dia
Um bilhete de comboio
Numa Ópera, pisar o chão de uma livraria
Onde toda a gente se acha doutorada

Num dia assim
Talvez passe por entre as esplanadas
Que estendem a primavera
Na cidade.


21-3-2009

Dia Mundial da Poesia

Iremos publicando, ao longo do dia, poemas nossos, inéditos, construídos no momento e inspirados em imagens. Eis o segundo ( escreve no Ovelha Perdida, o poeta Brissos Lino):


O cachimbo de Neruda

O cachimbo de Neruda conhece
por dentro
a voz muda que percorre
o peito do poeta
quando sente a terra e as gentes

conhece o sabor
das palavras que sabem a mar
e sofrimento
conhece até os pensamentos alados
e calmos
de quem vê para lá
das águas.

(Brissos Lino , 21/3/09)

sexta-feira, março 20, 2009

Nécrologie




Van Gogh morreu no outro dia
um tiro
em Auvers estoirou a luz
ondulante das searas, um tiro
na cabeça de Van Gogh
as asas dos corvos
espantaram o azul.




quarta-feira, março 18, 2009

jack kerouac, haikais ocidentais

quatro haikais ocidentais


A chuva pesada
afunda-se no mar
Inútil, inútil.
*

Um imenso floco
de neve
Que desce sozinho.
*

Meio-dia,
as portas da garagem
Crescem sobre os cadeados
*

Aqueles pássaros empoleirados
sobre aquela paliçada
foram todos morrer.
*

(Trad. por Anderson Fonseca)


in Revista Confraria do Vento, nº 24
ver link no título

segunda-feira, março 16, 2009

Ezra Pound na jaula

Only shadows enter my tent
As men pass between me and the sunset
Ezra Pound, Canto 80


O poeta atrás da rede
num cubo de zinco e aço
aperta os seus passos

Conta os passos
e as tiras de metal
contra o céu azul
e a lâmpada ferindo os olhos
e a noite

O poeta tira os seus papéis
do canto da penumbra
na jaula improvisada
o poeta estende em Pisa
os seus Cantos

Entram somente sombras
na sua cela, à volta a erva
cresce golpeando o vento.

2/2009

domingo, março 15, 2009

Escribir, segundo Juan Manuel Bonet

Escribir-como se nada fuera importante-
el sencillo irse de las horas
sentado en la terraza de un café
de una provincia española.
Escribir, como si estuviera escrito
que el ruido de esas tazas sobre el mármol
tuviera que pasar el arroyo claro
de unos versos.
Escribir, como si nada fuera.

(Juan Manuel Bonet)

Escrever

Escreva - como se nada fosse importante -
o simples deslizar das horas
sentado no terraço de um café
provinciano.
Escreva, como se estivesse escrito
que o ruído das chávenas sobre o mármore
passa o regato claro
de uns versos.
Escreva, como se nada fora.

(Trad. J.T.Parreira)

&&&&&&&&&&&&&&&

POEMA INÉDITO ( SALA DE LEITURA)
Aqui: http://poetasalutor2.wordpress.com/

sexta-feira, março 13, 2009

Jacob


Um anjo forçou-lhe as coxas
no ribeiro, prendeu nas mãos
num dédalo perfeito
sem saída, o corpo de Jacob

Buscavam-se os dois
olhos nos corpos
à procura de uma porta para o céu
anjo e homem, sentidos em vigília

Buscavam-se os dois
certamente em círculo
espiaram a aurora
na água que corria.

quinta-feira, março 12, 2009

A noite fez das suas

“A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos.”
(António Ramos Rosa, Poema dum funcionário cansado)

A noite fez das suas
baralhou de novo os dados
da situação
comprometeu a clareza lógica
do excesso solar
os sonhos arredondaram-me as mãos
e o rosto
a noite fez-me ver para lá
do espelho
das vaidades.

11/3/09

(Brissos Lino)

terça-feira, março 10, 2009

Waltz



“Não há muito a dizer de uma valsa”
Maria Pragana


Não há muito a dizer sobre uma valsa
e tanta coisa se liga
a um corpo dançando com o outro

Os dançarinos passeiam por campos vazios
na sua cabeça, mãos nas mãos
atirando para longe o frio

No vento
o vestido é uma chama
queimando.

8/3/2009

segunda-feira, março 09, 2009

Poeta Salutor 2

Iniciei em Word Press nova aventura na publicação de poemas inéditos, datados a partir de 2009. Também inserirei textos de crítica literária e traduções.

Ver aqui http://poetasalutor2.wordpress.com/

domingo, março 08, 2009

Os Limites

hay un espejo que me ha visto por última vez
Jorge Luis Borges

Há um espelho que não sabe
onde estará teu rosto
há a lâmpada com que feriste
pela última vez teus olhos
há a música que não tardará
a encontrar outros ouvidos
há uma última noite em que os sonhos
ficarão nas galerias, solitários
Pela última vez
há um pássaro que parte
o silêncio que há no ar
Há um dia que se fecha na morte.

1985

quinta-feira, março 05, 2009

Ambigüedad de la catástrofe: Ángel González

Lo había perdido todo:
amor, familia, bienes, esperanza.
Y se decía casi sin tristeza:
?no es hermoso, por fin, vivir sin miedo?

(Ángel González, "Nada Grave", livro póstumo, 2008)


Ele havia perdido tudo:
amor, família, haveres, esperança.
E ele disse quase sem tristeza:
não é bonito, por fim, viver sem medo?

(Trad. J.T.Parreira)

quarta-feira, março 04, 2009

O Grupo Poético de Aveiro e José Régio

Parte do GPA, sob os olhares da máquina fotográfica e do Régio. Alguns intérpretes e poetas, Rosa Maria Oliveira, Aida Viegas, Orlando Figueiredo e o editor do Poeta Salutor.

terça-feira, março 03, 2009

Mostrar o coração

I showed my heart to the doctor: he said I just have to quit.
Leonard Cohen


Abri o meu coração para o médico, gráficos
atropelando as batidas do sangue- o médico disse
que embora os exames
não mostrassem indícios
havia solidão, ele mostrou o perigo
de se ter um amor maior do que a idade
a que podemos chegar Por fim
mostrou-me como trabalha
ainda o sopro divino.

segunda-feira, março 02, 2009

The Desolate Field /Vasto e Cinzento, o céu

Vast and grey, the sky
is a simulacrum
to all but him whose days
are vast and grey and --
In the tall, dried grasses
a goat stirs with nozzle searching the ground.
My head is in the air
but who am I . . . ?
-- and my heart stops amazed
at the thought of love
vast and grey
yearning silently over me.
(William Carlos Williams)


Vasto e cinzento, o céu
é uma imagem
para todos menos para ele cujos dias
são vastos e cinzentos e –
Nas ervas altas, ressequidas
uma cabra agita-se
com o focinho procurando o chão.
Minha cabeça está no ar
mas quem sou eu...?
-- e meu coração maravilhado pára
num pensamento de amor
vasto e cinzento
saudoso em silêncio sobre mim.

(Tradução de J.T.Parreira)

sábado, fevereiro 28, 2009

Despertar precoce no campo

All wished to leave this drying crust
Robert Lowell


Desejam todos deixar esta crosta terrestre
ressequida, nas asas delicadas
como de abelha, como um dardo de mel
lançar um voo sensual
capaz de haurir o doce
infinito de uma flor.

28/2/2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Segurar um manuscrito


Minhas mãos agora adormecem
sobre a beleza
do que descrevo

parece que a morte
as quer apertar
num punho

o meu toque já foi soberano
sobre o papel, já vi o afã
do aparo frágil sobre a folha

e o rápido movimento dos olhos
apanhar as palavras
antes da queda final.

21-2-2009

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Mickey Rourke, the wrestler


Em passo angélico no ar
cair no tapete, era bom nisso
causar problemas à seriedade
de Hollywood, fazia isso naturalmente
foi estúpido dizer
que representar não era trabalho
para um homem a sério
depois de tanta pancada
a minha memória tem muito
espaço.
23/2/2009

Poesias para felídeos, para ler aqui

Do Lat. felis, gato + Gr. eîdos, forma. Com certeza porque é das poucas criaturas que reune em si a cultura greco-romana em uma só forma.

sábado, fevereiro 21, 2009

Condução perigosa

Gregory Corso, um católico tomista intenso, apesar da sua poesia beat.


Na noite passada guiei um carro

Sem conhecer como conduzir
sem possuir um carro
Eu conduzi e atropelei

pessoas que amava
... ia a 120 pela cidade.

Parei ao lado de flores silvestres
e dormi no banco de trás
... excitado com a minha nova vida.

(Trad. J.T.Parreira)


Last night I drove a car

Last night I drove a car
not knowing how to drive
not owning a car
I drove and knocked down

people I loved
...went 120 through one town.

I stopped at Hedgeville
and slept in the back seat

...excited about my new life.

(Gregory Corso)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Antologia para o fim-de-semana




Se Morrer

Se morrer num dia de chuva
cantai a chuva
Se morrer num dia de sol
cantai o sol
cantai as nuvens as estrelas
cantai cantai
Se morrer e houver luar
fazei do mundo uma planície verdejante
com estrelas penduradas nas árvores
todas as manhãs

(Orlando Jorge Figueiredo, 1996, Presidente do Grupo Poético de Aveiro)

Como destruir uma palavra gira
Free Portugal
Free Port
Freeport
Freepor
Free
F…
…ogo!
(Brissos Lino, 19/2/09)

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Camilo Pessanha

Quem quebrou
a sua mesa de pinho, tosca
e a rasgou
como se fosse um lençol de linho?
Quem arruinou os altos
girassóis
quem os partiu
hastes de um sol exíguo?
Quem dissolveu a neve
no sangue acidulado do seu vinho
e apagou depois
a brancura do caminho?
Quem passeava a sombra
nas janelas, o frio
que no vento começou
quando o lume se extinguiu?

5-2-2008

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Aproximadamente, solidão

Edward Hopper, Stairway at 48, rue de Lille, Paris, 1906

Tudo o que é
ela própria
aqui está, a casa
com suas luzes
e problemas, os velhos
hábitos
a subirem pelas escadas

A hesitante solidão
a partir da noite
Tudo o que é
ela própria
um cubo de cimento, quartos
onde se sonha
num espaço angustiado.

13/2/2009

sábado, fevereiro 14, 2009

O cão de Giacometti

Sou eu. Um dia me vi na rua assim. Um cão.
Alberto Giacometti


O cão da melancolia
procura qualquer coisa, põe o faro
paciente no chão
pescoço longo em baixo como uma tristeza
para pendurar as orelhas

O cão de Giacometti vê
as coisas
de barriga para baixo

O cão cabisbaixo, indiferente
a alegorias
flutua na arquitrave
dos seus ossos

O corpo leva as patas joviais.
14/2/2009

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Diário dos ladrões do Templo


No templo Ele encontrou os homens vendendo
bois, ovelhas e lágrimas
e o brilho súbito
das pombas
aqueles que trocavam perdão
à cotação do dia.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Receita para fazer um soneto

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
E espere um instante ocasional
Neste curto intervalo Deus prepara
E lhe oferta a palavra inicial

Aí, adote uma atitude avara
Se você preferir a cor local
Não use mais que o sol da sua cara
E um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
Das lembranças da infância, e não se apresse
Antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
Dentro da escuridão a vã certeza
Ponha tudo de lado - e então comece.

(Carlos Pena Filho)

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A Visita


Trazia o corpo
arrastado nos sapatos
gastos, com uma história
de buracos negros sucessivos

Os seus silêncios
eram de incenso, o cheiro divino
do lume

e as suas mãos tinham dedos infrangíveis
para tocar as notas da chuva
que bate nos vidros

Trazia os olhos naturais
neles não havia fundo, vogavam
apenas como se espalhassem um perfume.

9/2/2009

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Haiku

o vento insurrecto
rodopia nas pessoas
quebram-se vaidades.


(Helena F.Monteiro)

in Resist(ir) Assim, Poesia a Doze, Editorial Minerva, 2000

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Assuntos de Família

Gunther Grass, escritor, Nobel da Literatura, enquanto poeta aderiu na década de 40 ao Movimento Expressionista, também andou pelas tertúlias do surrealismo. Depois afastou-se. No entanto, existe um poema que exprime bem ambos os movimentos, sobretudo o Expressionismo. É também um autêntico libelo contra o Aborto. No original, o poema denomina-se Familiär:
No nosso museu - vamos todos os domingos-,
inauguraram uma nova secção.
Nossos filhos abortados, embriões pálidos e sérios,
encolhidos em redomas de cristal,
preocupados com o futuro dos seus pais.
(Trad. do alemão e espanhol, por J.T.Parreira)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Tempo lento

Fotografia in Rua dos Dias que Voam


Cresci
numa cidade no tempo
em que os homens eram usados
para entregar leite
e pão,

como família
batiam às portas,

alguns cavalos
num bailado equestre
cuidavam da logística
estrumavam as ruas e ninguém
reciclava o vidro, não havia
plástico para sobreviver
ao homem,

as frutas triunfavam
dos cinzentos sacos de papel
nada era eterno
mas quase perfeito
nada
estava perdido.

1/2/2009